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Martim Andrade/OBSERVADOR

Martim Andrade/OBSERVADOR

Os bastidores do lançamento do foguetão Ariane 6 em Kourou, a "porta de entrada da Europa para o espaço"

O processo de colocar um foguetão com dois satélites no espaço é científico e rigorosamente planeado. Mas os nervos também são uma constante, pelo que explicações sobrenaturais também são um fator.

O Observador viajou para Kourou a convite da Agência Espacial Europeia 

A poucos minutos da hora do lançamento, os espectadores na Sala Júpiter — “a torre de controlo” de Kourou — ouvem atentamente o relato da equipa responsável pela transmissão do evento. Com os olhos fixados no grande ecrã ao fundo da sala, também os responsáveis pelo lançamento desviam os olhares dos seus monitores individuais quando começa a contagem decrescente. Em francês, o diretor das operações (DDO) contou do dix até ao un. Um minuto após as duas da manhã, a escuridão que cobria a floresta tropical da Guiana Francesa passou a estar iluminada pelo clarão de luz emitido pelo jato dos dois propulsores do Ariane 6.

O momento do lançamento é o que gera maior nervosismo entre os engenheiros que estão há meses a preparar esta missão. Mas, mesmo após o sucesso desta primeira parte, os rostos dos que se sentavam no “aquário” da “torre de controlo” mantinham-se focados para garantir que as restantes sete fases da operação corriam conforme planeado. Por mais lançamentos que façam, os nervos são uma constante. “Nunca se sabe o que vai acontecer. Sentimos sempre que fazemos tudo aquilo que é possível para garantir que corre tudo bem, mas nunca se sabe”, admite ao Observador Guy Pilchen, o responsável da Agência Espacial Europeia pelos programas do Ariane 6.

Mas este já é o quinto lançamento do sucessor do Ariane 5, pelo que o nível de confiança dos profissionais tem vindo a aumentar significativamente. Confinados pelas espessas paredes de vidro insonorizadas, perto de 50 dirigentes da ESA, do ArianeGroup (os responsáveis pelo foguetão) e ainda da agência espacial francesa, que administra o território, acompanham o lançamento pela noite dentro. Se o “aquário” é a “torre de controlo”, o “bunker” a 5 km de distância da plataforma de lançamento é o “cockpit“.

No centro de controlo do lançador, Frédéric, do ArianeGroup, é o metafórico piloto. A cerca de sete horas do lançamento, quando ainda se esperava a “luz verde” da estação meteorológica, o engenheiro nem colocava em cima da mesa a possibilidade de o voo VA266 ser adiado. “Hoje vai dar certo”, afirmou. “Nem queremos considerar outra hipótese”. Durante toda a noite, Frédéric está em constante contacto com o DDO, um cargo que costuma variar de missão para missão, mas que tende a obedecer à regra de ser ocupado por um guianês.

Para além de coordenar a extensa equipa reunida no “cockpit” do Ariane 6, é em Frédéric que recaem as responsabilidades de carregar no “botão” para ativar a contagem decrescente. “Não é mesmo um botão, carregamos no ‘Enter’, no computador, e aquilo corre um programa automatizado”, explica ao Observador, apontando, ao mesmo tempo, para as quatro luzes situadas na sua mesa. É só quando as quatro ficam verdes que se dá autorização para lançar.

Frédéric confessa que, apesar de a hora de lançamento estar definida há já alguns meses, controla todas as operações para garantir que está tudo pronto para lançar uma hora antes. Ao contrário do que acontece noutros voos, neste “não há uma janela de lançamento”. Se o foguetão europeu não for para o ar quando o relógio marcar um minuto após as 2h da manhã (hora local), todas as operações terão de ser adiadas pelo menos 48 horas, ficando novamente à mercê do clima tropical imprevisível do território francês na América do Sul.

A “luz verde” da estação meteorológica chegou seis horas antes do momento do lançamento, o que permitiu avançar com os preparativos finais. O timing tem de ser rigoroso, continua Frédéric: se falhar o lançamento por um minuto que seja, os dois satélites que seguem a bordo do Ariane 6 para integrar o programa de navegação europeu Galileo têm de entrar em órbita a 22.922 km de altitude e a uma inclinação de 54º, para garantir que estão na posição correta ao lado dos restantes 27 satélites que compõem esta constelação.

O coletivo de cerca de 50 responsáveis pelas diferentes operações manteve-se dentro do “aquário” até perto do nascer do sol, durante mais de sete horas. Os aplausos, os abraços e a celebração vieram quase cinco horas após a saída do Ariane 6 da plataforma. Os satélites estão em órbita e tudo correu conforme planeado. No “aquário” espacial em Kourou, os engenheiros da ESA, do ArianeGroup e das várias entidades representadas brindam ao sucesso do quinto lançamento do “novo” foguetão “perfeito”.

O centro do tamanho de Singapura e o “arc d’assembly” que monta foguetões como LEGO

O Ariane 6, com os SAT 33 e 34 que chegaram a Kourou no início de novembro, já estava na plataforma de lançamento quase uma semana antes do lançamento. Todos nesta pequena cidade que passou de vila piscatória a hub espacial estão desejosos por vê-lo subir ao espaço. Entre a “torre de controlo” e o pórtico móvel que dá abrigo ao foguetão estão 17 km de savana tropical, onde à margem da única estrada que nos leva às instalações do ArianeGroup se veem múltiplos sinais a alertar para possíveis aparições de jaguares ou papa-formigas.

O terreno do Porto Espacial Europeu é composto por mais de 650 km2, “dos quais apenas 20% são utilizados para infraestrutura espacial”, assegura ao Observador a responsável pela visita guiada às instalações do centro. “É quase do tamanho de Singapura”, brinca. Com muito espaço por aproveitar e para construir, refere que nada chega a Kourou por fazer. As partes dos foguetões e os satélites (neste caso) chegam de barco, são transportados com a ajuda das autoridades francesas, e depois os responsáveis no terreno “limitam-se a montar as peças”. A viagem de barco desde a Europa dura, em média, 10 a 12 dias.

Kourou está a mais de 7 mil km de Paris, mas continua a ser a localização ideal para garantir a autonomia europeia no acesso ao espaço. “As condições meteorológicas são estáveis, podemos lançar em qualquer direção e estamos mesmo muito próximos do Equador”, explica ainda Renata, que faz esta mesma tour há oito anos pela capital espacial europeia. A iniciativa partiu da CNES, a agência espacial francesa, que estava sediada na Argélia até à sua independência em 1962. Aqui, surgiu a necessidade de criar uma alternativa.

Quando foi escolhida a Guiana Francesa, uma Agência Espacial Europeia era apenas um sonho. A CNES chegou a considerar as Seychelles, o Brasil e ainda outros territórios ultramarinos franceses espalhados pelo globo. Kourou, por estar isolado da civilização, próxima do oceano e a apenas cinco graus norte da linha imaginária que divide o globo em dois hemisférios, foi a escolha mais indicada. Assim, quando nasceu a ESA, há 50 anos, esta pequena cidade na América do Sul passou a ser a “porta de entrada da Europa para o espaço”.

É esta a frase que está destacada à entrada do terreno do Porto Espacial, ao lado de uma réplica exata do Ariane 5, o foguetão que dominou as últimas duas décadas de missões espaciais europeias, que recebe todos os 1.500 trabalhadores permanentes e os visitantes que chegam de todo o mundo para conhecer as operações da Europa na indústria espacial.

▲ Réplica do lançador Ariane 5 à porta do Porto Espacial Europeu em Kourou, na Guiana Francesa

Martim Andrade/OBSERVADOR

Em dia de lançamento, veem-se mais visitantes do que é costume à porta do museu do espaço e a segurança restringe os acessos às instalações do centro. A cada quilómetro, polícias e militares franceses articulam-se para controlar as passagens entre os vários checkpoints ao longo daquela longa estrada até ao Ariane 6. Pelo caminho, veem-se camiões a transportar soldados até aos pontos que precisam de maior reforço, um exemplo da coordenação entre as várias valências militares francesas e a gestão do Porto Espacial na Guiana Francesa.

Este é o trajeto que as peças do Ariane 6 e as componentes específicas de cada missão têm de fazer antes de subir até ao espaço — mas com menos restrições, porque normalmente seguem escoltados pelas autoridades. A primeira paragem são os edifícios de montagem. As diferentes partes constituintes do Ariane 6 vão para instalações distintas. Por exemplo, os dois propulsores vão para uma oficina, os módulos superiores e inferiores do foguetão vão para um centro especializado na montagem horizontal do lançador — que requer menos gruas e, por isso, é mais rápido —, e as partes essenciais para garantir a encapsulação da carga útil seguem também para as instalações apropriadas.

O Observador esteve no local onde o corpo do foguetão é montado “como se fosse LEGO”, descreve Ralf, o responsável do ArianeGroup pela operação. Ralf compara o novo sistema de montagem horizontal introduzido para o Ariane 6 à montagem de aviões comerciais. “É tal e qual um A320”, exemplifica. Enquanto o precursor Ariane 5 demorava cerca de um mês entre chegar à Guiana Francesa e estar montado, o grande objetivo é limitar o processo do Ariane 6 a oito dias. Para tal, têm um “arc d’assembly“, uma espécie de “arco do triunfo, mas para montar foguetões”.

Em dia de lançamento, as instalações já foram esvaziadas. O Ariane 6 está a cerca de 800 metros de distância, inserido no mobile gantry, o “abrigo” móvel da plataforma de lançamento, onde as diferentes componentes do foguetão acabam por ser anexadas umas às outras para “terminar o LEGO”. É também neste espaço que os satélites são integrados na parte superior do lançador. Na manhã anterior à descolagem — marcada para a madrugada seguinte —, Ralf tecnicamente já cumpriu as suas tarefas. Mas quando cair a noite e se aproximar a hora de lançar, o engenheiro do ArianeGroup prepara-se, nervoso, para o seu “segundo turno do dia”.

  • O "arc d'assembly", utilizado para fazer a montagem do módulo central do lançador na horizontal
    Martim Andrade/OBSERVADOR
  • Ralf, engenheiro do ArianeGroup, responsável pelas operações de montagem do lançador
    Martim Andrade/OBSERVADOR
  • A janela do centro de montagem do lançador, com vista para a plataforma de lançamento onde está o Ariane 6
    Martim Andrade/OBSERVADOR

A camisa repetida, a proibição do vermelho e o Juicy: a rotina pré-lançamento

As horas vão passando e as várias equipas espalhadas pelo Centro Espacial da Guiana Francesa fazem todos os preparativos para garantir que o lançamento acontece. O trabalho continua, mas teve de ser interrompido perto do pôr-do-sol para a remoção do abrigo. Está tudo pronto, só falta arrefecer o sistema e esperar pela “luz verde” da estação meteorológica para começar a abastecer o Ariane 6 com hidrogénio e oxigénio — o combustível para a viagem.

Quando chega a hora de o mobile gantry se deslocar 120 metros para trás do foguetão, todos sabem o que significa: a hora de lançamento está mesmo a chegar. A “luz verde” foi dada, como indicavam várias previsões ao longo do dia, e os quatro tanques começaram a ser atestados. É montado um perímetro de segurança a algumas centenas de metros do Ariane 6, para onde os engenheiros envolvidos no projeto têm de se retirar enquanto se remove o abrigo móvel. Soa uma primeira sirene e inicia-se a remoção do gantry.

  • O processo de remoção do mobile gantry que cobria o Ariane 6
    Martim Andrade/OBSERVADOR
  • O processo de remoção do mobile gantry que cobria o Ariane 6
    Martim Andrade/OBSERVADOR

Existe uma atmosfera positiva entre os trabalhadores da ESA e do ArianeGroup naquela curta faixa de estrada perpendicular à avenida que vai até ao Ariane 6. Enquanto a chuva tropical não cai, todos conversam ao ar livre sobre aquilo em que estão a trabalhar e as perspetivas para o futuro do setor espacial europeu. Ao Observador, Guillaume Galateau, um engenheiro do sistema de lançadores da ESA, confessa os nervos constantes no momento antes do lançamento. Não só neste voo VA266, mas sempre. Guillaume tem a responsabilidade de acompanhar de perto todas as capacidades do lançador, para garantir que o mesmo está equipado e preparado para descolar quando chegar o momento.

Guy Pilchen, o responsável da ESA pela gestão dos programas do Ariane 6, admite ter vindo a desenvolver um ritual para ajudar a diminuir os nervos perto do dia de lançamento. “Quando foi o primeiro voo [no verão de 2024], estava mesmo muito nervoso”, confessa ao Observador. “Como se trata de um foguetão, não se pode exatamente fazer todos os testes em terra, a certa altura é preciso metê-lo a voar. E naquele voo inaugural estávamos confiantes de que não havia mais nada a fazer”, acrescenta, referindo que à medida que o número de voos começou a aumentar o nível de confiança foi também subindo.

“Ainda assim, no sábado fui à igreja em Iracoubo [cidade a norte de Kourou]… Já é a terceira vez que o faço — no último lançamento não consegui, porque não estava por cá, mas trago sempre isto comigo”, conta o engenheiro francês, mostrando uma pulseira que tem vindo a trazer consigo nos dias de voo do Ariane 6. Guy Pilchen admite que não é religioso e que só vai à igreja nestas circunstâncias. “Mas da última vez também não fui e correu tudo bem. Por isso, se calhar, isto nem quer dizer nada”, desabafa.

  • Guy Pilchen, o responsável da ESA pela gestão dos programas do Ariane 6
    Martim Andrade/OBSERVADOR
  • O "amuleto da sorte" de Guy Pilchen, que o engenheiro francês carrega para todos os lançamentos do Ariane 6
    Martim Andrade/OBSERVADOR

Esta superstição não é um ato isolado. Poucas horas mais tarde, quando todos os responsáveis já estavam sentados no “aquário” da Sala Júpiter em antecipação para o lançamento, há um padrão que se torna evidente. Do outro lado do vidro, onde só entra quem tem nível máximo de autorização, existem apenas duas opções de vestuário: polos azuis escuros ou camisas brancas. São as cores oficiais da ESA, o que explica a farda sempre a combinar, mas existe uma restrição não oficial naquilo que se pode levar para aquele lado do “aquário”. Naquela “torre de controlo”, ninguém pode vestir vermelho.

A explicação também acaba por invocar motivos sobrenaturais. Para garantir que um lançamento acontece, é necessário que todos os centros de controlo espalhados pelo território do Porto Espacial acendam uma luz verde a indicar que está tudo conforme esperado e pronto para ir para o espaço. Se algo estiver em atraso ou for detetada alguma anomalia na fase de pré-lançamento, então ficará carimbada uma luz vermelha naquele grande ecrã que projeta toda a informação para a plateia na Sala Júpiter. Só há lançamento quando tudo está a verde. Por isso, olham para o vermelho como um sinónimo de má sorte. E, para o vermelho de uma peça de roupa não acabar refletido naquele painel que determina o sucesso do lançamento, foi combinado entre os responsáveis que a cor ficava simplesmente banida do “aquário”.

O próprio diretor do programa de transporte espacial da ESA, Toni Tolker Nielsen, também incorporou um regulamento não oficial de vestuário para os dias de lançamento. Pela quinta vez consecutiva, sempre que um Ariane 6 chegou à plataforma de lançamento, o engenheiro dinamarquês usa sempre a mesma camisa branca: aquela que utilizou no voo inaugural do sucessor do foguetão que dominou o setor espacial europeu durante mais de duas décadas, o Ariane 5 — que também é homenageado naquela divisão.

Nas paredes existem seis molduras. Todas contêm elementos de lançamentos antigos, históricos, que devem ser lembrados como “amuletos de boa sorte” para que as próximas missões tenham tanto ou mais sucesso que as anteriores. Uma delas faz referência ao lançamento da missão JUICE (Jupiter Icy Moons Explorer), que foi uma das últimas a ser transportada pelo quinto foguetão da família Ariane. Contudo, não é uma imagem de um foguetão, de uma descolagem ou de um satélite, como as outras que estão afixadas a poucos centímetros de distância.

Entre os cinco elementos espaciais retratados nas paredes está um impostor: o Juicy, uma preguiça que conseguiu chegar à base do lançador, onde estava instalada uma câmara, que o apanhou em flagrante delito a tentar apanhar boleia do foguetão. Como era uma missão não tripulada, Juicy teve de ser retirado daquele perímetro restrito e de volta para o seu habitat natural a poucos metros daquela plataforma de lançamento. Assim, o momento em que a preguiça apareceu nas câmaras da missão ficou eternizado nas paredes de uma das salas mais importantes para a indústria espacial da Europa. Não é um astronauta, mas Juicy passou a ser um símbolo de sucesso para os lançamentos a cargo da Agência Espacial Europeia.

▲ A fotografia de Juicy (à esquerda) ao lado do ecrã principal do "aquário" da "torre de controlo" do Porto Espacial Europeu, na Guiana Francesa

Martim Andrade/OBSERVADOR

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