Gonçalo da Conceição Correia, o bombeiro que foi a enterrar esta quarta-feira no cemitério de Castanheira de Pera, era um homem pouco dado a angústias. Brincalhão, muitas vezes ria-se na cara do perigo. Com ele, era sempre para a frente.

“Houve uma vez que fomos apagar um fogo aqui na zona”, recorda João Maria, motorista dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera, onde já conta 25 anos de serviço. Nesta história, que aconteceu há um par de anos, João estava na agulheta — ou seja, segurava na parte da frente da mangueira — e Gonçalo estava mesmo atrás, a dar apoio. “Eu estava a apontar a mangueira para onde podia, a ver se apagava o fogo, mas de repente começou a cheirar-me a borracha queimada”, recorda João. Pensou que eram os pneus do camião dos bombeiros que estavam a derreter com o calor. “Oh, pá! Cheira à borracha queimada”, disse a Gonçalo. Este respondeu-lhe como era seu hábito: “É para a frente! É para a frente!”.

João continuou e Gonçalo, atrás, batia com os pés no chão, a um ritmo rápido. O impacto deste homem de envergadura generosa a bater no chão não passava despercebido, mesmo com um muro de fogo à frente. João estranhou e olhou para trás — e percebeu então que o cheiro a queimado não vinha dos pneus do camião, mas antes das botas de Gonçalo. Num repente, João desviou rapidamente a mangueira das labaredas que tinha em frente, apontou-a aos pés do camarada e apagou o fogo que este levava nos pés.

Bombeiros de várias corporações da região foram ao funeral de Gonçalo da Conceição Correia (Henrique Casinhas / Observador)

“Aaaai, ainda bem que te viraste!”, disse Gonçalo, já com os pés encharcados, aliviado da dor que não quis partilhar com João. E, logo a seguir, continuou: “É para a frente! É para a frente!”.

A vila de Castanheira de Pera foi em massa ao quartel para assistir ao velório de Gonçalo. Numa das garagens, o corpo do homem de 40 anos, marido e pai de um filho, permanecia dentro de um caixão fechado, e à volta dele uma multidão. Além de familiares e companheiros de farda, vários habitantes alimentavam um burburinho constante que ecoava pelos quatro cantos da sala. Em pormenor, as conversas não variavam muito.

“Como está a tua casa e os teus?”, pergunta uma mulher a um amigo que acaba de entrar na garagem do velório. Abraça-se a ele, ambos seguram as lágrimas.

— “A minha está bem, a minha está bem. Mas houve umas lá à volta que arderam”, responde, ainda abraçado.
— “E os teus como estão?”
— “Está tudo bem, graças a Deus.”

O velório de Gonçalo, foi a primeira oportunidade que muitos dos habitantes de Castanheira de Pera tiveram para se juntar e, enfim, falar do que se passou. No sábado, um incêndio começou na aldeia de Escalos Fundeiros e daí só parou quando já atingia um perímetro de 107 quilómetros, distribuídos por três concelhos: Pedrógão Grande, Góis e Castanheira de Pera. Morreram 64 pessoas — todos civis, à exceção de Gonçalo. Agora, o seu nome junta-se ao de António Salgueiro Henriques — que, até este incêndio, foi o único bombeiro de Castanheira de Pera que perdeu a vida em serviço. Já lá vão mais de 50 anos.

Sandra, mulher de João Maria, sempre quis ser bombeira. Porém, a cada uma das três vezes que ficou grávida teve de adiar o sonho de se fardar ao lado do marido. Este ano, enfim, entrou para os Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera. É estagiária — e por isso não pode ir para o terreno.

No sábado em que o incêndio começou, acompanhou tudo o que se passava a partir do quartel, onde ouvia as comunicações por rádio. “Belo ano para começar, não é?”, ironiza. Durante esse tempo em que permanecia à escuta, prestou particular atenção ao que passava com o seu marido, que já estava no terreno. João Maria foi enviado precisamente para Escalos Fundeiros, onde o fogo começou.

“A certa altura, ouvi no rádio que o meu marido ficou totalmente rodeado por fogo”, conta Sandra. Temeu pela vida do marido. No final do dia, ele voltou são e salvo. Noutra zona, Gonçalo tinha ficado gravemente ferido na sequência de um choque com um carro — as circunstâncias são ainda desconhecidas. Foi levado para o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, onde foi sujeito a ventilação e a uma intervenção cirúrgica. Morreu na segunda-feira.

(Henrique Casinhas / Observador)

A Sertório Costa, adjunto do comando dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera, ainda custa falar de Gonçalo. “Para falarmos nele, temos de fazer isso noutro dia”, diz. Esta foi a primeira vez que um membro daquele corpo de bombeiros morreu em serviço — e, com isso, surgem perguntas. “Como? Eu gostava de saber como é que uma coisa destas acontece”, diz Sertório. “E porquê, já agora. Porquê a nós?”

Após a morte de Gonçalo, o apoio psicológico aos bombeiros redobrou. Sertório nunca tinha sido ouvido por nenhum especialista. “Nunca senti necessidade”, justifica. Agora, sentiu. “Nós vamos para lá e falamos do que queremos, berramos, choramos, fazemos o que queremos. Deitamos tudo para fora.” Depois, garante, segue em frente. “É o que o Gonçalo dizia sempre e é o que nós temos de fazer”, assegura. “Temos de ir buscar forças onde não temos.”

O luto de bombeiros, familiares e políticos

Por momento, a multidão à porta do quartel abre-se a pedido de dois seguranças altos e espadaúdos. Daí, surge Marcelo Rebelo de Sousa e Eduardo Ferro Rodrigues e, atrás deles, vários políticos. António Costa, Pedro Passos Coelho, Jerónimo Sousa, Catarina Martins, Assunção Cristas. Além destes, também está a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa. Foi a primeira a chegar — e quando o fez, desdobrou-se em longos abraços com bombeiros. Assim que os políticos estão todos juntos, seguem, a passo apressado, em direção à igreja. À sua volta, um enxame de câmaras televisivas.

Marcelo Rebelo de Sousa chegou ao velório acompanhado de Eduardo Ferro Rodrigues (Henrique Casinhas / Observador)

Para trás, ficam os habitantes de Castanheira de Pera. Só às 18h10, quando soa a sirene do quartel, é que o caixão de Gonçalo é levado em ombros pelos seus camaradas. Ao lado, duas filas de bombeiros de outras corporações fazem uma guarda de honra. Depois, uma multidão de civis segue o cortejo fúnebre. Também Faia, o cão de estimação do quartel dos bombeiros, se junta no caminho.

Chegados à igreja de Castanheira de Pera, no topo de uma colina, os bombeiros tornam a formar duas filas em torno do caixão. Do lado direito, está a família de Gonçalo. Do lado esquerdo, as entidades oficiais. No altar, entre outros, o bispo de Coimbra, Virgílio Antunes.

A ministra Constança Urbano de Sousa foi a primeira entidade oficial a chegar, e foi abraçando os bombeiros (Henrique Casinhas / Observador)

“A causa que abraçaram é uma causa muito nobre, porque põe as pessoas voltadas para o seu semelhante”, diz o padre aos bombeiros. Muitos deles, seguem a missa com um olhar vazio, não raras vezes também com lágrimas. “Obrigado, Gonçalo, ao serviço que prestais à comunidade”, remata o bispo, que de seguida exorta os fiéis a darem o abraço da paz — o momento da missa em que os fiéis se cumprimentam. Entre si, os bombeiros trocam abraços demorados, enquanto a maior parte das pessoas já canta: “Tende piedade de nós”. Marcelo Rebelo de Sousa procura apertar a mão dos bombeiros que tem do seu lado.

À saída da igreja, o caixão de Gonçalo é levado novamente em ombros, com bombeiros de várias corporações a marcarem o caminho. O cemitério, que fica na base da colina da igreja, foi pequeno para tantas pessoas. Por fim, rodeado de familiares, camaradas e também dos políticos que assistiram à cerimónia, o corpo de Gonçalo desce à terra. Quando chega esse momento, irrompe uma salva de palmas. Ao fundo, na estrada, passa uma carrinha dos bombeiros.

O momento mais emotivo da cerimónia fúnebre. (Henrique Casinhas / Observador)

O regresso para o quartel faz-se em silêncio. Os bombeiros abraçam alguns dos seus companheiros lavados com as lágrimas que ao início do velório conseguiram conter. A caminho da base, uma bombeira que não se quis identificar, diz que hoje o quartel está dispensado de ir combater os fogos. “Mas não é por estarmos dispensados que a gente não vai”, diz. “Há quem vá. Às vezes, é o melhor que temos a fazer.”

Por agora, a tarefa será menos árdua. No dia em que Gonçalo foi a enterrar, o quinto funeral da história do maior incêndio que o país já teve, o fogo foi dado como dominado. Pode haver um simbolismo aqui? Pode. Mas, para esta bombeira, que fuma nervosamente um cigarro enquanto regressa ao quartel, ainda é cedo para momentos simbólicos. “O que eu sei foi que ele morreu a ajudar pessoas.”