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No interior de uma montanha, enterrada a 90 metros abaixo do solo e fortificada. É assim que a central nuclear de Fordow, no Irão, foi projetada e é assim que — pelo menos até agora — é mantida a salvo dos ataques israelitas, que têm precisamente como alvo não só esta central, mas também outras instalações nucleares iranianas.
Na justificação do ataque de Israel ao Irão, que começou na passada sexta-feira, Benjamin Netanyahu afirmou que agiu para impedir um programa secreto iraniano de construção de uma bomba nuclear. Foi mais longe a garantir que Teerão tinha, pelo menos até ao momento da ofensiva israelita, material para construir nove bombas nucleares.
“O que está em causa é travar as coisas que ameaçam a nossa sobrevivência. E estamos empenhados em acabar com elas. Penso que podemos consegui-lo”, assegurou o primeiro-ministro israelita, numa entrevista citada pelo Times of Israel, nas horas que se seguiram ao ataque por si ordenado.
Várias fontes israelitas afirmam também que já apresentaram informações aos EUA que provam que o Irão tem feito recentemente os avanços técnicos necessários para, precisamente, construir uma, ou mais do que uma, bomba nuclear.
Foi por isso, aliás, que definiram como alvo nove cientistas que alegadamente trabalhavam no programa nuclear do Irão, além de vários generais com altos cargos nas Forças Armadas iranianas que estariam responsáveis por esta pasta.
Sabe-se também que Israel terá atingido duas das principais centrais nucleares iranianas, em Natanz e Fordow. Numa primeira avaliação, foi o próprio diretor da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) a garantir que locais estratégicos estratégicos no subsolo não foram atingidos, com danos a ser registados à superfície. No entanto, soube-se esta terça-feira que foram “identificadas novas provas que mostram impactos diretos nas salas subterrâneas” da instalação nuclear iraniana de Natanz, na sequência de ataques de Israel.
Mas o que se sabe sobre o poder nuclear do Irão que serviu de justificação para a escalada do conflito? O país tem urânio suficiente para produzir uma bomba atómica? Onde está escondido este material? E tem Israel capacidade para chegar até ele?
Que reservas de urânio tem o Irão e o que representam?
No último relatório trimestral da Agência Internacional de Energia Atómica, com data de 31 de maio, as reservas iranianas de urânio enriquecido a 60% foram estimadas em mais de 408 quilos — a tal quantidade que se estima ser suficiente para produzir nove ogivas nucleares.
Com esta percentagem de enriquecimento, não é possível, no entanto, produzir uma bomba nuclear, só se fica mais perto disso. A concentração de urânio tem de atingir 90% para que o uso nuclear seja possível, destaca o EL País.
A AIEA entende que, “embora as atividades de enriquecimento salvaguardas [por serem monitorizadas] não sejam proibidas por si só, o facto de o Irão ser o único Estado sem armas nucleares no mundo a produzir e armazenar urânio enriquecido a 60% continua a ser um motivo de séria preocupação”.
É, aliás, este recente relatório que Israel está a usar como base documental para justificar os ataques aéreos que iniciou na sexta-feira contra o Irão. Mesmo que o relatório assegure que “não há nenhum indício confiável de um programa nuclear estruturado não-declarado em andamento”.
Onde e como está guardado o poder nuclear iraniano?
O Irão administra vários locais de produção e armazenamento de urânio — os três principais localizam-se em Natanz, Fordow e Isfahan — e é nestas centrais que tem guardado os tais mais de 400 quilos do recurso energético enriquecido, com potencial nuclear.
As três centrais foram por isso um dos principais alvo de Israel na primeira leva de ataques aéreos e em todas elas se registaram danos extensos, na sequência da ofensiva de sexta-feira passada. No entanto, só esta terça-feira foi revelado que, em Natanz, os danos não se ficaram pela superfície, como inicialmente reportado, mas chegaram também a algumas das salas subterrâneas da instalação nuclear.
Por outro lado, na central de Fordow não há para já registos de danos no subsolo. Seria sinal de alerta se assim fosse, já que esta instalação nuclear é a que o Irão mais fortificou. Está enterrada a uma profundidade de entre 80 a 90 metros abaixo do solo e foi construída no interior de uma montanha precisamente para ficar protegida de um ataque.
AFP via Getty Images
A central está localizada a cerca de 160 quilómetros a sul da capital do Irão, Teerão, e é uma de duas centrais nucleares — em conjunto com a de Natanz — que faz enriquecimento de urânio. A AIEA estima que tenha no seu interior cerca de três mil dispositivos de centrifugação em funcionamento para enriquecer a matéria-prima, que tanto pode servir para produzir energia como para construir bombas atómicas.
Os principais edifícios da central estão enterrados, pelo que apenas é possível aceder até aos mesmos através de túneis, como se informa em várias plantas do local. À superfície ficam apenas as entradas que dão acesso ao espaço subterrâneo, o checkpoint para quem se desloca até ao local e um edifício de apoio à atividade que ali decorre.
Além da evidente proteção que a localização debaixo de terra confere às instalações nucleares, Fordow é cercada por defesas antiaéreas. Torna-se assim, graças a todas estas camadas de proteção, aparentemente impenetrável.
É por isso um dos principais símbolos da resistência iraniana. Como destaca o The Telegraph, se Israel realmente quiser desmantelar a capacidade nuclear do Irão — como Netanyahu assegurou que pretendia fazer através da recente ofensiva — vai mesmo precisar de atingir e desativar a central nuclear de Fordow.
Israel tem capacidade para desativar a central nuclear mais fortificada do Irão?
À luz do que se sabe atualmente existe apenas uma tipologia de bombas anti-bunker — as GBU-57 E/B Massive Ordnance Penetrator, de 13.600 quilos — com capacidade para causar danos significativos às estruturas subterrâneas da central nuclear de Fordow, no Irão. É a bomba não nuclear mais poderosa do mundo, destaca o Financial Times.
Como assinala o New York Times, este tipo de armamento é, neste momento, apenas detido pelos EUA. Sabe-se também que os norte-americanos têm impedido que Israel tenha acesso a estas bombas, uma vez que este míssil representa uma oportunidade de chegar à mais protegida central nuclear no subsolo do Irão e de causar um eventual desastre nuclear.
Além de (ainda) não ter acesso à arma que precisa, o país liderado por Benjamin Netanyahu também não possui bombardeiros militares com capacidade de carga para transportar este armamento de grandes dimensões. É por isso mesmo que tem grande relevância a decisão do Presidente Trump, em relação à eventual intervenção dos EUA no conflito.
O acesso israelita ao “destruidor de bunkers” norte-americano, que só pode ser lançado por bombardeiros B-2 americanos, faria dos EUA participantes diretos do novo conflito no Médio Oriente. Uma posição que Trump tem tentado evitar, prosseguindo até agora com as negociações nucleares com o Irão.
Como funciona a bomba capaz de destruir a central nuclear de Fordow?
Acredita-se que a bomba capaz de penetrar Fordow, conhecida como “destruidor de bunkers” por ter sido concebida para destruir bunkers subterrâneos profundos ou armas enterradas em instalações altamente protegidas, será a única com hipótese real de Israel destruir o local.
Trata-se de um míssil de seis metros que começa por detetar o seu alvo. De seguida, ativa uma carga precursora que detona para perfurar a superfície de impacto — no caso de ser lançada contra Fordow, terá de perfurar a superfície montanhosa até uma profundidade de 90 metros. Lança por fim uma bomba com fusível retardado que se separa do míssil e detona pela segunda vez já no interior do alvo, descreve o The Telegraph.
O seu invólucro de aço espesso contém uma quantidade menor de explosivos do que as bombas comuns, permitindo que a munição permaneça intacta ao perfurar o solo, a rocha ou o betão, antes de detonar.
E, mesmo assim, não é totalmente garantido que esta arma complexa seja suficiente para destruir a instalação de Fordow, embora a bomba tenha sido desenvolvida para esse propósito específico. Rafael Grossi, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, em declarações ao Financial Times, admitiu que algumas das instalações mais sensíveis de Fordow podem estar enterradas ainda mais fundo, até 800 metros abaixo do solo.
“Já estive lá muitas vezes”, afirmou . E acrescentou: “Para se chegar lá, entra-se num túnel em espiral que desce, desce, desce”.
Apesar das incertezas, esta parece ser a única hipótese real que Israel tem de causar algum tipo de dano ao depósito de urânio iraniano. Sem acesso a esta arma, que parece ser a única eficaz para a destruição efetiva da central nuclear de Fordow, Israel pode sempre aproximar-se do objetivo que traçou atingindo centrais de produção e transmissão de energia mais acessíveis e que afetam as centrais de enriquecimento de urânio. Não chegará mesmo é ao core da produção nuclear iraniana sem o trunfo norte-americano.
Como o Irão desenvolveu a sua capacidade nuclear nos últimos anos?
Ao longo dos anos, a narrativa do Irão foi sempre a mesma: o seu programa nuclear é totalmente pacífico e o país não anda à procura de desenvolver uma arma nuclear. É certo que o Irão não possui atualmente uma bomba nuclear declarada, mas há quem afirme que tem já matéria-prima e desenvolvimento tecnológico capaz de construir em pouco tempo pelo menos nove ogivas nucleares.
Segundo a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o país tem acumulado urânio enriquecido a 60% de pureza, num patamar próximo à quantidade necessária (90%) para desenvolver armamento nuclear. Foi este agência que, no final da década de 80 e até 2003, encontrou evidências de que o Irão conduziu “uma série de atividades relevantes para o desenvolvimento de um dispositivo explosivo nuclear”, recorda a BBC.
Até 2009, o Irão terá continuado a realizar atividades relacionadas com a exploração de urânio que violavam as regras internacionais, mas, em 2015, fechou um acordo com seis potências mundiais, incluindo os EUA, segundo o qual aceitou restrições à sua atividade nuclear e permitiu uma monitorização rigorosa pelos inspetores da AIEA em troca de alívio das pesadas sanções económicas que lhe estavam a ser aplicadas por diversos países.
Os principais limites impostos com o acordo de 2015 abrangiam a sua produção de urânio enriquecido, que é usado para fabricar combustível para reatores nucleares — para produção de energia — mas também, em determinados níveis de enriquecimento, para o desenvolvimento de armas nucleares.
Em 2018, Donald Trump, durante o seu primeiro mandato, abandonou o acordo nuclear que os EUA e vários países europeus mantinham com o Irão. Na altura, defendia que era ineficaz na prevenção da construção de uma bomba, acabando por restabelecer as sanções económicas dos EUA ao país.
Desde aí, o Irão retomou as atividades de enriquecimento de urânio na sua fábrica de Fordow, que estavam paradas desde a entrada em vigor do acordo nuclear internacional alcançado em Viena, em 2015.
Pode o reacender do conflito por Israel ser contraproducente para a dissuasão nuclear?
Independentemente de o Irão estar ou não a ser transparente em relação à sua verdadeira capacidade e prontidão nuclear, a verdade é que, como apontam vários especialistas, os ataques israelitas podem tornar-se contraproducentes em relação ao objetivo primário que Israel alegou, que seria o de dissuasão nuclear.
Com a escalada do conflito, Israel pode, na verdade, estar a empurrar o Irão para a produção de uma arma nuclear com o material e conhecimento técnico que o país detém, como meio de se defender dos ataques do país vizinho.
Na rede social X, Trita Parsi, vice-presidente do think tank americano Quincy, que acompanha há 20 anos o conflito entre o Irão e Israel e a produção nuclear iraniana, afirmou que nunca tinha visto “multidões no Irão a apelar desta forma à obtenção de armas nucleares”.
In the 20 years I have followed this issue, I have never seen crowds in Iran calling for getting nukes like this.
These sentiments raise the cost for the gov to compromise on the nuclear issue, if talks ever resume…https://t.co/6ZfhATXZLX https://t.co/Yl68si6mgm
— Trita Parsi (@tparsi) June 14, 2025
Partilhou um vídeo de protestos e garantiu: “Estes sentimentos aumentam o custo para o governo de chegar a um compromisso sobre a questão nuclear.”