O mundo do futebol, na primeira metade do século XX, era muito diferente do que é hoje. Não é preciso regressar à origem, aos aristocratas ou altos-burgueses que o praticavam no CIF ou no Sporting; mesmo em clubes com um berço menos distinto, a cepa dos grandes protagonistas desportivos é absolutamente fascinante. Não se trata apenas de uma aliança entre um ideal cavalheiresco e o desportivismo quase altivo dos sportsmen, que enquadraria o desporto num espírito aristocrático; há mais do que isso. Os protagonistas desportivos das primeiras décadas do século oferecem-nos um friso de personalidades ecléticas, com interesses variadíssimos, que também ajudam a perceber a sociedade e o lazer de princípios de novecentos.
Ora, nesse aspeto, não há clube com uma história mais rica do que o Sport Lisboa e Benfica. O Benfica do princípio do século não vem, obviamente, dos mesmos grupos sociais (embora o futebol seja, de facto, muito agregador e, já na época, responsável por uma certa mistura social) que um CIF, fundado pelos Pinto Basto, família de negociantes já há muito, ou que um Sporting; trata-se de um clube fundado numa farmácia, um pequeno negócio do género daqueles que constituirão a base de apoio pequeno-burguesa do republicanismo em Lisboa, cuja primeira figura de relevo, Cosme Damião, é um ex-casapiano, funcionário da Casa Palmela, tal como casapiano será outra das grandes figuras do clube, Cândido de Oliveira, pelo que não há, da parte do clube, nenhuma pretensão aristocrática.
É assim extraordinário que seja precisamente no Benfica que se encontre uma fortíssima ligação entre o desporto e as letras. Será de antigos jogadores do Benfica, Cândido de Oliveira (que escreverá também um livro sobre o Tarrafal e cuja imagem se ligará, na verdade, a todo o futebol português, já que, depois de jogar e treinar no Benfica, se tornará treinador do Sporting, selecionador nacional, chefe de uma delegação olímpica e até, nos anos cinquenta, um antecessor de Jorge Jesus, como treinador do Flamengo!) e o tenente-coronel Ribeiro dos Reis (este sim, figura maior do clube em todos os aspetos, seja como jogador, treinador ou dirigente) que nascerá o jornal A Bola, durante tanto tempo uma referência desportiva, sim, mas também estilística, com Homero Serpa ou Rui Tovar, por exemplo.
▲ A capa do primeiro número do jornal "A Bola", de 29 de janeiro de 1945; uma primeira página do "O Sport de Lisboa", neste caso de 11 de janeiro de 1929
Mas mesmo antes de A Bola, o primeiro periódico desportivo português, fundado em 1913, chama-se O Sport de Lisboa, e é propriedade do Benfica. Note-se que não se trata de um jornal sobre o Benfica; é o próprio clube que, irritado com a cobertura que os jornais tradicionais dão ao movimento desportivo, decide lançar um periódico que cubra imparcialmente o desporto. É certo que o editor é Ávila de Melo, secretário da direcção e futuro presidente do clube, e que os seus redatores estão todos ligados ao Benfica; no entanto, é um jornal eclético – a ponto de, a certa altura, se desligar do clube – com uma particularidade muito curiosa: o grande obreiro do jornal, que se torna rapidamente seu redator quase exclusivo ainda no ano de 1913, é um dos grandes jornalistas e olissipógrafos do século, que poucas vezes associamos ao futebol e ao desporto: Norberto de Araújo, autor das monumentais Peregrinações em Lisboa, e um dos mais populares jornalistas de meio do século, começou a sua carreira precisamente n’O Sport de Lisboa.
O futebol e as letras
A associação entre escritores e o Benfica contudo, não se cinge à escrita desportiva; o Benfica terá como presidente, ainda nas primeiras décadas de existência, um curiosíssimo escritor, figura das mais representativas do baixo-relevo intelectual da Lisboa do princípio do século: Bento Mântua, um dramaturgo de revista, cuja grande obra será, provavelmente, O Livro das Cortesãs, uma antologia de poetas portugueses e brasileiros, publicada com Albino Forjaz de Sampaio, com uma longa introdução quase barroca, enfeitada no estilo pomposo da época, sobre o lúbrico papel das prostitutas ao longo da história e em redor do mundo.
Mais interessante ainda, porém, é o outro dramaturgo que por duas vezes presidirá ao Benfica, e que é uma figura quase lendária na história do clube. Félix Bermudes é uma figura quase inacreditável pela vagabundagem dos seus interesses, pela prolixidade dos seus escritos e até pelo modo como seguiu algumas das ideias mais em voga do seu tempo, e que hoje nos parecem quase bizarras. Antes de olhar para o seu percurso intelectual, contudo, convém perceber o que é que motiva esta associação aparentemente inusitada entre um clube de futebol e as letras.
▲ Ilustração Portuguesa, 31 de maio de 1909: "Os convidas do almoço oferecido lor alguns dos mais modernos autores cómicos portugueses a Eduardo Garrido". Felix Bermudes é o segundo a contar da esquerda
Ora, isso só se percebe a partir de uma ideia mais clara do que é o ambiente intelectual de princípios do século. A verdade é que a literatura – e sobretudo, a dramaturgia — chega ao princípio de 1900 como uma das grandes formas de lazer. Isto é, poucas vezes na história há uma disseminação tão grande da literatura, a ponto de poder ser encarada não apenas como arte, ou como um objeto ideal elevado, mas também como um divertimento, e um divertimento para todos. São desta altura os grandes êxitos dramáticos de D. João da Câmara, como o D. Afonso VI, nesta altura que se popularizam, no vocabulário corrente, figuras ficcionais como os três da vida airada – cocó, ranheta e facada, ou a triste viuvinha (todos estes, também, de D. João da Câmara) e que os jornais, depois de um século de lutas políticas, colhem os frutos da popularidade.
Há almanaques sobre tudo, crónicas sociais, crónicas de moda, e todo este mundo da literatura de entretenimento é habitado por escritores que não pretendem exatamente figurar no cânone mais puro das letras portuguesas. São desta altura os primeiros grandes escritores populares, autores de obras de grande disseminação sem especial talento literário ou correção linguista, ou com alta capacidade de trabalho jornalístico: Eduardo de Noronha, Rocha Martins, surgem os primeiros editores de obras exclusivamente comerciais, como Henrique Marques ou Romano Torres, e este mundo das pequenas letras terá grande presença nos jornais e no teatro de revista.
Bermudes desportista
É precisamente nesse mundo, o mundo do lazer, que Félix Bermudes, escritor de centenas de peças de cordel, de hinos benfiquistas, redator de peças jornalísticas inflamadas, terá o seu papel. O que é notável, ainda assim, é que além da sua monumental prolixidade e ecletismo intelectual, Félix Bermudes traduz esse ecletismo fisicamente.
▲ Contando da esquerda para a direita, Felix Bermudes é o primeiro na fila do meio nesta foto de jogadores do Benfica
Bermudes foi um dos primeiros jogadores – em 1908 já aparece como capitão – de futebol do Benfica, torna-se o decano dos jogadores no ano em que Cosme Damião abandona os relvados, poderá até ter jogado na belíssima invenção dos anos quarenta, uma equipa de velhas glórias chamada Sport Lisboa e Saudade, será campeão de tiro, competirá duas vezes nos jogos olímpicos, praticará hipismo, ciclismo, de tal modo que isto, por si só, mostra a abrangência da sua habilidade desportiva. Depois disto, também será duas vezes presidente do Benfica: uma, mais curta, em 1916, num mandato dedicado principalmente a uma complicada fusão, a fusão com o Desportos de Benfica, uma complicada aventura clubística que nasceu como uma tentativa de criar uma filial para o Sport Lisboa e Benfica, independentizou-se logo na fundação, e voltou a juntar-se nesta altura, trazendo como principal benefício uma magnífica sede que foi, durante vários anos, a Sede do Benfica, e outra mais tarde, em 1945-46, altura em que se comprou a dita sede (até aí estava alugada) e que infelizmente acabou em desgraça.
Depois de uma série de polémicas relacionadas com a tentativa de encontrar um novo estádio e da imposição de cotas extraordinárias para cobrir as despesas com a manutenção do já insuficiente campo de jogos do Campo Grande, a direção de Félix Bermudes foi, numa Assembleia Geral, substituída por outra (a primeira de Manuel Conceição Afonso, um sindicalista também ele com uma história interessante); acontece que, ainda durante o decorrer da Assembleia (que durou mais do que um dia), Bermudes, despeitado, escreveu um artigo de desagravo no jornal do clube, que levou à sua demissão de sócio do clube e à substituição dos órgãos diretivos do jornal. Acaba assim, de uma maneira pouco condizente com o seu papel, a história de Félix Bermudes no clube; no entanto, não acaba a sua extraordinária atividade intelectual.
Bermudes escritor
No fim do século XIX, surge nos Estados Unidos, por impulso de uma escritora russa, a Sociedade Teosófica, um subproduto típico das crenças do século XIX, apostado na fusão entre ciência, religião, aperfeiçoamento do homem e tolerância universal. A sociedade teosófica tinha uma inescapável atração pelas religiões indianas, pelo que parte significativa da sua atividade passava por encorajar o estudo das religiões comparadas, numa tétris complicado que levava os mestres teosóficos a acreditarem na periódica vinda à terra de um grande educador – uma “entidade espiritual” a que davam o nome de Maitreya – na reencarnação, na evolução progressiva da humanidade através de um espírito comum e, sobretudo, a caldearem o vocabulário esotérico, talmúdico, budista, numa curiosa mistura filosófico-religioso-ocultista. É de uma cisão com a Sociedade Teosófica que surgirá a Sociedade Antroposófica, de Rudolf Steiner, por exemplo, e na delegação portuguesa da Sociedade Teosófica, fundada nos anos vinte, que pontificará Félix Bermudes.
▲ Cartaz de divulgação da peça Paz e União, uma revista em 3 atos e 14 quadros, escrita por Felix Bermudes, Ernesto Rodrigues e João Bastos
Não se pense que o interesse de Bermudes pela teosofia se trata de um episódio passageiro; foi durante doze anos presidente da Sociedade Teosófica Portuguesa – Bermudes presidiu a muita coisa, foi também presidente da Sociedade de Escritores Teatrais e da Société des Gens de Lettres – e mais: Bermudes escreveu sobre muitos assuntos, escreveu um ensaio de filosofia política, chamado Aos Meus Irmãos Comunistas, destinado a dissuadir a humanidade de abraçar uma crença materialista, escreveu um livro de viagens sobre as suas visitas às reservas naturais moçambicanas, e escreveu também teatro; aquilo a que se dedicou mais, no entanto, foi precisamente à teosofia, e o seu único livro traduzido para francês, A Conquista do Eterno (a que Bermudes também chama O Homem condenado a ser Deus), é precisamente uma reflexão teosófica. Aliás, mesmo no seu último livro, acabado pouco antes de morrer e aparentemente pouco dado a reflexões teosóficas, visto que se trata de um livro sobre a fauna africana (Sem Armas no Meio das Feras – A Vida na Selva), Bermudes aproveita para escrever coisas como esta: “Em breve hei de voltar [depois de morrer], para concluir a minha evolução como Homem, para servir a Humanidade e a Grande Fraternidade Branca, até ao dia redentor”.
Até agora, que se saiba, não voltou; no entanto, também não morreu completamente, visto que a sua dedicação ao Benfica (ele que também foi um dos autores do enredo de O Leão da Estrela), mais do que as suas muitas obras literárias, fizeram dele uma figura eterna, e muito original, na história do desporto português.