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Em Espanha é conhecido como o “El Portugués”. Micael da Silva Montoya, de 38 anos, atropelou vários convidados de um casamento cigano em Torrejón de Ardoz, na região de Madrid há três anos e nas duas últimas semanas tem estado sentado no banco dos réus do tribunal da capital espanhola para receber a sentença pelos crimes cometidos. Na sexta-feira passada, o Ministério Público espanhol foi mais longe do que já tinha ido antes — quer prisão permanente (forma de prisão perpétua, mas com a possibilidade de revisão da pena após um certo número de anos) para o homem com nacionalidade portuguesa.
O testemunho do principal arguido ficou marcado por contradições, sobretudo em relação ao gatilho que o levou a avançar com o carro sobre dezenas de pessoas, tendo quatro delas acabado por morrer. Chegou a dizer que assistiu ao disparo de tiros, mas na véspera das alegações finais, que decorreram na sexta-feira, acabou por assumir que apenas “tinha ouvido dois tiros”. Segundo a acusação também não foi capaz de demonstrar real arrependimento em relação aos factos pelos quais está acusado.
Um dos advogados que representa a família de uma das vítimas mortais, um rapaz menor de idade, comparou a ação de Montoya à de um “atentado jihadista”. “Pegou no carro e lançou-o contra a multidão”, afirmou.
#SUMMA112 confirma esta madrugada el fallecimiento de cuatro personas tras ser atropelladas en la avenida de la Constitución en #TorrejondeArdoz.
Las circunstancias en las que se ha producido el suceso están siendo investigadas por @policia. pic.twitter.com/avDX9jNGoR
— 112 Comunidad de Madrid (@112cmadrid) November 6, 2022
O homem, com nacionalidade portuguesa, mas residente em Espanha, enfrenta agora uma pena de prisão permanente (que na prática se pode transformar em prisão perpétua) a pedido do Ministério Público espanhol, estando acusado de quatro crimes de homicídio e nove crimes de tentativa de homicídio, o número de pessoas que ficaram feridas em resultado do atropelamento em massa.
Mesmo depois dos testemunhos ouvidos em tribunal, ainda há muitas dúvidas em relação ao que realmente se passou na madrugada do incidente. O próprio acusado já mudou de versão em relação ao que o levou a atingir com o carro quem estava naquela celebração, em novembro de 2022, e os relatos das testemunhas são igualmente dispersos.
Os vídeos no TikTok que levaram Micael até ao casamento da tragédia
Na madrugada de 6 de novembro de 2022, terão sido os vídeos publicados pelos convidados do casamento na rede social TikTok que guiaram Micael da Silva até ao restaurante El Rancho, em Torrejón de Ardoz, onde decorria o copo de água da cerimónia com cerca de 500 convidados. A sua chegada foi o primeiro passo para uma noite de tragédia.
Semanas depois do atropelamento em massa, o pai da noiva, Ramón Silva Barrul, revelou ao ABC, que o “penetra”, na altura com 35 anos, se deslocou ao local da festa sem ter sido convidado, por volta da meia-noite, mal soube qual era o local em que esta decorria. Consigo teria levado dois filhos e um sobrinho.
Apesar de não ter sido convidado para o casamento, Barrul explicou que Micael tinha uma relação familiar afastada com os noivos e que, por causa disso, ninguém impediu que ele entrasse na festa, embora fosse conhecido o seu perfil muito “conflituoso”.
Segundo o pai da noiva, seguiram-se momentos de tensão, com o homem a desafiar os convidados, sendo os comportamentos agressivos depressa copiados pelos filhos (os dois menores na altura) e pelo sobrinho. Além disso, os quatro homens teriam começado a filmar as mulheres a dançar na festa enquanto teciam vários comentários machistas.
Perante este comportamento, os familiares dos noivos decidiram restabelecer a ordem, pedindo-lhes que saíssem do restaurante. E terá sido a partir daí que a rixa entre “grupos” começou. Barrul afirmou ao jornal espanhol que um dos jovens chegou a agredir uma mulher e que outro ameaçou várias pessoas com uma faca.
Depois disso, os quatro homens entraram no carro de Micael da Silva, um Toyotta Corola, e terá sido pouco depois que o português, sem ligar os faróis, simplesmente avançou com o carro contra as pessoas que os tinham seguido até à rua.
“Esperamos que sejam todos presos e que as crianças vão para um centro juvenil”, sublinhou na altura o pai da noiva, que pedia justiça nos tribunais e não vingança pelas próprias mãos, distanciando-se dos preconceitos sobre a comunidade cigana a que o caso estava a ser colado, devido à intensa cobertura mediática.
Só Micael da Silva acabou por ir a julgamento pelo atropelamento, tendo sido detido poucas horas depois de se ter colocado em fuga, na localidade de Seseña, a poucos quilómetros de Madrid. Chegaram a existir suspeitas de que teria ponderado fugir para Portugal, depois de serem encontrados 3.000 euros em dinheiro no seu carro, que se suspeita terem sido roubados dos envelopes das prendas do casamento invadido.
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“Portugueses, nós vamos matar-vos”. Micael da Silva diz que foi perseguido
A defesa de Montoya em tribunal baseou-se na vitimização e numa perseguição tal por parte de pessoas que estavam no copo de água da celebração, que no final de contas só lhe restou entrar no carro e procurar uma fuga do restaurante. A versão é muito distinta da que foi apresentada pelos familiares e amigos dos noivos presentes no local.
Micael da Silva garantiu em tribunal que lhe foi gritado: “Portugueses, nós vamos matar-vos“. Segundo o seu relato, terá sido também pela garantia da segurança dos dois filhos e do sobrinho que tentava fugir, já que tinha a certeza que “todos” os convidados queriam matá-los a todos, assegurando que foram alvo de um linchamento com paus e perseguidos com armas de fogo e facas, mesmo depois de já estarem no interior do carro.
Terá sido nesse momento que ouviu tiros, baixou-se, e depois disso, contou em tribunal, o seu corpo terá acelerado o carro de forma automática, como que em legítima defesa. “O carro acelerou pelo peso do meu corpo. Eu não tinha intenção de atropelar [ninguém]. Queriam matar-me com as pistolas e as navalhas”, disse, garantindo que ouviu um impacto, viu um espelho do carro partido quando voltou a levantar-se, mas não viu sangue.
“Ninguém merecia morrer”, repetiu várias vezes Micael da Silva na audiência desta quinta-feira, citado pelo ABC. Afirmou ainda, visivelmente emocionado, que é “uma pessoa muito boa” e que não merecia ter sido alvo do linchamento pelos convidados do casamento.
Os relatos de testemunhas ouvidas no Tribunal de Madrid colidem com esta versão de um atropelamento praticamente acidental ou em defesa da sua integridade física. “Ele levou as pessoas todas à frente dele. Os corpos voaram para todo o lado”, disse o avô da noiva.
Micael da Silva disse que não viu corpos nem sangue, apenas o para-brisas do carro partido à sua frente. “Eu não sabia que tinha atropelado aquelas pessoas“, garantiu, recordando que só percebeu o que tinha acontecido quando lhe foi relatado por um agente da Guarda Civil Espanhola, já depois de ter sido detido.
Os tiros e as buzinadelas que não foram ouvidas. As contradições de um caso com três anos
A versão do “El Portugués”, de uma ação em legítima defesa suportada por um “medo intransponível” tão intenso, foi totalmente desfeita pelas várias equipas de defesa das vítimas do incidente nas duas últimas semanas de julgamento.
“O réu desde o início incorreu em muitas contradições flagrantes em relação ao que considerou durante a investigação preliminar”, defendeu Jaime Sanz de Bremond, um dos advogados.
A principal incongruência apontada foi o facto de Micael da Silva ter dito, num primeiro momento, que “houve vários tiros disparados contra ele, os seus filhos e primo”. Esta quinta-feira terá alterado a sua versão inicial e afirmado que apenas “ouviu dois tiros”, o que muda tudo. No local do crime não existiam sequer evidências de tiros disparados, foi apurado pela Guarda Civil Espanhola.
Também existem versões distintas, entre o acusado e as testemunhas da acusação, em relação a ter buzinado o carro para afastar as pessoas que supostamente o tinham seguido até ao veículo, que não desistiam do linchamento. Micael da Silva garante que buzinou, mas as restantes testemunhas dizem que nunca o ouviram a apitar como sinal de alerta para se afastarem.
▲ O aparato mediático no dia do atropelamento em massa no restaurante "El Rancho"
Europa Press via Getty Images
À medida que a audiência avançou, as várias testemunhas tentaram esclarecer as circunstâncias em que o incidente ocorreu. A mulher do réu declarou numa das audiências que ela e os seus filhos foram convidados para a festa e que foi até o pai do noivo que os convidou pessoalmente. Micael da Silva não seria bem-vindo, mas terá comparecido na celebração com a desculpa de que tinha de cuidar de um dos filhos, que sofria de esquizofrenia.
A mulher disse mesmo que foi porque alguém atirou um copo ao seu filho com problemas mentais no casamento que os desacatos começaram, terminando o conflito com o atropelamento mortal.
As testemunhas do lado da defesa de Micael Silva defenderam a versão da legítima defesa e as testemunhas de acusação defenderam precisamente o contrário — que o homem na casa dos 30 só teve um motivo para carregar no acelerador: queria causar danos físicos, e até a morte, às pessoas presentes na celebração.
MP mudou pedido de pena face à “brutalidade” descrita no tribunal
“Uma total vontade de lhes causar a morte ou pelo menos a assunção de que existia essa possibilidade”. Foi assim que a procuradora do Ministério Público (MP) espanhol descreveu a ação do “El Portugués” em relação às pessoas que atropelou, no dia 6 de novembro de 2022.
Foi esta intenção, determinada a partir do testemunho do acusado em tribunal que levou a procuradoria espanhola a alterar o pedido de pena. Tinha solicitado 226 anos de prisão, mas passou a defender uma pena mais grave depois do julgamento: a prisão permanente reavaliada periodicamente.
Trata-se de uma condenação prevista no Código Penal espanhol que pode traduzir-se, na prática, numa prisão perpétua se nunca for alterada pelos juízes nas sucessivas reavaliações.
O Ministério Público seguiu, assim, os pedidos de pena de prisão feitos pelas várias defesas das famílias das vítimas mortais, que pediam também eles a pena mais pesada possível para o homem. A acusação reconheceu ainda o ato “de brutalidade” que foi o atropelamento, em relação ao qual dizem que não se percebe arrependimento por parte do acusado.
Já a defesa de Micael da Silva usou as alegações finais desta sexta-feira no Tribunal de Madrid para repetir a mesma defesa de sempre, pedindo a absolvição do português que, defendem, fugia de uma perseguição e agressão de convidados do casamento quando foi induzido, por um “estado de necessidade” a avançar com o carro sobre aquelas pessoas.
O português de 38 anos foi julgado por um júri popular e não existe ainda data para o veredicto final. Só depois de o “El Portugués” ser declarado culpado ou inocente é que será avançada uma data para a leitura da sentença e definida qual a pena de prisão.