A simbologia estava toda lá: a âncora, os retratos lendários de uma nação virada para o mar contada por Almada Negreiros, da Nau Catrineta a Fuas Roupinho, militar. A sala quase rebentava pelas costuras para receber não um político, mas uma espécie de herói do mar, num espetáculo curto e eficaz. O discurso durou 16 minutos e só foi tanto porque houve pausas para aplausos. O almirante Gouveia e Melo queria apresentar-se ao país como candidato presidencial, mas tem uma notoriedade que dispensa apresentações e discursos rococós. Ou, em palavras prévias do próprio, “discursos elaborados, repletos de fórmulas gastas e banalidades cínicas”.
Eram às dezenas os membros do staff, desde simples arrumadores de pessoas até assessores experientes. Um deles “o Luís”. Luís Bernardo, o interlocutor invisível do primeiro-ministro José Sócrates antes do anúncio da bancarrota. Agora, as funções não foram muito diferentes. Luís Bernardo ficou, mais uma vez, na sombra, atrás de toda a plateia e das câmaras a controlar o teleponto, que Gouveia e Melo — amante das tecnologias — utilizou para ler o discurso. Na equipa estavam vários outros assessores experientes, que trataram da comunicação de políticos do PS ou até mesmo do Bloco de Esquerda.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Também não faltaram figuras do mundo empresarial e dos media. Mário Ferreira, maior acionista da Media Capital (dona da TVI), não deixou de dizer “presente” no apoio ao amigo Henrique. Sentou-se na segunda fila e fez-se acompanhar da mulher, Paula Paz Dias, recentemente nomeada administradora do Estado (não remunerada) na Fundação Serralves.
Na sala não foi massiva a presença de políticos dos três maiores partidos (PS, PSD e Chega), mas havia alguns militantes ou ex-militantes históricos. Desses, muitos estão ou estiveram zangados (com Mendes ou com o PSD) e agora apoiam firmemente o almirante.
O presidente da câmara de Oeiras, Isaltino Morais, que se desvinculou do PSD em conflito com Marques Mendes teve honras de fila da frente, tal como a sua adjunta, Irina Costa. O antigo presidente da câmara de Sintra, Fernando Seara, hoje mais afastado das hostes sociais-democratas, estava mesmo ao lado.
O antigo ministro de Durão Barroso, António Martins da Cruz, que horas depois estava na televisão a falar como apoiante de Gouveia e Melo, também teve honras de primeira fila. Outros ex-ministros estiveram presentes, embora mais atrás, como foi o caso de Rui Gomes da Silva (hoje próximo de André Ventura e, por consequência, do Chega) ou Henrique Chaves, cuja demissão foi o harakiri do curto Governo Santana, do qual Gomes da Silva também não ficou isento de culpas.
Igualmente na primeira fila estiveram o ainda presidente da câmara municipal de Cascais, Carlos Carreiras, e o antigo ministro do PSD e vice-presidente da AR, Fernando Negrão. Na fila atrás de ambos estava uma das muitas figuras da área da Saúde que marcaram presença: o antigo diretor-geral de saúde, Francisco George. Mesmo ao lado direito do almirante esteve António Tavares, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, e um dos rioistas mais convictos, enquanto o antigo autarca foi líder do PSD.
Embora mais descaído para uma das pontas, mas também nas filas da frente, sentou-se um antigo ministro do PSD, Ângelo Correia — que tem sido dos mais vocais apoiantes de Gouveia e Melo na área da social-democracia. Porém, também há muito zangado com sucessivas lideranças do PSD.
E por falar em zangados ou não alinhados com a atual direção centrista, dois ex-líderes do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos e José Ribeiro e Castro, sentados também nas primeiras filas. Recorde-se que o CDS também reuniu o Conselho Nacional esta quinta-feira à noite, tal como o PSD, mas não declarou apoio a Marques Mendes e (ainda) sonha com Paulo Portas. Mesmo que Portas avance nunca terá o apoio destes dois ex-líderes anti-portismo.
Mais discreto ou envergonhado estava, para o fundo da sala, o antigo deputado do PS, Diogo Leão. Na sala, estava também pelo menos um ainda deputado do PS, Miguel Iglésias.
Estiveram ainda presentes outras figuras como, por exemplo, o constitucionalista Paulo Otero ou o histórico secretário-geral da Câmara Municipal de Lisboa, Alberto Laplaine Guimarães. A antiga bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, também apareceu.
Houve muitos políticos, mas também muita gente da sociedade civil e anónimos. Novos e velhos. A sala estava tão cheia e tão quente que a organização preveniu-se com ventoinhas gigantes nas laterais. Pelas cadeiras havia bandeiras ora de Portugal, ora a pedir Gouveia e Melo a presidente. O nome do almirante e o lema, “Unir Portugal”, destacavam-se sobre azul. Evidentemente, marinho.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
Antes de o almirante chegar (esteve pouco mais de 40 minutos na sala), houve música e o ambiente foi de pré-espectáculo. Sem grande critério foram passando temas desde o 125 Azul, dos Trovante, ao Os Verdes Anos, de Carlos Paredes. Já a entrada do almirante foi feita com uma música triunfalista e epopeica — que o Shazam do Observador não conseguiu identificar — e com palavras elogiosas da speaker de serviço. Bem ao estilo de qualquer comício político-partidário. Antes da intervenção, ainda passou um vídeo biográfico do candidato desde criança até à sua última função como Chefe do Estado-Maior da Armada.
Depois do discurso — que pode recordar aqui nas entrelinhas — Gouveia e Melo saiu, mas a confusão foi grande porque muitos apoiantes queriam felicitá-lo. Rodeado de seguranças, os jornalistas (principalmente repórteres de imagem e fotojornalistas) tiveram dificuldade em chegar ao almirante sem uma sequência de empurrões, tal não foi aparato. No fim do evento, um deles lamentava: “Mas que é isto? Dez seguranças? É o Obama ou quê?”
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR