12 de dezembro, 13h, Abu Dhabi. Este domingo, depois de uma das melhores temporadas das últimas décadas, o título mundial de Fórmula 1 fica decidido. Lewis Hamilton e Max Verstappen estão empatados no topo da classificação geral, com 369.5 pontos, e vão discutir entre si o momento histórico a que o mundo vai assistir: a chegada do britânico ao inédito oitavo Mundial ou a chegada do neerlandês, que tem a pole-position, a uma extraordinária primeira conquista.
Aconteça o que acontecer, algo é garantido — este domingo será recordado como uma das páginas mais importantes da rivalidade entre dois pilotos que trouxeram de volta a Fórmula 1 de antigamente, em que nada era certo e tudo podia alterar-se no espaço de uma décima de segundo. Depois de um ano marcado por penalizações, acidentes e muitas discussões, o Campeonato do Mundo vai ser decidido entre dois predestinados que percorreram jornadas muito distintas até chegarem ao sonho que sempre tiveram.
▲ A rivalidade entre os dois pilotos teve um momento particularmente tenso no Grande Prémio de Monza, quando se envolveram num acidente grave
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Sete títulos vs nenhum
É a mais clara, óbvia e decisiva diferença entre Lewis Hamilton e Max Verstappen: de um lado, estão sete títulos mundiais; do outro, não está nenhum. Se o piloto britânico vai este domingo à procura de uma inédita oitava conquista que o poderá colocar um degrau acima de Michael Schumacher, o neerlandês vai à procura de uma primeira vitória que o poderá lançar para um futuro enquanto nome de proa da Fórmula 1.
Ainda assim, a enorme décalage de palmarés entre os dois pilotos representa também a experiência de um e outro na hora das grandes decisões. Se a melhor classificação de Verstappen é um terceiro lugar, obtido nas duas últimas temporadas e sempre atrás dos dois Mercedes, Hamilton sabe o que é uma luta por um título desde o primeiro dia que passou na Fórmula 1.
Em 2007, na temporada de estreia e enquanto colega de Fernando Alonso na McLaren, o britânico ficou no pódio no primeiro Grande Prémio do ano, tornou-se o piloto com mais pódios consecutivos no primeiro ano no Mundial (nove), igualou o recorde de vitórias no primeiro ano no Mundial (quatro) e conquistou o maior número de pontos de um estreante (109). No fim, ficou no segundo lugar da classificação, com apenas menos um ponto do que o campeão Kimi Räikkönen — sendo que só não alcançou desde logo o título devido a um problema na caixa de velocidades na derradeira corrida, em Interlagos, que não lhe permitiu melhor do que uma sétima posição.
O primeiro Campeonato do Mundo apareceu logo no ano seguinte e o resto, como sabemos, é história. Lewis Hamilton voltou a carimbar títulos no último Grande Prémio do ano em 2008 e 2014, derrotando Felipe Massa e Nico Rosberg, e sempre demonstrou a frieza necessária para não tremer nos dias decisivos. Uma frieza que Max Verstappen, pelo menos a este nível, nunca teve de colocar em prática.
A conquista do improvável e uma vida passada nas garagens
Outra das principais discrepâncias entre os dois candidatos ao título é a forma como cresceram, foram educados e chegaram à Fórmula 1. Se é certo que falamos de dois talentos, duas individualidades cujo futuro e sucesso dificilmente poderia passar por outro sítio que não um carro numa pista, também é certo que falamos de duas jornadas muito distintas.
Lewis Hamilton nasceu em janeiro de 1985 em Inglaterra. Os pais divorciaram-se quando o piloto tinha apenas dois anos e este acabou por viver com a mãe até aos 12 anos, altura em que passou a viver com o pai. Anthony, o pai, ofereceu-lhe um carro telecomandado aos cinco anos, o primeiro kart aos seis e a partir daí prometeu-lhe que iria sempre apoiar uma eventual carreira no automobilismo com a condição de que o jovem Lewis continuasse a ter boas notas na escola. Ao longo dos anos, com a entrada do britânico nas principais provas e competições, Anthony acabou por deixar o trabalho enquanto informático e chegou a acumular quatro empregos — em simultâneo, esteve num call center, lavou pratos num restaurante, trabalhou na construção civil e espalhou publicidade e cartazes para agentes imobiliários.
▲ O pai de Hamilton, Anthony, tem sido uma presença constante na carreira do piloto britânico
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O pai de Lewis Hamilton geriu a carreira do piloto até ao início de 2010 — altura em que os dois tiveram uma pequena zanga, entretanto superada — e sempre ficou claro que os sacrifícios que fez ao longo dos anos não passaram ao lado do filho. “O meu pai está aqui, o que é fantástico. Sinto-me muito abençoado. Vai demorar algum tempo para assimilar tudo isto. Só poderia sonhar com chegar onde estou hoje”, disse o britânico no Autódromo Internacional do Algarve, no ano passado, logo depois de se tornar o piloto com mais vitórias na história da Fórmula 1. Antes, logo depois de sair do carro e instantes a seguir a ser o primeiro a cruzar a meta de Portimão, partilhou um longo e emocionado abraço com o pai: numa imagem a que raramente se permite.
Já Max Verstappen nasceu em setembro de 1997 na Bélgica, embora sempre tenha assumido a nacionalidade neerlandesa do pai. A família tem um historial umbilicalmente ligado ao automobilismo: o pai, Jos, também foi piloto de Fórmula 1; a mãe, Sophie, competiu em provas de karts; e um dos primos direitos, Anthony, participou em competições de endurance, para além de ter sido duas vezes campeão da NASCAR Euro Series. E Max, como não podia deixar de ser, sentou-se pela primeira vez ao volante de um kart com apenas quatro anos.
O neerlandês passou os primeiros anos de vida nas garagens, já que Jos Verstappen competiu na Fórmula 1 de 1994 a 2003 entre Benneton, Arrows e Minardi, e foi criado para prolongar e alargar o legado do apelido na modalidade. Se Lewis Hamilton teve um pai que se esforçou fora do paddock para que o filho chegasse onde acabou por chegar, Max teve um pai que se esforçou dentro do paddock para que o mesmo acontecesse. O jovem piloto contou sempre com Jos como agente, empresário e principal conselheiro, entrando na Fórmula 1 pela porta grande e com o conhecimento da larga maioria dos segredos. Uma relação sempre mais profissional do que paternal — algo que não deixa de explicar a objetividade e o pragmatismo com que Max Verstappen se apresenta em pista.
“Houve um dia, ainda nos tempos dos karts, em que ele teve um acidente e não acabou a corrida. Não falei com ele durante seis ou sete dias. Cometeu um erro muito grande. Estava muito chateado e desiludido e ele precisava mesmo de pensar sobre o assunto. E não podia ser durante uma hora ou duas, tinha de ser durante mais tempo. Eu sabia o que estava a fazer. Acho que o ajudou, que o moldou”, contou recentemente Jos Verstappen em entrevista ao Daily Mail, numa história que deixa visível a exigência que sempre pairou à volta do piloto da Red Bull.
A memória de Senna e o exemplo de um pai
É um daqueles dados de cultura geral que qualquer adepto de Fórmula 1 sabe de cor e salteado: Ayrton Senna é o grande ídolo de Lewis Hamilton. E, se ainda existissem dúvidas, o mais recente Grande Prémio do Brasil provou isso mesmo. Em Interlagos, o piloto britânico recebeu uma enchente de apoio só comparável à que surge em Silverstone, quando corre em casa, e dedicou a vitória ao Brasil, a Senna e aos brasileiros, festejando com uma bandeira do país às costas. “A minha maior inspiração. É a forma como ele corria, a paixão pela vida e pelo desporto. Mas, acima de tudo, é a forma como ele enfrentou sozinho um sistema que nem sempre foi gentil para ele. Que o legado de Ayrton Senna perdure para sempre e seja especialmente vibrante neste fim de semana”, escreveu na altura no Instagram, num fim de semana em que traduziu todas as publicações nas redes sociais para português.
Sem familiares ligados ao automobilismo e sem exemplos próximos, Hamilton cresceu a admirar Senna. A admirar o talento em pista, a vontade de ganhar e a forma como nunca se subjugou a um universo que sempre tentou engoli-lo. Com o brasileiro enquanto farol, construiu uma carreira enquanto self-made man, procurou tornar-se maior do que o desporto e olhou para as causas que o rodeavam e preocupavam.
▲ No último Grande Prémio do Brasil, Lewis Hamilton festejou com uma bandeira do país e dedicou a vitória a Ayrton Senna e aos brasileiros
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Max Verstappen, por outro lado, cresceu e foi criado a ter na figura do pai o único exemplo. “Todos os dias, sempre que saía da escola, ia para a oficina e via o meu pai a preparar os motores para o meu chassis. Deixava-me sempre limpar o chassis, não tanto para o limpar mas para perceber como funcionava. Nunca vi outros pilotos, à exceção do meu pai. Mas nem sequer o considero um ídolo. É o meu pai, o meu amigo, por isso não posso propriamente dizer que é um ídolo. Sou uma evolução do meu pai e ele chama-me Verstappen 2.0″, contou o neerlandês numa entrevista já em 2017.
De forma até antagónica, o facto de ter crescido no meio das garagens não permitiu que Verstappen criasse ídolos ou exemplos a seguir. O piloto foi moldado, adaptado e desenhado para ser essa continuidade daquilo que o pai havia feito na Fórmula 1 e nunca olhou para o que foi feito pelos demais: o único objetivo foi sempre fazer melhor do que Jos e ser o melhor Verstappen que alguma vez esteve em pista. Se Hamilton tenta subir ao degrau da história para se colocar ao lado de Senna, o neerlandês olha para o degrau onde está o pai enquanto motivação para o ultrapassar.
Os 36 anos de um e os 24 de outro
A diferença mais óbvia entre os dois pilotos prende-se, naturalmente, com a idade. Se Lewis Hamilton já se aproxima dos 40 anos, Max Verstappen ainda nem completou 25 — e isso não deixa de explicar a maturidade emocional com que o britânico tem enfrentado a rivalidade do último ano e as reações tantas vezes desmedidas do neerlandês.
Mesmo este fim de semana, na antecâmara do decisivo Grande Prémio de Abu Dhabi, a conferência de imprensa dos dois candidatos ao título não podia ter sido mais representativa dos 12 anos que os separam. Se Hamilton garantiu que não perde energia com rivalidades alimentadas pela comunicação social, que acredita que “todos correm para ganhar” e que cada piloto quer chegar às vitórias “da forma correta”, Verstappen aproveitou o momento para escrever mais um capítulo da relação já notoriamente tensa que ambos partilham.
“A nossa relação mudou muito este ano. E não de uma forma positiva. Claramente, sempre pareceu que eu é que estava errado quanto as outras pessoas faziam exatamente as mesmas coisas e nada acontecia. Ambos cruzávamos os limites da pista e, de alguma forma, eles decidiam que era culpa minha. Não concordo com isso, não é como deve ser, não é justo porque parece que os outros pilotos podem fazer tudo e só eu é que sou penalizado”, disse o neerlandês, abrindo desde logo a porta à possibilidade de o Grande Prémio deste domingo ser decidido por castigos, penalizações ou acidentes ao invés de velocidade, ultrapassagens e talento.
A juventude de Verstappen, aliada ao facto de Hamilton ter sempre respostas para dar mas raramente entrar em conflitos diretos, engrossa de forma irónica as comparações cada vez mais evidentes entre esta rivalidade e outras de tempos passados. Se o britânico tem a ponderação, a garra e a inteligência emocional de Niki Lauda, o neerlandês tem a vertigem, o desapego e a rebeldia de James Hunt. Em pleno século XXI, Hamilton e Verstappen são os protagonistas de um despique à anos 70, com a maturidade de um lado e a energia do outro, conseguindo atrair de volta os adeptos que tinham ficado pelo caminho e conquistando os mais jovens que andavam desencantados com a modalidade.
▲ O pai de Max, Jos Verstappen, foi piloto de Fórmula 1 e é o grande mentor da carreira do jovem neerlandês
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Se é certo que a série “Formula 1: Drive to Survive”, da Netflix, foi um dos mais brilhantes golpes de marketing desportivo das últimas décadas, também é certo que o facto de Lewis Hamilton ter agora um adversário à altura contribuiu para que este fim de semana, em praticamente todo o lado, todos saibam que o campeão do mundo é decidido em Abu Dhabi. A Fórmula 1 soube remodelar-se, adaptar-se aos novos tempos e tornar-se sexy — e teve a sorte de, ao mesmo tempo, lhe ter caído no colo uma rivalidade que vai ficar para os livros de História.
O primeiro título de Hamilton aos 23 anos e os recordes de Verstappen com apenas 17
Como já vimos, Lewis Hamilton conquistou o primeiro Campeonato do Mundo na segunda temporada que realizou na Fórmula 1, em 2008. Com 23 anos, menos um do que Max Verstappen tem atualmente, o piloto britânico acabou a época com mais um ponto do que Felipe Massa — tornando-se, na altura, o mais novo de sempre a ser campeão mundial, um registo que dois anos depois foi superado por Sebastian Vettel.
Esse laivo de prodígio que sempre pairou à volta de Hamilton, contudo, começou a desvanecer quando Max Verstappen apareceu. Se é certo que o neerlandês ainda não foi campeão do mundo — e que, a ser este domingo, já será mais velho do que o britânico era em 2008 –, também é certo que quebrou praticamente todos os recordes de juventude assim que entrou na Fórmula 1.
Puxando a fita cronológica atrás, Verstappen estreou-se em 2015 na então Toro Rosso, a equipa satélite da Red Bull. Terminou a temporada em 12.º e o arranque positivo do ano seguinte, em que ficou no top 10 nos três primeiros Grandes Prémios, garantiu-lhe o salto para a equipa dos crescidos — em maio de 2016, a Red Bull decidiu despromover Daniil Kvyat e subir Max Verstappen, que tinha 17 anos, numa aposta justificada com o facto de este ser “um jovem talento excecional”. O que ninguém poderia imaginar era que o neerlandês, na primeira corrida que fez pela Red Bull, ia conquistar o quarto lugar da pole-position e ganhar o Grande Prémio da Catalunha.
O resto é história: Verstappen é o piloto mais jovem a começar uma corrida na Fórmula 1, o piloto mais jovem a conquistar pontos, o piloto mais jovem a ganhar uma corrida, o piloto mais jovem a chegar a um pódio, o piloto mais jovem a liderar uma volta, o piloto mais jovem a fazer a volta mais rápida de um Grande Prémio e o piloto mais jovem a registar um Grand Slam (pole-position, volta mais rápida, liderança em todas as voltas e vitória). Mas é também, em toda a história da Fórmula 1, o piloto com mais vitórias sem nunca ter sido campeão do mundo.
Verstappen diz estar “bem” após acidente em que Hamilton foi “desrespeitoso”
O ativismo e a fuga dos holofotes
Não é surpresa para ninguém o facto de Lewis Hamilton ser hoje uma figura que transcende a Fórmula 1. O piloto britânico é uma das vozes mais ativas da luta contra o racismo no desporto em particular e na sociedade em geral, foi o instigador do facto de muitos pilotos se terem ajoelhado durante hinos nacionais na sequência do assassinato de George Floyd, usa recorrentemente t-shirts do movimento “Black Lives Matter” e até levou a Mercedes a mudar a cor dos carros de prateado para preto em homenagem à comunidade negra.
▲ Em maio de 2016, com apenas 17 anos, Verstappen venceu o Grande Prémio da Catalunha na primeira corrida que fez pela Red Bull
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O grande objetivo de Hamilton, mais do que ser o melhor piloto de Fórmula 1 de todos os tempos, é cada vez mais ser a cara da inclusão e da diversidade numa modalidade que sempre falhou nesses dois capítulos. “Ver o que aconteceu com o George Floyd trouxe ao de cima todas as emoções e todas as experiências que tive enquanto criança. Pensei: ‘Finalmente, chegou o tempo, não aguento mais’. O meu pai sempre me disse para baixar a cabeça, para continuar a conduzir. ‘O teu tempo vai chegar’, dizia ele. Dizia para não me queixar, para não dizer nada. Para chegar mais cedo, para trabalhar mais horas do que os outros, para trabalhar mais e para mostrar ao mundo que era o melhor e que, eventualmente, o meu tempo ia chegar”, explicou o britânico numa entrevista recente à Wired onde descreveu ser um piloto negro na Fórmula 1 como “conduzir um carro com três rodas”.
A realidade de Max Verstappen não podia ser mais diferente. O piloto neerlandês foi um dos que nunca se ajoelharam perante hinos nacionais, nunca teve uma voz ativa sobre o facto de a Fórmula 1 realizar corridas em países como a Arábia Saudita ou o Qatar e prefere esconder-se dos holofotes. Não faz capas de revistas, não dá muitas entrevistas, não vai às festas mais badaladas e prefere ficar em casa a jogar consola. Se Hamilton quer ser recordado como o ser humano que é para lá do piloto que tem de ser, Verstappen está confortável com a ideia de não ser recordado como absolutamente mais nada que não o piloto que quer ser.
Os que querem um novo recorde e os que querem o fim da hegemonia
Por fim, algo é certo: este domingo, a doutrina diverge entre os que querem que Lewis Hamilton conquiste o oitavo título mundial e os que querem que Max Verstappen interrompa a hegemonia do britânico para ser campeão do mundo pela primeira vez. Se o primeiro tem os mais puristas do seu lado, o segundo tem os mais apaixonados a torcer por si.