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O que "O Tubarão" me ensinou sobre cinema, economia e paternidade /premium

Há 45 anos, Steven Spielberg criava o primeiro blockbuster da história. Há 45 anos, João Bonifácio nascia. O segundo reviu agora o primeiro e teve uma epifania. Este texto explica como e porquê.

Deixem-me de antemão cometer um erro crasso, quase de principiante, e revelar-vos algumas das sub-leituras deste texto – que era suposto ser uma peça sobre os 45 anos de “O Tubarão”, o filme de Steven Spielberg que em 1975 aterrorizou audiências ao escancarar a boca do dito animal, com os seus dentes malévolos, nas gigantescas telas de cinema que se usavam naquele tempo.

Mas este é também um texto sobre como um filme mudou para sempre uma indústria, ao ser um blockbuster de tal ordem que Hollywood decidiu retirar o poder que realizadores como Scorsese ou Coppola haviam adquirido na década anterior e dedicar-se a filmes que pudessem ser vistos em família, recuperassem o dinheiro num fim-de-semana e não colocassem a audiência perante dilemas morais.

E, sendo um filme de Spielberg, é também um filme sobre a relação entre pais e filhos – no caso um pai (eu) e um filho (o meu). Ou outro pai (o meu, engenheiro e amante de literatura e cinema e jornais que vivia para o trabalho), cuja não-presença eu substituí pelos amores dele: a engenharia, os bons livros, a música, o cinema – e os jornais.

O tempo, sejam 45 ou 10 anos, é extraordinário, porque nos mostra que tudo muda e mesmo o que permanece é visto de outra forma: há sete anos, enquanto pai solteiro que não fazia ideia de como passar tempo com o seu filho de três anos, entrei na cinemateca júnior para ver o “ET” com o petiz.

A bem da verdade (e com esta confissão será mais simples para vós entenderdes os sub-textos de que falava acima) não vi, ao contrário da minha geração, o “ET” em tela na altura certa, porque estava doente. Vi-o mais tarde, quando já era um pós-adolescente elitista que não se comprazia cá com emoçõezinhas da tanga e achei-o insuportável, tal como odiava qualquer objeto que se dirigisse diretamente às emoções e não as intelectualizasse.

[o trailer de “O Tubarão”:]

Mas nesse dia tinha uma criança de três anos ao colo, que não sabia ler legendas, muito menos conhecia uma palavra de inglês e a quem eu tinha de literalmente traduzir o filme em tempo real ao ouvido. De uma estranha forma tornou-se-me mais difícil traduzir o filme à medida que este prosseguia, a voz começou a falhar-me e senti um aperto na garganta. Ao chegar a casa o rapaz repetiu, de forma atabalhoada, “ET phone home” e perguntou “fônôme é tefoná?”, e com esta simples pergunta a minha relação com Spielberg mudou.

Até então eu considerava-o um bom realizador de entretenimento com um pendor para a lamechice popularucha; adorava os Indiana Jones, que eram emoção pura mas com um swagger de macho intelectual que me apelava (sacas as garotas e lês livros e impedes que artefactos históricos caiam nas mãos dos nazis?, isto é irresistível), gostava de “Duel”, o seu primeiro filme, tinha algum carinho por “Império do Sol” (que vi sozinho num cinema em Ovar) mas detestava chachadas como “ET”, “A Cor Púrpura” ou “Always”. Spielberg, a meu ver, era simplesmente incapaz de ser realista, tinha sempre uma emoçãozinha barata ao canto do olho, oferecia sempre uma redençãozinha às suas personagens. Quando vi o “Soldado Ryan” estava a achar um belo filme até começarem a preocupar-se demasiado com o tal do soldado Ryan e quando assisti à última cena, em que um soldado Ryan envelhecido, rodeado pela família, está em frente aos túmulos dos soldados que o salvaram e se vira a chorar para os familiares e diz “Digam-me que eu fui um homem bom”, levantei-me e fui-me embora, aborrecido com a gratuitidade emocional.

Quantos anos haviam passado desde que Ryan fora salvo até cair de joelhos em frente aos túmulos dos seus salvadores? Arrisco dizer que uns 40 ou 50; e 40 ou 50 anos são muita coisa, muito tempo a mudar-nos a forma de olhar o mundo. Mas às vezes não são precisos tantos anos – bastam sete.

Desde o dia em que entrei na cinemateca júnior com o meu garoto que eu e ele criámos o hábito de vermos filmes antigos – e é-me curioso agora pensar que os únicos momentos em que o meu pai parava de trabalhar em silêncio era quando passava um Ford na TV, um Jerry Lewis, um Fred Astaire e aí ele falava-me, descrevia-me o que era a vida real dos índios, o que foi a conquista da América, porque é que gostava do Ford, quando é que se apaixonou por Gene Tierney.

Há 45 anos "O Tubarão" não destruiu apenas o sossego de milhões num domingo à tarde (e as férias de mais uns quantos), destruiu o cinema – porque a década de 70, em que os realizadores tinham carta branca para fazerem o que queriam, terá sido a última grande década de liberdade nas fitas.

Nestes sete anos nem sempre eu e o meu garoto vimos cinema com a regularidade que eu gostaria, e entretanto, com 10 anos, ele tem a sua sub-cultura: joga “Fortnite” com os amigos, vê youtubers sobre jogos de vídeo e futebol, lê livros que por mim não leria, mas é a vida.

Foi então que veio o confinamento e com o confinamento um tempo imenso juntos e o regresso do cinema: o “Assalto ao Arranha-Céus”, os “Gremlins”, entre outros, e, ontem, “O Tubarão”. O que é caricato é que ele já havia lido na net sobre “O Tubarão”, sabia que havia sido um êxito colossal e mesmo antes do filme estava interessado em saber como é que naqueles anos arcaicos haviam criado “O Tubarão” e filmado dentro de água. Eu descrevi-lhe o processo, que havia visto num doc num DVD, e disse-lhe que nesse DVD até se viam os arames do tubarão, pormenor que havia escapado aos espectadores da época. (Depois tive de lhe explicar o que era um DVD, uma tecnologia com que ele não contacta há uns bons seis anos.)

De forma caricata, ele zangou-se com as autoridades por não fecharem as praias quando já sabiam da existência do tubarão, puramente por razões comerciais – presumo que tenha feito um paralelo com os nossos tempos. Convém elucidar que eu sou de centro-esquerda mas não perco muito tempo a falar de política com ele – tento interferir o mínimo, dando-lhe apenas bases de bom senso, para que ele possa ir decidindo o seu caminho.

Os miúdos de hoje são muito diferentes dos de antigamente – este garoto não sabe abrir um pão à mão ou subir a uma árvore, mas quando há dias teve como TPC fazer uma composição sobre um jardim escreveu um texto em que ele e outros miúdos se agarravam a árvores para impedir máquinas de as derrubar e criar ali um hotel para turistas. A consciência ambiental deles é tremenda, acreditam que as meninas têm os mesmos direitos, sabem mais dos números do racismo nos EUA que eu, etc. São bem melhores do que nós éramos no meu tempo – nós tínhamos de ser duros, saber roubar fruta de uma árvore, pescar, andar à pancada, ter resposta pronta na ponta da língua. Éramos proto-machozinhos que não ajudávamos a cozinhar mas sabíamos usar uma caixa de ferramentas e tínhamos zero senso comunitário e chegávamos sempre a casa esfarrapados, ora das tropelias, ora da pancada. Estes miúdos são muito melhores do que nós.

[Steven Spielberg fala sobre “O Tubarão” em 1981:]

De modo que à hora de ir para a cama ele pediu-me para fazer de conta que eu era um tubarão que o queria comer e “O Tubarão” não era mais um filme que aterrorizou milhões de pessoas num fim-de-semana, e as fez mudar as férias para o campo, pelo menos até alguém fazer um filme chamado “Avalanche” ou “Derrocada” ou “O Poço Em Que Caíam Crianças”.

“O Tubarão”, enquanto filme, mudou, teria inevitavelmente de mudar – hoje é uma relíquia, uma curiosidade dos mais novos, um item de nostalgia dos mais velhos, uma ponte emocional para pais e filhos passarem tempo juntos.

Mas há 45 anos “O Tubarão” não destruiu apenas o sossego de milhões num domingo à tarde (e as férias de mais uns quantos), destruiu o cinema – porque a década de 70, em que os realizadores tinham carta branca para fazerem o que queriam, terá sido a última grande década de liberdade nas fitas.

Ninguém sabe ao certo como e quando a revolução dos movie brats dos anos 70 começou, mas ironicamente terá sido um veterano, Arthur Penn, a mostrar o caminho com o seu “Bonnie and Clyde”, cheio de violência, ambiguidade sexual e mensagem anti-sistema. A velha Hollywood não encontrava uma forma de entretenimento que agradasse às massas, uma geração que vivera o Vietname não se encontrava representada na tela e nisto surge “Bonnie and Clyde”, em 1967, que a cada tiro deu por si a contar cifrões.

Foi a deixa para os mais novos avançarem com filmes arriscados, pouco convencionais, em que – ao contrário do que era hábito em Hollywood – tinham a edição final: em 1969 John Schlesinger fez “Midnight Cowboy” e Dennis Hopper pariu o seu alucinado “Easy Rider”. Terá sido este o momento da verdadeira mudança, porque a partir daí, e durante quase uma década, os moviebrats, uma geração de realizadores cinéfilos que conheciam cinema de todas as partes do mundo e acreditavam que o cinema devia ser inovador e mostrar o mundo tal como ele era, acreditavam que as audiências não tinham de ser infantilizadas, tomaram conta de Hollywood.

Quarenta e cinco anos permitem a ocasional glória e toneladas de arrependimento, mas também nos permitem observar que os seres humanos mudam (mas não em tudo): os nossos filhos são melhores que nós e hoje preocupam-se mais com a inação das autoridades em "O Tubarão" do que com qualquer susto.

A década abriu com o assombroso “Last Picture Show”, de Peter Bogdanovich, em 1971 e no ano seguinte “Coppola” lançou o primeiro “Padrinho”, mais um ano e veio “Mean Streets”, de Martin Scorsese, Polansky põe cá para fora “Chinatown” em 1974, e foi assim, de filme louco em filme louco, atingindo o seu zénite de dissolução em “Taxi Driver”, de Scorsese, em 1976. Estou a deixar de fora desta lista muitos filmes e muitos realizadores de excelência: Robert Altman fez “M*A*S*H” em 1970 e “Nashville” em 1975, Hal Ashby cria o extraordinário “Harold and Maude” logo em 1971 – e cada um destes filmes tocava em assuntos sensíveis, da vida nas ruas à máfia, passando pela sexualidade.

Claro que falar em zénite é erro, mas há momentos-chave: o mencionado “Taxi Driver”, pela sua descida ao inferno mental de um homem comum, que permanece até hoje como um dos mais poderosos exemplares da confusão da mente humana numa grande urbe; depois houve Coppola, cujo “Apocalypse Now” foi tão longo, tão caro, tão incontrolável do ponto de vista de produção que levou Hollywood a pensar que estes garotos talvez tivessem ido longe demais.

Essa ideia foi cimentada por dois filmes que acabaram oficialmente com a New Hollywood, dos movie brats: “Heaven’s Gate”, de Michael Cimino, lançado em 1980, foi caríssimo e falhou por completo no box office; One From the Heart, de Copolla, idem em 1982. Empresas são empresas e têm de dar lucro – e quem tomava decisões começou a pensar que a ideia de dar todo o poder aos movie brats havia funcionado durante um tempo, mas havia uma forma de garantir dinheiro em caixa: era repetir “Tubarão” – um tema que não colocasse dúvidas morais mas tivesse impacto, um valente orçamento de marketing, e num fim de semana estavam recuperados os custos.

Depois de “O Tubarão”, do qual três anos depois fizeram uma sequela, rapidamente vieram outros, com “Star Wars” à cabeça, sempre com o mesmo modus operandi (e por favor, não digam que há dilema moral em Star Wars, uma saga em que os bons se vestem de uma cor e os maus de outra, onde não existe cinzento e o maior engulho moral que há para engolir é o facto de um mau ser pai de um bom e já ter sido bom, sempre assim em absolutos, bons e maus sem cinzento pelo meio), os próprios “Indiana Jones”, a saga “Regresso ao Futuro”, etc.

Há esquerda, o homem. À direita, o tubarão. Qual vence no fim? Se não, não sou eu que lhe vou dizer

Spielberg, com “O Tubarão”, deu cabo da New Hollywood e dessa maravilhosa brisa de realidade que ela trouxe ao cinema americano, e com isso criou o caminho para chegarmos ao estado do cinema americano nos dias de hoje, em que, no sistema de estúdios, praticamente só se fazem filmes de super-heróis, que não são bem cinema porque um super-herói não é uma pessoa – um super-herói luta para salvar o mundo mas não para pagar as contas da mercearia e a moralidade humana que nos rói por dentro reduz-se a isto: quando pisamos cocó e não está ninguém a ver, limpamos a sola ao nosso tapete ou ao do vizinho? Mas os super-heróis não lidam com estes problemas porque não são humanos.

Isto não seria um problema se houvesse espaço para outros filmes, para o risco, a inovação – mas não há. Esse foi para outras plataformas, como a Netflix – dois bons exemplos disso são “Uncut Gems”, dos irmãos Safdie, e “Irishman”, de Martin Scorsese, que não encontraram dinheiro nos estúdios convencionais.

Quarenta e cinco anos é muito tempo – eu sei porque é a minha idade. Quarenta e cinco anos permitem a ocasional glória e toneladas de arrependimento, mas também nos permitem observar que os seres humanos mudam (mas não em tudo): os nossos filhos são melhores que nós e hoje preocupam-se mais com a inação das autoridades em “O Tubarão” do que com qualquer susto. O filme, esse mudou, já não assusta ninguém e mesmo os seus fãs provavelmente revê-lo-ão mais por nostalgia do que por arrepio na espinha.

Os seres humanos mudam assim: até há dez anos eu detestava “ET” e “Saving Private Ryan”; mas de há dez anos para cá, sabe-se lá porquê, tenho um imenso amor a esses filmes e toda a minha postura existencial – que falha vezes sem conta – está naquela última cena em que o private Ryan se questiona se foi merecedor de ser salvo, se foi o bom homem que quis ser por honra a quem o salvou.

Quarenta e cinco anos dão para muita coisa, até para destruir uma indústria outrora brilhante. Mas também dão para um filho crescer a amar cinema porque era o único momento que tinha com o seu pai silencioso, tornar-se pai e passar o mesmo amor ao filho.

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