Mesmo num ano de pandemia, que travou lançamento de discos e singles — atrasando e adiando uns quantos —, a música portuguesa foi em 2020 o que tinha sido em anos anteriores: diversa, original e rica em quantidade e qualidade de canções e discos.

Se fizemos uma seleção de canções internacionais, quisemos fazer também uma lista com 35 cantigas de diferentes músicos nacionais que não nos saíram do ouvido — não os pudemos ver onde queríamos, como queríamos e quando queríamos ao vivo, mas ecoaram entre as nossas paredes durante estes 12 meses.

A opção foi pela canção com palavra, pela música popular não erudita (clássica) nem jazzística ou instrumental, o que afastou alguns dos bons autores de 2020, como a banda Yakuza, a produtora de música de dança Nídia, o acordeonista de jazz João Barradas, o saxofonista Cabrita ou o baterista João Pais Filipe. São 35 canções que mostram que a música portuguesa está com boa saúde e recomenda-se e que hoje se espraia por vários géneros, se divide em muitos modos de expressão, tantos e tantos deles com interesse.

Ace – Doce Conversa

Tudo nesta canção, incluída numa compilação de temas originais intitulada “Sinceramente Porto” que mostra a velha e a nova escola do hip-hop portuense, é merecedora dos mais rasgados elogios. Os primeiros sons que se ouvem parecem de um isqueiro a acender e de uma longa baforada, como se Ace (ex-Mind da Gap) nos dissesse: deixem lá a pressa, agora vem a calma e a reflexão. E as rimas, a assumir sombras que parecem arredadas de algum hip-hop celebratório, são de um mestre: “Paraliso neste pânico, apago-me, fico baço / Minha casa é o teu abraço sou teu inquilino / A depressão aqui ao lado dela sou vizinho“.

Amaura – Saber Quem Sou

Não se têm visto em Portugal muitos exemplos de cantoras de soul modernas, de uma soul com laivos eletrónicos e que se mistura já não com o gospel e o blues mas com as batidas do hip-hop e do jazz melódico: aquilo a que chamamos, também, de novo rhythm and blues (R&B). Amaura, de 27 anos, parece encaminhar-se para se afirmar nesse campeonato. Em 2019 tinha lançado um conjunto alargado de temas na mixtape EmContraste, este ano lançou o EP Denso e esta “Saber Quem Sou” apresenta-a com pinta, a cantar sobre descobrir-se e ainda abrindo espaço a rimas de TNT. Há aqui um apuramento do formato canção em Amaura, com bastante espaço deixado à instrumentação e à música a que a palavra se soma. O que virá ainda não se percebeu — pode vir um disco, há relatos de um projeto colaborativo com Sam the Kid — mas a canção deixa antever um 2021 em grande para Amaura.

André Henriques – Tecido Não Tecido

Além de uma pandemia, 2020 trouxe consigo a estreia a solo de André Henriques, guitarrista e vocalista dos Linda Martini, autor que já cedera letras e melodias a outros intérpretes. O novo disco Cajarana está pejado de histórias bem contadas, num tom sempre nervoso (ele chama-lhe malignidade) que marca as canções. Mas a mais interessante não foi ‘single’: “Tecido Não Tecido” é a vida doméstica a tornar-se matéria do pop-rock. O uso de um material que se pode comprar por exemplo na farmácia, que só é tecido ilusoriamente, serve para André Henriques falar da paternidade (a sua) e cantar-nos, logo no arranque, “uma casa, um amor, um T2, duas máquinas de lavar, dois biberons, muitas papas depois”. A canção agiganta-se no final, tornando-se ainda mais poderosa.

B Fachada – Trad-Mosh

B Fachada está de volta. Voltou com um disco elogiado por meio mundo, uma súmula nova em 15 canções de um percurso longo e marcante na música portuguesa independente. Podia estar aqui “Namorada”, podia estar “Lambe-Cus”, podia estar “Regabofe d’abertura” ou “A Mula e a Raposa” mas está “Trad-Mosh”, com a viola braguesa a marcar o ritmo, os sintetizadores a desgovernarem e drogarem a canção e a fazerem desta uma música de boa festa rija popular. “É nisto que o papá é boss”, canta B Fachada, para no fim rematar com “Já perdi o jeito / o papá não está assim tão boss”. Não é verdade, não se deixem enganar.

Benjamim – Vias De Extinção

Ao longo da nova encarnação de Luís Nunes como Benjamim (foi-se o alter-ego Walter Benjamin e foram-se as canções em inglês) é nítida a procura constante da reinvenção. Depois de um disco mais de cantautor, música mais ancorada na guitarra (ainda que com as teclas sempre presentes), mais interior do que urbana, mais contemplativa do que acelerada, decidiu fazer a seguir um disco a meias com um rapaz inglês desconhecido em Portugal — e agora, em 2020, lança um álbum pejado de ritmos eletrónicos, de boémia mas sobretudo de ressaca, de lusco-fusco entre o fim de noite e o início da manhã. O disco, a estreia de Benjamim numa editora major, teve como um dos singles (e tema título) uma canção com quase seis minutos. Em “Vias de Extinção”, ouvimos Benjamim entre piano e sintetizador a recordar a resposta possível a um desgosto de amor: o “fazer metade da cidade”, o passar “uns dias ressacado”, o “ficar à procura de salvação”, o não esquecer “que o apego é melhor do que a solidão”, o mudar “a cama para outro lugar”. A construção da música é impressionante: ficamos sem saber bem o que é o refrão, a narrativa melódica e musical, sendo longa, nunca é monótona e a letra revela uma caneta precisa.  Aproveitem e vejam esta versão ao vivo de “Dá-me Lume”, de Benjamim e Jorge Palma.

Branko, Ana Moura, Conan Osiris – Vinte Vinte

Quando Branko desvendou esta canção “Vinte Vinte”, a 3 de janeiro, parecia que 2020 ia ser um ano como os outros. Na caixa de comentários do Youtube, um rapaz escrevia: “Se 2020 for como esta música… Seremos pessoas muito felizes!” Não foi, não fomos. Mas seria uma pena esquecer uma canção que consegue juntar duas ou três canções diferentes em si mesma, sem deixar de soar coerente do começo ao fim. Conseguir criar uma toada levemente dançante (a percussão a destacar-se) enquanto Ana Moura vai cantando com emoção, com voz de travo afadistado, é um feito; pôr Conan Osiris num dos seus melhores momentos já gravados também merece elogio; e os bocados instrumentais, sem voz, mostram uma capacidade exímia de Branko em saber ler o que uma canção pede a cada momento, em saber ler os caminhos que as vozes podem pedir. Em podendo, só não repitam a dose, não vá 2021 inventar uma nova pademia qualquer.

Capicua – Mátria

O disco lançado em janeiro por Capicua, Madrepérola, é um disco de singles — e isto nada tem de depreciativo. Cada canção, mais próxima ou menos próxima da essência (instrumentação) rap tradicional, é tão bem feita, percebe-se que demorou tanto tempo a ficar assim, que qualquer uma poderia ser single. Não é muito fácil escolher uma, mas “Mátria” faz mais pela promoção da cultura portuguesa no Brasil e vice-versa do que muitas campanhas diplomáticas. É muito difícil não abanar o esqueleto a ouvir estas batidas de Pedro e Branko, enquanto Capicua vai desfilando rimas com o jeito do costume, a moldar palavras e sons como só ela sabe. Ora reparem: “Sou mais eu, sonho meu é enterrar o machismo num museu”, “E se isso é ser diverso, p’ra ser do verso há que ser livre / E quando tudo é adverso, eu faço o inverso p’ra que equilibre”. Junta-se um refrão que se aloja no ouvido, os brasileiros Emicida e Rincon Sapiência a puxarem dos galões para não ficarem atrás nas rimas e temos uma das canções do ano.

Chico da Tina – Ronaldo

No ano de 2019, a música portuguesa viu aparecer uma daquelas personagens caricatas e difíceis de classificar: Chico da Tina, Francisco da Concertina, uma Minho Trapstar (assim se intitulou num disco e numa canção) que pega na fórmula da música trap (um subgénero do hip-hop) e se apresenta como um mauzão cheio de conquistas e colares de ouro mas que depois rima sobre não enviar o NIB, sobre fazer alheira e manjar uma cabidela, sobre as Feiras Novas de Ponte de Lima, sobre vinho verde tinto e a Senhora do Socorro. Mas também sobre suecadas, pijamas da Louis Vuitton, rissóis de leitão, concelho de Monção e bagaço frio com mel. Se isto é sátira, aproveitamento da onda do trap para a surfar ou cromice é difícil dizer, é possível que seja um bocadinho de tudo. O formato pode cansar os ouvintes com o tempo, mas há algo de diferente e cómico nesta música de quem se vangloria dos Ferraris aqui cantada por quem alude ao Portugal do fato de macaco, da oficina do mecânico e do Alto Minho. Este ano, Chico da Tina lançou vários temas mas este “Ronaldo” é talvez o mais engenhoso. Uma canção de trap que começa com alguém a dizer que “há quase um ano (…) vivia com o Fredo não tinha trabalho, mas ele trabalhava ganhava salário” numa batida digna de um manda-chuva intriga logo, mas depois ouvimos isto e é difícil não rir:

Já era referência no meu infantário
fui tornado rei no ensino primário
uma altura intimidei um funcionário
tranquei-lhe na sala, furtei-lhe dois euros
pa’ poder juntar para o novo Super Mário.

Clã – Sinais

A canção do Clã que aqui queria destacar era outra: “Tudo No Amor”, absolutamente perfeita do acorde inicial ao acorde final (culpa da voz de Manuela Azevedo, da letra de Sérgio Godinho e da melodia tão bem tocada pelos Clã). Mas tecnicamente, “Tudo No Amor” é uma canção de 2019 — foi incluída no álbum Véspera, de 2020, mas chegou como single a 29 de novembro do ano a.C. (antes da Covid). Não faz mal, ficamos com esta “Sinais” (também podíamos ficar com “Tempo-Espaço” ou “Armário”), com letra de Samuel Úria e música de Hélder Gonçalves, com uma tensão pop-rock que fica muito bem a um ano pandémico, com um “este é o princípio do fim / é o começo do fim” premonitório e tão bem cantado pela melhor vocalista de banda pop-rock que este país já viu. Classe e bom gosto inatacáveis.

Cristina Branco – Delicadeza

Outra das grandes cantigas deste 2020 foi gravada por Cristina Branco, para o seu disco Eva — que inclui mais umas quantas grandes canções, de “Quando Eu Quiser” e à balada “Leva”. Mas há alguma coisa de especial nesta “Delicadeza”, que Francisca Cortesão (Minta & The Brook Trouts, They’re Heading West) compôs e entregou a Cristina Branco e à sua (excelente) banda, encarregues de a tocar, cantar e gravar à sua maneira. A letra é um espanto, sobre uma mulher farta que lhe digam para ser uma senhora, que chega a uma idade em que já teve perdas e derrotas e vitórias suficientes na vida para não ter sequer de tentar parecer o que não é (“qual é a idade em que já não se quer saber / cheguei lá sem me aperceber”). Uma mulher que não é nem de ferro nem de fraca constituição. Escrever assim — com conteúdo mas com palavras e rimas que soam bem, melodica e musicalmente bem — é um dom raro e Francisca Cortesão já o mostrara em “Anda Estragar-me os Planos”, outra belíssima cantiga.

David Bruno – Festa da Espuma

A letra é simples, são quatro engenhosos versos que ficarão gravados na história da boa música satírica e humorística nacional: “É a festa da espuma, tu nem convides / estou equipado com licra da Cofides / topo o teu body Lacatoni no escuro / dança comigo Hélder o Rei do Kuduro”. Nesta canção, a batida dançante, o sintetizador oleoso e os versos de David Bruno a lembrar essa grande moda da noite nacional (e das discotecas nacionais) dos anos 2000, encaixam como uma luva entre si. David Bruno continua a cantar sobre o Portugal interior, rural e dos seus tempos de mocidade da mesma forma que Bruno Nogueira, Manuela Clã e restante comitiva abordam as canções pimba: rindo-se com elas, não se rindo altivamente delas.

Dino D’Santiago e Julinho KSD – Kriolu

No disco que editou este ano, Kriola, Dino D’Santiago continua a descobrir um equilíbrio novo e belo na mistura da tradição rítmica cabo-verdiana com as batidas eletrónicas e dançantes de Lisboa e das suas periferias — mas adiciona-lhe um ingrediente novo, o flirt com o rap (que ele conhece e do qual está próximo há muitos anos) nacional. A faixa “Nhôs Obi”, com o rapper Vado MKA, é um dos melhores temas do disco mas esta “Kriolu” destaca-se, por juntá-lo ao novo rei da música popular crioula Julinho KSD (que logrou o impressionante feito de, cantando em boa parte em crioulo, apelar ao ouvido de uma massa gigante de gente que não percebe bem o que ele diz). Neste tema de funaná eletrónico, é o rapaz que gravou êxitos como “Vivi Good” e “Hoji N’ka ta Rola” que traz a arruaça, enquanto Dino D’Santiago traz o canto emotivo e a visão aglutinadora e de harmonia social: “branco ku pretu um gerason di oru“.

Evols – Cops

No campeonato do indie-rock que se inspira nas fórmulas internacionais e as aplica bem em Portugal, poucos farão música como os Evols, banda fundada já há 12 anos e que se tornou entretanto um quinteto (a Carlos Lobo, França Gomes e Vítor Santos, fundadores, juntaram-se entretanto Rafael Ferreira e Jorge Queijo). O grupo de rock alternativo, inspirado no rock americano dos anos 70 e 90 mas também nas tendências rock recentes da costa Oeste dos EUA, lançou este ano o álbum III, uma bela coleção de canções para os fãs de música elétrica e de guitarras. Do disco faz parte esta “Cops”, garantidamente uma das melhores cantigas nacionais de rock alternativo do ano. Foi uma pena os Evols não terem podido apresentar as canções em concertos pelo país, mas vamos querer ouvi-los em 2021.

Filipe Sambado – Mais Uma

Revezo, disco que Filipe Sambado editou este ano, é a afirmação em definitiva do seu talento: o momento em que descola das boas canções com uma fórmula mais reconhecível e internacional — com a guitarra a comandar, a indie-folk e o indie-rock a servirem de inspiração — e em que começa a situar a sua pop aqui, neste recanto à beira-mar plantado. Vendo o que Rosalía fez com o flamenco em Espanha, Filipe Sambado pensou em fazer o mesmo com a música popular portuguesa: a de Fausto, Zeca Afonso e outros cantautores. As canções continuam a ser boas, mas agora são mais daqui e de agora, têm letras mais trabalhadas e são também mais originais, mais suas e só suas, menos traduções com cunho próprio e mais criações próprias (quase) de raiz. Há várias canções boas no disco, como “É Tão Bom”, “Gerbera Amarela do Sul” (que levou ao Festival da Canção), “Paçoquinha pra Novela”, “No Leito”, o single “Jóia da Rotina”” e “Bitola”. Mas esta “Mais Uma”, que não foi single, tem uma força clássica muito forte, um ritmo tradicional que de repente soa pop e uma flauta que fica no ouvido.

Holly Hood, Gson – Some

Quando se juntam dois dos maiores malabaristas de rimas nacionais numa faixa, acontece isto. A junção de Holly Hood e Gson no mesmo tema fez as delícias da miudagem. A batida é de Holly Hood, que além de rapper é produtor, mas os add’s — sons que se acrescentam ao beat, como aquele whooop que se ouve — foram introduzidos por Here’s Johnny, espécie de Midas que transforma canções em hits de rap nacional. Aqui a letra torna-se secundária — é os jogos de palavras, do som das palavras, e a velocidade estonteante a que são rimadas que captam a atenção.

Johnny Virtus – Bai Lá

Também incluída na compilação Sinceramente, Porto — tal como o tema de Ace, já referido —, esta “Bai Lá” satisfaz-nos o ouvido desejoso de bom hip-hop. Johnny Virtus é um rapper do Porto que em 2012 editou um álbum, chamado UniVersos, que esteve longe de o tornar uma estrela mas que recebeu e tem vindo a receber com o tempo elogios pela qualidade das rimas e pelo classicismo e pelo bom gosto dos instrumentais. A batida aqui, tal como em todos os outros temas da compilação, é da autoria do portuense Keso e quanto a isso não é preciso acrescentar mais. Mais do que um tema de egotrip, a reclamar as suas imensas qualidades, este é um tema de ataque a um “tu” que se torna um sacado de pancadas das rimas. A diferença para outros artistas que fazem este tipo de coisa é que Virtus sabe fazê-la melhor, de forma mais adulta e mais inteligente, menos pueril e básica.

Julinho KSD – Mama Ta Xinti

Só este ano, Julinho KSD entrou em colaborações — com Dino D’Santiago mas também com Fumaxa e Richie Campbell — e lançou singles como “Conclusão” e “Mama Xinti”, sucessos estrondosos, e a terminar o ano “Podi Dan”. Nenhuma delas é tão viciante quanto “Hoji N’ka Ta Rola”, uma das cantigas que Julinho KSD desvendeu em 2019 e que o tornaram nesse ano uma nova estrela na música portuguesa (em parte por culpa do sucesso de “Vivi Good”), mas esta “Mama Ta Xinti” tem ambição e o clássico exibicionismo de quem se está finalmente a dar bem na vida depois de muito ter sofrido, mas também tem emoção, uma batida incrível e a confirmação de que o crioulo é pop.

Júlio Resende, Lina – Profecia

O ano não viu nascer uma nova estrela nacional do fado — o que sugere uma série de coisas, desde logo uma espécie de acalmia no renovado entusiasmo dos portugueses pelo fado — mas viu “nascer” uma grande fadista, cujo fado não será talvez tao pop mas que merece toda a atenção: Lina Rodrigues. Com um percurso anterior mais ancorado nas casas de fados, Lina lançou um álbum em 2020 com o produtor catalão Raul Refree e cantou esta “Profecia”, uma linda canção de fado ajazzado incluída no disco Júlio Resende Fado Jazz Ensemble. Além da melodia, também a letra — ou como se diz habitualmente no fado o poema — é da autoria do próprio pianista português, Júlio Resende.

Lina, Raul Refree – Medo

O cosmos tem destas coisas: em 2020, Lina cantou “Profecia”, uma canção afadistada composta e escrita por Júlio Resende; mas cantou também “Medo”, um tema eternizado por Amália que por sinal Júlio Resende tocara e gravara também há uns anos. Fê-lo sem o pianista, mas na companhia de Raul Refree — produtor musical que trabalhara há uns anos com a cantora espanhola Sílvia Pérez Cruz, com quem Resende também tocara. Se já está confuso e com um nó no cérebro, vamos desatá-lo: em 2020, Lina editou um álbum gravado com Raul Refree, um dos produtores de som mais destacados de Espanha e um músico que tem trabalhado com Rosalía, com Lee Ranaldo, com Luísa Sobral. O disco continha fados cantados por Amália, mais ou menos ‘clássicos’, trocando-lhes os habituais acompanhamentos de guitarra e viola por teclados, sintetizadores vários e pianos. É um grande disco e esta “Medo”, um magnífico tema cantado por Amália (que, como dizíamos, já inspirou grandes versões), é exemplificativa da magia que Lina e Refree descobriram neste fado Amaliano revisitado e redecorado.

Monday – Convictions

Catarina Falcão, cantora do duo feminino e familiar (faz parte também a sua irmã, Margarida Falcão) Golden Slumbers, está ainda à procura da sua identidade musical a sonora mas vai dando passos interessantes. Apontada em 2018 como uma das revelações da música nacional pelo seu álbum, nitidamente promissor, One, editou este ano o mini-álbum (EP) Room For All. Aqui e ali ainda algo colado a referências internacionais (os primeiros segundos de “I’m sleepy”, por exemplo, soam muito a Lana Del Rey), o EP tem algumas canções que adoçam o ouvido, como “Little Fish”, lançada como single ainda em 2019, e esta “Convictions”, uma daquelas canções que certamente muitos artistas consolidados gostariam de ter escrito. Em 2021 é provável que chegue um álbum novo de Golden Slumbers, sucessor de The New Messiah, de 2016.

Moullinex – Ven

As discotecas fecharam em março para nunca mais abrir, bares com música para dançar fora de horas nem vê-los e vontade de ouvir música boémia em casa pode não ter sido muita em 2020. Mas Moullinex nunca se recusa. O músico, DJ e produtor de eletrónica que tem como nome de batismo Luís Clara Gomes lançou este ano dois singles: um primeiro, “Running in the Dark”, muito recomendável, que chegou até acompanhado de videoclip, que teve a participação de GPU Panic e que se situava no formato da boa pop eletrónica (até pela mais curta duração); e esta “Ven”, um bombom mais longo e viciante de batidas dançantes e uma voz dengosa e sussurrante que pertence à dominicana (residente nos EUA) Ekstra Bonus. Ouvimos os sintetizadores a comandar a canção, com as camadas eletrónicas pensadas detalhe a detalhe, evoluindo sempre bem, ouvimos Ekstra cantar “embalarte” e “ven y siente este calor” e apetece-nos mergulhar neste caleidoscópico quente e noturno. O tema, tal como o anterior “Running in the Dark”, fará parte do próximo álbum de Moullinex, sucessor de Hypersex (2017), previsto para 2021 e que será misturado por David Wrench, antigo colaborador de Caribou, Frank Ocean ou The XX.

Nenny x i.M. – +351 (call me)

Estávamos ainda em janeiro quando Nenny desvendava, no Youtube, esta canção. Imaginamos que para uma adolescente não seja fácil lidar com a pressão de fazer música, depois de canções suas como “Bússola” e “Sushi” se terem tornado êxitos pop gigantes, depois de Nenny se afirmar como uma revelação nacional de quem se espera muito. A jovem portuguesa que vive no Luxemburgo lançou um EP em 2020, Aura, no qual agrupou canções antigas e as misturou com temas novos. É na mistura de rap com soul eletrónica, nesta espécie de R&B às vezes trapizado e acelerado, outras melódico e emotivo, que Nenny se sente bem. Esta é uma grande cantiga, que mistura português com inglês, uma emoção e introspeção (“sente a guitarra a chorar por mim”) a dividir protagonismo com batidas dançantes, dancehall com groove e muita pinta. A juventude está bem e recomenda-se.

Nerve, Ghost Wavves – Mínimo

“Vai ser um ano em pêras”, dizia (ironizava?) Nerve em “Mínimo”, uma canção gravada com produção instrumental de “Ghost Wavves” em que o rapper, diseur, promotor de sessões de spoken-word e poesia mostra todo o seu talento para as picardias e rimas acintosas. Como rappa a dada altura, “uns são melhores com números, outros são melhores com letras”.

Noiserv – Eram 27 Metros de Salto

Antigamente era em inglês, agora é em português. Este ano, o músico e cantor português David Santos, conhecido na música pelo nome artístico Noiserv, lançou Uma Palavra Começada por N. O disco, que sucede ao maioritariamente instrumental 00:00:00:00, de 2016, é o momento em que Noiserv reforça a experiência anterior de escrever alguns temas, episodicamente, em português — ele que sempre escreveu canções em língua inglesa — e assume a escrita de um disco na íntegra em língua portuguesa. Há outras canções a reter no álbum, como “Neutro”, mas é esta “Eram 27 Metros de Salto” que mostra como nenhuma outra o talento de David Santos para construir canções peça a peça, som a som, verso a verso, poema a poema, camada a camada.

Pedro, Pedro Mafama – Terra Treme

Talvez pudesse estar antes aqui “Too Much”, viciante canção que o produtor Pedro, ex-Kking Kong, fez a quatro mãos com o rapper e cantor nigeriano residente no Reino Unido Magugu — não fosse o tema ter saído ainda em 2019, embora tenha sido depois incluído no disco que Pedro editou em 2020, Da Linha. Assim, está antes “Terra Treme”, que também integrou o disco, que só foi desvendada este ano e que mostra a colaboração do produtor de batidas afro-dançantes com Pedro Mafama, cantor que usa e abusa do autotune para a sua soul eletrónica e R&B arrastado com travo afadistado da Mouraria e de Alfama. É uma declaração de amor despachada entre batidas de fim de noite, como Pedro tão bem as faz.

Primeira Dama – Desilusão

Primeira Dama, músico e cantor português e lisboeta que no cartão de cidadão se apresenta como Manuel Lourenço, editou em setembro deste ano o seu álbum Superstar Desilusão, disco em que se aproxima do nervo e eletricidade do rock. Esta “Desilusão”, single do disco, é uma cantiga de pêlo na venta, de bom rock alternativo, em que ouvimos “estou a arder” e assentimos, percebemos na perfeição.

Rita Vian – Purga

Ouviu-se pela primeira vez com alguma notoriedade em “Carmen”, um dos melhores temas do rapper e cantor português Mike El Nite, incluído no seu mais recnete álbum (de 2018) Inter-Missão. Já a tínhamos ouvido, embora sem nome próprio em destaque, na banda Beautify Junkyards. Ouvimo-la agora a solo e isso deixa-nos água na boca. Rita Vian, uma voz distante do fado tradicional mas claramente afadistada, mais acelerada mas com um sentimento que nos remeta para a portugalidade. Em novembro, Rita Vian revelou “Purga”, uma canção em que às vezes canta com batidas eletrónicas como se estivesse atrasada para apanhar um comboio, dando um tom de afirmação e de futurismo à canção que a tornam único. Rita Vian está a descobrir o futuro — descubramo-lo com ela.

Russa, Surma, Luar – Skrape

Pouca gente ouviu “Skrape”, mas as listas de fins de ano também servem para dar a conhecer pérolas obscuras que não tiveram eco ao longo do ano. O tema junta a rapper Russa, promessa do hip-hop nacional que aqui mostra os dotes da sua caneta, à vanguardista compositora, instrumentista e cantora Russa e ao seu produtor habitual de música, Luar. O resultado é uma daquelas canções sem género ou estética facilmente identificável, que vai de um rap com refrão, algo misterioso e poético, a spoken-word e à exploração eletrónica e vocal a que Surma habituou os ouvintes, mas aqui misturada com uma batida próxima de um hip-hop esquizóide. Em resumo: ótimo.

Samuel Úria – A Contenção

Samuel Úria, grande bardo de Tondela, escritor de canções de alma lusitana e sonhos americanos, crescido na tradição do gospel, do blues, da soul, da folk, continua a deliciar-nos com métaforas, com parábolas musicais, com a boa manipulação dos sentidos das palavras para fins musicais. O disco que editou este ano, Canções do Pós-Guerra, é mais um que parece indiciar uma maldição qualquer com os discos recentes de Samuel Úria, que nunca parecem chegar ao que o seu talento, inteligência e capacidade de composição faziam crer: Carga de Ombro (2016) e este novo trabalho têm boas canções, é certo, mas são menos eficazes nas suas fórmulas musicais do que O Grande Medo Do Pequeno Mundo o era na sua admirável depuração e contenção e do que Nem Lhe Tocava o era na sua completude, repleto de grandes canções. Nos últimos anos é, na verdade, num EP, ou mini-álbum (Marcha Atroz, de 2018), que encontramos as grandes canções de Samuel Úria e a coleção de canções mais homogénea e menos desigual. Mas neste novo Canções do Pós-Guerra há, claro, boas canções, dignas do talento do bardo tondelense-lisboeta. Esta “A Contenção” é talvez a mais original e a mais engraçada, naquele andamento rápido, versos cantados como quem está a comemorar a manutenção de Petit na Primeira Liga do futebol nacional.

Selma Uamusse – No Guns

Selma Uamusse, vozeirão da soul nacional, artista com meio pé na gospel e pé e meio na sua visão da tradição de ritmos e música de Moçambique, lançou em 2020 uma canção pacifista, anti-armas, anti-guerra, que incluiu no disco Liwoningo. Com participação do instrumentista nascido na Gâmbia, residente em Lisboa, Mbye Ebrima, e do cantor e músico moçambicano Cheny Wa Gune (nas vozes), o tema não é portentoso apenas pelo teor humanitário — é-o pelo arranjo (a kora, a guitarra, o sintetizador, o bateria, o baixo), pela tensão instrumental que se ouve quando Selma Uamusse se dirige ao “senhor Presidente, senhor ministro, senhor Governador, querido CEO, administrador” e lhes diz “não às armas, às leis, às mentiras usadas para matar o vosso povo”. A parte final da canção, em que Selma Uamusse abandona o inglês e usa um dialecto de Moçambique, é fantástico. O momento em que se passa a ouvir só o dedilhado de cordas e a voz de Cheny Wa Gune é outro momento único, de uma canção que como as restantes do disco foi produzida por Guilherme Kastrup, braço direito de Elza Soares no disco A Mulher do Fim do Mundo.

Sérgio Godinho – O Novo Normal

“O Novo Normal”, de Sérgio Godinho, é a arte a reagir ao mundo, a comentar e posicionar-se sobre o exterior, a pontuar os tempos com um registo que ficará para a posteridade. Godinho, que não destrataremos sequer apresentando-o ou citando os créditos de décadas de grande produção musical e lírica, pegou na caneta e escreveu uma canção sobre a pandemia da Covid-19, o confinamento e este “novo normal” que não é nada normal. A música foi feita sobretudo por Sérgio Godinho e Nuno Rafael (seu parceiro próximo há bastantes anos), mas teve até o contributo de Samuel Úria, tendo sido gravada por Godinho, Nuno Rafael (guitarras acústica e elétrica e coros), Miguel Fevereiro (guitarra acústica e coros), João Cardoso (piano, órgãos, coros), Sérgio Nascimento (bateria, percussão, coros) e Nuno Espírito Santo (baixo elétrico). A letra é Godinho puro, a retratar o mundo e o país que observa com incisão, a desejar que tudo isto não passasse “de um pesadelo fugaz”, a notar que é preciso “escolher bem as audácias”, refrear as ânsias “de beijos e abraços”. “O Novo Normal” é 2020 como ano de morte: “No novo normal / caem corpos à sorte / em valas comuns num silêncio de morte”. Mas 2020 é também ano de grandes canções, como esta, que nos traz de volta o bom velho mestre da canção portuguesa.

Slow J – Nada a Esconder

Na ponta final do ano, Slow J, rapper, cantor e revelação recente do hip-hop e da música portuguesa, ainda editou um álbum de instrumentais. Mas este 2020 era, em condições normais, um ano sobretudo para concertos e para singles pontuais, depois de um álbum editado no ano passado (You Are Forgiven), que sucedeu ao grande disco de afirmação The Art of Slowing Down (de 2017). A pandemia trocou as voltas mas inspirou música, como o tema “Bem Vindo a Casa”. Mais recentemente saiu “Nada a Esconder”, movida a som de guitarra portuguesa, a intimidade e emoção até Slow J entrar em modo “rimas”, confissões (“tudo o que ainda nem sei”), até uma toada de apaziguamento e acalmia se instalar. A produção musical é única: sabemos que dificilmente ouviríamos esta toada rítmica de outro artista. E é bom ver Slow J procurar e encontrar registos novos para a sua voz, para as suas palavras, para o seu modo de expressão.

Time For T, Club Del Río – Fire On The Mountain

Finjamos por três minutos e meio que não estamos num ano pandémico, que este é um ano feliz, ou pelo menos um ano como qualquer outro. É o que acontece quando pomos a tocar “Fire On The Mountain” e de repente estamos numa praia de Lagos com uma garrafa de vinho branco na mão, a rir sobre coisas sérias e sobre o que aqui se canta (“there’s fire on the mountain / while the tourists take selfies on the beach”, “hashtag first world problems”, “I’m so tired of the way things are”), a ouvir esta canção que se espreguiça como um dia de sol, interminável. O tema é da autoria dos Time For T, banda do português Tiago Saga mas também com membros de outras nacionalidades. Foi incluído num mini-álbum (EP) que Tiago compôs em Lagos, durante o confinamento, recorrendo à ajuda e colaboração de amigos e colegas de banda que estavam confinados noutros pontos do mundo. Tudo nesta canção, incluindo os versos em espanhol dos madrilenos Club Del Río, é uma delícia de fim de verão, uma espécie de polaroide mental dos últimos tempos quando se gastam já os últimos cartuchos de liberdade, que este ano foi literal (dado o apertar de medidas de contenção da pandemia no outono). Acresce que Tiago Saga escreve ótimas letras, cheias de ironia e graça (oiça-se por exemplo “Qualquer Coisa”, uma das duas canções em português do EP).

Tristany – Mark Landerz

Não fossemos precisos com datas e estaria aqui “Rapepaz”, canção que não é deste ano — foi revelada no Youtube já em 2018 — mas que integrou o disco Meia Riba Kalxa (que Tristany editou em 2020) e que teve finalmente a atenção há muito justificada por aquilo que é: uma das grandes cantigas da música portuguesa nos anos recentes. Felizmente também temos canções novas, inéditas, que só se desvendaram em 2020 como esta “Mark Landerz”, que começa com sopro jazzístico, que evolui como música de câmara-sinfónica, até entrar uma batida grave (é incrível a capacidade de Tristany dar guinadas nas canções e fazê-las soar bem à mesma), até começarmos a ouvirmos rimas impressionantes nesta espécie de hip-hop alucinado, asfixiado, labiríntico, cheio de sons e barulhos e vida. Original em absoluto, realmente novo, sem ser mera tradução de fórmulas musicais internacionais.

Xinobi, Vaarwell – Fire

A editora Discotexas, uma das pontas-de-lança da música de dança nacional — a par de selos como a Príncipe Discos, a Enchufada ou a Percebes —, prepara-se para um 2021 em grande: Moullinex terá garantidamente um álbum novo e é provável que Xinobi também o tenha. O músico, DJ e produtor português que em 2017 editou o álbum On The Quiet lançou no ano passado um single impressionante, “Fado Para Esta Noite”, com a fadista e cantora Gisela João, e este ano fartou-se de lançar temas novos, remisturas (a de “Bielzinho / Bielzinho”, da banda brasileira O Terno, era um tema ouvido há muito nas pistas que chegou às plataformas digitais a tempo de salvar o verão de uns quantos) e arrumar a casa, com a compilação A Collection of Xinobi Dance Songs. Um dos temas novos que Xinobi desvendou em 2020 foi esta “Fire”, canção dançante que gravou com a participação dos Vaarwell da vocalista Margarida Falcão, que já dera voz ao single “Far Away Place” (2017) e que em 2020 decidiu dar-nos a todos saudades das pistas de dança.

Menções honrosas: “The Spirit of the Blues” (Mancines), “EQlibrio” (X-Tense), “Fogo Fera” (Vaiapraia), “Futre” (Regula), “22:22” (Marta Ren), “Contigo É Pra Perder” (Rita Redshoes, Camané), “Calor” (Glockenwise, Rui Reininho), “Sistema” (ProfJam, Benji), “Eu Só Preciso” (Jónatas Pires), “Nemesis” (Holly Hood), “In‘” (Papillon), “Wrong Manz” (Silab, Jayfella), “Deus Queira” (Harold, Phedilson), “Não Descer” (Amaral), “The City Is a Jungle” (Fumaxa, Richie Campbell, Julinho KSD), “Farda” (Gson x i.M.), “Kruel” (Landim), “Se Me Tocas,” (Janeiro), “Elefante da Sorte” (Beatriz Pessoa), “Dizer Não” (Sara Correia)