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O jogador do Sporting de Braga, Bruma, festeja após marcar um golo contra o Vitória de Guimarães durante o jogo dos quartos de final da Taça da Liga de futebol realizado no Estádio Municipal de Braga, 31 de outubro de 2024. HUGO DELGADO/LUSA
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Bruma, internacional português do Sp. Braga, foi a transferência surpresa no mercado nacional no último dia da janela de janeiro

HUGO DELGADO/LUSA

Bruma, internacional português do Sp. Braga, foi a transferência surpresa no mercado nacional no último dia da janela de janeiro

HUGO DELGADO/LUSA

O risco do Sporting, a aposta do Benfica, as necessidades do FC Porto: como os contextos encheram três balões no mercado

Benfica sai como vencedor de um mercado de transferências atípico que teve "grandes" a trabalharem plantéis à luz dos treinadores que entraram a meio. Sporting e FC Porto falharam alvos no último dia.

Em seis meses, tudo mudou. Mudaram as prioridades, mudaram os contextos, mudaram os técnicos, foram mudando as principais ideias. Pela primeira vez desde que passou a haver uma janela de transferências no mês de janeiro, Sporting, Benfica e FC Porto chegavam ao mês de janeiro com missões diferentes daquelas que seriam previsíveis, por exemplo, em novembro. Nem tudo foi cumprido, longe disso. Os leões ficaram sem o desejado lateral (e um jogador que estava praticamente vendido é agora titular indiscutível), as águias não conseguiram até ao momento cortar gorduras a mais no plantel, os dragões acabaram sem sucessor para “o” negócio do último dia – Nico González. Ainda assim, foi o espelho do contexto que atravessam.

Fecho do mercado. Benfica apresenta três reforços, Sporting apresenta Biel, FC Porto faz maior venda com Nico González no City

Do lado do Sporting, naquele que foi o último mercado de Hugo Viana como diretor desportivo antes de ir para o Manchester City nas mesmas funções, prevaleceu a convicção interna de que o maior “reforço” virá da recuperação física de elementos como Gyökeres, Morita, agora Geny Catamo e, sobretudo, Pedro Gonçalves. Da parte do Benfica, apesar das recentes vitórias consecutivas com Juventus e Estrela, houve uma inversão face ao “apertar de cinto” do verão, com quatro reforços que dão a Bruno Lage armas para discutir todas as competições de outra forma. Por fim, o FC Porto adequou a forma de operar à nova era iniciada por Martín Anselmi, olhando de outra forma para o mercado sul-americano de jovens talentos sem esquecer o cenário que fazer grandes vendas para equilibrar aquilo que foram as contas deixadas pela antiga administração.

A viragem de paradigma não teve total seguimento no mercado – e esse é o risco do Sporting

Quando Rui Borges entrou no Sporting e assumiu o risco de mudar o sistema tático logo na estreia frente ao Benfica (com sucesso, ganhando pela margem mínima o dérbi), estava dado o mote para aquilo que seria o início de uma nova era. Podia ser melhor ou pior, podia ter mais ou menos sucesso, iria sempre ser uma nova era, assente nas ideias do técnico que estava no comando e não refém do legado que ficara do ex-treinador como aconteceu no período de seis semanas com João Pereira. Como extensão dessa ideia, o mercado de transferências de inverno deveria também entroncar nesse metamorfose, adequando aquilo que era o plantel à nova ideia de jogo que passaria a vigorar. No final, e naquelas que foram as últimas semanas de trabalho de Hugo Viana como diretor desportivo do Sporting, a tarefa ficou incompleta perante o contexto existente.

A última janela de transferências encontrou uma conjugação cósmica como tão cedo o Sporting não voltará a encontrar. Ruben Amorim fazia aquela que deveria ser a última temporada em Alvalade, a ideia passou pela prioridade em manter toda a espinha dorsal (saíram Mateus Fernandes e Paulinho para fazer dinheiro em mais valias, com as restantes receitas a chegarem de direitos económicos e mais valias de outros jogadores) com ajustes cirúrgicos em quatro posições: guarda-redes (Kovacevic), central (Debast), ala esquerdo (Maxi Araújo) e avançado (Conrad Harder). Para todos os outros, o mote estava lançado: 2024/25 deveria ser uma época de Last Dance, com o objetivo de chegar ao bicampeonato 70 anos depois e brilhar na Champions.

Rui Silva era o grande objetivo do Sporting para reforçar a baliza e foi também o primeiro reforço a chegar a Alvalade

Gualter Fatia

Com a saída do técnico para Inglaterra, desmorou-se a ideia mas permaneceu o sonho. Rui Silva foi o eleito para encontrar uma alternativa mais “válida” para a baliza (apesar de Kovacevic não ter saído para já nesta janela de mercado como era suposto), Biel veio do Bahia como uma aposta para encontrar um jogador que tivesse um perfil mais parecido com um sucessor de Pedro Gonçalves, tudo o resto acabou por ser adiado. Apesar de terem existido algumas possibilidades para reforçar a lateral esquerda que perdeu cedo Nuno Santos por lesão, era no flanco contrário que as fichas estavam postas. Alberto Costa foi para a Juventus, Andrés Garcia reforçou o Aston Villa, Amar Dedic mudou-se para o Marselha e outros nomes que andavam a ser ventilados como Arnau Martínez não passaram de um possível projeto. Dessa forma, Iván Fresneda, que estava com um pé e meio no Como com opção de dez milhões, ficou e logo para ser titular.

Apesar dessas necessidades, o Sporting arriscou naquilo que não pode controlar: a parte física. O diagnóstico do problema de Geny Catamo, que deverá afastar o moçambicano dos próximos quatro/cinco jogos, motivou quase um suspiro de alívio perante os receios de que pudesse ser uma lesão mais grave mas nem por isso o cenário está aliviado, com Viktor Gyökeres ainda com problemas musculares e Pedro Gonçalves a ver a total recuperação mais uma vez adiada (e por mais algumas semanas). Com todo o plantel, os leões têm condições para defenderem os seis pontos de avanço com 14 jornadas por disputar; com constantes ausências, o leque fica bem mais curto, como se viu pelo banco de suplentes no recente triunfo com o Farense. Entre fazer uma aposta maior pelo bicampeonato ou manter as finanças equilibradas, imperou a segunda – e isso é um risco, entre o excesso de centrais para quem joga com uma linha de quatro e a escassez de laterais e médios.

Benfica e um mercado especial para esvaziar o peso de um período pré-eleitoral

Uma das principais críticas ao mercado de transferências de verão do Benfica entroncou na falta de apostas perante os mais de 140 milhões de euros recebidos por João Neves, David Neres, Paulo Bernardo, Morato e Marcos Leonardo, os dois últimos nos derradeiros dias. Chegou Pavlidis, chegou nas últimas horas Kerem Aktürkoglu, chegou Beste, foi atividade a opção por Álvaro Carreiras, vieram ainda a custo zero ou a título de empréstimo Leandro Barreiro, Renato Sanches e Zeki Amdouni. Havia uma clara necessidade de colocar a vertente financeira como prioridade ao mesmo nível da parte desportiva, sem descurar o equilíbrio de um plantel que ficou fechado numa altura de mudança técnica de Roger Schmidt para Bruno Lage. Agora, esse sentido acabou por ser invertido, com preocupação às saídas mas a olhar mais para o investimento.

O contexto que o clube atravessa ajuda também a explicar aquilo que se passou no mercado. Na sequência da derrota com o Casa Pia em Rio Maior para o Campeonato e do áudio de Bruno Lage na garagem do Estádio da Luz a falar com adeptos entre críticas aos jogadores e à própria administração da SAD, houve a perceção no plano interno de que as críticas nesta fase pré-eleitoral foram aumentando por forma a preparar terreno para o período de contagem de espingardas que se tem registado no universo benfiquista. Bem ou mal, com ou sem razão, Rui Costa passou de solução a problema – e a forma como se foi criticando as vendas de João Neves e David Neres por 88 milhões face aos 110 milhões arrecadados agora pelo FC Porto com as saídas de Galeno e Nico González (mesmo sem receber a totalidade pelo espanhol) voltou a mostrar isso mesmo.

Manu Silva foi a primeira contratação do Benfica no mercado de janeiro e foi titular no triunfo dos encarnados na Amadora

Ato contínuo, ficando com alguns assuntos ainda pendentes neste mercado como as situações de Rollheiser ou de Arthur Cabral, o Benfica tentou dar mais e melhores soluções a Bruno Lage. Kaboré, lateral cedido pelo Manchester City no verão, foi dispensado sem substituto direto (até porque além de Alexander Bah há Tomás Araújo, que tem sido chamado a essa posição nos últimos encontros) mas Samuel Dahl rendeu Beste no lado oposto, Andrea Belotti veio dar mais uma opção de fogo na frente ao técnico, Manu Silva foi o médio eleito para reforçar um setor que tinha carências até pelas constantes lesões de Renato Sanches – com antecipação de um negócio que poderia acontecer apenas no verão – e ainda chegou Bruma do Sp. Braga, por forma a dar outra profundidade ao plantel que ganhou um reforço de peso em termos internos chamado Schjelderup.

Após ter conquistado a Taça da Liga, no único troféu que já terminou entre aqueles que o Benfica iria jogar, os responsáveis da SAD abriram os cordões à bolsa para garantir aquilo que consideram ser uma boa época apesar da turbulência gerada por altura da saída de Roger Schmidt: ganhar o Campeonato, chegar à final da Taça de Portugal, ir longe na Liga dos Campeões e ter um bom desempenho no Mundial de Clubes. Serão também esses resultados que irão ditar os próximos meses do quotidiano dos encarnados, numa fase em que vários possíveis candidatos começam a posicionar-se à luz do que se vai passando no futebol.

FC Porto virou a página, apresentou outra ideia mas o texto do mercado ficou a meio

Apesar de ter ficado adiado no verão quando tudo estava certo para a saída, o FC Porto viu sempre na figura de Galeno uma figura com potencial para fazer uma grande venda que equilibrasse as contas e desse margem para algumas mexidas no plantel. Não foi o Al-Ittihad, foi o Al Ahli (com um ordenado de cinco milhões por temporada, valores líquidos) mas os 50 milhões de euros acordados seis meses antes foram os mesmos. O que ninguém acreditaria que era possível? A saída de Nico González, tendo em conta que a SAD dos azuis e brancos só nas últimas 48 horas acreditou de forma real que seria possível o Manchester City pagar os 60 milhões de euros pelo médio. Aconteceu mesmo. Quanto ao sucessor, o tempo escasseou.

Como foi sendo noticiado em vários jornais de diferentes países europeus, os dragões tentaram vários médios ao longo do dia, sempre colocando a fasquia abaixo do que era pedido. Nas últimas horas, as atenções iam começando a centrar-se apenas em Tomás Handel, do V. Guimarães. Não veio nem ele, nem ninguém, tendo em conta também que Tomás Pérez seria sempre reforçou com ou sem saída de Nico González. Como foi explicado pelo próprio Martín Anselmi, qualquer novo jogador que chegasse para a posição teria de trazer características que outros médios do plantel não tivessem. Como não foi o caso, tudo ficou na mesma, com as entradas do antigo jogador do Newell’s Old Boys e do jovem William Gomes a “fecharem” o mercado.

William Gomes, jovem avançado do São Paulo, foi uma das contratações do FC Porto neste mercado de janeiro

Neste particular, o novo técnico argentino chegou com uma semana de “atraso”. A tentativa de garantir o ala Kevin Zenón, do Boca Juniors, foi o exemplo de como também nas janelas de transferências começa a haver um novo paradigma na abordagem dos azuis e brancos, a alargar a sua rede de scouting a um nível mais “global” como não aconteceu no verão. Anselmi foi uma opção “fora da caixa” à procura de uma ideia de futebol moderno capaz de potenciar a equipa em termos desportivos e, em paralelo, de valor de mercado. O plantel pode não ter tantas opções para um sistema de 3x4x3 mas garante os “mínimos” para uma nova era.

Com Alan Varela, Eustáquio, Tomás Pérez, Fábio Vieira e Vasco Sousa, além do lesionado Grujic, para jogar nas duas posições de meio-campo, Anselmi terá apenas de garantir a melhor dupla não só para fazer carburar a equipa mas também para não deixar tão exposta a linha de três – é aí que pode entroncar o problema do técnico argentino à luz da atuação no mercado, tendo em conta que mantém o mesmo problema de precisar de um central com capacidade de saída em construção a partir de trás pelo meio, caso mantenha a ideia que tinha no Cruz Azul. Ainda assim, aquilo que fica de janeiro é um FC Porto a tentar recuperar dos problemas que asfixiam a tesouraria e condicionam as finanças com apostas em jovens para rentabilizar no plano desportivo e financeiro enquanto se vai construindo uma nova base para abordar os próximos anos.

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