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▲Autoridades polacas protegem a área onde se acredita que partes de um drone caíram depois de ser abatido pela Polónia e aliados da NATO

AFP/Slowo Podlasia/AFP via Getty

▲Autoridades polacas protegem a área onde se acredita que partes de um drone caíram depois de ser abatido pela Polónia e aliados da NATO

AFP/Slowo Podlasia/AFP via Getty

O Artigo 4.º, um conflito aberto "mais perto" e a Rússia a negar. 5 respostas sobre os drones na Polónia que fizeram a NATO intervir

É a primeira vez que um membro da NATO dispara desde que a guerra começou, "mudando o jogo" para a Polónia e aliados. Cinco respostas sobre os drones provavelmente russos que atingiram o país.

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A Polónia acordou com vários drones a entrarem no seu território ao longo de várias horas — e o cenário pode não ser totalmente novo, mas a escalada é inédita. Que se saiba, e para já, os aparelhos — que a Polónia e NATO dizem serem russos — provocaram estragos no telhado de uma habitação no sudeste do país, não tendo causado vítimas, somente danos materiais.

A população foi avisada, via SMS, para não se aproximar dos destroços de drones abatidos caso os encontrassem e o Governo polaco decidiu ativar o Artigo 4.º da NATO, que prevê uma consulta entre países-membros, reconhecendo assim a forte ameaça que lhe foi dirigida provavelmente pela Rússia.

As autoridades europeias concordam com a gravidade da invasão aérea. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, defendeu esta quarta-feira que a queda de drones na Polónia tem de motivar uma “resposta muito forte” por parte do bloco comunitário, considerando aquilo que aconteceu esta madrugada um game changer para a atuação futura da União Europeia.

“A Rússia está a escalar deliberadamente. Temos de ser muito firmes”, apelou Kallas, em Estrasburgo, após o discurso de Ursula von der Leyen do Estado da União, no Parlamento Europeu. Confirmando, como já tinha sido avançado, que os drones que sobrevoaram o espaço aéreo polaco foram “abatidos”, a diplomata garantiu que a União Europeia “tem de fazer mais” para evitar situações como esta.

Antes já Ursula von der Leyen tinha considerado que o ataque na Polónia “foi sem precedentes”, demonstrando total solidariedade para com o país. Mas o que significa o acionamento deste artigo 4º do tratado da NATO? Que dúvidas restam da proveniência dos drones? E o que vão fazer a seguir os aliados? Respondemos a cinco questões.

Que drones são estes que invadiram o espaço aéreo polaco?

Foi Donald Tusk, o primeiro-ministro polaco, quem afirmou que o Exército da Polónia registou 19 incursões de drones no espaço aéreo do país durante a noite de terça-feira e a madrugada desta quarta. São do tipo Shahed-136, de fabrico iraniano e amplamente utilizados pela Rússia contra a Ucrânia. Este tipo de drones já foi classificado por especialistas como “letais, baratos” e usados em larga escala nesta guerra: o Exército de Putin consegue lançar mais de 500 aparelhos contra a Ucrânia numa noite, disparando autênticos enxames deste tipo de dispositivos.

O seu custo de produção é relativamente baixo — cerca de 20 mil euros — tendo em conta que podem atingir alvos muito importantes e causar danos em larga escala em centrais elétricas, depósitos de combustível ou em empresas de tecnologia. Para serem abatidos pela Ucrânia através de um míssil de defesa anti-aérea, este último será necessariamente mais caro do que o drone, transformando estes Shahed-136, em grande número, em armas difíceis de gerir logisticamente.

Dos quase 20 drones a entrar indevidamente no espaço aéreo polaco, pelo menos três foram abatidos por aeronaves polacas e da NATO, que foram acionadas para lidar com a ameaça. Há relatos não oficiais que contabilizam um quarto drone que terá sido atingido às 6h45, hora local (5h45 em Lisboa).

Sobre a sua proveniência, nas primeiras horas da manhã, um diplomata russo, Andrei Ordash, citado pela RIA Novosti, garantia que os drones abatidos na Polónia vinham da Ucrânia, informação prontamente negada por Volodymyr Zelensky.

Depois disso, a Bielorrússia chegou-se à frente para garantir que pelo menos “alguns” dos vários drones que invadiram o espaço aéreo da Polónia teriam vindo do seu território. O ministro-adjunto da Defesa do país — que é aliado da Rússia —, Pavel Muravyeika, indicou que alguns dos drones bielorussos “perderam-se no seu caminho” e acabaram por entrar, acidentalmente, na Polónia.

Mais tarde, foi o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, a afirmar que eram russos os drones que violaram espaço aéreo da Polónia, garantindo que está em curso uma “investigação completa” que deverá revelar todas as circunstâncias do incidente e destacar a “operação muito bem sucedida, por parte da NATO, na defesa do espaço aéreo” dos seus Estados-membros.

A Rússia, para já, opta pela fórmula que lhe é familiar: nem confirma nem desmente. O Ministério da Defesa disse que “não havia planos para atingir quaisquer alvos no território da Polónia”, sem negar definitivamente que os seus drones tenham invadido o espaço aéreo polaco.

A verdade é que em pelo menos sete localidades da Polónia foram descobertos drones ou partes metálicas dos seus destroços, de acordo com a Associated Press que cita autoridades polacas para mencionar os locais já sinalizados: Czosnówka, Wyryki, Wohyn, Krzywowierzba-Kolonia, Cześnik, Myszków e Wielki Lan.

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▲ Mapa da localização de drones russos e dos seus destroços encontrados em território polaco

AFP via Getty Images

O que determina o Artigo 4.º da NATO e o que significa a sua ativação?

A Polónia descreveu a violação do seu espaço aéreo pelas forças russas como um ato de agressão que representou uma “ameaça real” para os civis. É ainda cautelosa na assunção de que as violações possam ter sido deliberadas por parte da Rússia, mas não hesitou em meter as trancas à porta.

Foi Donald Tusk, o primeiro-ministro polaco, a afirmar, na manhã desta quarta-feira, que o país iria ativar o Artigo 4.º do tratado fundador da NATO. Nele lê-se o seguinte: “As partes consultar-se-ão sempre que, na opinião de qualquer delas, estiver ameaçada a integridade territorial, a independência política ou a segurança de uma das partes“.

Nos termos do tratado, qualquer membro pode invocar unilateralmente este artigo, que permite que os aliados registem as suas preocupações. Não chega a ser um pedido formal de ajuda e os outros membros também não são obrigados a tomar qualquer medida, mas é aberto um mecanismo de consulta. Ou seja, são tidas conversações e tomadas medidas no sentido de uma futura ação da NATO, que não acontecerá de forma obrigatória.

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▲ Investigadores inspecionam um local onde se acredita que partes de um drone caíram na Polónia

AFP/Slowo Podlasia/AFP via Getty

Esta será a oitava vez que o Artigo 4.º foi invocado desde a criação da NATO em 1949. Em 2022, vários países da Europa de Leste, incluindo a Polónia, invocaram-no após a invasão da Ucrânia pela Rússia. A Polónia também acionou o mesmo artigo há mais de 10 anos, em março de 2014, depois de a Rússia ter anexado ilegalmente a península da Crimeia na Ucrânia.

É a primeira vez que a Polónia sofre uma invasão aérea desde o início da guerra na Ucrânia?

Não. E foi o próprio Donald Tusk a considerar, mesmo assim, que não tem dúvidas de que esta “provocação é incomparavelmente mais perigosa, do ponto de vista da Polónia, do que as outras que aconteceram no passado”.

Como recorda o New York Times, ainda na semana passada drones que se suspeitavam serem russos entraram por duas vezes na Polónia. As incursões noturnas foram tidas em conta mas não tinham a escala daquelas da última madrugada.

Recuando alguns meses, em fevereiro de 2025, a intrusão de uma aeronave russa fez soar os alarmes. Um jato militar russo Su-24MR entrou no espaço aéreo polaco até 6,5 quilómetros sobre a baía de Gdansk, no Mar Báltico, durante pouco mais de um minuto. O incidente foi atribuído a um erro de navegação pelas autoridades russas, justificação que a Polónia aceitou como certa, prometendo apertar a monitorização aérea.

No verão passado, a 26 de agosto de 2024, a Polónia comunicou uma incursão de um “objeto aéreo”, que se acreditava ser um drone, após os ataques de mísseis russos à Ucrânia. Não foram no entanto recuperados quaisquer destroços e até se especulou sobre uma possível anomalia do radar que detetou a suposta invasão.

Antes disso, em março de 2024, um míssil de cruzeiro russo entrou brevemente no espaço aéreo polaco perto da cidade de Oserdow, no leste do país, levando a NATO a enviar caças. O míssil acabou por seguir o seu caminho, dirigindo-se para a Ucrânia, e não foi preciso ação direta.

Em novembro de 2022, poucos meses depois da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, a Polónia afirmou que uma explosão que matou duas pessoas perto da fronteira ucraniana tinha sido “muito provavelmente” causada por um míssil de fabrico russo. Quase um ano depois, uma investigação polaca viria a descobrir que as mortes tinham, de facto, sido muito provavelmente causadas por um míssil de defesa aérea ucraniano que tinha falhado ao tentar abater um míssil russo sobre a Ucrânia.

Também a Roménia e Moldávia já registaram invasões momentâneas do seu espaço aéreo por drones ou mísseis que se suspeitou serem russos ou estarem relacionados com a guerra na Ucrânia.

Algum membro da NATO já tinha disparado desde o início da guerra?

Esta é uma estreia para a Polónia, mas também para toda a lista de membros da NATO. Nunca antes, contando a partir da data da invasão em grande escala da Ucrânia, 24 de fevereiro de 2022, um membro da Aliança Atlântica tinha disparado para abater um míssil ou um drone, mesmo após as invasões aéreas já descritas.

Tusk, citado pela Reuters, considerou perante o seu Parlamento nacional que os acontecimentos desta madrugada foram o mais perto que a Polónia esteve “de um conflito aberto desde a II Guerra Mundial”. Alarmou por um lado, mas acalmou por outro, afirmando que, mesmo perante a gravidade da ofensiva, não tem, pelo menos para já, “nenhum motivo para acreditar” que o país está “à beira da guerra”.

Na operação para abater os drones que começaram a entrar no espaço aéreo polaco estiveram envolvidos caças polacos F-16, caças F-35 holandeses, aviões de vigilância AWACS italianos e aeronaves de reabastecimento aéreo da NATO. A intervenção holandesa e italiana já foi entretanto saudada pelos representantes polacos.

▲ Casa cujo telhado foi destruído devido à queda de destroços de um drone russo

Agencja Wyborcza.pl via REUTERS

Apesar de terem sido intercetados, os destroços dos drones acabaram por cair em várias regiões da Polónia e chegaram mesmo a atingir a casa de um reformado na vila de Wyryki-Wola, no leste da Polónia, por volta das 6h30 da manhã. O homem não ficou ferido, uma vez que estava no andar inferior a ver televisão, mas o telhado da habitação ficou destruído e escombros ficaram espalhados no andar superior. O próprio homem disse à Reuters que a sua casa vai “precisar de ser demolida”.

Durante o incidente com os drones, o comando operacional das Forças Armadas da Polónia pediu aos moradores que ficassem em casa, assinalando perigo em três regiões. Vários aeroportos do país foram temporariamente fechados, incluindo o de Rzeszów-Jasionka, que tem sido usado como principal ponto de acesso para pessoas e ajuda humanitária que viajam depois para a Ucrânia por terra, que tem o seu espaço aéreo encerrado.

O que se segue para a Polónia e NATO? E para a Rússia e Ucrânia?

Internamente, e logo nas primeiras horas da manhã, Donald Tusk, convocou uma reunião de emergência de ministros responsáveis ​​pela segurança nacional, a ser seguida por uma reunião geral do Governo polaco, devido aos eventos sem precedentes que enfrentavam. A informação foi publicamente divulgada por Adam Szlapka, porta-voz de Tusk, na rede social X eram ainda 5h20, hora local (4h20 em Lisboa).

Foi depois convocada a reunião do Conselho do Atlântico Norte da NATO, o principal órgão de decisão política da aliança militar ocidental composto por todos os Estados membros para a consulta referida no artigo 4º do tratado. O chanceler alemão, Friedrich Merz, veio já afirmar publicamente que após esta reunião a organização “está e continuará a estar preparada para a defesa” dos seus aliados.

Nas últimas declarações sobre o caso, o ministro da Defesa da Polónia, Radoslaw Sikorski, divulgou que as autoridades polacas entendem que os drones russos que entraram em território polaco foram programados para tal, contrariando a tese de que se teriam desviado do alvo inadvertidamente, como defendem a Rússia e a Bielorússia.

“A análise das forças aéreas da Polónia e da NATO é que [os drones] não se desviaram da rota, mas [os alvos] foram deliberadamente sinalizados”, assegurou o ministro, trazendo um novo nível de certeza à tese que a maioria dos representantes já tinha aflorado: a de que houve intenção da Rússia e que isso representa necessariamente uma escalada na guerra, que pode migrar de território exclusivamente ucraniano para o seu país fronteiriço, a Polónia.

Como resposta ao ataque, a Polónia tomou várias medidas elencadas por Sikorski no vídeo divulgado nas redes sociais. Além de ter ativado o Artigo 4.º da NATO, confirmou que foi convocado um representante da Embaixada da Federação Russa a quem foi apresentada uma nota de protesto da Polónia.

“Peço a todos que confiem na informação do Governo [polaco] e em informação ditada por meios de informação de confiança. Quem disser que isto é uma provocação ucraniana está a difundir propaganda russa”, acrescenta o ministro, apelando a que não se acredite nela.

Os desenvolvimentos desta manhã colocam então a guerra na Ucrânia num novo rumo. Como referido por Kaja Kallas, determinam um momento de “mudança do jogo”, com a Polónia e membros da NATO a considerar que uma linha foi claramente ultrapassada. É uma invasão, sem precedentes, de um espaço aéreo estranho à Ucrânia e que resultou — para já — apenas em danos materiais. Mas tudo pode mudar em circunstâncias diferentes num hipotético novo ataque.

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