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NurPhoto via Getty Images

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O problema do Clubhouse não é problema nenhum. Mas a sua solução vai ser problemática /premium

Vasco Mendonça e Francisco Peres experimentaram a app do momento e dizem que o desfecho vai ser demolidor. Tornou-se num bacanal de ideias do qual a maioria das pessoas se arrepende na manhã seguinte.

Nota 1: Antes de começarmos, somos legalmente obrigados a pôr um daqueles avisos no início do artigo (como o dos vestígios de amendoins num pacote de bolachas, ou para epiléticos no início de um filme): “Este artigo é impróprio para alérgicos a palavras que nos dão vontade de defenestrar o computador”. (Podíamos ter dito alérgicos a bullshit, que em português se traduz por tretas, só pela piada da coisa, mas não quisemos arriscar.)

Nota 2: As más notícias é que vamos ter de usar várias palavras anglófilas. As boas, para vocês pelo menos, é que a equipa de edição do Observador é praticamente legalmente obrigada a traduzir cada uma delas, por razões que nunca nos foram bem explicadas, entre parênteses. Se quiserem aproveitar o artigo na sua totalidade, recomendamos por tanto que o leiam passando à frente os parênteses.

Nota 3: Dito isto, esta crónica é sobre o Clubhouse, um app (NdE: aplicação de telemóvel) que está a criar imenso buzz (NdE: burburinho, dar que falar). Mas será que é tudo uma fad (NdE: moda passageira)? Ou que vai sobreviver à Hype (NdE: a este frenesim em que as pessoas parece que preferiam ter um convite para a aplicação do que duas doses da vacina no bucho)?

[Ouça aqui a A App da Vizinha, que explica como funciona a aplicação]

A app que o põe com os ouvidos colados ao ecrã

A aplicação que descobriu um nicho de mercado no Oeiras Valley de São Francisco

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Talvez porque as pessoas passam o dobro do tempo em casa que passavam antes, neste momento há duas aplicações do momento. Há o TikTok, um cruzamento radioativo entre as stories (publicações que desaparecem em 24 horas) do Instagram e os canais mais estranhos do YouTube. E depois há o Clubhouse, o tema deste artigo. O que é o Clubhouse? É uma espécie de Facebook para quem não gostava de LinkedIn, uma espécie de LinkedIn para quem não gosta do Facebook. Ou um evento TED em que toda a gente pode apresentar a sua ideia sem ter sequer de preparar um PowerPoint — às vezes até sem ter uma ideia qualquer. É uma rede social composta por salas, uma gigantesca casa de reflexão onde podemos ouvir debates, conversas, diatribes várias e participar nas mesmas.

De acordo com os seus criadores, para confirmarem que tudo funciona como deve ser, só se pode entrar no Clubhouse por convite. Na realidade, é bem possível que a única coisa que estejam a testar é se uma estratégia de marketing tão antiga como esta ainda resulta. O Gmail, por exemplo, também começou como sendo invite-only (só por convite) e hoje é o que sabemos: a nossa caixa de entrada tornou-se a ponte do iceberg de uma suite de ferramentas de produtividade, ou seja, coisas que utilizamos para trabalhar e permanecer neste ciclo perpétuo que nos aprisiona e obriga a sermos menos do que devíamos ser.

Nota: É perfeitamente possível que tudo isto que escrevemos esteja a ser discutido, neste preciso momento, numa sala do Clubhouse por pessoas que, ironicamente, agendaram esses mesmos eventos nas suas agendas do Google Calendar.

É bem possível que o caro leitor esteja a ler isto e não se tenha apercebido sequer de que há uma nova rede social chamada Clubhouse, que em menos de um ano já angariou 100 milhões de dólares em investimento e está avaliada em mil milhões, e que há pessoas dispostas a trocar vacinas da Pfizer -- da Pfizer! -- por convites para a mesma

A verdade é que a tal estratégia de aquisição de utilizadores parece ter funcionado: nós, que estamos em demasiados grupos do WhatsApp em geral e em demasiados grupos de geeks, fazedores e empreendedores em particular, sabemos que houve aí um ou dois meses em que um setor muito específico do mercado tinha preferido receber um destes convites a um boletim premiado do Euromilhões.

Agora, também é bem possível que o caro leitor esteja a ler isto e não se tenha apercebido sequer de que há uma nova rede social chamada Clubhouse, que em menos de um ano já angariou 100 milhões de dólares em investimento e está avaliada em mil milhões, e que há pessoas dispostas a trocar vacinas da Pfizer — da Pfizer! — por convites para a mesma.

Isso, para nós, não representa um problema. A aplicação em questão descobriu um nicho de mercado em Silicon Valley, ou, como gostamos de dizer, no Oeiras Valley de São Francisco. Foi aí que o Clubhouse encontrou a constelação de fundadores de startups, investidores privados, em capital de risco, engenheiros informáticos e jornalistas de tecnologia que lhe deram o necessário hype. Entretanto, a hiperglobalização fez o resto e a coisa expandiu-se muito, e muito rapidamente, para lá do vale.

E neste pequeno universo, (que, mesmo assim, talvez seja grande demais), a empresa descobriu que as pessoas queriam imenso ouvir os seus gurus, os Elon Musk (fundador da Tesla, technoking in charge, e pai de uma criança com código de barras em vez de nome civil), os Zuckerberg (fundador do Facebook e a prova de que um robô também pode gerir uma empresa), e Barbara Corcoran (uma das anfitriãs do Shark Tank americano que só está aqui porque a regra é que os exemplos devem surgir aos três).

É um nicho. Mas é um nicho de pessoas com algum tempo nas mãos, mais dinheiro do que conseguem gastar, e que encontram no Clubhouse uma ferramenta extraordinária para se apaixonarem ainda mais pela sua voz e aumentarem os seus speaking fees, que em português é algo como as comissões que cobram para falar em eventos, na próxima oportunidade que tiverem. Na verdade, nada disto é errado ou imoral. É, isso sim, um belíssimo nicho para ocupar. E há nichos muito piores.

O multimilionário Elon Musk, presidente da Tesla e da Space X, que é visto como uma referência para empreendedores

Mas é curioso ou proverbial (depende de quanto tempo levam a observar estes fenómenos): a mesma cultura que acha que as fronteiras do mundo acabam às portas douradas de São Francisco, neste caso achou que esse mundo não era mundo que chegasse. Em são francisquês, essa ambição é geralmente traduzida num one pager para investidores e demais interessados sobre ligarmos o mundo inteiro, a importância da partilha do conhecimento, yada, yada, yada. Em português podemos definir essa estratégia como ir com demasiada sede ao pote.

Peter Thiel (um dos primeiros investidores no Facebook, defensor do monopólio enquanto modelo de negócios, e Golias que se diverte a provar que essa história dos Davids é um conto de fadas) é um dos grandes pioneiros da cultura de Silicon Valley. E, debaixo da visão dele, criou-se esta ideia de que uma boa startup tem de ser universal. Que se houvessem cinco biliões de smartphones na terra, todas as apps deviam almejar ter cinco biliões de downloads. E a realidade da angariação de investimento reforça esta realidade: ninguém “levantará” tanto capital se disser que a sua estratégia de crescimento é ser melhor com menos utilizadores do que aqueles que o primado de crescimento tecnológico tem vindo a postular.

A ideia, noutras palavras, é de que todos os restaurantes deviam ser como o McDonalds: atraindo as massas, fáceis de abrir em vários “mercados” (vulgo países), baratos de manter abertos, com um produto fácil de empacotar, a tomar apenas as medidas mais superficiais para fingir que se preocupam com a saúde dos seus clientes e, quanto mais viciantes, melhor. Nós acreditamos que nem só de pão com um recheio de “carne” (no sentido mais lato do termo) vive o homem.

E se é verdade que uma startup que não queira crescer explosivamente não é uma startup (será, talvez, uma PME, isto é, uma pequena e média empresa, termo que urge requalificar), também temos de perceber que deve haver espaço para startups que aproveitam os nichos que encontram e fazerem o melhor que podem lá dentro.

É a sede com que se vai ao pote que parece determinar a experiência do Clubhouse

Talvez tudo isto tenha uma origem concreta. Os dois autores deste texto conheceram-se numa startup virada para os estudantes de Erasmus. Era um nicho, mas era um nicho gigante. Era um nicho que podia ter expandido para outros grupos de estudantes internacionais. Era. Mas, em vez disso, decidiu-se que era mais rápido se passasse a ser o site onde todos os portugueses encontravam a casa. Apesar de o produto estar virado apenas para estudantes internacionais (não dava para visitar casas, por exemplo) e a oferta também (muitos dos senhorios só aceitavam estudantes).

Quando isso não correu imediatamente bem, tomaram-se atalhos. Usou-se muito a palavra pivô em reuniões infindáveis. Definimos 30 USP (unique selling propositions) e saímos da sala com nenhuma. Como não estávamos a conseguir que os portugueses procurassem casa na Uniplaces, inundou-se os sites onde os portugueses o fazem com anúncios. Talvez desse para convencer os portugueses. Talvez desse para fintar os investidores. Só mais uma vez. Em muitas startups, a primeira opção é tão boa quanto a segunda.

Isso não salvou a startup em questão. Muito pelo contrário: os recursos de apoio ao cliente começaram a afundar-se sob o peso de tentar responder às perguntas de “potenciais clientes”. Foi preciso “promover” alguém só para começar a distribuir todas as perguntas e dúvidas. Umas semanas depois, um de nós estava com o braço ao peito de tanto uso que tinha dado ao rato, e à mão.

Bem usado, também está aqui uma espécie de elevador social ou aquela solução de dopamina que ainda não sabíamos que precisávamos nas nossas vidas. E, lá está, não há nada de necessariamente errado nisso. Mas é a sede com que se vai ao pote que parece determinar a experiência deste produto

O que nos leva ao Clubhouse e ao resultado desse crescimento desenfreado: uma boa ideia e uma boa intenção transformaram-se num espaço sobrepopulado que privilegia a densidade populacional aos espaços verdes e à convivialidade. Uma espécie de subúrbio intelectual em que demasiadas pessoas, tendo ouvido outras tantas, rapidamente assimilaram a natureza desta rede social, que é a de todas as outras.

É que, bem usado, também está aqui uma espécie de elevador social ou aquela solução de dopamina que ainda não sabíamos que precisávamos nas nossas vidas. E, lá está, não há nada de necessariamente errado nisso. Mas é a sede com que se vai ao pote que parece determinar a experiência deste produto.

Depois do Twitter e do Telegram, Spotify vai ter a sua versão do Clubhouse

A vida do seu utilizador é tortuosa, as recomendações da app são as piores de sempre, e a exploração do conteúdo disponível assemelha-se à típica cena de filme em que acompanhamos o ponto de vista de uma personagem inebriada pela sua própria existência e pelas circunstâncias, enquanto percorre um corredor sombrio. A cada porta aberta, um convite para entrar. No interior de cada sala, um bacanal de ideias e opiniões sem hierarquia ou organização estabelecida, os alicerces de uma boa ideia transformada numa experiência meio estranha da qual grande parte se começa a arrepender nas manhãs seguintes.

As ervas daninhas subiram mais depressa do que os tijolos e a obra é bem capaz de acabar embargada. Cá estaremos para assistir à demolição. O Clubhouse vai tentar crescer para fora desse nicho e é por isso que vai acabar.

*Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj

*Francisco Peres escreve artigos a fazer pouco de anglicismos mas tem como títulos profissionais as palavras copywriter e contentstrategist. Até à data de publicação deste artigo trabalhava com várias startups, mas suspeita que isso está prestes a mudar

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