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▲Carlo Acutis será a primeira pessoa da geração millennial a ser venerada como santa pela Igreja Católica

Associação dos Amigos de Carlo Acutis

▲Carlo Acutis será a primeira pessoa da geração millennial a ser venerada como santa pela Igreja Católica

Associação dos Amigos de Carlo Acutis

O primeiro santo da geração millennial. A vida de Carlo Acutis, o rapaz dos computadores que será canonizado por Leão XIV

Carlo Acutis morreu em 2006, com apenas 15 anos, após uma curta vida em que usou o talento informático para divulgar a fé. Vai ser canonizado este domingo pelo Papa Leão XIV.

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Mártires, místicos, videntes, guerreiros que morreram em nome da fé, papas famosos — e um rapaz dos computadores. A partir deste domingo, a Igreja Católica vai pela primeira vez passar a venerar como santo um jovem da era digital. O jovem italiano Carlo Acutis, que morreu de leucemia em 2006 aos 15 anos de idade e que ficou conhecido como “o influencer de Deus”, vai ser canonizado este domingo pelo Papa Leão XIV — uma canonização que deveria ter acontecido a 27 de abril, mas que foi adiada na sequência da morte do Papa Francisco. Será o primeiro santo millennial.

Frequentemente apelidado de “santo padroeiro da internet”, Acutis tornou-se globalmente conhecido por ter dedicado a sua curta vida a usar as comunicações digitais para disseminar a fé católica e, concretamente, a sua profunda devoção pelos milagres eucarísticos. Um dos grandes projetos da sua vida, a versão digital de uma exposição em que documentava os vários milagres eucarísticos ocorridos no mundo, continua hoje a ser atualizado e já percorreu os cinco continentes.

Acutis será canonizado por Leão XIV depois de o Vaticano ter confirmado a validade de um segundo milagre atribuído à intercessão do jovem italiano: a cura inexplicável de uma jovem costa-riquenha a estudar em Florença, que sofreu graves lesões cerebrais e ficou à beira da morte na sequência de um acidente de bicicleta, e que recuperou a saúde depois de a sua mãe ter peregrinado a Assis para rezar junto do túmulo de Acutis.

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▲ Carlo Acutis é o "santo sensação" do momento, nas palavras do padre Ricardo Figueiredo, autor de um livro sobre o novo santo

Getty Images

Em 2023, o então beato Carlo Acutis foi um dos padroeiros da Jornada Mundial da Juventude, que ocorreu em Lisboa com a presença do Papa Francisco e de cerca de 1,5 milhões de jovens de todo o mundo. Ao longo dos últimos anos, numa era de crescente secularização, Acutis, venerado por milhões de jovens católicos em todo o mundo, tornou-se não só num dos rostos do revivalismo religioso entre a juventude contemporânea na Europa e nos EUA, mas também no ícone de uma Igreja à procura de novas formas de se relacionar com as gerações mais jovens.

Uma imagem eloquente disso são as primeiras estatuetas do futuro santo, já disseminadas um pouco por todo o mundo. Ao olhar para os altares das igrejas católicas, os jovens já não verão apenas antigos monges vestidos com hábitos religiosos: ao lado dos santos imortalizados pela arte sacra clássica, encontrarão também estátuas de um rapaz de pólo vermelho, calças de ganga e sapatilhas, com um computador portátil na mão.

As perguntas difíceis que levaram a mãe à conversão

Os pais de Carlo Acutis dificilmente poderiam imaginar que, naquele dia 3 de maio de 1991, tinha acabado de nascer um futuro santo da Igreja Católica. Antonia Salzano e Andrea Acutis, ambos italianos, trabalhavam em Londres, pelo que foi na capital britânica que Carlo nasceu e foi batizado. Com poucos meses, porém, a família regressou a Milão, na sua Itália natal.

“Carlo Acutis nasceu em 1991, num período histórico muito curioso. Costuma dizer-se que o século XX acaba com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e que o século XXI começa com o ataque às Torres Gémeas, em 2001. Quem nasceu nos anos 90, parece que não nasceu em século nenhum”, diz ao Observador o padre Ricardo Figueiredo, autor do livro Não eu, mas Deus: Biografia espiritual de Carlo Acutis. “Foi a era da democratização da informática, em que quase parecia que não havia ameaças. Ele viveu nesta época do otimismo, da geração dos millennials.”

Os Acutis, bastante favorecidos do ponto de vista económico, eram uma família de “católicos culturais”, descreve Ricardo Figueiredo, sublinhando que o casal não frequentava habitualmente a igreja e não tinha uma especial relação com a fé católica, “como acontece com muitas famílias de hoje em dia”.

Numa entrevista que deu no ano passado, Antonia Salzano reconheceu que, antes do nascimento do filho, raramente tinha colocado os pés numa igreja. “Eu estava muito longe da fé. Quando era pequena, fiz a primeira comunhão porque estava numa escola católica”, recordou. “Toda a minha turma fez a primeira comunhão; foi por isso que eu também fiz. Foi a minha primeira missa. Depois fiz o crisma, que foi a minha segunda missa. E a terceira missa foi o meu casamento.”

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▲ Antonia Salzano, a mãe de Carlo Acutis

AFP via Getty Images

A primeira introdução de Acutis à fé católica não chegou da parte dos pais, mas de uma ama polaca, bastante religiosa, que a família contratou para tomar conta do bebé. A ama “introduziu-o à fé e à oração”, lembra Ricardo Figueiredo. O problema veio depois, quando “ele cresceu e começou a fazer perguntas difíceis à mãe”. Vendo-se sem capacidade para responder ao filho, “a mãe foi à paróquia perto da casa e pediu ajuda ao padre, que lhe recomendou a leitura de uns livros”. Por isso, diz o sacerdote do patriarcado de Lisboa, “conhecer a fé para responder ao filho foi o que a levou à fé”.

“Quando o Carlo nasceu, ele estava à frente do seu tempo”, recordou a mãe de Acutis na mesma entrevista. “Antecipava tudo. Aos três meses disse a primeira palavra; aos cinco meses começou a falar. Mesmo na fé, ele antecipava tudo. Quando tinha três anos, queria entrar na igreja para rezar a Jesus junto da cruz. Era, por natureza, muito piedoso, muito religioso, e fazia-me muitas perguntas, muito profundas. Eu não conseguia responder, porque era muito ignorante nestes assuntos. Isso deixava-me muito desconfortável, porque queria ser um exemplo para o meu filho.”

Logo na infância, Carlo Acutis relatou aos pais acontecimentos místicos que os deixaram surpreendidos: “O meu pai, que tinha 57 anos, morreu subitamente de ataque cardíaco. Três meses depois da morte dele, o Carlo disse-me que o avô lhe tinha aparecido, dizendo que estava no Purgatório e que precisava de orações. Comecei a ficar muito ansiosa: o que é o Purgatório? O que acontece? Onde está o meu pai? O que posso fazer?” Relatos como este foram fundamentais para que Antonia procurasse ajuda na Igreja Católica e iniciasse um caminho de conversão que a levou a estudar Teologia. “O Carlo, para mim, foi um salvador pelo seu exemplo.”

"Quando tinha três anos, queria entrar na igreja para rezar a Jesus junto da cruz. Era, por natureza, muito piedoso, muito religioso, e fazia-me muitas perguntas, muito profundas. Eu não conseguia responder, porque era muito ignorante nestes assuntos."
Antonia Salzano, mãe de Carlo Acutis

Aos 7 anos, Carlo Acutis fez a primeira comunhão. “A partir daí, começou a ir à missa todos os dias e a fazer adoração eucarística todos os dias”, recordou a mãe. Nesse dia, segundo outro relato da mãe, o pequeno Acutis pegou num bloco de notas onde escreveu: “Estar sempre unido a Jesus, é esse o meu plano de vida.” A partir dessa altura, Carlo Acutis começou um caminho de aprofundamento da fé que o levaria a “desenvolver ao longo de toda a vida uma proximidade com Deus e a conhecer Jesus e a Igreja”, explica o padre Ricardo Figueiredo.

“Ele era um jovem completamente normal dos anos 90. Tinha o seu computador, ia à escola, tinha um grupo de amigos, tinha um Gameboy e uma Playstation, tudo o que é normal do seu tempo. E vivia a vida cristã no meio disto tudo”, sublinha o sacerdote. “Há pessoas que tendem a achar que os meios informáticos dificultam a relação com Deus. Mas não: também aqui há um caminho de santidade. A canonização dele também é um sinal disto. Ele é um exemplo de santidade no meio deste mundo digital, onde também é possível ser santo.”

Uma hora de PlayStation por semana

Carlo Acutis começou, desde muito cedo, a revelar um “grande talento para a informática”, diz Ricardo Figueiredo. “Amigos dos pais que eram engenheiros informáticos ficavam espantados. Ele pedia aos pais livros para estudar programação.”

Desde cedo, o pequeno Acutis quis colocar o seu talento informático “ao serviço” do bem comum, diz o padre e autor do livro biográfico sobre o novo santo. Criava “vídeos para promover ações de voluntariado na escola”, por exemplo, e ajudava na criação de páginas na internet para instituições católicas. Um dos seus grandes projetos foi a conceção de uma exposição sobre os milagres eucarísticos, tema que o apaixonava especialmente. Acutis investigou cuidadosamente dezenas de histórias de milagres eucarísticos relatados por todo o mundo e criou painéis informativos sobre cada um deles, para poderem ser usados em exposições físicas e digitais — e criou um site com esses painéis. Era a primeira de quatro exposições que Carlo Acutis planeou. O jovem ainda chegou a começar a trabalhar na segunda, sobre as aparições de Nossa Senhora, e deixou planos para elaborar ainda mais duas: uma sobre o Inferno, Purgatório e Paraíso na vida dos santos; e outra sobre anjos e demónios na vida dos santos. A associação dos amigos de Carlo Acutis deu continuidade a este trabalho e gere ainda hoje o site que documenta os milagres eucarísticos.

A vida dos santos e a santidade foi, de resto, uma das grandes paixões da curta vida de Carlo Acutis, que mesmo antes de completar dez anos de idade já se dedicava a apoiar os mais pobres na cidade de Milão.

“Vivíamos no centro de Milão, onde havia muitos sem-abrigo”, lembrou a mãe de Acutis. “O Carlo não conseguia ficar indiferente a essa pobreza e começou a comprar sacos-cama, cobertores e a levar refeições a estas pessoas. Tinha 9 anos de idade. Dizia-nos: ‘Eu tenho tudo, tenho uma casa, tenho o amor dos meus pais, como é que posso estar em paz a ver esta pobreza?’ Também lhes dava informação, ajudava-os a pedir apoios do Estado para a habitação.”

▲ Carlo Acutis morreu com apenas 15 anos de idade, vítima de uma forma agressiva de leucemia

Associação dos Amigos de Carlo Acutis

Os relatos da vida de santidade de Carlo Acutis repetem-se. “Tinha uma grande abertura aos outros, sobretudo aos mais necessitados, sem nenhuma distinção de raça ou religião”, disse em entrevista ao L’Osservatore Romano o postulador da causa de beatificação de Acutis, Nicola Gori, lembrando também como o pequeno Acutis pedia todas as noites aos pais que colocassem as sobras da comida em recipientes para as distribuir pelos sem-abrigo. “À noite, ele costumava ir com os pais pelas ruas de Milão, para distribuir cobertores e refeições quentes aos desabrigados.”

Apesar de viver numa família com uma situação financeira confortável, Acutis rejeitava a abundância de dinheiro e até levava a mal que lhe comprassem um segundo par de sapatos, disse o postulador. “Tinha o hábito de juntar as ajudas semanais que lhe eram dadas pela família, para as entregar aos necessitados da Obra de São Francisco em Milão”, disse Gori. O responsável pela causa de beatificação recordou também que, todas as manhãs, quando saía de casa de bicicleta, Carlo Acutis gostava de parar a conversar com os porteiros dos prédios perto da escola, “sobretudo imigrantes pertencentes a outras religiões”.

Apesar do seu grande talento informático, o jovem Acutis terá procurado sempre não ser dominado pelas tecnologias, segundo o relato da mãe, que dá como por exemplo o dia em que, aos 8 anos de idade, Carlo recebeu uma PlayStation de uma tia. “Ele tinha lido sobre crianças nos Estados Unidos que tinham acabado em clínicas para fazer desintoxicações porque a sua dependência de videojogos tinha chegado a níveis extremos. Alguns tinham desenvolvido problemas com epilepsia”, recorda Antonia Salzano. “Ele ficou chocado com isso. Por isso, decidiu desde o início que só iria jogar uma hora por semana. Impôs isso a ele próprio e manteve-se sempre fiel.”

Para a mãe, esta determinação mostra “a virtude da temperança” em Carlo Acutis. “É uma das sete virtudes pelas quais a Igreja declara alguém como santo”, destacou, sublinhando que também esta atitude é um sinal de santidade. “O Carlo dizia: ‘Não podemos ser escravizados por estas coisas. Temos de as controlar.’”

Para Ricardo Figueiredo, a vida de Carlo Acutis é um exemplo claro da capacidade de “unir a mais profunda tradição católica e as novidades da nossa época”. O sacerdote lembra que “Jesus disse ‘ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho’, e Carlo Acutis viveu isto”.

Em vida, Carlo Acutis ganhou uma grande fama de santidade entre os círculos mais próximos: na escola, no bairro e na comunidade onde vivia. Deu catequese, construiu o site da sua paróquia e tornou-se conhecido por usar a internet para propagar a fé cristã — concretamente a devoção pela eucaristia, que descrevia como “a autoestrada para o Céu”. A mãe de Acutis lembra como o jovem se questionava sobre se a generalidade das pessoas tinha “noção da importância da eucaristia, que é a coisa mais sobrenatural que temos no mundo, é Deus entre nós com a sua presença física”. O jovem ficava perplexo e angustiado com a falta de devoção à eucaristia, lembra Antonia. “Dizia: ‘Vejo filas em frente a concertos e em frente a estádios de futebol, mas não vejo em frente ao sacrário.’”

"Carlo Acutis surge num tempo marcado pelo materialismo, pelo mundo digital, em que parece tão difícil ser santo, e torna-se o santo sensação."
Ricardo Figueiredo, padre do patriarcado de Lisboa e autor de um livro sobre Carlo Acutis

Por essa razão, Carlo Acutis dedicou uma grande parte da sua vida à investigação e à divulgação dos milagres eucarísticos — acontecimentos inexplicáveis pela ciência e pela razão que envolvem, habitualmente, as espécies consagradas. Alguns dos mais conhecidos milagres eucarísticos envolvem relatos da transformação de hóstias consagradas em carne e sangue humanos. Nas palavras de Antonia Salzano, são milagres que servem para demonstrar a “presença real” de Deus na eucaristia — e não uma presença simbólica, como o pão e o vinho são entendidos na teologia protestante. Fascinado por estes acontecimentos sobrenaturais, Acutis dedicou-se a ler sobre eles, a investigá-los e a divulgá-los.

“Não vou sair vivo deste hospital”

“Tenho 70 quilos e estou destinado a morrer.” Faltavam dois meses para Carlo Acutis morrer e nada indicava que esse seria o desfecho da curta vida do adolescente italiano — mas Acutis parecia já conhecer o seu destino quando se gravou a dizer aquelas palavras. Como escreve Ricardo Figueiredo no seu livro sobre Acutis, sempre que lhe pediam alguma coisa para o futuro, o jovem respondia: “Sim, se ainda estivermos vivos amanhã ou depois de amanhã, porque não posso assegurar-te quantos anos viveremos, porque o futuro só Deus conhece.”

Apesar da sua juventude, Carlo Acutis parecia não temer a morte, de acordo com os relatos dos seus pais. Por outro lado, preocupava-se profundamente com a possibilidade de morrer a qualquer momento e de qualquer dia da sua vida poder ser o último, uma vez que queria ter a alma sempre “imaculada e pronta para o encontro com Deus”. Por isso, dedicava todos os dias tempo para a missa, para a confissão e para a oração.

O fim da curta vida de Carlo Acutis precipitou-se rapidamente numa altura em que estava a dar especial atenção a Portugal para os seus estudos sobre os milagres eucarísticos. No verão de 2005, Acutis visitou Portugal com o objetivo de conhecer a igreja do milagre eucarístico de Santarém. O jovem queria conhecer melhor uma célebre história do século XIII para a incluir na sua documentação sobre os milagres eucarísticos. De acordo com a tradição, em 1266, uma mulher pobre de Santarém que era maltratada e traída pelo marido pediu ajuda a uma bruxa para parar de sofrer. A bruxa disse-lhe que seria capaz de remediar a situação, mas para isso necessitava de uma hóstia consagrada.

A mulher terá, então, ido à igreja de Santo Estêvão, em Santarém, para se confessar e receber a comunhão. Nesse momento, terá tirado discretamente a hóstia da boca para a levar, embrulhada no véu, para a bruxa. Porém, conta a história que, subitamente, começou a escorrer sangue do véu. A mulher correu para casa e fechou a hóstia numa arca. À noite, já com o marido em casa, os dois terão visto “misteriosos raios de luz” sair da arca — e passaram a noite em adoração perante a hóstia. O pároco local foi informado do estranho acontecimento e a hóstia milagrosa foi levada para a igreja e colocada numa custódia de cera. Quase um século mais tarde, a custódia foi encontrada totalmente desfeita — e a hóstia encontrava-se numa pequena âmbula de cristal, cuja origem era totalmente desconhecida. Essa âmbula ainda se encontra hoje em exposição numa custódia de prata dourada, naquela igreja.

A igreja de Santo Estêvão, atualmente rebatizada como Santuário do Santíssimo Milagre, tornar-se-ia um lugar de peregrinação pelo qual passaram figuras como a Rainha Santa Isabel ou o Rei D. Afonso VI.

Este era o tipo de histórias que fascinava Carlo Acutis. No verão de 2005, o jovem visitou aquela igreja e passou também por outros lugares de Portugal, como Lisboa, Alcobaça e, sem surpresas, Fátima. Mais tarde, Acutis debruçou-se também sobre o fenómeno de Fátima (que tem igualmente uma dimensão de milagre eucarístico com a aparição do anjo no ano de 1916). Segundo o padre Ricardo Figueiredo, Carlo Acutis dedicou o verão de 2006 à leitura das Memórias da Irmã Lúcia, concretamente durante uma viagem que fez a Lourdes com a família.

▲ Carlo Acutis em Fátima, cerca de um ano antes da sua morte

Associação dos Amigos de Carlo Acutis

Foi no final desse verão que Acutis começou a ter “alguns sinais estranhos de saúde”, recorda o sacerdote. Segundo a mãe, a doença foi inicialmente disfarçada pelos sintomas de gripe: era outubro e a maioria dos colegas de escola de Carlo Acutis tinham tosse e outros sintomas semelhantes. A família não valorizou o que se passava até ao dia em que Carlo “acordou e não se conseguia mexer”. Os pais levaram-no para o hospital e, à entrada, Acutis declarou: “Não vou sair vivo deste hospital.”

No início de outubro, foi diagnosticado com uma leucemia fulminante. Morreu no espaço de uma semana. Durante esses dias de profundo sofrimento, quando lhe perguntavam se estava a sofrer, respondia que “há pessoas a sofrer mais”, recorda a mãe. Levado de urgência para uma unidade de cuidados intensivos, repetiu aos pais que oferecia o seu sofrimento “pela Igreja e pelo Papa, para não ir para o Purgatório e ir diretamente para o Céu”, lembra o padre Ricardo Figueiredo. No final da vida, conta-se que terá dito: “Estou contente por morrer, porque na minha vida não estraguei nem um instante em coisas que não agradassem a Deus.”

Os milagres que vão levar o primeiro millennial aos altares

Carlo Acutis morreu na madrugada de 12 de outubro de 2006, aos 15 anos de idade. De acordo com o desejo do próprio, foi enterrado em Assis, cidade que Acutis, devoto de São Francisco, amava e onde passava habitualmente parte das suas férias. Rapidamente, começou a correr no norte de Itália a ideia de que estava ali um futuro santo. “Os primeiros milagres do Carlo aconteceram no funeral dele”, contou a mãe. “Havia uma mulher que tinha cancro da mama. Já tinha feito o exame histológico e disseram-lhe que iria precisar de começar a quimioterapia em breve. Ela rezou ao Carlo no dia da missa do funeral e o tumor desapareceu.”

A fama de santidade em torno de Carlo Acutis começou a crescer, “inicialmente muito circunscrita à zona de Milão”, lembra Ricardo Figueiredo. Depois, a devoção ao jovem italiano foi-se internacionalizando — até que se tornou inevitável que a Igreja Católica avançasse com o processo destinado a investigar se havia ou não condições para o considerar santo. Como explica Ricardo Figueiredo, foi necessário esperar os cinco anos habituais após a morte para que o processo fosse aberto — e, em 2018, o Vaticano deu o primeiro passo rumo à canonização de Acutis, ao avançar com a declaração de virtudes heroicas do jovem italiano. Isto é, a declaração de que Acutis viveu de forma extraordinária as virtudes da fé cristã. Este processo envolveu a auscultação de familiares, amigos, colegas de turma e outras pessoas que conheceram Carlo Acutis e que testemunharam sobre o modo como o jovem os aproximou da fé cristã.

A partir daí, diz o sacerdote, foi o “grande boom da divulgação da vida dele”. O nome de Carlo Acutis tornou-se em poucos anos um símbolo da juventude católica por todo o mundo, ganhando especial destaque na Jornada Mundial da Juventude — foi padroeiro, por exemplo, da edição de 2023, em Lisboa — e tornando-se numa espécie de “santo sensação”, nas palavras de Ricardo Figueiredo, contribuindo decisivamente para impulsionar a relação da Igreja Católica com os jovens de hoje.

“Se andarmos 100 anos para trás, vemos que o grande santo sensação era Santa Teresinha do Menino Jesus. Há várias igrejas com imagens dela. Tinha a linguagem necessária para aquele tempo, para as transformações sociais da transição do século XIX para o século XX”, recorda Ricardo Figueiredo, sublinhando que houve uma “reação espiritual” a essas transformações com o jansenismo e com o “fechar os bastiões da Igreja”, colocando “um peso e uma carga moral sobre o Catolicismo, que tornava a salvação muito distante”. Em contrapartida, Santa Teresa “falava da infância espiritual”, dizendo que os fiéis se deveriam “abandonar nos braços de Deus como uma criança se abandona nas mãos dos pais”.

Da mesma forma, “Carlo Acutis surge num tempo marcado pelo materialismo, pelo mundo digital, em que parece tão difícil ser santo, e torna-se o santo sensação”.

Ao longo dos anos que se seguiram à declaração das virtudes heroicas, a causa de beatificação de Carlo Acutis avançou para a fase seguinte: a investigação de eventuais milagres atribuídos à intercessão do jovem italiano, condição necessária para a beatificação e a canonização de um santo.

▲ Carlo Acutis era um jovem com grande talento para a informática e usou o seu conhecimento para divulgar a fé cristã

Associação dos Amigos de Carlo Acutis

O primeiro milagre foi aprovado pelo Vaticano em 2020, na sequência de uma história que tinha começado uma década antes, quando o padre brasileiro Marcelo Tenório de Almeida ouviu pela primeira vez falar do jovem italiano. “Ouvi falar do Carlo por um afilhado em 2010, numa altura em que pouca gente o conhecia, mesmo em Itália”, contou o sacerdote à revista America. “Fiquei fascinado pela história dele.” O padre entrou em contacto com a mãe de Carlo Acutis, que lhe deu um livro e o autorizou a falar sobre a vida do jovem no Brasil. A partir dessa pregação, o padre Marcelo construiu no Brasil uma comunidade de seguidores de Acutis que cresceu rapidamente.

Mais tarde, a mãe de Carlo Acutis ofereceu ao sacerdote um pedaço de uma peça de roupa que pertencera ao jovem, que Marcelo Tenório de Almeida levou para o Brasil como relíquia — o que aumentou exponencialmente a devoção a Carlo Acutis na cidade de Campo Grande, no estado de Mato Grosso do Sul. Em pouco tempo, surgiram os primeiros relatos de milagres associados a Acutis, incluindo a cura do cancro de uma freira em 2011.

Mas o caso mais impactante foi o de Matheus Vianna, uma criança de 4 anos de idade em que sofria de uma rara doença no pâncreas e que esteve à beira da morte em 2013. “Vomitava constantemente, dois minutos após comer o que quer que fosse”, contou a mãe de Matheus à mesma revista. Os médicos sentenciaram que a criança não chegaria com vida à idade de cinco anos.

A 12 de outubro de 2013 — simultaneamente o dia da morte de Carlo Acutis e o dia de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil —, a relíquia de Carlo Acutis foi exposta à veneração do público na igreja do padre Marcelo Tenório de Almeida. “Nesse dia, o Matheus viu a fila de pessoas que esperavam para venerar a relíquia do Carlo e perguntou-me o que estavam a fazer. Eu disse-lhe que podíamos rezar ao Carlo por qualquer coisa, se quiséssemos, porque ele estava no Céu. O Matheus estava ao colo do avô quando se aproximou da relíquia e, antes de o meu pai poder tocar na relíquia, o Matheus beijou-a e gritou: ‘Parar de vomitar!’ Muitas pessoas testemunharam esse momento.”

Nesse dia, de acordo com o relato da mãe, a criança comeu um bife com batatas fritas e, pela primeira vez, não vomitou. A partir daquele dia, Matheus voltou a ganhar o peso normal e, gradualmente, recuperou a saúde. “Desde esse dia, soube que ele estava curado por causa do Carlo”, contou a mãe, que rapidamente revelou o caso ao padre Tenório — que, por seu turno, o levou ao Vaticano. Ao longo dos anos seguintes, a Igreja levou a cabo um intenso processo de investigação, que envolveu múltiplos médicos, vários exames e uma verificação de que a cura não podia ser explicada pela ciência médica atual.

Em 2020, o Vaticano confirmou que a cura de Matheus cumpria os requisitos para ser classificada como milagrosa pela Igreja Católica — o que abriu as portas à beatificação de Carlo Acutis, em outubro desse ano. Antes da canonização, o corpo de Acutis foi exumado, tratado com técnicas de embalsamento e trasladado para a igreja de Santa Maria Maior, em Assis, onde atualmente está exposto à veneração dos fiéis.

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▲ O corpo de Carlo Acutis encontra-se exposto à veneração dos fiéis no Santuário do Despojamento, em Assis

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Nessa altura, a popularidade de Carlo Acutis entre a juventude católica já era enorme, muito impulsionada pelas frequentes referências do Papa Francisco à vida do jovem italiano. Na exortação apostólica Christus Vivit, publicada em 2019 e especialmente dirigida aos jovens, Francisco já lembrava o exemplo de Carlo Acutis, um jovem “criativo” que “soube usar as novas técnicas de comunicação para transmitir o Evangelho para comunicar valores e beleza” e lembrou uma das frases mais célebres de Acutis: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias.”

Desde a beatificação, o mundo católico — e sobretudo a juventude — aguarda já há cinco anos pela canonização de Acutis. Para que o processo pudesse avançar, contudo, era necessária a aprovação de um segundo milagre. Várias dezenas de milagres são relatados periodicamente à causa de canonização de Acutis, mas a esmagadora maioria, após uma breve investigação, acabam por ser descartados, por poderem ser facilmente explicados pela ciência. Para que a Igreja declare formalmente um milagre, é necessário que se esgotem todos os esforços científicos para tentar explicar o fenómeno.

"A vida de Carlo Acutis surge como um grande exemplo para os jovens de hoje. (...) Num mundo cansado pelo materialismo, pela autorreferencialidade, pelo egoísmo, como dizia Bento XVI, há uma necessidade e aparece aqui algo que tem dois mil anos de garantia. (...) Os jovens estão sedentos de sentido para a vida e estes exemplos mostram vidas com sentido."
Ricardo Figueiredo, padre do patriarcado de Lisboa e autor de um livro sobre Carlo Acutis

A história que levará agora à canonização de Acutis remonta a 2022, quando Valeria Valverde, uma jovem costa-riquenha de 21 anos a estudar em Florença, sofreu um violento acidente de bicicleta naquela cidade italiana. Valeria ficou às portas da morte, com fortes lesões cerebrais, e foi submetida a uma cirurgia de emergência no fim da qual a família foi informada de que a jovem continuava em estado crítico e podia falecer a qualquer momento. Perante o diagnóstico trágico, a mãe de Valeria decidiu peregrinar até à cidade de Assis, para rezar pela recuperação da filha junto ao túmulo de Carlo Acutis, onde deixou uma nota escrita com a história da filha.

Como explica a Agência de Notícias Católica, nesse próprio dia Valeria começou a respirar por si própria, sem necessidade de ventilação externa, e no dia seguinte recuperou a mobilidade nos membros superiores e a capacidade de falar. Em dez dias, Valeria receberia alta médica e, depois de alguns exames adicionais, os médicos perceberam que a lesão cerebral tinha desaparecido. Após uma semana de fisioterapia, a própria Valeria peregrinou com a mãe a Assis para agradecer a cura.

O caso foi reportado à causa de canonização de Carlo Acutis e investigado ao longo de cerca de dois anos. Em maio de 2024, o Papa Francisco publicou o decreto com o qual aprovou formalmente o milagre, abrindo portas à canonização de Carlo Acutis. A canonização foi agendada para o dia 27 de abril de 2025, mas acabou por ter de ser adiada devido à morte do Papa Francisco, justamente nessa semana.

Logo que a canonização foi anunciada, multiplicaram-se pelas lojas de artigos religiosos de Itália e do resto do mundo pequenas estatuetas do futuro santo, que chamavam a atenção pelo contraste com as imagens tradicionais da arte sacra: Carlo Acutis surge como se vestia habitualmente, de t-shirt, calças de ganga e sapatilhas. Para o padre Ricardo Figueiredo, “a vida de Carlo Acutis surge como um grande exemplo para os jovens de hoje” e as estátuas do novo santo são um dos pormenores “que mais tocam as pessoas, porque de repente temos um santo que não está de hábito ou de batina, está de calças de ganga e com um computador”.

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▲ Um santo de calças de ganga, em imagens que contrastam com a arte sacra tradicional

Getty Images

“A Igreja encontra aqui esta linguagem necessária para os jovens de hoje”, acrescenta o sacerdote, sublinhando que Carlo Acutis se tornou num “símbolo” de uma juventude mais empenhada na fé católica. “Vejo-o, por exemplo, pelo número de exemplares que o meu livro vende”, frisa Ricardo Figueiredo, destacando que, mais do que um mero revivalismo, a fé católica surge para os jovens de hoje como uma garantia. “Num mundo cansado pelo materialismo, pela autorreferencialidade, pelo egoísmo, como dizia Bento XVI, há uma necessidade e aparece aqui algo que tem dois mil anos de garantia”, afirma. “Revivalismo é pouco: não é só voltar atrás, é voltar à fé com uma nova forma, com um novo ardor. Os jovens estão sedentos de sentido para a vida e estes exemplos mostram vidas com sentido.”

Carlo Acutis será canonizado este domingo, durante uma celebração presidida pelo Papa Leão XIV na Praça de São Pedro, em Roma, pelas 10h (9h em Lisboa), na qual será também canonizado o beato Pier Giorgio Frassati, que morreu em 1925 com 24 anos de idade.

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