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epa12148451 Venezuela's Minister of the Interior and Justice, Diosdado Cabello (C), delivers a speech at a demonstration in Caracas, Venezuela, 31 May 2025. Chavismo held a march in Caracas to celebrate its victory in last Sunday's regional and legislative elections, in which the electoral body awarded it 23 of 24 governorships and 253 of a total of 285 seats.  EPA/MIGUEL GUTIERREZ
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MIGUEL GUTIERREZ/EPA

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O chavista com quem é "mais difícil de lidar", líder dos paramilitares. Quem é Diosdado Cabello, "a moca" do regime de Nicolás Maduro?

Caído Maduro, os EUA apontam ao seu "braço direito". Mas Diosdado Cabello "não está disposto a negociar" com os EUA e tem do seu lado milhares de paramilitares que obedecem ao ministro do Interior.

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As primeiras horas do dia 3 de janeiro de 2026 chegaram à Venezuela com o som de bombardeamentos norte-americanos. Ao mesmo tempo, um rumor espalhou-se nas redes sociais: o ataque tinha matado Diosdado Cabello, o número dois do regime chavista. Contudo, ainda antes de o sol ter nascido, o próprio saía às ruas para desmentir a notícia. De capacete e colete anti-bala, falou às câmaras, rodeado de militares armados, e apelou à calma. “Confiem na liderança dos altos cargos políticos e militares. Muita calma, não caiam no desespero, não facilitem as coisas ao inimigo invasor, ao inimigo terrorista que nos atacou cobardemente”, apelou.

Quase uma semana depois do ataque e da captura de Nicolás Maduro, o “inimigo invasor e terrorista” está “particularmente preocupado” com Diosdado Cabello: o ministro é visto pelos Estados Unidos como a figura da liderança interina com mais probabilidades de sabotar a cooperação entre Caracas e Washington, avançou a Reuters, citando responsáveis norte-americanos. Enquanto Delcy Rodríguez, a Presidente interina, é vista como “pragmática”, Cabello é imprevisível; e a sua relação com Washington, tempestuosa.

O “braço direito” de Maduro foi sancionado pela primeira vez em 2018 e, dois anos depois, acusado de pertencer ao “Cartel de los Soles“, uma organização narcotraficante que os Estados Unidos dizem ser liderada pela cúpula do regime chavista. Pela captura de Cabello, Washington oferece uma recompensa de 25 milhões de dólares (cerca de 21 milhões de dólares) e o seu nome aparece logo a seguir ao de Nicolás Maduro na acusação do Departamento de Justiça norte-americano, revelada no passado sábado. Esta relação surge em contraponto com a de cooperação que Washington tenta agora estabelecer com a liderança interina de Caracas.

“Diosdado é o mais difícil de lidar. Nada nele sugere que está disposto a negociar”, aponta Ryan Berg, analista no Center for Strategic and International Studies, ao Wall Street Journal. O longo historial do ministro com o regime chavista suporta a afirmação do especialista: companheiro de armas de Hugo Chávez, Cabello integrou uma tentativa de golpe de Estado, enfrentou penas de prisão e ocupou múltiplos cargos — incluindo o de Presidente durante cinco horas — e chegou a ser apontado como seu sucessor, acabando por ser preterido para Maduro.

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▲ Os EUA oferecem 25 milhões de dólares pela captura de Diosdado

AFP via Getty Images

Contudo, Cabello tem um grande “Ás” que desencoraja uma ação direta contra ele pela administração norte-americana. Como ministro do Interior, Cabello controla os grupos paramilitares, mais numerosos e leais ao regime que as Forças Armadas tradicionais. A captura do ministro podia levar estes grupos à rua e à instalação de um cenário de “caos”, teme a administração norte-americana — capturado Nicolás Maduro, isso faz de Diosdado Cabello o homem mais poderoso, e perigoso, da Venezuela.

Da ascensão do regime chavista até ao “exílio do círculo íntimo”

Diosdado Cabello Rondón nasceu a 15 de abril de 1963, no estado de Monagas, no leste da Venezuela. Com uma licenciatura em engenharia, Diosdado juntou-se às Forças Armadas, onde conheceu Hugo Chávez — em comum teriam o gosto pelo basebol. Ao lado de Chávez foi um dos protagonistas da tentativa de golpe de Estado de 1992, que falhou — “por agora”, como disse o histórico líder venezuelano à época — e que condenou todos os envolvidos a dois anos de prisão, antes de serem libertados com um perdão.

“Na verdade, ele estava no grupo de tanques que tentaram forçar a entrada no palácio presidencial. Acho que isso nos dá uma boa ideia de quem ele é”, lembrou Elías Ferrer, diretor da consultora venezuelana Orinoco Research, à CNN. Quando Chavéz foi eleito Presidente, Diosdado integrou a suas sucessivas presidências, com vários cargos: em 2002, por ocasião da tentativa de um golpe de Estado contra Chávez, Cabello era vice-presidente. Ocupou, portanto, por apenas cinco horas a Presidência e deu ordem para que se facilitasse o regresso do Presidente ao país. A lealdade valeu-lhe o cargo de ministro do Interior.

Na última aparição pública de Hugo Chávez, pouco antes da sua morte, Diosdado Cabello era uma de duas figuras ao seu lado. A outra era Nicolás Maduro. Enquanto presidente da Assembleia Nacional, a Constituição venezuelana definia Diosdado como Presidente interino depois da morte de Chávez, mas o mandato foi para Maduro, que depois o renovou nas urnas. Foi o próprio Maduro que anunciou publicamente a morte de Chávez — e, ao seu lado, não estava Diosdado.

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▲ A Constituição apontava Diosdado Cabello como sucessor interino de Hugo Chávez

AFP via Getty Images

A transição de poder representou um passo atrás para Cabello, cujas visões políticas, ultranacionalistas, destoavam ligeiramente das dos seus pares, mais próximos de aliados como Cuba e Rússia. “[Cabello] perdeu capital político, uma espécie de ‘exílio interno do círculo íntimo'”, argumenta Brian Naranjo, antigo diplomata norte-americano à AFP. Mas Cabello não desapareceu dos holofotes. Manteve-se na Assembleia Nacional (como presidente e depois deputado) e cultivou uma ligação muito próxima com o público — principalmente através do seu programa de televisão.

“Con el mazo dando”: as críticas ao “senhor imperador”, ao “louco cubano” e a exaltação da pátria

O estúdio tem uma bandeira venezuelana, uma grande fotografia de Hugo Chávez e um quadro de cortiça do lado direito. O público, que ocupa todos os lugares, responde aos apelos do apresentador — e ministro —, com palavras de ordem e cânticos. O apresentador, com uma folha branca em punho atira críticas ao “senhor imperador” e à “‘gusanera‘ cubanoamericana em Miami”, da qual faz parte o “louco cubano” — tudo insultos para os “imperialistas” Donald Trump, Marco Rubio e para a comunidade cubana a que este pertence. Pelo meio, veem-se vídeos do “Comandante Presidente” e defende-se a “pátria”. É assim ao longo das quatro horas do 556.º episódio de “Con el mazo dando” (“Batendo com a moca”, em tradução livre).

O programa de Diosdado Cabello herda o nome da moca real que o ministro ergue em comícios e da ideia metafórica da força com que “bate” nos seus adversários políticos. O programa começou em 2014, depois da subida ao poder de Maduro, e é gravado ao vivo desde aí de forma regular. Se Hugo Chávez era conhecido pelo carisma e a retórica discursiva, a popularidade do programa mostra que Diosdado Cabello não herdou de Chávez apenas a ideologia. No episódio descrito, o único marco temporal no estúdio é uma grinalda decorada com bolas vermelhas, que indicia a proximidade do Natal — foi transmitido duas semanas antes do ataque norte-americano na Venezuela.

A emissão voltou ao ar na passada quarta-feira, mas o tom do 557.º episódio foi bem mais sombrio. Numa sala diferente, com fotografias de Simón Bolívar, Hugo Chávez e Nicolás Maduro, Cabello apresentou um programa bem mais curto, em que vincou o apelo à unidade do povo venezuelano contra a interferência dos Estados Unidos. Foi nessa transmissão que o ministro denunciou a morte de 100 pessoas nos ataques, incluindo civis — “as bombas não matam só chavistas“, declarou, condenando o que disse ser a morte indiscriminada de pessoas sem qualquer ligação ao regime.

Diosdado Cabello justificou o episódio atípico com o “dever moral” de contactar com o povo venezuelano, mesmo durante o “rapto do Presidente Nicolás Maduro e da companheira Cilia Flores”. Mas “Con el mazo dando” é mais do que uma crítica ao regime norte-americano e um elogio do chavismo — foi, em parte, graças ao programa, que Cabello conseguiu cultivar a lealdade do povo venezuelano e, mesmo longe do governo, manter-se no centro da vida política.

Colectivos, milícias e guerrilhas: “A ferramenta fundamental para continuar esta luta”

Foi precisa mais de uma década para Diosdado Cabello voltar a integrar um governo, desta vez liderado por Nicolás Maduro. O regresso fez-se em 2024, depois das eleições presidenciais reivindicadas por Maduro, mas apontadas como fraudulentas pela maior parte do mundo Ocidental. Cabello ficou, então, encarregue do Ministério do Interior, Justiça e Paz, o mesmo que já tinha coordenado entre 2002 e 2003. Como ministro do Interior, fazem parte da sua tutela todos os organismos de segurança e de informação do Estado, incluindo a polícia, todas as autoridades forenses e as várias agências de serviços secretos — são, ao todo, mais de 140 entidades. Mas além das autoridades do Estado, Diosdado Cabello controla ainda as forças paramilitares do regime — em particular, os “colectivos“.

Os “colectivos” têm origem em grupos de civis que se organizaram principalmente nos bairros das grandes cidades para combater pelas próprias mãos o aumento da criminalidade. Depois da tentativa de golpe em 2002, foram armados e instrumentalizados pelo regime chavista para combater e silenciar a oposição — a sua força é particularmente visível na repressão de protestos e manifestações. Os civis andam em pequenos grupos, de até algumas dezenas de pessoas, de cara tapada, vestidos de preto, em motas e fortemente armados — e respondem perante Diosdado, como foi visível no rescaldo do ataque, quando o ministro patrulhou as ruas de Caracas com um destes grupos.

Luis Cortéz, comandante de um destes grupos no centro de Caracas, realça a importância dos “colectivos” no atual contexto venezuelano. “Somos nós que somos chamados a defender o processo revolucionário de forma radical, sem hesitação — nós, os ‘colectivos’ somos uma ferramenta fundamental para continuar esta luta. Estaremos sempre a lutar e nas ruas”, afirmou, citado pelo Finantial Times. Mas o sentimento é partilhado com outro grupos paramilitares que operam no território venezuelano, como milícias e grupos de guerrilha.

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▲ De cara tapada, vestidos de preto e arma em punho, os "colectivos" ocupam as grandes cidades venezuelanas

Anadolu via Getty Images

Um dos mais emblemáticos é o Exército de Libertação Nacional (ELN), uma milícia de origem colombiana e ideologia marxista que também afirmou que continuaria a “confrontar os planos imperialistas contra a Venezuela e os povos do sul”. Luta anti-imperialista à parte, são muitas as diferenças entre as duas tipologias de forças paramilitares. Os ‘colectivos’ são grupos mais pequenos, sem treino formal, mas essenciais por funcionarem como uma “rede de informação e ameaça repressiva contra a população civil”, aponta Andrei Serbin Pont, analista do think tank CRIES, à CNN. Já as guerrilhas como o ELN são grupos “treinados, capazes e sofisticados”, aponta Elizabeth Dickinson, do Crisis Group, ao Finantial Times.

O verdadeiro poder dos grupos paramilitares vem da sua lealdade ideológica — neste caso, alinhada com ala mais radical do chavismo de Diosdado Cabello — e, principalmente da sua disseminação por todo o território. Enquanto os “colectivos” estão mais presentes nas cidades e funcionam para controlar e reprimir descontentamento nas zonas mais populosas, as guerrilhas ocupam o interior do país e são capazes de confrontos diretos. Sobrepostas estas diferentes capacidades, “todos os grupos armados têm o poder de sabotar qualquer tipo de transição apenas pelas condições de instabilidade que podem criar”, remata Andrei Serbin Pont ao Finantial Times.

No braço de ferro dentro de uma liderança tripartida, o peso das armas fala mais alto

Se Diosdado Cabello controla os grupos paramilitares, Vladimir Padrino López, ministro da Defesa, controla as Forças Armadas. Apesar de a organização do Exército o tornar resistente a golpes de Estado — mas não a ataques norte-americanos, sabe-se agora —, num confronto direto com os Estados Unidos, as Forças Armada venezuelanas não estão particularmente bem equipadas: têm pouco mais de 120 mil efetivos e pouco mais de três centenas de aparelhos, entre a Força Aérea, a Marinha e o Exército, dos quais a maior parte são da era soviética.

O braço mais importante das Forças Armadas é a Milícia Bolivariana, considerado o “Exército privado” do Presidente e que responde diretamente perante o chefe de Estado — e, na teoria, perante o ministro da Defesa. Apenas este grupo, com mais de 200 mil membros, é maior do que as Forças Armadas venezuelanas — o que mostra a preponderância das forças paramilitares também no Exército, dimensão em que são as segundas maiores da América Latina, só atrás de Cuba. Esta divisão é relevante pois ajuda a perceber que a liderança da Venezuela, outrora centrada em Maduro, se encontra agora dividida em três, entre Delcy Rodríguez, Vladimir Padrino López e Diosdado Cabello.

▲ Alguns analistas argumentam que Diosdado Cabello aspira a ficar com o lugar de Maduro

JUAN BARRETO/AFP/Getty Images)

Mas as leituras sobre o equilíbrio de poder neste grupo dividem-se. Alguns analistas consideram que a queda de Maduro deixou Cabello, com a sua posição mais radical, fragilizado, porque mostrou que “ninguém é intocável”. “Ou ele se modera, ou ele foi-se“, resume Brian Fonseca, professor da Florida International University, à CNN. Outros consideram que a pressão está sobre Delcy, porque o poder das armas, detido por Cabello e López, pesa mais. “Delcy pode ter o ouvido de Donald Trump, mas não tem as armas, e Cabello sabe disso”, argumenta Geoff Ramsey, do think tank Atlantic Council, ao Wall Street Journal. Nesta interpretação, qualquer cooperação com Washington que Rodríguez queira implementar (e já pediu uma reunião para a próxima semana na Casa Branca) depende da disponibilidade dos seus dois ministros.

Porém, se o poder pertence realmente aos “homens das armas” e não à Presidente, na comparação direta com o ministro da Defesa, Diosdado Cabello continua a ter uma vantagem: tem o poder paramilitar do seu lado, milhares de civis armados que, em caso de fratura interna, seguiriam Cabello, acreditam os analistas. Por outro lado, uma tentativa por parte dos Estados Unidos de retirar Cabello do jogo, atiraria estes grupos, e por conseguinte a Venezuela, para um cenário incerto mas que de certo poria em risco a “transição democrática” que Washington diz querer para a Venezuela. Por isso, “a verdadeira força de Cabello nas ruas é a de organizar os ‘colectivos’“, remata o diplomata Brian Naranjo — as sucessivas aparições públicas de Diosdado ao lado dos motoqueiros em Caracas mostram que o ministro conhece bem as suas próprias cartas.

A questão que resta é com que propósito Diosdado Cabello pretende utilizar essa força. Geoff Ramsey, do Atlantic Council, argumenta que este nunca desistiu de um dia (voltar a) ocupar o cargo de Presidente — a situação atual, e os rumores de uma cisão entre Rodríguez e Cabello, abrem portas a essa possibilidade. Outros analistas argumentam que apesar das prioridades contrárias, os apelos à união nos comícios e nas transmissões televisivas têm um fundo de verdade e começam pela cúpula política. “Eles sempre souberam que a sua unidade é absolutamente fundamental para a sua força”, declara David Smilde, analista na Universidade de Tulane, à AFP.

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