Passos Coelho, que tem por hábito ser contido nas intervenções públicas, falou esta quinta-feira pela quinta vez publicamente em menos de um mês. Se é certo que teve sempre um álibi — desde ser eleitor, ex-candidato ou estar a apresentar um livro — também é inegável que tem falado mais do que é habitual. O ex-primeiro-ministro apresentou esta quinta-feira a Introdução ao Liberalismo, de Miguel Morgado, e acabou por colocar, em parte, uma carapuça liberal. À boleia da reflexão sobre liberalismo, ajustou contas com Costa e Marcelo na imigração (e não só), considerando que a realidade mostrou que teve razão antes de tempo.
Pedro Passos Coelho: “As pessoas que vivem cá vão sentir-se estrangeiras”
Passos voltou a mostrar uma preocupação reformista (com a Segurança Social, chegando a fazer um mini-roast a Emmanuel Macron pela imprudência francesa), mas, perante o entusiasmo da sala, à saída fez questão de reiterar que está fora da política ativa. Não deixou, porém, de alimentar um delfim. Lá dentro tinha antecipado voos mais altos a Miguel Morgado na política, que diz ser a “pessoa da sua geração que mais impressiona. Um político muito talentoso.” E acrescentou, sobre o seu ex-adjunto, comentador político e comentador do Observador: “Tenho a certeza que isso vai poder notar-se de forma mais significativa na nossa política.”.
Há um Passos mais presente e interventivo. Nas ocasiões anteriores, todas durante o período de campanha ou pré-campanha, o antigo primeiro-ministro fez questão de desdramatizar as relações com o Chega e colocar pressão em Luís Montenegro. A quem não dispensou, pelo meio, enviar uma farpa.
Há um novo Passos Coelho, mais presente e disponível? O antigo primeiro-ministro garante que não e deixa uma promessa. “Agora não me vão ouvir falar de política durante muito tempo”.
Ajuste de contas com Costa, Marcelo e TC
Voltando à apresentação desta quinta-feira, Pedro Passos Coelho aproveitou uma reflexão conceptual sobre o Liberalismo para enviar farpas ao Tribunal Constitucional. Numa altura em que falava sobre o que é ser verdadeiramente livre e outros dilemas liberais, o antigo primeiro-ministro questionou: “É o Tribunal Constitucional que vai dizer o que é bom para mim? É o Parlamento que vai dizer o que é melhor para mim? É o Governo que vai dizer o que é bom para mim? (…) Eu quero é ser livre. Devemos ser livres.”
A referência ao Tribunal Constitucional — com quem Passos Coelho teve várias guerras como primeiro-ministro — tem especial relevância por os juízes-conselheiros terem vetado recentemente uma primeira versão, mais apertada, da Lei dos Estrangeiros.
É que, precisamente sobre a imigração, Passos acredita ter tido razão antes de tempo e aproveitou para fazer um ajuste de contas com o Governo de Costa e até com o Presidente da República. O antigo primeiro-ministro admitiu que “há um radicalismo” que está “a tomar conta do espaço público”, mas atribui culpas a quem tratou de “forma irresponsável” e com “palermices” assuntos importantes — como a imigração.
Passos Coelho lembra que há dois anos chamou “a atenção do problema da imigração, que se materializou. Já estava a ver o que ia dar. E deu. A coisa estragou-se.” O ex-primeiro-ministro aproveitou ter António Leitão Amaro na sala para atirar a Marcelo Rebelo de Sousa: “O ministro da Presidência, que vi aí, já deve ter informado o Presidente da República dos dados oficiais.” Isto porque Marcelo chegou a duvidar dos dados do Governo, que considerava empolados.
O ex-líder do PSD não só não recuou como carregou nas tintas relativamente ao problema da imigração. Alertou que “se tudo se mantiver, reagrupamento familiar e tudo, as pessoas que vivem cá vão sentir-se estrangeiras.” E acrescentou: “As pessoas sentem-se inseguras.”
Passos desafiou depois que se questione e responsabilize António Costa: “Houve pessoas que disseram: está a entrar muita gente que a gente não sabe quem é? É mesmo assim. Nem registo criminal há? É mesmo assim. Está a perceber?! [aqui Passos fez uma entoação para propositadamente fazer lembrar António Costa]. Isto é mesmo assim. É propositado. Houve quem dissesse isto. Aliás, já alguém perguntou ao presidente do Conselho Europeu se quer rever essa atitude que tanto radicalismo e tanta insegurança trouxe ao país?”. Foram, ao longo da intervenção, vários os ataques a António Costa, que acusou de ter “mentido ao País durante oito anos”.
O ex-primeiro-ministro lembrou ainda como foi atacado por na mesma intervenção na campanha do Algarve há dois anos foi acusado de ser “completamente irresponsável” por estar a “misturar imigração com insegurança”. O tempo, acredita, deu-lhe razão. A sala aplaudiu com estrondo.
A intervenção de Passos na apresentação do livro de Miguel Morgado foi a quinta presença de Passos em menos de um mês. No final, em declarações aos jornalistas, Passos Coelho disse que ficou “muito contente com o resultado das eleições autárquicas, até porque o meu partido, o PSD, teve um resultado muito bom. Por isso fico muito satisfeito”. Foi o único elogio, ainda que leve, que fez a Luís Montenegro. Antes desta quinta-feira, Passos já tinha estado em quatro eventos em poucas semanas, nunca fugindo de fazer leituras políticas.
Passos e as relações com o Chega: das linhas vermelhas a Ventura
A primeira das aparições de Passos Coelho neste período eleitoral foi a 20 de setembro, quando participou na apresentação de um candidato à junta de freguesia de Aveleda, uma povoação com pouco mais de mil habitantes em Vila do Conde. Dessa vez, o antigo chefe de Governo nem parecia ter disposição para falar muito, mas acabou por normalizar o facto de o líder do Chega o preferir para Presidente, sugerindo até que era algo elogioso.
André Ventura tinha dito, quatro dias antes, na apresentação da candidatura à Presidência, que preferia que Passos Coelho fosse o candidato. Questionado pelos jornalistas se ficou incomodado por o seu nome ser utilizado politicamente, o ex-primeiro-ministro negou essa ideia: “Por que é que eu havia de ficar incomodado com alguém que diz que votava em mim e me apoiava sempre que me candidatasse? Não estou a ver por que é que havia de ficar incomodado”.
Passos Coelho faz parte da ala do PSD que não diaboliza acordos ou coligações com o Chega. E voltaria a fazê-lo quando foi tomar um pequeno-almoço com Marco Almeida, o candidato a Sintra. Nessa ocasião o ex-primeiro ministro disse que as linhas vermelhas nas autarquias “têm de ser aquelas que são ditadas por consciência e portanto têm de estar relacionadas com coisas muito particulares, muito especiais, muito graves.”
Mas sugeria que o Chega não deve ser excluído dos acordos que acontecem nas autarquias: “Vivemos numa democracia, temos de nos respeitar uns aos outros e temos de saber trabalhar em conjunto quaisquer que sejam os eleitos e essas, digamos, geografias eleitorais são muito variadas no país e o tipo de trabalho que se faz é também muito diversificado”.
Sobre o caso Spinumviva, que regressou durante a campanha, também não se pode dizer que Passos tenha sido um poço de solidariedade com Montenegro. É verdade que disse esperar que as “eleições possam resultar nas melhores escolhas” e o caso “não se sobreponha à escolha que as pessoas possam fazer nas eleições”. Mas também disse que não gosta de se “pronunciar sobre coisas que não conheço” e não desvalorizou o peso do caso: “Pode ter importância, tem a sua relevância“.
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A pressão e a demarcação de Montenegro
Passos Coelho nunca escondeu o desejo de voltar ao poder Executivo, embora vá repetindo várias vezes que está “fora da política ativa”. O ex-primeiro-ministro não sabe se essa oportunidade vai surgir, nem parece muito preocupado com isso, mas também não disfarça o afastamento com Montenegro — que daria sempre jeito caso ainda alimente ambições de lhe suceder.
Nestas presenças públicas a mais crua declaração de afastamento do atual primeiro-ministro foi quando os jornalistas lhe perguntaram, na segunda vez que participou num evento de Marco Almeida, se tinha algum conselho para Luís Montenegro, e Passos Coelho respondeu friamente: “Só costumo dar conselhos a quem mos pede”.
Já da primeira vez que tinha aparecido na campanha de Marco Almeida, Passos Coelho tinha colocado pressão em Luís Montenegro, dizendo que eram incomparáveis as dificuldades que ele tinha enfrentado nas autárquicas como primeiro-ministro (em 2013, no auge dos efeitos da troika, e em 2017, na confirmação da perseverança estoica da geringonça). Passos dizia que quando foi presidente do PSD e primeiro-ministro “o ambiente nacional pode não ter ajudado em eleições que não nos correram tão bem nessa época quanto nós teríamos desejado.”
Na prática, Passos dizia que o contexto nacional não seria desculpa para um mau resultado de Luís Montenegro: “Não sendo imune ao ambiente nacional, qualquer que seja a leitura que se faça do ambiente nacional — e eu creio que ele não pode ser comparado com as provações que passámos alguns anos antes — na verdade, pessoas escolhem atendendo àquilo que está em jogo, que são as eleições autárquicas.”
Junto à ala direita do partido
Passos Coelho é associado a uma ala mais à direita do PSD e as suas escolhas — embora tivessem uma justificação lógica — foram para candidatos que se enquadram mais nessa linha. Desde logo, o ex-primeiro-ministro participou na campanha de Susana Garcia, na Amadora, com a justificação que tinha lá sido candidato pelo PSD em 1997. A candidata é conhecida por ter posições próximas do Chega, mas isso não afastou Passos. Pelo contrário. O ex-líder do PSD chegou a lembrar Napoleão para explicar como Susana Garcia podia ser importante para a Amadora. O empurrão de Passos Coelho não chegou para ganhar, mas ficou perto: Susana Garcia perdeu a autarquia por apenas 2.110 votos. Passos diria esta quinta-feira: “Foi por pouco. Espero que não desista”.
No caso de Marco Almeida a desculpa de Passos para participar (duas vezes) na campanha do sintrense é que vive e vota naquele concelho. O “homem de Massamá”, como lhe chamou Macário Correia sempre morou ali. E Marco Almeida também teve de endurecer o discurso sobre imigração (chegou a dizer no Carpool que o “concelho de Sintra viu-se invadido por imigrantes”) para bater o Chega. Tenha Passos Coelho ajudado ou não, o que é certo é que Marco Almeida foi eleito, batendo Ana Mendes Godinho e Rita Matias, do Chega. O que é certo, e Passos revelou esta quinta-feira, é que Marco Almeida “teve a simpatia” de lhe ligar a agradecer logo na noite eleitoral.
A não amarração a Mendes
Há grande expectativa sobre quem Passos Coelho apoiará nas Presidenciais de janeiro. Numa das ocasiões chegou a dizer: “Não tenho nada que ver com os contextos em que as Presidenciais estão a decorrer.” Já o disse e repetiu várias vezes, aliás.
No entanto, numa resposta enviada ao semanário Expresso — publicada no mesmo dia em que foi à Amadora apoiar Susana Garcia — Passos Coelho disse que não se sentia “amarrado a um apoio a Marques Mendes”.
Já esta quinta-feira, João Cotrim Figueiredo — que assistiu à apresentação do livro de Miguel Morgado — fez vários elogios a Pedro Passos Coelho cuja intervenção classificou de “lufada de ar fresco”, dizendo que falou com “profundidade” sobre matérias que têm “raízes no passado” mas “se projetam no futuro”.
Sobre se será possível Passos Coelho apoiar a sua candidatura presidencial, Cotrim Figueiredo diz que “claramente que sim: do ponto de vista da sua orientação política, sou o candidato que está mais perto daquilo que Passos Coelho desejará fazer em Portugal”. E acrescenta: “Num cenário em que existisse um Presidente da República com a minha atitude e um primeiro-ministro com a atitude de Pedro Passos Coelho seria uma oportunidade única que o país não tem tido tido nos últimos 35 anos para fazer as reformas que são necessárias”. Cotrim gostava mais de ver Passos primeiro-ministro. Por todas estas intervenções que fez no último mês, nota-se que o próprio também.