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O FAIR é o centro de investigação em inteligência artificial do Facebook e foi criado em 2013. Tem escritórios em Nova Iorque, Menlo Park, Paris e Montreal.

O FAIR é o centro de investigação em inteligência artificial do Facebook e foi criado em 2013. Tem escritórios em Nova Iorque, Menlo Park, Paris e Montreal.

O Facebook garante: a inteligência artificial não nos quer matar a todos

Fomos a Paris conhecer o centro de investigação em Inteligência Artificial do Facebook, o FAIR. O mais importante ficou claro: "Mais depressa temos máquinas bondosas" do que assassinas.

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Guerra, caos, destruição e Arnold Schwarzenegger. Hollywood não passa o melhor cenário sobre inteligência artificial. Filmes como o “Exterminador Implacável” nem no nome poupam quanto ao ascender inevitável de robôs assassinos. Mas a verdade é que hoje já temos aspiradores inteligentes que limpam casas, carros autónomos que andam nas estradas e chats automáticos que respondem que top rosa devemos comprar online. Parece que a guerra pelo domínio da Terra ainda se batalha apenas entre felinos e aspiradores autónomos. Mas em Sillicon Valley há quem espere o pior.

Elon Musk, presidente executivo da Tesla e da SpaceX, é um dos que mais se tem preocupado com o tema. O fatalismo do magnata tecnológico é tanto que levou a uma “troca de galhardetes bilionária” com Mark Zuckerberg no Twitter, acusando o fundador do Facebook de alguma ignorância no que diz respeito a sistemas artificialmente inteligentes.

A discussão entre os empresários de Sillicon Valley foi suficiente para se perceber que o tema está na ordem do dia entre quem manda na indústria tecnológica. Exemplo disso é o investimento de Zuckerberg nesta área, que até já está a estudar inteligência artificial com a ajuda de Morgan Freeman. Contudo, é nos centros de investigação do Facebook que o verdadeiro trabalho é feito.

Em 2013, percebendo as potencialidades do mercado de inteligência artificial, Mark Zuckeberg criou o Centro de Investigação do Facebook em Inteligência Artificial (a sigla em inglês é FAIR). Foi com uma chamada a Yann LeCun, reputado professor de computação na Universidade de Nova Iorque (NYU), que tudo começou. Mark quis que LeCun liderasse uma equipa de investigação. O “sim” chegou com duas condições: a primeira era que continuaria a dar aulas na NYU; a segunda implicava continuar a trabalhar em Nova Iorque.

Quatro anos depois, o FAIR tem centros não só em Nova Iorque, mas também na Califórnia, Paris e, desde setembro, em Montreal, no Canadá. Ao todo, emprega 110 cientistas. Foi nos escritórios franceses — onde não faltam referências à cultura americana e francesa — que o Observador foi recebido por LeCun, Antoine Bordes (líder de investigação em Paris) e pelos investigadores Marco Baroni e David Lopez-Paz.

escritórios facebook paris

Nos escritórios da Facebook em Paris todas as salas têm nomes temáticos proposto pelos funcionários como “Barack e Michelle” ou “Amélie Poulain”

No encontro com jornalistas, não foi preciso muito tempo para surgir a fatídica questão: vai a inteligência artificial matar-nos a todos? O diretor do FAIR começou por referir que “todas as tecnologias têm boas e más utilizações”, dando como mau exemplo os algoritmos que discriminam pessoas com base na raça ou orientação sexual. No entanto, quanto a uma Skynet e robôs que querem matar humanos, deixa os utilizadores descansados: “mais rapidamente temos máquinas bondosas” do que assassinas.

Dando o exemplo dos orangotangos, LeCun explica que é possível haver inteligência sem sociabilidade. “Todos os receios partem de se achar que a inteligência artificial terá automaticamente traços humanos”, diz. Mas esse é um cenário hipotético que está a “muitos, muitos anos” de distância. “Para computar o mesmo que um cérebro humano são precisos processadores um milhão de vezes mais potentes e que consumam um décimo da energia”, diz o professor, relembrando que a tecnologia de chips “já está saturada”.

Para o académico, a falácia sobre o perigo da inteligência artificial é pensar-se que “elas [as máquinas] querem acesso ao poder, aos recursos, que são curiosas e têm instintos de autopreservação”. O problema é que “tudo isso são características humanas impressas nos cérebros por milhões de anos de evolução”, diz. E para isso acontecer “era preciso sermos capazes de construir esses traços nas máquinas”.

"Vamos ter máquinas benevolentes que sejam tão espertas como um gato, muito antes de conseguirmos sequer perceber como fazer máquinas inteligentes como os humanos"
Investigadores do FAIR

Usando uma comparação com felinos, LeCun explica que os gatos conseguem construir modelos físicos do mundo. “São incríveis físicos intuitivos. Tem modelos fantásticos sobre como saltar de ponto A para ponto B sem caírem ou derrubarem objetos, embora às vezes o façam, mas propositadamente”, diz entre risos. Quanto tempo vai demorar para que as máquinas consigam fazer o mesmo? “Pode demorar cinco, dez ou 20 anos. Precisamos de mais descobertas e não sabemos sequer como as fazer”, explica.

Esperem, mas vai a inteligência artificial tirar-nos o emprego?

Apesar de académicos como LeCun serem otimistas quanto à inteligência artificial, Musk e outros cientistas continuam pessimistas com os eventuais malefícios. Para o diretor do centro do Facebook, os verdadeiros malefícios estão na economia e no desemprego que esta tecnologia pode criar.

“É um problema político”, diz Yann LeCun. “Como vai ser distribuída a riqueza criada pela inteligência artificial? Só por alguns? Para a humanidade?”, questionou, assumindo que também ele não tem respostas. “Sou um cientista, não sou um político”, justificou. Apesar de alguns empregos ficarem obsoletos, o diretor do FAIR afirma que há outros (novos) que vão aparecer. “O desemprego tecnológico não cresce exponencialmente, porque a penetração de uma nova tecnologia no mercado também é limitada pelo quão rápido as pessoas conseguem adquirir novas competências para a utilizar”, explicou.

"Muito provavelmente, um camionista, daqui a 20 anos, não vai trabalhar na mesma empresa, graças aos carros automáticos [o FAIR não trabalha diretamente nesta aplicações], mas vão surgir empregos que ainda nem concebemos"
Yan LeCun, diretor do FAIR

Quanto à ideia de os humanos virem a ser substituídos por máquinas, os outros investigadores também não se mostraram preocupados. Uma das razões pela qual acreditam que isso não vai acontecer é porque é urgente que haja pessoas qualificadas para trabalharem com inteligência artificial. “Só em 10 anos a procura levou a que o número de estudantes de inteligência artificial na Universidade de Nova Iorque quadruplicasse”, explicaram. Engenharia Informática, Linguística Computacional, Física, Mecânica, Neurociência ou Matemática pura são apenas algumas das áreas nas quais os cientistas que trabalham com o FAIR se especializaram. Cada vez mais há áreas de estudo que estão a cruzar conhecimento com a investigação em inteligência artificial. Outra razão para reduzir a preocupação com o desemprego é o facto de a evolução tecnológica precisar sempre de adaptação.

Perigosa para a economia ou não, a inteligência artificial já está a ser utilizada num grande número de máquinas. De chats automáticos na Internet a neuroprocessadores nos nos smartphones (que podem traduzir voz instantaneamente sem aceder à rede), hoje já é possível conviver e falar com computadores. Ainda estamos muito longe de ter assistentes virtuais que pensem por si, mas, para isso, o FAIR continua a fazer investigação.

“Todo o trabalho de bastidores do Facebook já é feito por inteligência artificial”

A inteligência artificial já “manda” na maior rede social do planeta, garantiram os investigadores do FAIR. LeCun afirma que “todo o trabalho de bastidores do Facebook já é feito por inteligência artificial”. Os números são notáveis: as 1,5 mil milhões de fotografias que são carregadas diariamente na rede social passam todas por programas de reconhecimento de imagem. Este sistemas de reconhecimento são os que previnem que imagens ligadas a terrorismo, pornografia infantil ou violência de animais cheguem ao feed dos utilizadores.

No entanto, estes sistemas não são 100% eficazes. Ativistas ou utilizadores que publiquem comentários racistas podem ser censurados indevidamente. Por isso, há sempre pessoas a ajudar os algoritmos a fazer o seu trabalho. Os sistemas automáticos que filtram estes dados classificam termos e expressões, criando uma lista dos conteúdos mais usados. Hoje, os utilizadores ainda podem ser afetados por estes pequenos erros, mas graças ao trabalho de aprendizagem dos algoritmos, estas falhas “são cada vez menores”, explicou-nos LeCun. Mesmo assim, o Facebook continua a contratar milhares de pessoas para ajudarem as máquinas.

A utilização da inteligência artificial na maior rede social do planeta não se esgota aqui. Demonstrando um “sentido de missão”, os investigadores sublinham aquela que é a filosofia de Zuckerberg: “ajudar a conectar todas as pessoas do mundo”. Para isso, nos últimos dois anos, o Facebook tem lançado várias ferramentas de tradução simultânea em todas as línguas.

O que são Chatbots?

Mostrar Esconder

Entre as aplicações mais conhecidas de Inteligência Artificial estão os chatbots. Na prática, são algoritmos inteligentes que conversam em chats com guiões pré-feitos, que identificam a questão do utilizador e lhe respondem. Antoine Bordes, que trabalha no FAIR em melhores aplicações destes chatbots, explica que não são verdadeiramente inteligência artificial. “Numa semana com uma equipa de guionistas era possível fazer um chatbot que respondesse como um humano à maioria das questões que lhe são feitas, mas isso não cria aprendizagem nos programas”, explica o investigador. É um “programa mecânico”. Para que um robô pense em questões “inteligentemente” ainda são precisas mais descobertas.

Apesar de “estar longe de ser perfeito”, a plataforma já consegue traduzir publicações “numa linguagem que um utilizador entenda”. Um dos trabalhos do FAIR no último ano foi o de alterar os algoritmos de tradução para fórmulas que “aprendessem” sozinhas, recorrendo a um sistema baseado em “deep learning” (em português, aprendizagem profunda): tecnologia que é aplicada graças às novas capacidades de processamento dos computadores. Na prática, são cálculos que conseguem “lembrar-se” de termos e conectá-los automaticamente. Quantos mais termos aprendem, mais inteligentes ficam. São estes algoritmos em deep learning que também são aplicados na filtragem de imagens.

Para melhorar os sistemas de deep learning, o FAIR aposta na aprendizagem através de videojogos. Depois de a Google ter vencido o sofisticado jogo “Go” com um sistema artificialmente inteligente, os esforços para ensinar as máquinas a aprender passam por pôr os programas a jogar um videojogo de estratégia em tempo real muito conhecido na Coreia do Sul, o Starcraft. Graças ao grau de complexidade e possibilidades, o jogo tem permitido aos investigadores perceber como estes sistemas podem aprender melhor e adaptar-se a várias situações. Nos escritórios do FAIR, em Paris e Nova Iorque, há máquinas a jogar constantemente.

Em terra de cegos, quem tem olho é rei. Com a inteligência artificial, todos na Internet são reis

No FAIR joga-se, mas também se utiliza a inteligência artificial em causas mais nobres Para conectar todas as pessoas, o Facebook também tem de ser visto por quem não consegue ver. Segundo o diretor do FAIR, as “descobertas são usadas para tornar a Internet mais acessível a todos”. Um dos grandes trabalhos da equipa de investigação é desenvolver ferramentas de leitura de imagens e conteúdos para cegos, que têm sido integradas na plataforma nos últimos dois anos.

Atualmente, é possível os sistemas do Facebook lerem o conteúdo de texto (comentários, posts e quem pôs “gosto”) e explicarem ao utilizador invisual que imagem aparece no ecrã. Esta capacidade é possível graças ao sistema de reconhecimento de imagem, que faz os investigadores do FAIR gabarem-se de ser o “melhor”. Sendo Yan LeCun precursor destas ferramentas, que são usadas em telemóveis e – para pena do académico – em armas de guerra, o centro de investigação é dos que mais investe no seu melhoramento. A aposta tem permitido que os utilizadores cegos também possam utilizar o Instagram (rede social de partilha de imagens que pertence ao Facebook).

É com base neste princípio de “acesso de todos à Internet”, que o FAIR disponibiliza a todos o código de maior parte dos programas e descobertas. Um grande número de startups usa ferramentas do centro de investigação em transportes, serviços de saúde e segurança.

É isto que também liga os investigadores do FAIR aos de empresas como a Microsoft, Apple ou Google, que escrevem vários artigos científicos sobre os avanços em inteligência artificial em conjunto. Apesar de (normalmente) não mostrarem aplicações práticas da tecnologia, LeCun afirma que “não há uma corrida pela inteligência artificial, porque todas as empresas trabalham em prole de mais conhecimento”. Apesar de haver um aumento de produtos de I.A. no mercado, o trabalho do FAIR é, principalmente, “o de aumentar o conhecimento”. Além disso, dizem os investigadores, continuam a garantir que a inteligência artificial não nos vai matar a todos.

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Na imagem, Yann LeCun à esquerda, com Antoine Bordes (Investigador Principal FAIR Paris) à sua direita, seguido de Marco Baroni (Investigador FAIR Paris) e, o último à direita, David Lopez-Paz (Investigador FAIR Paris)

*O Observador viajou aos escritórios da Facebook em Paris a convite da empresa.

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