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A visita de Volodymyr Zelensky à Casa Branca, esta segunda-feira, foi apenas a segunda a convite de Donald Trump. A primeira — e até agora última — tinha sido um encontro desastroso, em que o Presidente ucraniano foi duramente criticado pela administração Trump e, no final, convidado a sair sem assinar o acordo dos minerais pelo qual se tinha deslocado a Washington. O regresso, seis meses depois, foi visivelmente mais cordial e, por vezes, até afável.
Três dias depois de ter recebido Vladimir Putin no Alasca, Donald Trump não estendeu uma carpete vermelha para o homólogo ucraniano, mas não poupou nos sorrisos. Se em fevereiro criticou a indumentária militar, desta vez elogiou o fato “fabuloso”. Se em fevereiro acusou Zelensky de “não ter cartas na mão”, desta vez recusou responder quem — entre Putin e Zelensky — segurava mais cartas. A memória do último encontro pesava sobre o líder ucraniano: depois de ter sido acusado de “ingratidão” pelo vice-presidente JD Vance, a primeira vez que tomou da palavra na Sala Oval esta segunda-feira foi para agradecer: primeiro ao Presidente Trump, pelo convite e pelos “esforços pessoais”, depois à primeira-dama, Melania Trump, pela preocupação com as crianças ucranianas.
O terceiro agradecimento de Zelensky ficou reservado para as sete pessoas que, noutra ala da Casa Branca, esperavam o final do encontro bilateral para serem formalmente recebidas por Trump: os “parceiros europeus”, Mark Rutte, Ursula von der Leyen, Keir Starmer, Emmanuel Macron, Friedrich Merz, Giorgia Meloni e Alexander Stubb. Foi um momento inédito nos tempos modernos. Num olhar sobre as últimas décadas não é possível encontrar uma única vez em que múltiplos chefes de Estado e de governo se tenham reunido em Washington para negociações diplomáticas de urgência.
A urgência do momento é ainda mais expressiva, nota o New York Times, pelo período inusitado: foram vários os líderes que abandonaram as suas férias a meio para rumar a Washington numa viagem de última hora de apoio a Zelensky. A “guarda de honra” deu frutos. Ao fim de seis horas de negociações, o Presidente ucraniano declarou que este foi o “melhor encontro” que já teve com o homólogo norte-americano.
▲ Zelensky foi recebido de forma afável por Trump
Getty Images
Contudo, para lá das imagens bem mais agradáveis do que as de há seis meses transmitidas nos ecrãs, Kiev não teve motivos concretos para celebrar. Em cima da mesa ficaram garantias de segurança para a Ucrânia, incluindo pela voz de Donald Trump, que prometeu “muita proteção“. No entanto, o líder dos Estados Unidos nunca se comprometeu com nenhuma garantia concreta, apesar de ter sido questionado uma e outra vez sobre a possibilidade de colocar tropas no terreno.
Ainda que evasivo nas respostas e a recuperar do encontro no Alasca, de onde saiu sem o acordo desejado, o chefe de Estado norte-americano pode, ainda assim, ter começado a semana com a maior vitória, depois de ter anunciado que está a organizar um encontro bilateral entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin. A proposta tem sido apresentada repetidas vezes ao longo da guerra, mas nunca avançou. Em Washington, a esperança é que o encontro, que seria apenas o segundo de sempre entre os dois Presidentes, se realize ainda estes mês e contribua para consolidar a imagem que Trump tem vindo a cultivar — a de um Presidente que pôs fim, nas suas próprias palavras, “a seis conflitos”. E que quer chegar a um sétimo.
Com “lisonja”, “persistência” — e um bocadinho de ceticismo francês — a “equipa Europa” brilhou em Washington
A “equipa Europa” — nas palavras do Presidente finlandês Alexander Stubb — que esta segunda-feira se deslocou a Washington não difere muito da equipa que, na passada quarta-feira, convocou uma reunião virtual para preparar com Trump a cimeira do Alasca. De fora ficaram os representantes polacos que disputam, entre governo e Presidente, as rédeas da política externa.
Estes líderes europeus reúnem uma mistura de liderança credível, amizade com Trump e apoio inabalável à Ucrânia. Já as suas palavras refletiam uma estratégia bem-definida — passaram a manhã na embaixada da Ucrânia em Washington a trabalhar nela — que a BBC define como “lisonja e persistência”. Antes de se reunirem na Sala Leste, quando o Presidente norte-americano lhes passou a palavra, as declarações foram breves mas com um guião coeso: elogiar ao anfitrião por ter desbloqueado as negociações, definir “o fim da matança” como a prioridade principal e salientar a “união” entre as diferentes partes sentadas à mesa.
Mark Rutte, Alexander Stubb e Giorgia Meloni foram enfáticos no papel decisivo que atribuem a Donald Trump e na sua entrada em cena como “um ponto de viragem“. Ursula von der Leyen usou o estatuto como “mãe e avó” para encontrar semelhanças com Melania Trump e alertar para a necessidade de fazer regressar as crianças ucranianas raptadas pelas tropas russas a casa. Keir Starmer notou que é precisa a “abordagem certa” para o plano ser bem-sucedido e destacou a união visível na Coligação dos Disponíveis, que lidera. Trump mostrou que a “equipa Estados Unidos” também sabe jogar e devolveu todos os elogios — aliás, foi ele que os fez logo à partida.
▲ Sete líderes europeus juntaram-se a Zelensky para a deslocação à Casa Branca
AARON SCHWARTZ / POOL/EPA
Elogios e união à parte, o plano enfrentou resistência dos dois lados da mesa. Na Sala Oval, no encontro com Zelensky, Trump declarou que “não é preciso um cessar-fogo”, mas um acordo completo que conduza à paz e elencou o seu currículo como “Presidente da paz” para comprovar a eficácia desta estratégia. Na Sala Leste, Friedrich Merz e Emmanuel Macron não cederam na cronologia que tinha ficado definida na passada quarta-feira: primeiro, e o mais rapidamente possível, cessar-fogo. Depois, as negociações dos detalhes para uma “paz justa e duradoura”.
Em conferência de imprensa, o finlandês Alexander Stubb justificou as diferenças com uma discussão de “semântica” que, no fundo, tem os mesmos objetivos. Mas o Presidente francês Macron não deixou as sugestões por aí. Ainda ao lado de Trump sugeriu que o próximo encontro não devia ser trilateral (Putin-Zelensky-Trump), mas quadrilateral (os três Presidentes mais um representante europeu). Mais tarde, à saída da Casa Branca, voltou a pressionar Moscovo, que disse “não estar a dar qualquer sinal de paz”.
Se estes sinais se mantiverem, “as sanções terão de ser aumentadas”, defendeu, argumentando, em declarações aos jornalistas, que a posição ficou acordada. O tom crítico desafia as declarações de Trump depois da cimeira “construtiva” no Alasca, em que disse acreditar que, “tendo em conta o que aconteceu, não é preciso pensar nisso agora”. Já Macron quer continuar a pensar nisso.
Tropas no terreno ou “coordenação”: as garantias de segurança que ficaram por apresentar
Apesar de Donald Trump ter saído do Alasca sem qualquer anúncio concreto, três dias serviram para levantar o véu sobre alguns dos temas que discutiu com Vladimir Putin. Entre eles, as garantias de segurança para uma Ucrânia num cenário pós acordo de paz. Sem mudar a sua posição, o líder russo opôs-se firmemente à adesão de Kiev à NATO, mas o Presidente norte-americano anunciou que foram aceites outras garantias — e foi isso que foi debatido esta segunda-feira com os europeus.
No final, não foram feitos anúncios, com a promessa de que os detalhes seriam tornados públicos na próxima semana, mais tardar dez dias, mas as declarações de Donald Trump deram a entender pelo que poderá passar este plano. Volodymyr Zelensky foi explícito que, da parte da Kiev, as garantias de segurança devem passar por “um Exército forte e poderoso“, em todas as suas vertentes, e pelo apoio internacional.
Da parte de Washington, a disponibilidade para fazer parte das garantias parece passar mais pela segunda condição. “Todos vão estar envolvidos, no que toca a segurança, vai haver muita ajuda. [Os europeus] são a primeira linha de defesa, mas nós vamos ajudar”, declarou o Presidente norte-americano na Sala Oval. Questionado sobre se essa ajuda incluiria o envio de tropas para o terreno, Trump não se comprometeu. Posteriormente as palavras escolhidas sobre o tema pareceram confirmar que essa é uma hipótese improvável. “Durante a reunião discutimos garantias de segurança para a Ucrânia, que garantias são asseguradas pelos vários países europeus, com a coordenação dos Estados Unidos da América”, escreveu na Truth Social.
A chegada ao terreno de soldados norte-americano pode não passar necessariamente por uma “força de manutenção da paz”, mas por outros conceitos, menos comuns, destaca o New York Times. Um é o de uma força internacional de dissuasão na fronteira, baseada na crença de que os soldados russos hesitariam em matar soldados não-ucranianos. A outra opção, e mais segura, é a de “força de observação” que funcionaria, basicamente, como alerta para uma possível nova ofensiva russa.
Mas excluindo esta possibilidade mais improvável, ainda sobram aos Estados Unidos muitas formas de contribuir para a segurança da Ucrânia, nota a BBC. Por exemplo, através de forças aéreas e marítimas, principalmente de vigilância, mas prontas para entrar em ação, da recolha e partilha de informações dos serviços secretos — uma tarefa que já acontece, mas que pode ser articulada de forma mais aprofundada com os europeus no terreno — ou, simplesmente, de apoio logístico à Coligação dos Disponíveis.
▲ As garantias de segurança deverão ser apresentadas nos próximos dias
AARON SCHWARTZ / POOL/EPA
Qualquer que seja o cenário em questão, a verdade é que este já está a ser discutido, relatou uma fonte com conhecimento do planeamento à CNN. O plano está a ser desenvolvido pelo presidente dos Chefes do Estado-Maior, o general Dan Caine, o que, dada a sua patente elevada, parece indicar “que os EUA estão a preparar-se seriamente para ajudar”, escreve o canal norte-americano. Caine, juntamente com o secretário da Defesa, Pete Hegseth, marcaram presença na reunião multilateral desta segunda-feira.
A presença de Putin em Washington, sem sair de Moscovo
Por volta das 17h locais (22h em Lisboa), quando os nove líderes e respetivas delegações já estavam reunidos há mais de uma hora, surgiu a informação de que Donald Trump teria interrompido a reunião com os europeus para telefonar a Vladimir Putin — o Presidente já tinha anunciado que iria telefonar ao homólogo russo, mas apenas no fim do dia.
A chamada entre Putin e Trump viria a revelar-se como uma conversa de 40 minutos “honesta e construtiva”, segundo um relato do Kremlin, em que os dois discutiram a possibilidade de uma reunião bilateral entre Kiev e Moscovo. O relato russo da chamada fala na mobilização de delegações sénior para liderar as conversas. Porém, o relato de Donald Trump vai mais longe. “Comecei a organizar uma reunião, em local a decidir, entre o Presidente Putin e o Presidente Zelensky“, pode ler-se na mesma publicação nas redes sociais. Depois dessa reunião, irá realizar-se uma reunião a três, já com a sua presença, lê-se ainda.
Donald Trump não é o primeiro líder a tentar sentar os dois Presidentes dos dois países em guerra à mesa. Durante os primeiros meses da invasão, na primavera e depois até ao final de 2022, repetiram-se os esforços internacionais, incluindo por alguns dos líderes que esta segunda-feira se reuniram com Trump. Contudo, nenhum foi bem-sucedido. Um encontro seria inédito e o Presidente norte-americano poderia ficar com os louros dessa reunião, mesmo que não tenha qualquer resultado.
No entanto, mesmo sem um telefonema para Vladimir Putin, a presença do Presidente russo nas negociações já se tinha feito sentir. Em primeiro lugar, nos elogios e no voto de confiança de Trump. Nas últimas semanas, a confiança em como Putin queria acabar a guerra tinha dado lugar a um medo de que pudesse estar a ser “enrolado”. Depois do Alasca, o Presidente norte-americano voltou à posição inicial, uma posição que defende, mesmo em privado, segundo frase apanhadas por um microfone ligado na Sala Este.
“Acho que ele quer fazer um acordo. Acho que ele quer fazer um acordo por mim. Percebe isso? Por muito louco que soe”, declarou Trump a Macron, momentos antes das breves das declarações que antecederam a reunião multilateral.
Além das palavras, a nova aproximação de Putin a Trump também se refletiu nas posições que assumiu. Não é de estranhar que se tenha oposto à adesão de Kiev à NATO ou tenha defendido cedências territoriais, algo que já tinha feito antes. Mas o Presidente mudou totalmente a sua posição sobre a cronologia da paz, na qual Merz e Macron insistiram. Há cinco dias, Trump defendia que a prioridade era um cessar-fogo, que servisse de ponto de partida para negociar os detalhes. Agora, a sua posição é que ambas as partes “têm de continuar a combater”, pois um cessar-fogo, defende, só funciona enquanto conceito teórico e, na prática, seria um benefício estratégico para uma das partes. Trump só não disse se Kiev ou Moscovo.