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Nuno Markl deixou um aviso aos seguidores nas redes sociais: "Não somos super-homens"
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▲Nuno Markl deixou um aviso aos seguidores nas redes sociais: "Não somos super-homens"

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

▲Nuno Markl deixou um aviso aos seguidores nas redes sociais: "Não somos super-homens"

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Nuno Markl teve um AVC aos 54 anos e há cada vez mais jovens afetados. "A vida contemporânea é quase um novo fator de risco"

António Conceição é um desses casos: teve um AVC aos 41 anos. É necessário um atendimento veloz, frisa presidente da SPAVC: "Cada hora que passa é como se envelhecêssemos 4 anos que não recuperamos."

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Todos os anos, cerca de 9 mil portugueses com menos de 60 anos sofrem um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Esta quinta-feira, Nuno Markl integrou a estatística: aos 54 anos, deu entrada no hospital com um AVC depois de se sentir indisposto em casa. Horas depois, o radialista e apresentador de TV garantiu nas redes sociais que estava “a recuperar aos poucos” e sublinhou: “Deixo uma lição para todos: não somos super-homens. Por muito que se amem as 789675 coisas que fazemos, elas podem dar cabo de nós”.

A prevenção do AVC está mais direcionada para pessoas com mais de 50 anos, caso de Nuno Markl, e que acumulam fatores de risco como o sedentarismo, colesterol elevado, hipertensão arterial, excesso de peso ou tabagismo; mas mesmo “antes dos 40 anos, 25% dos cidadãos tem quatro fatores de risco vascular por controlar” e têm que ser alvo de atenção, frisa o presidente da direção da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC), Vítor Tedim Cruz, ao Observador.

Além do ritmo do trabalho (as tais “789675 coisas que fazemos”, de que fala Markl), “a privação ou fragmentação do sono”, seja por distúrbios como a apneia do sono, ou por falta de tempo para dormir, “são uma causa importante quer de AVC, quer de defeitos cognitivos em idades futuras”: “Fazem com que a pessoa esteja em privação de sono permanente, o que tem repercussão vascular, aumenta o risco de hipertensão, a diabetes, a displidemia [colesterol alto] e faz com que o envelhecimento vascular seja mais precoce.”

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Em caso de sintomas de AVC, chamar o 112 faz toda a diferença

Nas últimas semanas, Nuno Markl lamentou a falta de sono [iria em três ‘diretas’ na última semanas de gravações da atual temporada do programa da RTP Task Master] e o ritmo de trabalho intensivo [na rádio Comercial] de que ia dando conta no Instagram. De acordo com a imprensa, esta quinta-feira sentiu-se indisposto em casa e encaminhou-se, sozinho, para o Hospital de Cascais, classificado pela SPAVC como StrokeReady (preparado para AVC, em tradução livre): recebe doentes com AVC agudo, faz trombólises (um tratamento para tornar o sangue mais fluído e dissolver um coágulo) e referencia para outros centros, caso seja necessário.

Cada hora que passa sem iniciar o tratamento é o equivalente a quatro anos de morte neuronal. Ou seja, cada hora que passa é como se envelhecêssemos quatro anos que não recuperamos
Vítor Tedim Cruz, médico neurologista

Nuno Markl foi encaminhado para o hospital São Francisco Xavier, que pertence ao Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental (CHLO) e onde, de acordo com a SPAVC, existe uma Unidade de AVC, “onde tomamos muito bem conta do cérebro e do corpo da pessoa para que nada mais se deteriore e o melhor plano para evitar a repetição” do episódio médico, ilustra Vítor Tedim Cruz.

Em caso de suspeita de AVC — sintomas de alteração na fala, força ou face —, a primeira coisa a fazer é ligar para o 112 que ativa a chamada Via Verde AVC. “Todo o sistema português está organizado de forma a chegar o mais rapidamente possível uma equipa junto da pessoa afetada e levá-la ao local ideal onde iniciar o tratamento. É um aspeto fundamental a ativação da Via Verde AVC no local onde o doente indicia os primeiros sintomas, porque só isso permite que num espaço inferior a uma hora se possa começar o tratamento”, ressalva Vítor Tedim Cruz. “Cada hora que passa sem iniciar o tratamento é o equivalente a quatro anos de morte neuronal. Ou seja, cada hora que passa é como se envelhecêssemos quatro anos que não recuperamos.”

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A importância de ligar para o 112 “ainda que se esteja a 100 metros de um hospital” é destacada por António Conceição, que sobreviveu a um AVC. Hoje é presidente da instituição Portugal AVC – União de Sobreviventes, Familiares e Amigos. Lembra que é necessário ligar ao 112 “porque o hospital mais próximo pode não estar preparado para nos receber”. E explica que, logo no momento da chamada, “o 112 identifica que estamos perante um caso de suspeita de AVC e informa o hospital [correto]. Quando lá chegamos já estão os profissionais de saúde à espera. Isto porque cada minuto conta.”

Apesar de dois terços dos AVC se verificarem em pessoas com mais de 65 anos, o médico neurologista Vítor Tedim Cruz defende que também os mais jovens devem ser informados sobre o risco de AVC. “Temos descurado os esforços de prevenção desde a adolescência”, sustenta. “E há outro aspeto fruto da velocidade a que o mundo evolui, que é a agregação de grande parte da população em cidades e locais com grande intensidade de trabalho, com efeitos controversos no controlo dos fatores de risco vascular.”

Entre as pessoas mais novas, a dificuldade de conciliar a vida profissional e a pessoal, o teletrabalho que faz com que a casa “deixe de ser aquele lugar calmo e tranquilo”, e a gestão dos filhos e dos pais idosos levam a que a saúde fique em segundo plano. “A vida contemporânea é quase um novo fator de risco”, destaca, e por isso, “nos últimos dez anos tem aumentado o número de AVC na população abaixo dos 50 anos”.

“Antes dos 40 anos, 25% dos cidadãos tem quatro fatores de risco vascular por controlar"
Vítor Tedim Cruz, médico neurologista

30% dos AVC são repetições. Como evitar que tal aconteça?

Um Acidente Vascular Cerebral pode ser isquémico, ou hemorrágico. No primeiro caso, o mais frequente, o sangue no cérebro não flui devido a uma obstrução, como um coágulo; no hemorrágico, os vasos rompem e o sangue espalha-se no crânio. “Se a causa do AVC hemorrágico for uma ruptura do vaso por hipertensão arterial, esta tem de ser controlada e ficar em valores perto do normal num período inferior a 30 ou 60 minutos, porque disso depende o volume final do hematoma. A maior parte dos fármacos usados hoje em dia têm que ser administrados nas primeiras duas horas depois do evento”, explica o médico neurologista.

No caso de um AVC isquémico, o tratamento pode passar por uma trombólise endovenosa, que se trata de uma injeção de um fármaco para dissolver o coágulo; ou por uma trombectomia mecânica, um acesso via cateter às artérias cerebrais para as desobstruir. “Em média, os doentes podem ficar até oito dias no hospital. Nas primeiras 48 horas, dizemos que é relevante saber quais foram os fatores mais determinantes para que aquele AVC tenha ocorrido”, aponta Vítor Tedim Cruz. “30% dos AVC são repetições. A maioria acontece na primeira semana, no primeiro mês, no primeiro ano. Se nós não conseguirmos saber a causa e implementar a estratégia que impeça a repetição do AVC”, seja qual for a sua gravidade, “estamos expostos a uma possibilidade muito elevada” de voltar a acontecer.

Nada pode falhar nos primeiros 90 dias depois de um AVC

Em Portugal, afirma o presidente da SPAVC, 50% das pessoas que sofrem um AVC têm acesso a tratamento numa unidade especializada, e no caso de situações mais graves, pode ser pedido o apoio de uma unidade de cuidados intensivos. “Nos últimos dez anos, temos reduzido a mortalidade, mas tem aumentado o número de sobreviventes com sequelas. Um terço dos doentes com AVC tem sequelas graves e vai ter que fazer reabilitação, provavelmente durante toda a sua vida”, adianta Vítor Tedim Cruz. E mais de metade não tem acesso ao plano de reabilitação ideal, pela falta de serviços vocacionados para esta oferta no País. Perante um AVC, a pessoa também se depara com uma “experiência de perigo, das mais devastadoras que possamos imaginar”, pelo que a saúde mental não deve ser descurada.

O médico defende que, uma vez por ano, cada adulto jovem reveja os seus fatores de risco vascular e perceber quais estão ou não controlados. “Cada cidadão deve ter uma carta de risco vascular que todos os anos é aferida por ele em conjunto com o médico de família. Deve perguntar, ‘tenho diabetes, excesso de peso, hipertensão, arritmia cardíaca’? ‘Tenho ou não tenho tabagismo? E os meus hábitos alcoólicos, são ou não excessivos?’. Esta proatividade dos cidadãos tem que ser real ou vamos pagar por isso aos 50, 60, 70 anos — se não antes.”

AVC de António deixou sequelas “na área do cérebro correspondente à fala”

Quando chegou aos 41 anos, António Conceição tinha conseguido conquistar “uma carreira profissional de sucesso” e vivia uma “vida cheia, sem tempo de ir ao médico”. O relato foi partilhado pelo próprio, há quase dois anos, no Observador, onde admitia viver alguns dias stressantes. “Inesperadamente e ‘sem avisar’, subitamente, tive os três sinais principais de um AVC: boca ao lado, fala entaramelada, falta de força nos membros de um dos lados do corpo“, escrevia à época. Estava no local de trabalho quando tudo aconteceu e foram os colegas que chamaram o 112. Salvaram-lhe a vida, mas ainda assim as sequelas ficaram.

Quando chegou ao hospital, a maca onde estava foi retirada da ambulância e levada diretamente para uma sala — sem pausas pelo caminho — onde estava uma larga equipa médica que o recebeu, identificou o problema e iniciou os procedimentos. É assim que tudo se processa, conta agora ao Observador. O protocolo não muda, ao contrário dos tipos de AVC e dos processos de recuperação.

“Não há dois AVC’s iguais e não há dois processos de recuperação iguais. Porque o AVC pode ter muitas origens e desenrolar-se de forma completamente diferente. Basta pensar que o AVC dá-se no cérebro, o órgão mais complexo que temos. E dificilmente não deixa sequelas, sejam maiores ou menores; mais temporárias ou mais definitivas”, explica o também presidente da instituição Portugal AVC.

Tive a sorte de sobreviver a um Acidente Vascular Cerebral

António Conceição detalha que, no seu caso, o episódio de AVC “afetou um pouco a área [do cérebro] correspondente à fala”. “Mas as sequelas variam muito, depende da área do cérebro que foi afetada. Pode ser mais físico ou comunicacional. Ou até sequelas cognitivas ou visuais.”

Problemas na locomoção, diz, são também muito frequentes. “E por isso é importantíssimo que se inicie a reabilitação quase de imediato. Porque mesmo que haja sequelas, esta atuação há que ser o quanto antes, porque aumenta o potencial de recuperação.”

O sobrevivente de AVC explica que esta reabilitação deve ser “iniciada logo no hospital, principalmente se o doente estiver numa unidade de AVC” e “pode ter comparticipação do Estado”, sendo adaptada a cada necessidade. Pode ser necessária uma “reabilitação motora (através da fisioterapia), terapia da fala ou terapia ocupacional”, explica.

Depois, quando o paciente tiver alta (algo que, uma vez mais, pode demorar mais de acordo com os casos), este processo de recuperação “deve continuar”, sendo que “o próprio hospital, na unidade de AVC, dá indicações”.

Este processo de recuperação, explica António Conceição, “pode ser curto, longo ou ser necessário durante toda a vida”. “Isto se for um caso que necessite de reabilitação”, ressalva. “A maioria das pessoas necessitam, mas até há casos em que corre muito bem o tratamento em fase aguda do AVC, ou casos em que é um AVC em pouca extensão. E aí a pessoa pode até dispensar a reabilitação. Mas estes casos são mais raros.”

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