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Um encontro presencial, apenas entre Donald Trump e Vladimir Putin, em solo norte-americano, mais precisamente no Alasca, para discutir o fim da guerra na Ucrânia. O anúncio da reunião, na passada sexta-feira, incluía ainda uma data: 15 de agosto. Entre o anúncio e o encontro sobrava apenas uma semana para preparar todos os detalhes e definir uma estratégia. O prazo apertado, somado à exclusão de Volodymyr Zelensky da reunião, fizeram soar os alertas na Ucrânia e por toda a Europa.
Publicamente, os líderes europeus mostraram-se preocupados com a possibilidade de Trump ceder às exigências de Vladimir Putin para pôr fim à guerra — nomeadamente a anexação do Donbass —, depois de o Presidente norte-americano ter admitido que as negociações para a paz podiam incluir “algumas trocas de territórios”. Nas entrelinhas, a preocupação europeia tinha outra camada: o perigo de Trump poder ser “enganado” pelo homólogo russo. A preocupação não é infundada. Afinal, na passada quarta-feira, o próprio Presidente tinha admitido que ainda não sabia se estava a ser “enrolado” por Vladimir Putin.
Confrontados com estas preocupações, os líderes europeus foram rápidos a reagir. Esta quarta-feira, um grupo seleto de chefes de Estado e de governo desdobrou-se em reuniões virtuais, que contaram com a presença de Volodymyr Zelensky, Donald Trump, da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do secretário-geral da NATO, Mark Rutte. “Estamos a fazer todos os possíveis para ajudar a definir a agenda para esse encontro, esperamos que Trump seja bem-sucedido”, declarou o chanceler alemão, Friedrich Merz, numa conferência de imprensa entre dois dos três encontros multilaterais que preencheram o dia — aos quais se somou um encontro bilateral com Volodymyr Zelensky e a promessa de mais ajuda.
A partir de Berlim, Merz falou ao lado de Zelensky, que convidou para participar no encontro ao seu lado de forma presencial e cujas declarações clarificaram as preocupações subentendendidas dos seus pares europeus: “Não podemos deixar que Putin nos engane”, afirmou. De forma a evitar isso, os líderes europeus procuraram influenciar a posição de Trump no encontro com Putin. A “agenda”, mencionada por Merz, é relativamente simples: a prioridade para o encontro no Alasca deve ser alcançar um cessar-fogo. Só depois se devem negociar questões territoriais, negociações que devem incluir a Ucrânia.
“O Presidente Trump está ciente desta posição e concordou com ela em grande parte“, relatou Merz à saída do encontro virtual com Trump, que classificou o encontro como positivo. Os líderes presentes na reunião falaram a só “uma voz, uma vontade, um princípio, uma visão”, declarou, por sua vez, Zelensky. A persuasão europeia não terá sido apenas fruto de uma posição unida, mas de um elenco de líderes escolhido para concretizar os objetivos definidos.
O líder: Friedrich Merz
O primeiro passo para definir uma posição europeia comum foi dado por Friedrich Merz. Foi o chanceler alemão que convocou as três reuniões desta quarta-feira e que convidou Volodymyr Zelensky a participar no encontro a partir de Berlim. Foi o líder alemão que definiu cinco princípios chave para guiar as negociações. Em primeiro lugar, vincou que é preciso “ter a certeza que a cronologia está correta: primeiro, cessar-fogo; depois, negociações”. Por outro lado, insistiu que a Ucrânia tem de fazer parte dessa segunda parte da cronologia.
▲ Merz convocou os encontros virtuais desta quarta-feira
FILIP SINGER/EPA
Além disso, recusou o reconhecimento dos territórios ucranianos como russos, a desmilitarização da Ucrânia e defendeu uma abordagem que mantenha a Europa na mesa das negociações — uma “estratégia transatlântica”. Ao lado de Zelensky, Merz conseguiu equilibrar a defesa dos interesses ucranianos e da presença europeia na mesa das negociações e os elogios a Donald Trump, com quem mantém uma relação positiva. Tudo somado, Merz tentou provar a sua capacidade de liderança — e parece ter sido bem-sucedido.
Os líderes dos “disponíveis”: Keir Starmer e Emmanuel Macron
Na agenda para esta quarta-feira estavam três reuniões virtuais: uma primeira, entre seis chefes de Estado e governo europeus, o Presidente Zelensky, a líder da União Europeia e o líder da NATO. Depois, seguiu-se uma reunião com estes mesmos líderes, aos quais se juntaram o Presidente Donald Trump e o seu vice, JD Vance. O dia terminou com uma reunião da “Coligação dos Disponíveis“, o grupo de países dispostos a apoiar militarmente a Ucrânia, incluindo através da manutenção de um eventual cessar-fogo. Esta coligação é liderada pelo Reino Unido e por França, pelo que a presença de Keir Starmer e Emmanuel Macron na reunião era incontornável — ao lado de Macron, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, também participou nas reuniões.
Aliás, Starmer e Macron têm, de forma consistente desde a reeleição de Donald Trump, procurado guiar a política externa do continente europeu. Partilham com Friedrich Merz o facto de terem boas relações tanto com Trump como com Zelensky e de terem mediado em mais do que uma ocasião encontros entre os dois líderes: foram eles que organizaram a conversa à margem do funeral do Papa Francisco e, antes disso, terá sido Macron a convencer Trump a receber Zelensky na Casa Branca no final de fevereiro. Tal como Merz, estes dois líderes fizeram questão de vincar, à saída da reunião virtual com o Presidente dos EUA, o seu apoio “inabalável” a Kiev.
▲ Starmer e Macron organizaram o encontro de abril entre Zelensky e Trump
PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT HANDOUT/EPA
Macron fez ainda questão de notar que o Presidente norte-americano foi “muito claro” na sua concordância com o plano e a cronologia europeia para a paz. Depois da reunião com Trump, Starmer e Macron participaram na reunião da Coligação, em que reafirmaram a disponibilidade para enviar forças de paz para a Ucrânia — e consolidaram, assim, a sua liderança deste projeto e da política externa do bloco europeu.
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A possível anfitriã: Giorgia Meloni
A presença da primeira-ministra italiana na reunião completa o grupo das principais economias europeias. De fora, ficou Espanha, cuja relação do chefe do executivo Pedro Sanchéz com Trump está longe de ser calorosa, dado o braço de ferro entre os dois acerca do aumento dos gastos com Defesa no âmbito da NATO. Numa posição oposta, Giorgia Meloni pronunciou-se “profundamente satisfeita” com a reunião e a demonstração de união. A declaração faz eco das palavras de Merz, Macron e Starmer, mas a líder italiana mostrou-se muito mais elogiosa de Trump e dos seus “esforços”.
A posição não é surpreendente. Meloni foi a única líder da direita conservadora a marcar presença na primeira reunião do dia, posição no espectro político que a deixa mais próxima de Trump que outros pares europeus — mas sem se afastar do apoio a Kiev como outros líderes da extrema-direita na Europa. Neste contexto, a chefe do executivo italiano tem assumido mesmo um papel de “ponte” entre os dois blocos em questões económicas.
▲ Roma poderá ser palco de um futuro encontro a três
ANGELO CARCONI/EPA
O esforço de Meloni para se conectar com Trump foi recompensado: na passada quinta-feira, o Presidente norte-americano pediu-lhe que organizasse uma reunião com Zelensky e Putin em Roma, relatou a agência ANSA. Moscovo acabou por recusar esta hipótese, mas os líderes europeus não excluem que uma próxima reunião, a três, se realize na capital italiana. Desta forma, a presença de Meloni nos encontros desta quarta-feira ajudam-na a posicionar-se como protagonista.
O convidado especial que roubou o lugar a Tusk: Karol Nawrocki
A presença do primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, é comum nos encontros de alto nível sobre a Ucrânia. A Polónia é o país da NATO que mais gasta com a área da Defesa, em percentagem do PIB — e, em 2025, o país prevê voltar a aumentar os gastos e chegar aos 30 mil milhões de euros, o que equivale a 4,7%, muito próximo dos 5% definidos como meta pela Aliança Atlântica. A proximidade geográfica com a Ucrânia ajuda a perceber o interesse com a segurança ucraniana. No entanto, esta quarta-feira, Tusk só marcou presença no primeiro e no terceiro encontro. No encontro com Donald Trump, o lugar da Polónia foi ocupado pelo Presidente recém-empossado, Karol Nawrocki.
Em conferência de imprensa após a reunião virtual, o porta-voz de Nawrocki revelou que a presença na reunião aconteceu por convite direto de Washington. Tal como Meloni, Nawrocki posiciona-se no espectro da direita conservadora, o que facilita uma relação com a administração de Donald Trump — algo que o porta-voz destacou, numa crítica à liderança de Tusk. Durante a tomada de posse, o novo Presidente polaco já tinha prometido assumir um papel mais ativo na definição da política externa e de defesa da Polónia.
▲ O novo Presidente polaco foi convidado por Washington para a reunião
AFP via Getty Images
No passado, Nawrocki defendeu que a Polónia e a Ucrânia deveriam “endereçar questões históricas”, que dividiram os dois povos no passado e opôs-se à adesão de Kiev à UE e à NATO, numa clara cisão com o governo liderado por Tusk. No entanto, esta quarta-feira, as duas fações foram prova que a Europa, em todos os espectros políticos, fala “a uma só voz” e ambos apelaram a uma postura mais dura com a Rússia. Na sua própria conferência de imprensa, Tusk declarou mesmo que executivo e Presidente devem apresentar uma “frente unida” e coordenar a presença em reuniões de alto nível como estas.
O amigo do golf que não confia na Rússia: Alexander Stubb
Entre os nomes habituais à volta da mesa quando o tema é a Ucrânia, estava também um nome mais surpreendente: Alexander Stubb, Presidente da Finlândia. No entanto, a soma de vários fatores facilmente explicam a relevância do chefe de Estado finlandês. Tal como todos os outros líderes que marcaram presença nos encontros desta quarta-feira, Stubb caiu nas “boas graças” do Presidente norte-americano, descreve o Politico, que aponta como ponto de viragem o jogo de golfe entre os dois chefes de Estado em março, durante uma visita não oficial do líder finlandês à Flórida.
A Finlândia também partilha com a Polónia o facto de ser um dos países mais vocais no apoio à Ucrânia, pelo que a sua presença para defender os interesses ucranianos é sempre bem-vinda entre os líderes europeus. “Estamos ao lado da Ucrânia em todas as fases do processo”, escreveu Stubb sobre o encontro nas suas redes sociais, numa publicação em que também salientou as “visões alinhadas e união”.
▲ A proximidade geográfica com a Rússia e o apoio a Kiev ajudam a explicar a presença finlandesa no encontro
MICHAEL REYNOLDS/EPA
No entanto, o convite para o encontro desta quarta-feira também poderá ter servido para Donald Trump ouvir um relato em primeiro mão sobre a experiência de partilhar vários quilómetros de fronteira com a Rússia, feito por uma voz que o líder norte-americano goste mais do que Volodymyr Zelensky. Neste sentido, o Presidente da Finlândia, com mais de 1300 quilómetros de fronteira partilhada, é a pessoa ideal para transmitir a Trump que “não se pode confiar na Rússia“, argumentou Matti Pesu, analista no Finnish Institute for Foreign Policy, aos media finlandeses.