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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Os relatos dos sobreviventes do "Dia do Juízo Final"

Em agosto de 2013, a cidade de Ghouta foi vítima do maior ataque químico desde 1988, que provocou mais de mil mortos. Muitos ainda têm problemas de visão e memória. Todos querem Assad julgado.

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Reportagem dos enviados especiais do Observador à Síria

“A minha mãe está a dormir.” “O meu irmão está a dormir.” “A minha tia está a dormir.” Batol só tinha seis anos e não conseguia compreender o que tinha acontecido. Na verdade, nenhum deles estava a dormir. Os três, bem como outros três tios e dois irmãos de Batol, tinham morrido no ataque de gás sarin que atingiu a cidade de Ghouta na madrugada de 21 de agosto de 2013.

Quem conta a história é o seu pai, Issam Allaham, o único sobrevivente daquela casa, a par de Batol. Quando começaram a cair as primeiras granadas, sem o habitual som de explosão que as acompanhava, Issam achou estranho e saiu para a rua. O gás não tardou a afetá-lo. Começou a salivar e deixou de conseguir ver. Caiu no chão, inconsciente, e foi salvo pela boa vontade de uns homens que iam a passar e o colocaram no carro.

Dentro da casa, tudo terá sido rápido. Algumas pessoas ainda tentaram entrar para resgatar a família Allaham, mas a maioria morreu enquanto fazia isso — as suas identidades seriam apuradas mais tarde, pelos sapatos que levavam. Só a menina foi resgatada com vida. “Quando ouvi ao telefone a voz dela, foi um consolo. Pelo menos ainda tenho a minha filha!”

Issam recorda aquele dia negro na sala da mesma casa onde tudo aconteceu. Passaram-se doze anos, tem agora 50, foi entretanto deslocado no norte do país e perdeu o emprego que tinha como agente imobiliário. Como se lida com uma tragédia desta dimensão? Issam mantém-se em silêncio largos segundos, antes de responder ao Observador. “Durante dois anos, perdi a cabeça. Só queria estar só. Num dia deitas-te e no dia a seguir acordas e já ninguém está cá. É impossível de compreender.”

Nos primeiros tempos após perder a mulher, vários filhos e irmãos, a dor consumiu Issam. “As pessoas diziam-me ‘Tens de enterrar este filho’, ‘Tens de enterrar a tua mulher’ e eu não me apercebia do que se estava a passar.” Os vizinhos e amigos acabaram por tratar dos funerais. Hoje, todos estão espalhados por diferentes cemitérios. Uma enorme causa de angústia para Issam, que gostava de os poder velar a todos no mesmo local.

▲ Issam Allaham perdeu oito pessoas da sua família incluindo a mulher e três filhos

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“As pessoas pareciam zombies.” Crianças a sufocar no chão e famílias inteiras a lavarem-se com coca-cola em pânico

A história da família Allaham está longe de ser a única. Passava pouco da meia-noite quando o gás sarin foi disparado para várias cidades na região de Ghouta, nos arredores de Damasco. Ali, a revolta contra Assad tinha emergido com força e não tardou a que o regime cercasse a cidade já dominada por rebeldes. Mas, naquela noite, em vez das bombas habituais veio a guerra química.

Fares Amanajid estava num bairro vizinho, Jobar, e tinha pegado no carro para regressar quando lhe ligaram a contar o que se passava. “Quando cheguei, parecia o Dia do Juízo Final. Pessoas a correr, a gritar, corpos no chão… Vi as crianças a sufocar.” Os sintomas eram consistentes com um ataque químico: dificuldade em respirar, espasmos musculares, náuseas, espuma a sair da boca e fluido do nariz, convulsões, tonturas, visão desfocada, olhos irritados.

▲ Fares Amanajid e Rawa’a Haidar criaram a organização "Não Sufoquem A Verdade"

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O jovem jornalista, à altura com 31 anos, começou a tentar socorrer os vivos. Não esquece o que viveu naquela noite. “Os sons das crianças continuam na minha cabeça até hoje. Não sei como descrever… Eu tive de pisar corpos dos mortos para conseguir resgatar os vivos.” Ainda hoje, Fares continua a ter apoio psicológico.

Estamos no escritório da organização “Não Sufoquem a Verdade”, que Fares ajudou a fundar anos depois do ataque para ajudar os sobreviventes. Com ele está Rawa’a Haidar, outra das coordenadoras do projeto, que também sentiu na pele o ataque de sarin. “As pessoas pareciam zombies”, diz, sobre aquilo que viu nas ruas a partir do seu terraço.

Rawa’a foi vítima do ataque dentro de casa. “Sentia que não conseguia respirar. O meu marido dizia que era impossível terem usado uma arma química.” Mas o desmentido veio da pior forma, quando Rawa’a entrou no quarto e deu com o filho de quatro anos a salivar e a ter uma convulsão. No meio do desespero, a família começou a experimentar tudo o que lhe aparecia à mão para tentar aliviar os sintomas. “Pensámos em lavar-nos com coca-cola, usar cebolas, vinagre… Qualquer coisa.” Nada resultava. Só no hospital conseguiram ser medicados e os sintomas aliviaram-se. Felizmente para Rawa’a, ninguém da sua família morreu.

▲ Mais de mil pessoas terão morrido no ataque a 13 de agosto em Ghouta

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Investigações acusam Bashar al-Assad. Regime tinha mais de mil toneladas de agentes químicos

O mesmo não pode ser dito de outras, como a de Issam. Ao todo, a campanha “Não Sufoquem a Verdade” fala em cerca de 1.400 mortos, valores semelhantes aos avançados pelo Governo dos Estados Unidos da América. Outros países e organizações fazem estimativas diferentes, que vão desde os 281 apontados por França aos 1.729 reivindicados pelos movimentos de oposição a Bashar al-Assad. Certo é que uma equipa de peritos das Nações Unidas confirmou que o gás sarin foi utilizado neste ataque. O secretário-geral à altura, Ban Ki-moon, declarou que este era “o mais significativo uso confirmado de armas químicas contra civis desde que Saddam Hussein as utilizou” em 1988.

Inicialmente, a autoria do ataque foi disputada. Os rebeldes apressaram-se a apontar o dedo ao regime de Assad. Este argumentou que não tinha qualquer vantagem a retirar e culpou os movimentos da oposição. A ONU não se pronunciou sobre as suspeitas da autoria, mas vários governos ocidentais e organizações de direitos humanos são claras ao responsabilizar o Exército sírio.

▲ O regime de Assad caiu a 8 de dezembro de 2024

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Uma investigação da Humans Right Watch concluiu que um dos sistemas de rockets usado para lançar o ataque era o mesmo que utilizavam as tropas sírias e que outro era de produção soviética (o exército russo apoiava na altura a ofensiva de Assad). O grupo apresenta ainda outros argumentos: “a escala e natureza coordenada dos dois ataques; contra áreas controladas pela oposição; a presença de potenciais locais de lançamento num raio de alcance dos alvos; o padrão de outros alegados ataques com armas químicas recentes a áreas controladas pela oposição, com o mesmo sistema de rockets de 330mm; e a posse documentada de sistemas de rockets de 140mm e 330mm capazes de levar a cabo um ataque químico no arsenal do Governo”.

Perante a pressão internacional, Assad aceitou no mês seguinte entregar todas as armas químicas em sua posse para serem destruídas. Apesar disso, houve registo de outros ataques com agentes semelhantes. A Rede Síria de Direitos Humanos garante que foram registados 222 ataques com armas químicas no país entre o final de 2012 e meados de 2023. “Aproximadamente 98% de todos estes ataques foram levados a cabo pelas forças do regime sírio, enquanto que aproximadamente 2% foram pelo Estado Islâmico [EI].”

Apesar de haver registos de que grupos rebeldes como o EI podem ter levado a cabo outros ataques químicos, nunca tiveram a dimensão do ataque em Ghouta, até porque os seus arsenais químicos eram limitados. Já o regime teria mais de mil toneladas de agentes químicos, incluindo centenas de toneladas de gás sarin, de acordo com a BBC.

▲ Mais de mil pessoas terão morrido no ataque a 13 de agosto em Ghouta

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E, no entanto, Assad e os seus aliados continuaram a insistir ao longo dos anos que nada tinham tido a ver com este ataque. “Obrigaram médicos e vítimas ir à televisão dizer que o ataque foi fabricado ou que as pessoas tinham atirado o gás sobre si próprias”, diz, incrédulo, Fares. É precisamente por querer que a responsabilização seja feita que continua a trabalhar na sua associação. “Entreguei uma queixa contra os criminosos de guerra em França, com as minhas próprias mãos. Conseguimos atrair alguma atenção para a nossa causa, sobretudo lá.” No país, está em curso uma investigação judicial que já emitiu um mandado de prisão para Assad e três dos seus comandantes por crimes de guerra e crimes contra a Humanidade.

Mas Fares considera que os esforços ainda são poucos. Perguntado se crê que a comunidade internacional tem feito o suficiente, é taxativo na resposta: “Não. A prova disso é que os criminosos continuam à solta.”

“Deus foi generoso com esta vitória” que trouxe fim do regime. Mas a alegria só será completa quando houver julgamento

Wafeqa Mohamad Amerie está sentada no sofá de sua casa, de olhos fechados. Está de luto há 12 anos, pelo dia em que o seu filho, o mais novo de dez, e dois dos seus netos morreram. “Quando se perde um filho, não há mais nada. Só a depressão”, garante a mulher. Tem 76 anos, mas o que aconteceu envelheceu-a muito mais, como se vê pelas vincadas rugas que tem no rosto.

Naquela noite, saiu à rua quando se apercebeu da queda do gás. “Vi mais de 50 pessoas a salivar, só eu de pé. Não sabia o que fazer. Comparado com isto, tudo o resto foi fácil. Comer pão podre durante o cerco foi mais fácil”, atira, com um ar de desprezo. A seu lado, o filho Yasser abana a cabeça em sinal de concordância. Também ele não esquece o que viu naquela noite, quando ao tentar ir salvar pessoas deparou-se com muitas mortas no chão das suas casas — “encontrei uma mulher que estava a amamentar a filha, as duas caídas…”, recorda. Não consegue tirar essa imagem da cabeça.

▲ Wafeqa Mohamad Amerie perdeu um filho e dois netos

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O filho que morreu era o benjamim da família e, portanto, Wafeqa assume que o mimava um pouco: “Amo-os a todos da mesma maneira, mas tenho de tratar de cada um de forma específica. Costumava preparar-lhe a comida e os outros tinham ciúmes.” Um sorriso assoma-lhe o rosto, por breves instantes, mas logo desaparece quando recorda a noite da morte. A única coisa a que se agarrou foi à fé: “Diziam-me ‘O seu filho morreu’ e eu dizia ‘OK, graças a Deus’. Depois diziam-me ‘O seu neto morreu’ e eu ‘OK, graças a Deus’. Depois diziam-me ‘O seu outro neto morreu’ e eu ‘OK, graças a Deus’.”

Depois da queda do regime, em dezembro de 2024, a família de Wafeqa sentiu alguma alegria, mas nunca completa. “Uma das razões para não estarmos totalmente felizes é o criminoso ter fugido”, diz Yasser — logo ele, que chegou a participar em tantas manifestações contra o regime no início da revolução. A sua mãe volta a levantar os olhos para cima e acrescenta “Deus queira que ele seja julgado”. Depois, repete três vezes “Deus é grande”.

▲ Yasser serve o chá em casa da sua mãe

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A família não tem sequelas, mas é uma das poucas. Há muitos que ficaram com problemas de visão, respiratórios e de memória. Também há casos de infertilidade. Já para não falar, é claro, das cicatrizes psicológicas.

Issam, que perdeu todos a não ser a filha de seis anos, carrega-as todas. “Não oiço do ouvido direito, é uma doença neurológica. Não sei se foi do ataque, se foi do choque que vivemos, se é a idade… Sei é que o horror que vivemos é incomensurável.” Refez a sua vida: casou novamente e teve mais dois filhos, que têm agora 9 e 10 anos. Garante que chorou quando o regime caiu — de alegria. “Desejo que este Governo consiga pôr o Assad em tribunal. Deus foi generoso com esta vitória.”

Mas nem a condenação do antigo Presidente pode curar a dor maior que viveu, como comprovam as lágrimas. O sírio faz um esforço para se conter perante as visitas a quem recorda toda a história da noite de 21 de agosto, mas não consegue evitar soluçar. Recorda como, por causa dos efeitos do gás que deixaram muitos inconscientes, algumas pessoas chegaram a acordar já dentro dos caixões, antes de os funerais se realizarem.

Issam respira fundo e partilha a coisa que mais o atormenta: “Até hoje, penso se os meus filhos estavam vivos quando foram enterrados.”

*Reportagem com Majd Al-Boukai

O Observador viaja a convite da Fundação AIS — ACN Portugal

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