Terça-feira, 22 de agosto de 1911. As pessoas fazem fila à porta do Museu do Louvre, em Paris, muito à semelhança daquele que é o registo de hoje em dia. Louis Béroud, um pintor parisiense, foi dos primeiros a entrar. O artista era um visitante regular da coleção permanente e entrava com o objetivo de fazer uma cópia de um retrato pintado por Leonardo da Vinci, algo que fazia com alguma frequência. Quando chegou ao Salon Carré, viu todas as obras que costumam estar afixadas, menos a de que estava à procura. No local onde antes se via a face de uma mulher misteriosa do século XVI, restavam apenas quatro pregos na parede, uma moldura vazia e um painel de vidro abandonado.
“La Jocónde a disparu”, anunciam as capas dos jornais locais. Naquele dia, Mona Lisa tinha desaparecido sem deixar rasto e só quando Béroud alertou as autoridades para a ausência do quadro e foi oficialmente declarado o roubo, todos os alarmes soaram. De imediato, os visitantes tiveram de abandonar o museu, que esteve encerrado enquanto a polícia conduzia perícias. O protocolo foi repetido este domingo, quando quatro indivíduos conseguiram roubar “oito objetos de inestimável valor patrimonial” da coleção de Napoleão Bonaparte, no primeiro piso do Louvre. Só não foram nove porque uma coroa caiu durante a fuga, sofrendo danos.
O roubo deste fim de semana não é inédito na história do museu. Nas suas primeiras reações, o autarca da região central da capital francesa admitiu que o único caso semelhante que lhe ocorria naquele momento era o do início do século passado. Quando a Mona Lisa desapareceu do Salon Carré no verão de 1911, todos foram apanhados de surpresa. Todos os funcionários do Museu do Louvre foram interrogados. Como era impossível apontar os dedos a um suspeito em concreto, qualquer pessoa que pudesse ter estado naquela sala antes da hora de abertura ficou na mira dos investigadores.
Quando encontrou uma impressão digital na moldura que delimitava a pintura de Da Vinci, a polícia comparou a amostra recolhida com cada uma dos 257 funcionários que lá trabalhavam naquela época. Hoje, mais de duas mil pessoas exercem um cargo neste mesmo museu. Os contornos do polegar esquerdo do suspeito não se alinhavam com os de qualquer trabalhador. “Quem roubou a Mona Lisa?” era a questão que se colocava. O que as autoridades não sabiam, no entanto, é que até encontrarem o responsável pelo roubo, aquele espaço no Salon Carré iria permanecer desocupado durante muito tempo.
▲ A pirâmide do Museu do Louvre só foi inaugurada em 1989
YOAN VALAT/EPA
O quadro esquecido que só foi dado como desaparecido ao fim de 24 horas
No início do século XX, o quadro não tinha a mesma fama que tem hoje. Se hoje em dia é talvez a obra de arte mais conhecida em todo o mundo — e também o principal motivo para as visitas de milhões e milhões de turistas todos os anos — na altura era, na realidade, uma de várias decorações que ocupava as paredes do labirinto artístico no coração da cidade de Paris. Foi com este roubo que a Mona Lisa ganhou a sua popularidade.
Em paralelo com as investigações que visavam decifrar o paradeiro da obra de Leonardo Da Vinci, o Louvre ia recebendo novos visitantes que se deslocaram até à capital para ver este espaço em branco entre a Alegoria Conjugal de Titian e O Casamento Místico de Santa Catarina de Alexandria, de Correggio. De acordo com a revista francesa Beaux Arts, até o escritor Franz Kafka veio de Praga de propósito para sentir a presença da Mona Lisa “in absentia“.
Rapidamente, a terça-feira de agosto em que foi relatado inicialmente o crime era uma coisa do passado. As autoridades não desistiram, mas o espaço vazio do Salon Carré foi ocupado, em dezembro do mesmo ano, pelo retrato de Baldassare Castiglione, pintado pelo italiano Rafael. Para além da parede onde estava afixada, a Mona Lisa também começou a perder o destaque no espaço mediático e, assim, as pessoas foram perdendo a esperança de reaver o quadro de Da Vinci em Paris.
Quando Louis Béroud se deparou com a ausência da obra, as preocupações não surgiram de imediato. O segurança que se encontrava de plantão naquela sala na hora de abertura do museu desvalorizou o alarmismo levantado pelo pintor. Uma vez que era terça-feira, o responsável explicou que provavelmente a Mona Lisa teria sido transportada para o estúdio de fotografia — uma rotina habitual, dado que o museu fechava todas as segundas-feiras.
Apesar de estar confiante nesta hipótese, o segurança decidiu confirmar. Foi só quando recebeu o parecer negativo vindo dos fotógrafos que se instaurou o caos no Louvre, cerca de 24 horas depois de o quadro ter sido roubado. A investigação foi oficialmente aberta na quarta-feira, no dia seguinte, e foi só aí que os 257 trabalhadores do museu foram consultados pelas autoridades para saber se a impressão digital encontrada tinha alguma correspondência.
Não tendo encontrado um claro culpado nos dias seguintes ao crime, o diretor do museu, Théophile Homolle, demitiu-se do cargo.
▲ A Mona Lisa estava afixada no Salon Carré do Louvre, entre a "Alegoria Conjugal" (Titian) e "O Casamento Místico de Santa Catarina de Alexandria" (Correggio)
Roger Viollet via Getty Images
O belga desesperado, o imperador alemão e Picasso: os primeiros nomes na lista de suspeitos
Descartada a hipótese de ter sido um “inside job“, com os funcionários do museu oficialmente ilibados depois da análise às impressões digitais, levantou-se a possibilidade de ter sido um artista de uma corrente artística revolucionária, ou até alguém com motivações políticas. Com um panorama geopolítico já tenso na Europa — a poucos anos da eclosão da Primeira Guerra Mundial — houve quem acusasse o então imperador alemão Kaiser Wilhelm II de ter encomendado o roubo da obra. Na grande maioria dos casos, no entanto, os dedos eram apontados para outros dentro do mundo das artes.
Com a data do roubo a ocorrer pouco depois do nascimento do cubismo (1907), e com os principais rostos deste movimento a residir em Paris nesta altura, surgiram os primeiros suspeitos: os “cubistas”, com a sua abordagem “revolucionária” de representar a realidade, desconstruindo-a em formas geométricas.
Por este motivo — e outros —, o nome de Pablo Picasso começou a ser uma presença assídua nas listas de suspeitos dos parisienses. Descobriu-se que o artista que vivia na capital francesa há meia dúzia de anos esteve envolvido num negócio questionável. Em 1907, Picasso comprou três estatuetas ibéricas ao seu amigo e poeta Guillaume Apollinaire que, por sua vez, as tinha adquirido do seu secretário belga Joseph Géry-Pieret. Os objetos adquiridos em terceira mão pelo pintor espanhol tinham sido, na verdade, roubados do Museu do Louvre.
Com esta informação a chegar aos ouvidos das autoridades, Picasso foi levado para interrogatório. O pintor devolveu os artefactos que havia comprado uns anos antes e o seu envolvimento neste crime foi afastado. O seu amigo, que lhe vendeu as estatuetas, foi detido cerca de duas semanas depois do roubo do quadro. Durante cinco dias, Guillaume Apollinaire esteve sob custódia da polícia francesa, sendo considerado o principal suspeito do assalto. Mas apesar de estar envolvido na venda de uma obra roubada do Louvre anos antes, o poeta também não era o culpado.
O responsável pelo roubo das estatuetas, que tinha abandonado Paris um pouco depois do desaparecimento da obra de Da Vinci, chegou a assumir as culpas pelo crime, pedindo uma larga quantia de dinheiro em troca pelo quadro roubado. No entanto, Joseph Géry-Pieret, na Bélgica, não podia devolver a Mona Lisa mesmo que lhe pagassem o montante solicitado: não fora ele o ladrão.
Entre buscas infrutíferas e detenções em vão, o tempo foi passando. Dias passaram a semanas, as semanas a meses e, rapidamente, já se tinham passado dois anos desde que a Mona Lisa tinha sido raptada da sua casa em Paris e ninguém sabia de nada. Até que, no final de 1913, surgiu uma denúncia. Alguém tentou vender este mesmo quadro assinado por Leonardo Da Vinci em Florença, a mais de 1.000km de distância da sua localização original.
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O vidraceiro italiano que invocou o seu patriotismo para se defender do roubo da Mona Lisa
Durante dois anos, Vincenzo Peruggia guardou a Mona Lisa no seu apartamento em Paris. O italiano trabalhou enquanto vidraceiro no museu e, quando a circulação estava limitada ao pessoal autorizado, numa segunda-feira em agosto de 1911, decidiu avançar com o seu plano.
O italiano trabalhou pouco tempo no Museu do Louvre. A sua função era construir molduras e vitrines. Quando chegou a altura de atacar, no verão daquele ano, Vincenzo Peruggia pegou no seu antigo uniforme de trabalho e entrou no edifício sem qualquer problema. É importante relembrar que a segurança do museu não era a mesma que existe nos dias de hoje, quando é preciso passar por detetores de metais e existe um grande aparato policial nas imediações durante todo o seu horário de atividade. No início do século, os acessos eram muito mais simples por não haver registo de tantas ameaças como existem atualmente.
Assim, Peruggia entrou no museu com tranquilidade, como se ainda trabalhasse lá. Quando chegou ao Salon Carré, reparou que a sala estava vazia, sem qualquer “colega” ou segurança a vigiar as obras que lá estavam inseridas. Conhecendo bem o equipamento, entre os painéis de vidro e as molduras, remover a tela não foi um desafio. Sem um alarme instalado, retirar o quadro da parede era fácil. Quando conseguiu a pintura isolada, decidiu colocar a moldura nas escadas de emergência anexadas à divisão onde estava e, de seguida, voltou para pegar no quadro de interesse.
▲ Representação do roubo da Mona Lisa no dia 21 de agosto de 1911
Roger Viollet via Getty Images
Vincenzo Peruggia colocou a Mona Lisa no interior do seu casaco e, sem qualquer entrave no seu caminho, conseguiu abandonar o museu da mesma forma como entrou: sem problemas. O seu nome não constava na lista de atuais funcionários do Louvre e, por isso, não foi um dos 257 trabalhadores abordados pelas autoridades para comparar as impressões digitais com a marca encontrada no local do crime. Por este motivo, o italiano conseguiu passar dois anos sem dar nas vistas e nunca chegou a ser considerado pela polícia como suspeito do assalto.
Isso só aconteceu no regresso a Itália, em 1913, quando procurou o curador de um museu em Florença para lhe apresentar uma proposta. Peruggia e o possível comprador da obra encontraram-se para ver a peça e, quando este último percebeu do que se tratava, o vendedor foi imediatamente denunciado às autoridades italianas. Mais de dois anos depois de ter desaparecido, a Mona Lisa estava prestes a regressar a casa.
Não foi só o quadro que foi transportado para França. Vincenzo Peruggia foi formalmente acusado do roubo do quadro e foi a julgamento em Paris. Questionado pelo juiz sobre o porquê de ter assaltado a obra de arte, o vidraceiro italiano mencionou ver o gesto como sendo patriótico: uma tentativa de devolver ao seu país algo que havia sido roubado há mais de quatro séculos. O quadro, apesar de ter sido pintado por um italiano, foi terminado em França e comprado por Francisco I de França em 1518.
As justificações apresentadas por Peruggia não foram suficientes para lhe dar razão neste caso, mas o italiano conseguiu uma pena reduzida. O juiz decretou um ano e 15 dias de prisão para o ladrão da Mona Lisa no início de 1914. O ano do início da pena coincidiu com o início da Primeira Guerra Mundial e, por isso, viu a sua pena reduzida para apenas sete meses. Saiu da prisão com 33 anos, chegou a representar Itália nos campos de combate e foi prisioneiro de guerra do Império Austro-Húngaro. Morreu uma década depois, tendo passado os seus últimos anos de vida a trabalhar como pintor.