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Para que serve a escola? Pais e professores não se entendem sobre qual deve ser a principal missão /premium

Professores acham que alunos passam demasiado tempo na escola, pais acham que é adequado. Depois de ver o estudo "A Missão da Escola", Eduardo Sá vê mais sensatez entre os docentes.

Se os professores acreditam que as crianças passam demasiado tempo na escola, os pais contra-atacam e defendem que o tempo ali passado é adequado. Os primeiros argumentam que a principal missão da escola, embora não a única, é dar formação cívica aos estudantes. Os segundos discordam e põem a prioridade na transmissão de conhecimento. E quem será o principal responsável pelos resultados escolares dos alunos, sejam eles bons ou maus? Os professores chamam a si essa responsabilidade, enquanto os pais apontam o dedo aos estudantes, colocando-se a si próprios em segundo lugar, à frente dos docentes. Os professores assumem que passam trabalhos de casa quase sempre aos seus alunos, os pais consideram essa frequência adequada e ambos consideram que o foco da escola está mais na preparação dos exames do secundário do que nas aprendizagens.

As várias divergências de opinião fazem parte das conclusões do estudo “A Missão da Escola” e apanharam Eduardo Sá de surpresa, principalmente quando olhou para as respostas dos pais. “Os professores têm uma visão muito mais sensata do que é a escola. Quando estamos a falar de direitos das crianças, quando falamos do tempo e das responsabilidades que a escola lhes exige, eles são melhor defendidos pelos professores”, conclui o psicólogo.

O estudo foi encomendado à Universidade Católica pela Escola Amiga da Criança, uma iniciativa conjunta de Eduardo Sá, da Confap e da editora LeYa. Os resultados do estudo exploratório são apresentados esta quarta-feira, no Fórum Picoas, em Lisboa, a propósito do lançamento da 3.ª edição do concurso. O ano passado, a Escola Amiga contou com mais de 3000 candidaturas de escolas, entre estabelecimentos de ensino privados e públicos, e distinguiu as que apresentaram as ideias mais extraordinárias para um desenvolvimento feliz da criança no ambiente escolar.

E o que foi analisado neste estudo? O tempo que os alunos passam por dia na escola, o desempenho dos alunos, o volume dos trabalhos de casa e o recurso a explicações. A conclusão final é que as visões de pais e professores sobre o que é a escola não encaixam.

Algumas das respostas dos pais, confessa Eduardo Sá, deixaram-no inquieto. “Apesar de o relatório da OCDE ‘Education at a Glance 2019’ afirmar que as crianças portuguesas passam mais 1200 horas nos estabelecimentos de ensino do que na Europa, os pais consideram adequado o tempo que os seus filhos passam na escola. Isto deixou-me atónito. Os pais não questionam a missão da escola a esse respeito?”

Eduardo Sá lembra ainda que os pais consideram os trabalhos de casa como um excelente complemento de estudo, embora a maioria dos alunos ainda tenha explicações e atividades extracurriculares, o que aumenta ainda mais a sua carga letiva. “Os pais têm uma visão mais narcisista. Na questão do sucesso escolar, chutam a responsabilidade do insucesso para os seus filhos, quando não é concebível que a qualidade do professor não tenha um papel fundamental nos resultados que os alunos alcançam. Os pais esperam, acima de tudo, uma gratificação pelo que os seus filhos alcançam na escola, uma perspetiva vaidosa, enquanto que a dos professores é mais sensata”, conclui Eduardo Sá.

“Se a visão dos pais sobre o que é a missão da escola não bate certo com a dos professores, temos de pensar que no meio estão os nossos filhos, que estão a ser pressionados de um lado e do outro, com objetivos diferentes. Seria também interessante ouvir a opinião dos alunos sobre qual deve ser a missão da escola, e que talvez fosse mais sensata”, acrescenta o psicólogo.

Para realizar este estudo, foram feitos inquéritos feitos a 3.286 encarregados de educação de alunos e a 3.284 professores de todos os ciclos de escolaridade obrigatória.

Tempo na escola é demasiado dizem os professores. Pais discordam

Segundo os mais recentes dados da OCDE, os estudantes portugueses passam, no total, 5.460 horas na sala de aula durante o ensino primário, número que compara com a média da União Europeia que fica pelas 4.258 horas. E se, no primeiro ciclo, os alunos passam na sala de aula mais 1.202 horas do que os colegas europeus, a diferença mantém-se no 5.º e no 6.º ano (8.214 horas versus 7.260, ou seja, mais 954), mas ligeiramente reduzida.

No estudo “A Missão da Escola” não se faz referência a tempos horários concretos, e pede-se aos docentes e encarregados de educação que qualifiquem o tempo passado pelos estudantes nos estabelecimentos de ensino, numa escala que vai de reduzido a excessivo.

Excessivo, dizem os professores (71%). Adequado, contrapõem os pais (62%). Entre os encarregados de educação, só 37% concorda com a opinião dos docentes, valor que sobe entre quem tem filhos a frequentar o ensino primário (41,6%). Perante estes dados, o estudo levanta a seguinte questão, embora não lhe dê resposta: “Aos encarregados de educação o modelo serve porque se ajusta ao mercado laboral?”

Outra grande diferença entre a visão de pais e professores é sobre quem é o verdadeiro responsável pelos resultados escolares dos alunos. O que se perguntava aos inquiridos era se concordavam ou discordavam (numa escala de 1 a 5) que os resultados escolares das crianças e jovens dependiam do esforço do aluno, do apoio fora da escola, dos professores ou dos pais.

As respostas dos docentes mostram que estes (89%) se consideram a si próprios como os principais responsáveis pelos resultados dos alunos (nunca se falando em bons ou maus resultados), enquanto os pais colocam a responsabilidade no estudante. Apesar disso, apontam o dedo a si próprios (70%), antes de considerarem os professores responsáveis pelo desempenho dos alunos.

“Parece-nos positivo os professores acreditarem no seu papel relevante no desempenho do aluno, uma vez que remete para o conceito de autoeficácia (professores que acreditam neles próprios, sentem-se capazes de promover a aprendizagem nos seus alunos). Por outro lado, a literatura recente continua a dizer que o professor faz a diferença na aprendizagem dos alunos. Assim, não interpretamos como sobrevalorização. Um outro aspeto que nos parece muito importante é o facto de quer professores quer encarregados de educação valorizarem o esforço do próprio aluno, com percentagens semelhantes”, defende-se no estudo “A Missão da Escola”.

De facto, em ambos os casos, uma percentagem alta da responsabilidade do sucesso escolar é atribuída aos alunos: 79% dizem os professores, 78% dizem os pais.

Por outro lado, só 41% dos professores consideram que os resultados se devem à ajuda que recebem dos encarregados de educação. Entre estes últimos, apenas 67% concorda muito ou totalmente que essa responsabilidade é do professor — “na verdade os encarregados de educação colocam-se à frente dos professores no que diz respeito à responsabilidade pelos resultados, com 70%”. A exceção é para os encarregados de educação com menos habilitações académicas que se colocam ao mesmo nível dos professores.

“Apesar de o relatório da OCDE ‘Education at a Glance 2019’ afirmar que as crianças portuguesas passam mais 1200 horas nos estabelecimentos de ensino do que na Europa, os pais consideram adequado o tempo que os seus filhos passam na escola. Isto deixou-me atónito. Os pais não questionam a missão da escola a esse respeito?”
Eduardo Sá, psicólogo

“São as mães que aparentemente se colocam acima dos professores, já que os pais se colocam abaixo. De relevar, contudo, a pequena percentagem de pais na amostra de encarregados de educação: 15,3%. Salienta-se ainda que o aluno é considerado o principal responsável pelo seu desempenho, independentemente do sexo do encarregado de educação”, concluem os relatores de “A Missão da Escola”.

Eduardo Sá também salienta a ausência de pais e de professores neste inquérito. “As respostas são 90% dadas no feminino, são mães e professoras que respondem”, salienta, mostrando que poderá haver uma desresponsabilização do sexo masculino nas questões da Educação.

A missão da escola. Formação cívica ou cognição?

O objetivo do estudo exploratório — que por definição procura levantar informações e não obter conclusões estatísticas — era perceber qual deve ser a missão da escola na perspetiva de pais e docentes. A conclusão? “Professores e encarregados de educação da nossa amostra percecionam de forma diferente o que deve ser a missão da escola. Ambos concordam que o aspecto menos relevante da escola é ser veículo de desenvolvimento físico dos alunos”, lê-se no estudo a que o Observador teve acesso.

Pais e professores podiam escolher entre as mesmas cinco opções, concordando mais ou menos com cada uma delas, embora escolher uma não significasse excluir as outras. As hipóteses? A escola deve ser veículo de transmissão de conhecimento científico e tecnológico; de formação cívica; de desenvolvimento social e emocional; de desenvolvimento vocacional ou, por último, de desenvolvimento físico dos alunos.

Se o eixo mais valorizado pelos professores é o da formação cívica, o mais valorizado pelos pais é o da transmissão de conhecimento científico e tecnológico, ou seja, o cognitivo. Mas nem todos os professores respondem da mesma maneira, e há diferenças claras entre a opinião de homens e mulheres, estando o sexo feminino em clara maioria na amostra — 86% contra 14%, quando na população global as professoras representam 78% da classe docente.

Voltando às diferenças, os professores valorizam mais o conhecimento científico e tecnológico, enquanto as professoras dão mais valor aos eixos cívico, sócio-emocional e vocacional. Esquecendo o género e olhando antes para as disciplinas lecionadas, vê-se que os docentes das ciências exatas consideram que o cognitivo é o eixo mais importante, enquanto os do 1.º ciclo, de línguas, de ciências sociais e humanas e de expressões valorizam o cívico.

“As percepções variam muito em função do nível de experiência do professor. Os professores mais velhos são os que valorizam mais o eixo cívico, o sócio-emocional e só depois o de conhecimento científico e tecnológico. O eixo do conhecimento científico e tecnológico é mais valorizado por professores com experiência entre 6 e 10 anos, sendo que os mais novos (menos de 5 anos de lecionação) valorizam mais o eixo sócio-emocional”, lê-se no documento.

Entre os pais, não há dúvidas: a missão da escola é ser veículo de transmissão de conhecimento científico e tecnológico. Se, no total, 64% o defendem, a valorização deste eixo é mais acentuada entre o sexo masculino. Todas as outras missões da escola são valorizadas de igual forma por homens e por mulheres.

Já entre os encarregados de educação mais velhos, é dada igual importância à formação cívica e à transmissão de conhecimento científico. Para além disso, “os encarregados de educação mais velhos tendem a valorizar bastante mais o eixo físico que os restantes”.

À medida que os alunos se aproximam das idades em que é preciso definir percursos académicos, a escola enquanto veículo de desenvolvimento vocacional ganha peso. “No caso dos encarregados de educação de alunos de 3.º ciclo e secundário, o eixo vocacional surge em segundo lugar, a seguir ao eixo cognitivo. De destaque ainda que encarregados de educação com o 4.º e o 6.º anos de escolaridade valorizam em primeiro lugar o eixo cívico, ao contrário dos restantes.”

E à medida que o aluno evolui nos ciclos de estudo os pais aumentam a valorização dos eixos científicos e vocacionais, e diminuem todos os outros, principalmente no secundário.

Mais de metade dos alunos do secundário tem explicações

Que a maioria dos alunos leva trabalhos para casa (TPC) não há dúvidas: 86% dos professores respondem que os passam sempre ou, pelo menos, muitas vezes, e encaram-no como apoio ao estudo (59,7%). Os alunos do 2.º ciclo são aqueles que com maior frequência têm trabalhos atribuídos para serem feitos fora do horário escolar, e os do secundário os que têm menos. O que o estudo não consegue dizer com um grau de certeza é qual a opinião dos pais sobre a carga de estudo que os filhos levam para casa.

“Relativamente aos TPC é difícil aferir se os encarregados de educação os julgam excessivos, adequados ou reduzidos”, lê-se no documento. Porquê? Porque quando se pergunta se os trabalhos de casa são “na medida certa para apoio ao estudo”, a maioria dos encarregados de educação tem uma concordância média com a frase. E os pais do secundário tendem a discordar mais desta ideia do que os ciclos restantes.

“Dado que onde os encarregados de educação discordam mais da frase os TPC estão na medida certa é no secundário, que é onde há menos TPC, leva-nos a crer que os poderão achar insuficientes. Há vários defensores da abolição dos TPC preconizando mais tempo letivo para garantir a consolidação, não tornando necessário o envio de TPC (o que vai contra a expectativa dos professores que já acham o tempo na escola excessivo) ou apoio ao estudo para colmatar a necessidade de envios de TPC (o que pode ir contra a visão dos encarregados de educação)”, conclui-se no estudo.

“O fenómeno das explicações é crescente e preocupante pois leva para fora da escola a sua missão mais importante: a da aprendizagem dos alunos", defende-se no estudo

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Olhando para os números percebe-se ainda que a esmagadora maioria dos pais (86,8%) acompanha os alunos nos seus trabalhos, valor que poderá ter correlação com o facto da amostra de encarregados de educação com licenciatura ou nível superior da amostra ser quase muito superior à que se encontra nas escolas (63% contra 22,5%). Como este é um estudo exploratório, não era fundamental que a amostra fosse um espelho da realidade.

Quanto às explicações, o documento revela que mais de metade (cerca de 60%) dos alunos do secundário recorre a explicações, percentagem que no 1.º ciclo reduz-se para 20%. No terceiro ciclo, segundo a amostra, são 30% dos estudantes que recorrem a explicadores.

“Estes valores são mais elevados do que os encontrados no PISA 2009 e 2012 onde cerca de 34 e 35%, respetivamente, de alunos com 15 anos de idade em Portugal relatavam ter explicações de matemática (a questão é formulada de forma semelhante à nossa). Os valores mais elevados podem dever-se ao enviesamento da amostra de encarregados de educação ou ao facto de os últimos dados do PISA serem de 2012 e haver uma tendência crescente no fenómeno das explicações, também designado de shadow schooling”, avança o estudo.

Não são só as explicações que levam os alunos a estar mais horas fora de casa: 84,2% dos encarregados de educação dizem que os alunos frequentam atividades extracurriculares. A maioria tem atividades duas vezes por semana ou mais.

“De relevar que um aluno no secundário tem 60% de probabilidade de ter explicações e uma grande probabilidade (superior a 70%) de ter atividades extracurriculares uma vez por semana ou mais. Ainda assim os pais acham o tempo passado na escola adequado”, lê-se no documento, que considera ainda que “o fenómeno das explicações é crescente e preocupante pois leva para fora da escola a sua missão mais importante: a da aprendizagem dos alunos”. E acrescenta: “A razão para a procura de explicações não parece ser movida pela perceção de um desempenho inferior, comparando com a turma, mas possivelmente como forma de consolidar os bons resultados e/ou para alcançar metas ambiciosas ao nível do acesso ao ensino superior (mais há a investigar sobre este ponto).”

Esta potencial explicação, acaba por bater certo com uma outra conclusão do estudo: quando pais e professores analisam a política de atuação da escola ambos consideram que o foco da escola está mais na preparação dos exames do secundário do que nas aprendizagens. E é por isso que Eduardo Sá deixa também um alerta aos pais que poderão estar a exigir de mais dos seus filhos: “As escolas põem os exames à frente do sucesso educativo. Será o sucesso nos exames a missão da escola? Exigirmos de mais aos nossos filhos, numa perspetiva vaidosa, pode ter consequências trágicas.”

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