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▲Mesquita de Al-Aqsa na Cidade Velha de Jerusalém, Palestina, como era no século XIX

Universal Images Group via Getty

▲Mesquita de Al-Aqsa na Cidade Velha de Jerusalém, Palestina, como era no século XIX

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Paz na terra de Canaã: ontem e hoje. Amanhã? Veremos

Da terra prometida por Deus a Abraão, ao território entregue aos judeus, passando pelo velho conflito entre Israel e a Palestina, com o Hamas e o Irão pelo meio. Ensaio de Vicente Ferreira da Silva.

A ideia de dois Estados não é nova. Está quase a fazer 90 anos. Sou apoiante dessa solução. Os israelitas e os palestinianos merecem e podem viver em paz. Mas é importante lembrar que a existência de dois Estados pressupõe reconhecimento mútuo entre ambos, i.e., que Israel reconhece a Palestina e que a Palestina reconhece Israel. Com o Hamas isso jamais acontecerá.

No entanto, para compreender a situação no Médio Oriente é necessário fazer um enquadramento histórico. Começo por aí, através de uma linha temporal com breves referências aos hebreus/judeus, focalizando dois momentos – antes e depois da Diáspora – e salientando que islamismo só aparece do século VII d.C..

Espero que este ensaio contribua para a reflexão sobre o tema. E para esse fim, é importante começar por fazer umas breves referências às origens históricas dos nomes “Israel” e “Palestina”.

O nome “Israel” possui raízes profundas tanto nos registos bíblicos como arqueológicos, antecedendo em vários séculos o uso generalizado do termo “Palestina”.

Nos textos religiosos da Bíblia Hebraica (Tanakh), “Israel” surge como o nome atribuído ao patriarca Jacob, após um encontro divino descrito no Livro do Génesis (32:28). Segundo cronologias tradicionais, este episódio é geralmente datado entre 2000 e 1500 a.C. Com o tempo, o termo passou a designar os “Filhos de Israel”, ou seja, o povo israelita, e a sua terra ancestral, que reivindicavam como herança divina.

A mais antiga referência não bíblica ao nome “Israel” encontra-se na Estela de Merneptá, um artefacto egípcio datado de cerca de 1209 a.C., que relata a vitória do faraó Merneptá sobre um povo chamado “Israel” na região de Canaã.

Por sua vez, o nome “Palestina” deriva de “Filístia” (em hebraico: Peleshet), referindo-se aos filisteus, um povo de origem egeia que se estabeleceu na planície costeira do sul de Canaã por volta do século XII a.C. Registos egípcios, como os do reinado de Ramsés III (c. 1175 a.C.), mencionam os Peleshet como invasores.

A utilização do termo “Palestina” como designação regional mais ampla aparece pela primeira vez nos escritos gregos. O historiador Heródoto, no século V a.C., usou o termo “Palaistinê”, provavelmente como uma forma helenizada de “Filístia”, para descrever a zona costeira entre a Fenícia e o Egipto.

A formalização do nome “Palestina” ocorreu no século II d.C., quando o imperador Adriano, após suprimir a revolta judaica de Bar Kokhba (135 d.C.), renomeou a província da Judeia para “Síria Palestina”. O nome “Palestina” manteve-se ao longo dos períodos bizantino, islâmico inicial (como “Filastin”), cruzado, otomano e britânico, sendo frequentemente utilizado como termo administrativo ou geográfico, mais do que como expressão de uma identidade nacional.

Porém, a identidade árabe palestiniana só começou a ganhar forma nos séculos XIX e XX, influenciada pelo domínio otomano e pela resistência ao movimento sionista. E o uso do termo “palestinianos” para designar os habitantes árabes da região só se tornou comum por volta de 1928, já com um sentido nacional mais definido.

1 Antes da Diáspora

Palestina, termo que deriva de um nome hebraico bíblico, foi como os romanos denominaram uma região delimitada entre a costa oriental do Mediterrâneo, a Pártia e a Sassânia (Pérsia) e a Arábica, região que actualmente compreende os territórios de Israel, Jordânia, sul do Líbano, Faixa de Gaza e Cisjordânia. Antes disso, a região era conhecida como Judeia. O Reino da Judeia foi cliente e posteriormente uma província do Império Romano.

É natural que tenha havido referências à Palestina depois do imperador romano Adriano ter oficializado a expressão quando rebatizou a Judeia como “Síria Palestina” (e Jerusalém como “Aelia Capitolina”) para simultaneamente humilhar o povo judeu e homenagear o extinto povo filisteu. E essas referências sobre feitas ao longo do tempo, especialmente durante o período do império otomano. Mas daí até equiparar uma referência geográfica ao povo palestiniano vai uma longa distância. Até porque os otomanos dificilmente alterariam expressões para agradar aos judeus.

Todavia, antes disso foi conhecida por Canaã, a terra prometida por Deus a Abraão, que se deslocou de Ur, na Mesopotâmia, até lá, e que os hebreus (do hebraico “Ivrim”, que significa “povo do outro lado do rio”) conquistaram aos cananeus e aos filisteus.

Os hebreus viveram na região mais de dois mil anos até serem expulsos pelos romanos (por volta de 70 d.C.); o islamismo apareceu no séc. VII, na Arábia; só em 640 d.C., é que a Palestina foi conquistada pelos árabes, i.e., aproximadamente 570 anos depois da expulsão dos hebreus.

Os hebreus, que se denominavam israelitas, passaram por três grandes períodos:

  • Patriarcado (entre aproximadamente 2000 a.C. e 1200 a.C.) em que foram liderados por patriarcas religiosos;
  • Juízes, autoridades políticas, religiosas e militares, um por tribo, eleitos pelas respectivas tribos;
  • Reis (entre aproximadamente 1050 a.C. e 586 a.C.), ungidos pelos profetas, foi a forma escolhida para unificar as tribos hebraicas de modo a potenciar os recursos contra os inimigos.

Ao longo do tempo, os hebreus lutaram com, entre outros, filisteus, egípcios, assírios, babilónicos, caldeus, persas, macedónios e romanos. Das guerras Romano-Judaicas resultou a destruição do Templo de Jerusalém (70 d.C.) e a expulsão da Palestina, conhecida como Diáspora, que oficialmente durou até 1948.

Feito este breve apanhado histórico, é fundamental realçar três coisas: primeiro, que os hebreus viveram na região mais de dois mil anos até serem expulsos pelos romanos (por volta de 70 d.C.); segundo, que o islamismo apareceu no séc. VII, na Arábia; e terceiro, que só em 640 d.C., é que a Palestina foi conquistada pelos árabes, i.e., aproximadamente 570 anos depois da expulsão dos hebreus. Estes elementos são essenciais para elucidar eventuais reclamações de antiguidade territorial.

A cronologia seguinte ajuda a compreender a melhor a evolução e os acontecimentos na região entre o fim do Segundo Reino e as duas primeiras décadas do Estado de Israel.

  • até 63 a.C. – Estado independente judeu
  • 63 a.C.- 6 – Reino cliente do Império Romano
  • 6-41 – Província romana.
  • 26-36 – Procurador Pôncio Pilatos
  • 41-44 – Governo de Herodes Agrippa (rei cliente)
  • 44-48 – Província romana
  • 48-100 – Governo de Herodes Agrippa II (rei cliente)
  • 66-70 – Primeira guerra judaico-romana contra Roma
  • 100 (para a frente) – Província romana
  • 115-117 – Segunda guerra judaico-romana
  • 132-135 – Terceira guerra judaico-romana (Simão Barcoquebas)
  • 135 – Judeia renomeada de Síria Palestina pelo imperador Adriano
  • 640 – Início do controle muçulmano árabe
  • 1099 – Os cruzados conquistam a região
  • 1291 – Derrota final dos Cruzados e restabelecimento do controle muçulmano
  • 1516 – Início do controle Otomano
  • 1918 – Derrota dos Otomanos; início do controlo britânico
  • 1919 – Incorporação ao Mandato Britânico da Palestina
  • 1947 – Resolução 181 das Nações Unidas
  • 1948 – Criação do Estado de Israel
  • 1967 – A maior parte da Judeia histórica é capturada por Israel

Aqui chegados, é possível afirmar inequivocamente duas coisas: primeiro, na Palestina só existiram estados judaicos: o Primeiro Reino (1000-586 a.C.), o Segundo Reino (538-63 a.C.) e Israel (1948-). Entre o Primeiro e o Segundo Reino aconteceu o Cativeiro na Babilónia [relembro que foi Ciro II, da Pérsia, quem autorizou o regresso do Hebreus à terra de Judá (ou Judeia)]; segundo, não é possível reivindicar a existência de qualquer Estado Árabe na Palestina.

2 Depois da Diáspora

Não é exagero dizer que os judeus sonharam por milénios com o regresso à terra de Israel. Esse sonho tornou-se num propósito com Theodor Herzl e a publicação do “Der Judenstaat” (O Estado Judeu). Durante séculos, os judeus foram objecto de discriminação e de abusos em toda a Europa (exceptuando o extermínio nazi, o que se passou na Europa ocidental foi uma pálida amostra quando comparada com o que os judeus sofreram na Europa oriental), não usufruindo de direitos iguais. Nesse período, discutiram-se intensamente várias soluções como a emancipação cívica e a assimilação dos judeus. A discussão passou por vários avanços e recuos sem que a questão fosse definitivamente resolvida.

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▲ Oficiais militares turcos, todos em uniforme, diante de um edifício em Jerusalém, Palestina, por volta de 1895

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Reflectindo sobre a ideia da soberania judaica, Herzl argumentou que a essência do problema residia no âmbito de atribuição e no nível de reconhecimento dado aos judeus e que a resposta não estava no indivíduo, nem nestes enquanto comunidade. Enquanto fossem vistos como párias, i.e., como uma anomalia nacional, os judeus não seriam aceites, nem respeitados. Assim, num mundo de Estados-nação, só um Estado-nação judeu providenciaria a solução. A questão judaica não era cívica ou social, mas política e só no contexto da política internacional poderia ser resolvida porque só o consentimento das grandes potências viabilizaria a formação de um estado judeu.

Segundo os cânones internacionais, para ser reconhecido como tal, um Estado necessita de três elementos; povo, território e organização política. Uma vez que os judeus já possuíam identidade cultural que lhes conferia nacionalidade, era necessário arranjar os outros dois elementos. Consciente disso, Herzl argumentou que o povo judeu deveria estabelecer-se na sua pátria histórica onde, após obtido o reconhecimento internacional, poderiam expressar-se politicamente, culturalmente e religiosamente em paz, livres do antissemitismo sistémico.

Baseado no modelo de uma sociedade socialista iluminada, Herzl via o futuro estado judaico como neutro, pacífico e secular. N’ O Estado Judeu, descreveu as suas visões de como possibilitar a construção de uma futura nação judaica, discorrendo sobre uma miríade de temas como a estrutura política, relações diplomáticas, imigração, angariação de fundos, compra de terras, edificações, leis, idioma, relacionamento entre o Estado e a religião, etc.. Para o efeito, particularmente no que respeita à aquisição de território, sugeriu um programa de colecta de fundos, financiado com contribuições de judeus de todo o globo, para a constituição de uma entidade que trabalharia para a realização prática desse objetivo. Esta é a génese da Organização Sionista.

Pese embora as ideias de Herzl se tenham concretizado, não deixou de haver oposição às mesmas. Essa resistência veio dos membros da comunidade ortodoxa e daqueles que defendiam a assimilação e a integração na sociedade não-judaica. Apesar do apelo religioso inerente à ideia duma nova pátria na terra prometida, ideia que representaria a redenção do povo de Israel, e do apoio de algumas correntes religiosas que a entendiam como heróica e sentimental, outras correntes, mais fundamentalistas, reprovavam a ideia alegando que devia ser pela mão de Deus e não por acções políticas que a redenção devia ser atingida. As temáticas religiosas e culturais foram fracturantes, limitando substancialmente o debate político. Inicialmente, e especialmente depois dos rabinos alemães terem protestado contra a convocação do Congresso, Herzl deu as boas-vindas aos tradicionalistas pois não podia ignorar o valor simbólico da religião para o sionismo. Todavia, percebeu imediatamente que não seria fácil lidar com as disputas entre os ortodoxos e os seculares. Este assunto só seria resolvido após a morte de Herzl, através de um compromisso que fez com que o movimento sionista respeitasse os costumes religiosos publicamente e que paralelamente administrasse programas culturais para secularistas e tradicionalistas.

Ora, as ideias de Herzl não eram novas. Basta recordar Nathan Birnbaum (1864-1937) e, especialmente, León Pinsker (1821-1891), fundador e líder do movimento Hibbat Zion. Quando o Primeiro Congresso Sionista se reuniu em 1897, os seguidores deste movimento já tinham comprado terras e fundado assentamentos agrícolas na Palestina. E igualmente tenho de referenciar Moses Hess, filósofo judeu alemão e fundador do sionismo trabalhista. A sua obra magna, Rome and Jerusalem. The Last National Question (1862), impulsionou o sionismo trabalhista. Hess defendeu o retorno dos judeus à terra de Israel, propondo um país socialista no qual os judeus seriam agregados através de um processo de “redenção do solo”. As teorias socialistas de Hess, originaram um conflito permanente com Karl Marx e Friedrich Engels, e foram duramente criticadas n’A Ideologia Alemã – Herzl afirmou que se tivesse lido o livro de Hess, não teria escrito O Estado Judeu.

Israel já aceitou várias propostas, três das quais iniciativa dos israelitas, para a criação de um Estado Palestiniano. Todas foram recusadas pelos palestinianos, ou melhor, por quem os representa.

Apesar de restrições e até de proibições temporárias por parte das autoridades otomanas, desde a década de 1880 até o estabelecimento do Estado de Israel em 1948, os judeus adquiriram aproximadamente 7% das terras na Palestina.

Ouve-se frequentemente dizer que se Israel permitisse que os palestinianos tivessem um país, haveria paz no Médio Oriente. A mim, depois de rever a história, parece-me que as pressões terão muito mais efeito se incidirem sobre o Hamas. E é muito curioso que digam isso porque Israel já aceitou várias propostas, três das quais iniciativa dos israelitas, para a criação de um Estado Palestiniano. Todas foram recusadas pelos palestinianos, ou melhor, por quem os representa. Ora, vejamos:

  • Em 1936, os árabes revoltaram-se contra os britânicos (que administravam a região) e contra os seus vizinhos judeus. A Comissão Peel, encarregue de perceber as causas da rebelião, concluiu que as mesmas decorriam da vontade dos árabes e dos judeus de governar o mesmo território. Para esta Comissão, a solução passava pela criação de dois Estados independentes – um para os judeus e outro para os árabes – sendo que a divisão sugerida era favorável aos árabes, pois ficavam com 80% do território em disputa. Os judeus, mesmo ficando com apenas 20%, votaram a favor da proposta. Contudo, os árabes rejeitaram-na e voltaram à violência;
  • Em 1947, os britânicos pediram às Nações Unidas uma nova solução para parar as tensões e a violência. A ONU também propôs a criação de dois Estados, através da divisão territorial, mas mais equilibrada. Os judeus aceitaram, os árabes não, tendo iniciado uma guerra (Egipto, Iraque, Jordânia, Líbano e Síria) contra os judeus, que perderam;
  • Em 1967, como resultado da vitória na guerra dos seis dias, Jerusalém, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza passaram a ser administradas por Israel. O Governo israelita ficou dividido quanto ao que fazer com estes territórios. Havia quem quisesse devolver a Cisjordânia à Jordânia e a Faixa de Gaza ao Egipto em troca de paz, e quem defendesse a devolução aos árabes da região que tinham passado a denominar-se “palestinianos”, esperando que estes construíssem aí o seu Estado. Contudo, na sequência dos “Três Nãos” decididos pela Cimeira da Liga Árabe em Cartum – Não à paz com Israel; não ao reconheceremos do Estado de Israel; não às negociações com Israel – nova rejeição árabe aconteceu;
  • Em 2000, o Primeiro-Ministro israelita, Ehud Barack, reuniu-se em Camp David (EUA) com o Presidente da Organização para a Libertação da Palestiniana, Yasser Arafat, para concluir um novo acordo para a criação de dois Estados. Foi oferecido a Arafat toda a Faixa de Gaza, 94% da Cisjordânia com Jerusalém-Oriental como capital. Arafat recusou tudo (na altura, o Presidente Clinton afirmou que “Arafat esteve aqui 14 dias e disse não a tudo”).
  • Em 2008, Ehud Olmert foi ainda mais longe do que Ehud Barack, juntando mais território à proposta anterior. Infelizmente, tal como o seu antecessor, Mahmoud Abbas recusou.

Resumindo, os árabes recusaram todas as soluções apresentadas, incluindo uma em que ficavam com 80% do território. E todas as vezes que as propostas foram recusadas, a violência árabe foi a resposta. Perante estes factos, pergunto se não é efectivamente melhor colocar a pressão no Hamas para que estes olhem pelos interesses dos palestinianos em vez de fazer a guerra?

3 Diálogo para a Paz. Como?

Shahd Wadi, membro da comunidade palestiniana em Portugal, disse que esta comunidade não se revê na ideologia política do Hamas. Eu acredito. Contudo, porque é que os palestinianos permitem que o Hamas continue como representante da Palestina? Que fazem pessoas como Shahd Wadi para impedir que isso aconteça? O entendimento com o Estado de Israel não seria mais fácil se o diálogo não acontecesse com grupos terroristas e extremistas? Algumas perguntas são retóricas. Não é difícil perceber a razão que impede pessoas como Shahd Wadi de dizer directamente ao Hamas para se afastar. No entanto, devem ser formuladas. E felizmente, começa a ver-se vários Governos a pedir ao Hamas para devolver os reféns, desarmar e afastar qualquer pretensão em fazer parte da solução num Estado palestiniano.

Dito isto, há algo que é demonstrável pela história e infelizmente transversal a todas as culturas e povos. Aqui não é diferente. São os velhos que declaram a guerra. Mas quem acaba por as travar são os jovens, que juntamente com as mulheres, são quem realmente paga o preço.

Do lado árabe, a paz na região dependia de três velhos: Ismail Haniyeh, de 61 anos, chefe do Hamas, que vive tranquilamente no Qatar; Ali Khamenei, 84 anos, líder Supremo do Irão; e Mahmoud Abbas, 87 anos, débil e ultrapassado pelo tempo. A legitimidade governativa destes homens advinha do medo, sustentado pela força e validado pela deturpação da fé. Do lado judeu, não é possível desresponsabilizar Netanyahu, nem, principalmente, Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich.

As três grandes religiões monoteístas do mundo têm extremismo e fanatismo no seu interior. Portanto, não há nenhuma abordagem ao conflito judeu-árabe que possa ignorar os vectores político e religioso, assim como o extremismo existente em ambos.

Qualquer análise ou reflexão sobre o conflito Israel-Hamas requer considerações ao nível bilateral, regional e internacional. Este não é um exercício fácil. Especialmente sendo sobre o futuro. Niels Bohr avisou-nos sobre essa condição: “Prediction is very difficult, especially about the future”. Mais difícil se torna quando devemos considerar eventuais ou prováveis actores, i.e., pessoas que inevitavelmente terão de fazer, ou tentar fazer, o que Mandela fez – depois de ter passado 27 anos na cadeia, Mandela foi libertado. Saiu da prisão com o perdão no coração e foi capaz de unificar o seu país. No caso do conflito no Médio Oriente, 27 anos são um grão de areia. Não tenho a certeza de que o perdão seja possível, nem que venha a ser redenção. Oxalá esteja enganado. Curiosamente, por um breve momento, o perdão no coração entre israelitas e palestinianos pareceu provável quando Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat assinaram os Acordos de Oslo (Washington, 1993; Taba, 1995).

Acima referenciei as cinco vezes que os árabes recusaram a solução de dois Estados (não acredito que seja possível outro tipo de solução). Há mais coisas a dizer, incluindo sobre os Acordos de Oslo e as consequências dos mesmos.

Tendo em mente as Resoluções 242 e 338, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, estes Acordos foram um marco na relação entre israelitas e palestinianos e representaram a esperança, infelizmente breve, num futuro de paz. Foi no âmbito deste processo que pela primeira vez houve um reconhecimento mútuo entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Naturalmente, entre outras, questões como fronteiras, a retirada (faseada) da presença militar de Israel da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, a transferência simultânea da segurança para as autoridades palestinianas, um autogoverno provisório palestino (pelo Conselho Legislativo Palestino) e uma revisão dos termos após 5 anos foram objecto de negociação e de acordo.

O extremismo, usualmente associado a dogmas, fanatismo, intolerância, negação de valores, ausência de pensamento crítico e à imposição de modos de estilo e de comportamento, não se limita à política. Na religião, a intransigência caracteriza-se por devoção absoluta, exacerbada e desprovida de isenção que afirma incondicionalmente a primazia duma religião sobre as demais. As três grandes religiões monoteístas do mundo têm extremismo e fanatismo no seu interior. Portanto, não há nenhuma abordagem ao conflito judeu-árabe que possa ignorar os vectores político e religioso, assim como o extremismo existente em ambos. E como, nesse contexto, a procura da paz pode implicar uma sentença de morte, a questão pede uma reflexão adicional.

3.1 – Anwar Sadat

O homicídio de Anwar Sadat, a 6 de outubro de 1981, por Khalid Islambouli, membro da organização Jihad Islâmica Egípcia, foi um marco trágico na história do Egipto, reflectindo divisões no mundo árabe sobre a paz com Israel e o papel do Islão na governação. A decisão de Sadat de assinar os Acordos de Camp David em 1978 e o Tratado de Paz Egipto-Israel em 1979 redefiniu o Médio Oriente, mas gerou controvérsia uma vez que para muitos egípcios e árabes, esses acordos foram uma traição à causa palestiniana e à unidade árabe.

Os Acordos de Camp David, mediados pelos EUA, devolveram a Península do Sinai ao Egito, encerrando décadas de conflito com Israel. Para Sadat, foi um passo pragmático para a recuperação económica e estabilidade regional. Porém, enfrentou a oposição feroz e o isolamento. A Liga dos Estados Árabes suspendeu o Egipto e o descontentamento interno cresceu. A visão de paz de Sadat, embora globalmente celebrada, foi criticada como uma rendição da solidariedade árabe, priorizando interesses nacionais sobre a resistência à ocupação israelita.

A repressão de Sadat à dissidência interna intensificou as tensões. Em setembro de 1981, milhares de opositores, incluindo islamistas, socialistas e intelectuais foram presos. Essa medida alienou sectores da sociedade egípcia, especialmente grupos como a Irmandade Muçulmana e a Jihad Islâmica Egípcia. Inspirados pelas ideologias radicais de Sayyid Qutb, que defendia a luta armada contra governantes “apóstatas”, esses grupos viam Sadat como um traidor dos princípios islâmicos devido às suas políticas seculares e alinhamento ocidental. Para a Jihad Islâmica Egípcia, o assassinato de Sadat foi um acto de resistência contra um regime considerado anti-islâmico e submisso a potências estrangeiras.

3.2 – Yitzhak Rabin

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▲ O aperto de mão após a assinatura dos acordos de Oslo entre Rabin e Arafat

AFP via Getty Images

O assassinato de Yitzhak Rabin, ocorrido a 4 de novembro de 1995 em Tel Aviv, representa um momento dramático na história moderna de Israel. Rabin, então primeiro-ministro, foi morto por Yigal Amir, um judeu ortodoxo de extrema-direita, profundamente contrário ao processo de paz com os palestinianos. O ataque teve lugar no final de uma manifestação que celebrava os Acordos de Oslo que visavam uma resolução pacífica do conflito israelo-palestiniano, incluindo concessões territoriais e reconhecimento mútuo — medidas que Rabin via como fundamentais para garantir a segurança e prosperidade futuras de Israel.

Porém, para Amir e outros elementos radicais da sociedade israelita, estas concessões eram inaceitáveis. Amir considerava que entregar partes da Terra de Israel equivalia a uma traição ao povo judeu, e justificou o assassinato através de uma interpretação da lei judaica, classificando Rabin como um “rodef” — alguém que, segundo algumas leituras religiosas, representa uma ameaça activa à vida de outros judeus e que pode, portanto, ser neutralizado. Esta distorção teológica foi usada como base para um acto político extremista que abalou Israel profundamente.

O impacto do assassinato foi imenso. Pela primeira vez, um líder israelita foi morto por um cidadão judeu por razões ideológicas e religiosas, o que gerou grande consternação nacional e internacional. Rabin passou a ser visto como um mártir da paz, e a sua morte levou a uma pausa no processo diplomático que tentava resolver um dos conflitos mais prolongados do mundo. A tragédia tornou-se também um alerta poderoso sobre os perigos do extremismo religioso e político, lembrando que a intolerância pode minar mesmo os mais corajosos esforços pela reconciliação.

Estes dois homicídios levantam uma questão central: a procura pela paz é um passo corajoso ou um erro que compromete a identidade? Parece-me indiscutível que estas mortes ilustram o equilíbrio precário entre pragmatismo e ideologia no Médio Oriente, demonstrando que a paz é complexa e que pode ser tão perigosa quanto o conflito.

Assim, é não é de estranhar que tanto Arafat como Abbas tenham recusado as propostas feitas por Ehud Barack (2000) e por Ehud Olmert (2008) para a criação de dois Estados. É perfeitamente plausível pensar que nem Arafat, nem Abbas, estavam disponíveis para dar, nas palavras de Abraham Lincoln, a “derradeira medida de devoção” pela paz. Por outras palavras, tiveram medo de ter o mesmo destino de Sadat e de Rabin, de serem assassinados por extremistas da sua facção.

Antes de passar aos níveis de considerações regionais, devo acrescentar algo aqui. Apesar de ser a favor do Estado Palestiniano, sou contra a que o Hamas faça parte da solução. Não esquecendo o Jeanne Kirkpatrick e James Schlesinger disseram sobre a democracia na cultura árabe, a pior coisa que pode acontecer na região é a formação de um Estado teocrático palestiniano. Se tal acontecer, a probabilidade de Israel passar a ser uma teocracia é alta. E isso será um retrocesso enorme. A defesa de um Estado Palestiniano agora pode ser esse precursor.

4 Nível Bilateral

Como referi acima, as ideias socialistas de Hess e de Herzl tiveram eco no governo de Israel. Exemplo disso são as lideranças trabalhistas de David Ben-Gurion, Levi Eshkol, Golda Meir, Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Ehud Barak. Obviamente, tendo em conta as diferenças de personalidade e as circunstâncias e o contexto político, é perfeitamente compreensível que se tenham verificado pontos em comum e distintos na condução dos assuntos políticos. O melhor exemplo para ilustrar o que digo vem dos EUA. Tanto Ronald Reagan, como Donald Trump foram eleitos pelo partido republicano. Porém, as suas visões do mundo não podiam ser mais antagónicas.

4.1 – Israel

Uma das principais diferenças entre Israel e Gaza é o regime político. Não posso deixar de salientar que há cerca de 2 milhões de “palestinianos” que vivem em paz. São aqueles que vivem em Israel, E muito provavelmente serão os árabes que vivem com mais liberdade e segurança de toda a região. Há outra coisa que deve ser dita. Os árabes de Israel podem organizar-se politicamente.

Não é possível deixar de reconhecer erros cometidos por vários governos de Israel (a política dos colonatos é um deles) e pelo governo de Netanyahu, quer ao nível político pela defesa de um nacionalismo étnico, quer também ao nível securitário. Mas há algo que é incompreensível. No contexto em que Israel vive, praticamente rodeado por inimigos, como podem ter sido descurados aspectos essenciais para a sua defesa e para a protecção dos seus cidadãos?

A Lista Conjunta foi uma aliança política constituída por quatro partidos políticos de maioria árabe de Israel: Hadash, Balad, Ra’am e Ta’al. Nas eleições legislativas de 2015, elegeram 13 deputados e tornaram-se a terceira maior representação no Knesset. Em setembro de 2019, mesmo após divergências internas, mantiveram a terceira maior representação parlamentar, tendo, nas eleições de 2020, aumentado essa representação de 13 para 15 deputados.

Em 2 de junho de 2021, o líder Mansour Abbas assinou um acordo para formar um governo de coligação. Foi a primeira vez que um partido árabe independente se tornou membro do governo israelita e a primeira vez em mais de 50 anos que um partido árabe fez parte do governo israelita. Ora, digam-me lá quantos partidos políticos judeus existem na Palestina? E é imprescindível realçar outra coisa. É possível aos cidadãos de Israel manifestarem-se contra as decisões do seu Governo. Até os familiares dos reféns raptados pelo Hamas a 7 de outubro o fazem. E em Gaza? Que acontece aos palestinianos que se manifestem contra o Hamas?

Salientei acima a importância da mudança das circunstâncias políticas. A dispersão e a fragmentação política em Israel tem aumentado. Hoje, seria possível ao líder do Likud, Benjamin Netanyahu, fazer uma proposta idêntica à de Olmert? Não. Com Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich no Governo isso é praticamente impossível.

Obviamente, não é possível deixar de reconhecer erros cometidos por vários governos de Israel (a política dos colonatos é um deles) e pelo governo de Netanyahu, quer ao nível político pela defesa de um nacionalismo étnico, quer também ao nível securitário. Mas há algo que é incompreensível. No contexto em que Israel vive, praticamente rodeado por inimigos, como podem ter sido descurados aspectos essenciais para a sua defesa e para a protecção dos seus cidadãos? As distracções decorrentes da efervescente política interna em Israel – do lado do Governo, aos casos que envolveram Netanyahu e a recente tentativa deste de reforma da justiça, reforma essa que na minha opinião punha em causa o Estado de Direito; por sua vez, a oposição distraiu-se demasiado com os casos de corrupção do primeiro-ministro – não servem de justificação. Ainda por cima, até os avisos dos norte-americanos, corroborados pelos britânicos, sobre eventuais acções do Hamas foram ignorados. Resultado? Israel foi apanhado de surpresa e colocado contra a parede.

As mais recentes sondagens indicam fragmentação partidária e eventual instabilidade governativa. Com as eleições legislativas a aproximarem-se, os dados das sondagens de julho de 2025 revelam um panorama altamente dividido, onde nenhum dos blocos políticos alcança, de forma segura, os 61 lugares necessários para formar uma maioria no Knesset:

  • O bloco liderado por Benjamin Netanyahu permanece aquém da maioria. Mesmo com uma ligeira recuperação de apoio após o cessar-fogo com o Irão e com a saída do Haredi do Governo, a coligação governamental continua vulnerável, refletindo o desgaste acumulado dos últimos anos.
  • Do lado da oposição, destaca-se a ascensão do novo partido de Naftali Bennett, que se afirma como alternativa viável, reunindo apoio significativo na oposição. A sua força, aliada a partidos como Yesh Atid e The Democrats, coloca o bloco opositor ligeiramente acima dos 61 lugares, segundo algumas sondagens.
  • Os partidos árabes – Ra’am e Hadash–Ta’al – mantêm presença estável com cerca de dez lugares, mas tradicionalmente optam por não integrar coligações, o que reforça o impasse político.

No plano temático, o país debate intensamente o alistamento obrigatório dos ultraortodoxos, tema que gera forte polarização: cerca de 42% dos israelitas apoiam uma reforma gradual, enquanto 35% defendem o envio imediato de ordens de alistamento. Esta questão, juntamente com o impacto da guerra em Gaza e a gestão do pós-conflito com o Irão, molda as tendências eleitorais. E também há uma crescente desconfiança em relação ao atual governo: sondagens apontam que 57% da população deseja eleições antecipadas. Por contraste, instituições como o Supremo Tribunal e o Shin Bet continuam a inspirar maior confiança pública do que os líderes políticos.

Este cenário indica que as eleições legislativas em Israel poderão decorrer sob forte tensão ideológica, marcada por um desejo popular por mudança e estabilidade. Resta saber se os eleitores irão confirmar a viragem que as sondagens sugerem – ou se o impasse persistirá.

4.2 – Palestina

Do lado palestiniano, a leitura é mais complexa. Aqui é necessário apontar várias coisas:

  • O Hamas, fundado pelo íman Ahmed Yassin, é uma organização política e militar islâmica sunita que defende a resistência armada e que se opõe às Cartas de Reconhecimento Mútuo Israel-OLP e aos Acordos de Oslo por estes apoiarem a solução de dois Estados e renunciarem ao “uso de terrorismo e outros atos de violência”;
  • O Hamas venceu as eleições legislativas de 2006, obtendo a maioria no Conselho Legislativo Palestiniano da Faixa de Gaza, com 75 dos 132 lugares. Contudo, só em 2007, após uma intensa disputa com a Fatah, é que assumiu o controlo total da Faixa de Gaza. Desde então, não houve mais actos eleitorais e o Hamas tem governado autocraticamente;
  • Não podemos confundir o Hamas com o povo palestiniano por este estar refém daquele. Recentemente foi publicado um estudo sobre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, pelo Barômetro Árabe, em parceria com o Centro de Investigação Palestino para Políticas e Pesquisas, que revelou que a maioria dos palestinianos não apoiam a governação ou a ideologia do Hamas, nem o seu objectivo da eliminação de Israel. Adicionalmente, 73% dos palestinianos preferem uma resolução pacífica do conflito com Israel, com 58% a optar por uma coexistência entre dois Estados;
  • O Hamas não tem qualquer interesse na segurança e bem-estar do povo palestiniano. Ali Baraka, chefe das relações externas do Hamas, recentemente sumarizou assim as duas mundivisões: “Os israelitas são conhecidos por amar a vida. Nós, por outro lado, sacrificamo-nos. Consideramos mártires os nossos mortos.” Ou seja, para o Hamas, os civis não são meros escudos humanos. Também são potenciais mártires. Adicionalmente, podemos recordar as opções do Hamas após a saída unilateral de Israel de Gaza. O Hamas em vez de construir infraestruturas e de desenvolver a economia, preferiu transformar Gaza numa base para as suas actividades terroristas, com instalações paramilitares em prédios civis, gastou recursos e dinheiro numa rede de túneis com mais de 500 kms (para comparação, os túneis do metro de Moscovo têm 397 kms) que passam por baixo de residências e de hospitais, sem terem construído abrigos para a população. Hoje, é claro que o propósito da rede de túneis serve para guardar armamento e munições, facilitar a mobilidade dos recursos para o combate de guerrilha e para aprisionar reféns.
  • Quando comparamos a situação entre Gaza (Hamas) e a Cisjordânia (Fatah) vemos diferenças. Apesar de várias condicionantes, incluindo territoriais, a gestão da Fatah e do Hamas possibilita distintas realidades de vida aos Palestinianos.
  • Para mim, do lado palestiniano, desejando que terminadas as operações militares seja possível encetar negociações que conduzam à implementação pacífica da solução de dois Estados, Mustafa Barghouti, secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestina, um partido político que é uma alternativa ao Hamas e à Fatah, parece ser uma boa opção. Oxalá esteja disponível para fazer o que Arafat e Abbas tiveram medo de fazer. Até porque o Hamas não cederá facilmente o poder. Nem a Fatah o fará.

Independentemente das circunstâncias, das condições e dos actores, a redenção vai exigir tempo. Em ambos os lados existem cargas emocionais fortes e intensas que não serão ultrapassadas com facilidade.

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▲ Um dos túneis do Hamas, destruído e reconstruído novamente

AFP via Getty Images

Sou defensor da solução de dois Estados. Mas não é possível reconhecer o Estado palestiniano enquanto o Hamas for o interlocutor político os palestinianos. Até porque estes são oprimidos pelo Hamas. É preciso libertar a palestina do Hamas. Com grupos radicais e afins, o povo palestiniano não conseguirá ter um Estado, nem paz.

5 Nível Regional

Assim que a ONU criou o Estado de Israel, este foi atacado pelo Egipto, Iraque, Jordânia, Líbano e Síria. É curioso notar que o Irão não estava entre esses países. Só depois da Revolução iraniana de 1979, que acabou com o regime monárquico moderado de Reza Pahlavi, é que o Irão passou a ser uma República teocrática islâmica, advogando a crença eterna de um governo de verdade e justiça do Corão, é que o Irão se tornou inimigo de Israel. Não estranhamente, a religião é a origem dessa mudança. Khomeini cortou relações diplomáticas com Israel, declarando-o como “inimigo do Islão” e o “Pequeno Satã”. Desde essa altura, um dos principais objectivos do Irão passou a ser a destruição do Estado de Israel. Reparem que não estamos a falar de uma mudança de regime, mas do fim dos judeus e do seu Estado.

Desde a Revolução Islâmica em 1979, o principal foco do Irão tem sido a disseminação da sua ideologia por toda a região, esperando alcançar uma escala maior. Para concretizar esta ambição, foi considerado necessário desestabilizar as sociedades dos seus vizinhos, a maioria dos quais sunitas. Consequentemente, o Irão foi estabelecendo uma rede de proxies no Médio Oriente, composta por grupos e milícias, alguns com alas políticas, que desafiavam os governos locais e vizinhos. Estes proxies mais não foram do que instrumentos e peões na estratégia de desestabilização do Irão. É surpreendente que todas estas organizações partilhem o objectivo do Irão (que é, simultaneamente, um pilar da ideologia iraniana) de eliminar o Estado de Israel?

Se o ataque do Hamas tivesse conseguido esmorecer os Acordos de Abraão, a Arábia Saudita correria o risco de ser vista como derrotada (diplomaticamente), condição que pode levaria à sua perda de influência na região. A intensidade da resposta israelita, com elevado número de vítimas civis e destruição de infraestruturas essenciais, gerou forte pressão popular nos países árabes.

Criados, financiados e armados pelo Irão, estes proxies terroristas, promovem a ideologia e a religião radical do Irão, na região. Convém recordá-los:

  • Bahrein (Brigadas Al Ashtar e Al Mukhtar);
  • Iraque (Kataib Hezbollah, Asaib Ahl al-Haq, Harakat Hezbollah al-Nujaba, Organização Badr e Kataib Sayyad al-Shuhada);
  • Líbano (Hezbollah);
  • Gaza (Hamas, Jihad Islâmica);
  • Síria (Brigada Zaynabiyoun, Divisão Fatemiyoun);
  • e Iémen (Hutis).

Desde a sua génese que o Hamas professa o mesmo fim: a destruição do Estado e Israel. Em 2017, o Hamas alterou a sua Carta (constitutiva) expressando que aceitava as fronteiras de 1967. Mas continuou sem reconhecer o Estado de Israel. Ou seja, na prática este reconhecimento não passou de um vazio de intenção. Assim, imaginemos que o Hamas mostra disponibilidade para reconhecer o Estado de Israel. É possível acreditar?

O papel e a influência regionais do Irão diminuíram após os Acordos de Abraão. A maioria das nações árabes optou por uma via pacífica que favorece o comércio regional. Para o Irão, a redução de influência é um revés maior do que a morte de Haniyeh, que era apenas um instrumento, e cuja morte servirá como pretexto para retaliação.

5.1 – A importância dos Acordos de Abraão

Depois do Egipto (1979) e da Jordânia (1994), a normalização de relações entre Israel e os países árabes sunitas começou a ser uma realidade depois dos Acordos de Abraão – Emiratos Árabes Unidos (EAU), Bahrain, Sudão, Marrocos (2020) e Omã (2021). Mais recentemente, verificaram-se aproximações com a Arábia Saudita.

Neste âmbito deve-se relembrar a divisão que existe, desde a morte de Maomé, entre sunitas e xiitas (respectivamente cerca de 90% e 10% do mundo muçulmano), assim como os conflitos gerados pela procura de preponderância regional por parte da Arábia Saudita e do Irão.

Não é difícil perceber que consequências teria para o Irão uma aproximação da Arábia Saudita a Israel. Não é por acaso que o Irão apoia o Hamas e o Hezbollah. A intensidade da resposta de Israel poderia ter provocado um afastamento da Arábia Saudita dos Acordos de Abraão e um potencial efeito dominó com a saída dos outros Estados árabes sunitas. Se o ataque do Hamas tivesse conseguido esmorecer os Acordos de Abraão, a Arábia Saudita correria o risco de ser vista como derrotada (diplomaticamente), condição que pode levaria à sua perda de influência na região. A intensidade da resposta israelita, com elevado número de vítimas civis e destruição de infraestruturas essenciais, gerou forte pressão popular nos países árabes, dificultando a manutenção de laços diplomáticos. Todavia, não foi suficiente para acabar com o isolamento do Irão, nem prejudicar os Acordos de Abraão.

Convém ter em mente que o Hamas, por tudo o que representa e pelas suas ligações à Irmandade Muçulmana, é uma faca de dois gumes. Não deixa de ser uma ameaça à estabilidade interna de vários países do mundo árabe, onde, como já referi, também existem fanáticos religiosos. Esta é uma das razões que faz com que nenhum país árabe queira receber os cerca de dois milhões de refugiados (de segunda ou terceira geração), alguns dois quais altamente radicalizados após anos de lavagens cerebrais da propaganda do Hamas.

Evidentemente, não posso deixar de referir o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, para quem o Hamas não é uma organização terrorista, mas antes uma “organização patriótica [uma espécie de mujahideen] que defende o seu povo e o seu território”. Por outras palavras, o Hamas não é apenas um movimento de libertação. Também são guerreiros sagrados [alguém sabe como é que Erdoğan classifica o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK)]? Porém, estas afirmações não são de estranhar. Não podemos esquecer que a Turquia, tal como o Qatar, com quem estreitou ligações, apoia a Irmandade Muçulmana e o Hamas.

Por fim, quando a situação “normalizar”, vários Estados árabes, incluindo o Qatar, terão de fazer escolhas. E escolhas significativas. Aliás, essas escolhas já estão a acontecer. Aliás, a recente iniciativa da França e da Arábia Saudita sobre a discussão dos dois Estados levou a que vários interveniente árabes, incluindo o Qatar (apoiante e financiador do Hamas), estejam a pedir ao Hamas para devolver os reféns, desarmar e afastar-se do processo político no futuro Estado Palestiniano.

5.2 – O pós 7 de outubro de 2023

Tive a oportunidade de visionar imagens sobre os acontecimentos de 7 de outubro. Talvez a melhor maneira de descrever o que vi seja dizer que assisti à materialização do ódio através da banalização da violência. Hannah Arendt descreveu as acções dos nazis, particularmente as de Eichmann, como a banalização do mal. Vi agora um ódio que usa a violência ao ponto de a tornar trivial e aceitável.

É difícil compreender pessoas que baleiam mulheres, já feridas e prostradas no chão, na cabeça. Porém, está para além da minha capacidade de compreensão entender como é que alguém atinge um bebé, deitado no berço, e depois canta entusiasticamente “Allahu Akbar”. Notem que não me refiro a tiros à distância, mas a execuções sumárias à queima-roupa.

Perante o frenesim de júbilo a que assisti pela possibilidade de assassinar pessoas, pergunto-me como é possível dialogar com pessoas que afirmam a violência em nome de Deus? Mas também me questiono se não seria melhor divulgar estas imagens? Apesar da violência que as mesmas transmitem. Até porque posteriormente também serviam para estabelecer distinções entre Israel e o Hamas. É precisamente por causa de actos destes que digo não ser possível negligenciar os vectores político e religioso neste conflito.

Dito isto, o ataque do Hamas a Israel a 7 de outubro, originou uma mudança de atitude e da estratégia israelita. Até então, os proxies do Irão atacavam Israel que, por sua vez, respondia sobre esses proxies. Depois disso, Israel decidiu acabar com a fonte dos problemas. Vejamos alguns exemplos de como se materializou a mudança de estratégia de Israel.

5.2.1 – Gaza

Na sequência do ataque do Hamas a Israel, em 7 de Outubro de 2023, o Estado israelita lançou uma abrangente ofensiva militar sobre a Faixa de Gaza, dividida em várias fases estratégicas. A primeira fase consistiu em bombardeamentos aéreos intensivos. A força aérea israelita realizou milhares de ataques com o objectivo de destruir infraestruturas militares do Hamas, como centros de comando, túneis subterrâneos, depósitos de armas e edifícios associados ao grupo. Estes bombardeamentos incidiram também sobre áreas densamente povoadas, provocando grande destruição e elevado número de vítimas civis.

epa11035775 A relative kisses a picture of a victim of the Nova music festival massacre near Reeim, close to the Gaza border in southern Israel, 18 December 2023. A total of 364 people were killed at the Nova music festival as Hamas militants launched an attack against Israel from the Gaza Strip on 07 October.  EPA/ABIR SULTAN

ABIR SULTAN/EPA

A segunda fase arrancou com a incursão terrestre inicial. Tropas israelitas avançaram para o norte de Gaza, em zonas como Beit Hanoun e Gaza City, com o objectivo de combater diretamente os militantes e desmantelar redes de túneis. Esta etapa caracterizou-se por combates urbanos intensos, que causaram destruição generalizada e consolidaram a presença militar no território.

A terceira fase centrou-se na expansão do controlo israelita, incluindo a tomada do chamado Corredor de Netzarim, uma faixa estratégica que divide o território entre norte e sul. Israel intensificou as operações em zonas como Khan Younis e campos de refugiados, alegando que eram utilizados como bases pelo Hamas. Durante esta fase, ocorreram cercos a hospitais e escolas, locais que, segundo as autoridades israelitas, abrigariam combatentes.

Posteriormente, iniciou-se uma quarta fase focada na eliminação de líderes do Hamas e da Jihad Islâmica. Estas operações foram frequentemente realizadas à noite, envolvendo forças especiais e drones, com o objectivo de desarticular a cadeia de comando dos grupos militantes. Também houve acções na fronteira com o Egipto, para impedir fugas.

Na fase final, o Exército israelita começou a reposicionar as tropas, mantendo presença em áreas-chave e criando zonas de segurança internas. Embora os combates em larga escala tenham diminuído, os bombardeamentos esporádicos continuaram.

Obviamente, como em qualquer cenário de guerra, esta ofensiva teve efeitos devastadores sobre Gaza, tanto do ponto de vista militar como humanitário. Voltarei a referir o tema mais à frente. Entretanto, para além da morte de Haniyeh (em Teerão), também o seu sucessor, Yahya Sinwar, foi morto. Sinwar, que já liderava o Hamas na Faixa de Gaza desde 2017, assumiu comando do gabinete político do Hamas a 6 de agosto de 2024, consolidando assim o seu poder dentro da organização. Era considerado uma figura de linha dura e o principal estratega por detrás do ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel. Sinwar foi morto pelas forças israelitas a 16 de outubro de 2024, na Faixa de Gaza, durante uma operação militar. A sua morte foi confirmada por Israel, que a classificou como uma “grande vitória” para o país e para a comunidade internacional.

5.2.2 – Hezbollah

As operações de Israel contra o Hezbollah, intensificadas a partir de 2023, representaram uma campanha militar estratégica que culminou no desmantelamento significativo da estrutura militar do grupo até julho de 2025. Iniciadas em resposta aos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, essas operações, especialmente a Operação Escudo do Norte, lançada em setembro de 2024, visaram neutralizar a ameaça do Hezbollah, que intensificou ataques transfronteiriços em solidariedade aos palestinianos.

A campanha começou com ataques cibernéticos inovadores em 17 e 18 de setembro de 2024, quando Israel detonou milhares de pagers e walkie-talkies usados pelo Hezbollah, matando dezenas e ferindo milhares, incluindo membros-chave. Essa operação, amplamente atribuída às secretas israelitas, desorganizou as comunicações do grupo, expondo vulnerabilidades críticas. Em seguida, Israel intensificou ataques aéreos, com destaque para 23 de setembro, quando bombardeios massivos atingiram alvos em todo o Líbano, incluindo Beirute. Esses ataques destruíram o quartel-general do Hezbollah, eliminando o líder Hassan Nasrallah em 27 de setembro e seu sucessor, Hashem Safieddine, dias depois. Ao todo, sete comandantes seniores foram mortos em setembro, decapitando a liderança do grupo terrorista.

A 1 de outubro de 2024, Israel lançou uma invasão terrestre no sul do Líbano, que descreveu como “limitada, localizada e direcionada”. A operação envolveu a 146ª Divisão e unidades de comando, destruindo túneis, depósitos de armas e lançadores de foguetes, como em Meiss El Jabal, onde grande parte da vila foi arrasada. Até novembro, Israel relatou a eliminação de 50 combatentes, incluindo seis comandantes regionais, e a destruição de grande parte do arsenal de mísseis do Hezbollah. A campanha também incluiu ataques aéreos em maio de 2025, visando infraestruturas perto do Castelo de Beaufort, tornando inoperáveis locais subterrâneos estratégicos.

5.2.3 – Irão

Ismail Haniyeh foi morto em Teerão. Por essa razão, só agora o menciono com pormenor. Haniyeh foi uma figura marcada por contradições. O seu passado revela muito sobre si – e também revela que foi um extremista que influenciou a radicalização dos grupos com os quais esteve associado.

Dois exemplos ilustram este ponto. Primeiro, enquanto líder da “Lista de Mudança e Reforma”, Haniyeh venceu as eleições a 25 de Janeiro de 2006 e foi nomeado primeiro-ministro a 16 de Fevereiro do mesmo ano. Porém, como o processo entre o Hamas e a Fatah esteve longe de ser pacífico, Haniyeh demitiu-se a 15 de Fevereiro de 2007, para permitir a formação de um governo de unidade nacional entre o Hamas e a Fatah. Consequentemente, foi formado um novo executivo, com Haniyeh à frente, que incluía membros de ambos os partidos. Contudo, a estabilidade entre todas as facções, incluindo partidos políticos árabes, permaneceu esporádica e instável. Isto deveu-se, em grande parte, à ausência de um interesse genuíno, por parte de Haniyeh e do Hamas, em qualquer forma de unidade. Sem surpresa, depois da vitória do Hamas, não voltaram a ser realizadas eleições em Gaza. Segundo, em Novembro de 2016, Haniyeh sucedeu Khaled Mashaal como chefe do gabinete político do Hamas. Sob a liderança de Haniyeh, a posição do Hamas tornou-se mais inflexível e intransigente, especialmente em oposição aos Acordos de Abraão e a Israel. O ataque ocorrido a 7 de Outubro de 2023 é uma indicação clara dessa mudança de postura.

No centro de todas estas questões encontrava-se o Irão. Perante uma oposição interna significativa devido ao tratamento das mulheres (convém não esquecer que o Irão regrediu para um passado onde as mulheres são tratadas como objectos), o regime dos aiatolas utilizou a sua política externa para conquistar maior apoio popular. Ainda assim, a forma como ocorreu a morte de Haniyeh mostrou que o controlo do regime iraniano dentro das suas próprias fronteiras enfraqueceu. E até o líder supremo do Irão, Ali Khamenei, percebeu que não estava seguro nem protegido no seu próprio país. Israel foi capaz de atingir o líder no Hamas no coração do Irão.

A operação Rising Lion conjugou alta e baixa tecnologia numa verdadeira coreografia bélica: drones quadcópteros cegaram radares e identificaram alvos, aviões equipados com bombas de penetração profunda destruíram estruturas enterradas e forças especiais no terreno marcaram objetivos móveis. Na primeira noite, 200 aeronaves israelitas sobrevoaram o Irão durante mais de duas horas, incluindo Teerão, sem sofrerem qualquer baixa.

Como referi anteriormente, a estratégia israelita mudou após 7 de Outubro. Penso que a Operação Rising Lion deve ser encarada como uma forma diferente de travar guerra no século XXI. Abandonando metodologias tradicionais, esta operação teve como objetivo neutralizar os sistemas de comando e controlo do Irão e enfraquecer de forma decisiva a sua capacidade de retaliação. Para o efeito, concentrou-se na estrutura da Guarda Revolucionária (IRGC), nos cientistas ligados ao programa nuclear, nas redes de comunicação, nos sistemas de defesa aérea e nos lançadores de mísseis balísticos. A intenção israelita não foi apenas prevenir ataques, mas fazer com que o Irão ficasse sem meios para o planear ou fazer.

A execução da operação seguiu um novo paradigma de guerra combinada e conjunta, sustentado por meses de preparação com drones infiltrados, manipulação de agendas, concentração de alvos humanos de alto valor em locais subterrâneos, ciberataques, guerra electrónica, operações psicológicas e bombardeamentos de precisão. O sucesso foi extraordinário. Em poucas horas, o Irão perdeu os seus olhos, ouvidos, voz e capacidade muscular estratégica. Foram abatidos elementos de topo da hierarquia militar, como os generais Bagheri, Salami, Rashid, Hajizadeh e Qaani (este último neutralizado), além de nove cientistas nucleares e mais de vinte comandantes seniores, provocando uma paralisia funcional no sistema militar iraniano.

A operação conjugou alta e baixa tecnologia numa verdadeira coreografia bélica: drones quadcópteros cegaram radares e identificaram alvos, aviões equipados com bombas de penetração profunda destruíram estruturas enterradas e forças especiais no terreno marcaram objetivos móveis. Tudo foi meticulosamente pensado e sincronizado. Na primeira noite, 200 aeronaves israelitas sobrevoaram o Irão durante mais de duas horas, incluindo Teerão, sem sofrerem qualquer baixa. A resposta iraniana revelou-se desorganizada, tardia e ineficaz, consequência directa da destruição prévia dos seus centros de decisão, lançadores e comando. O Irão não perdeu por completo a capacidade ofensiva, mas viu-a reduzida a um estado lento, hesitante e errático.

O impacto psicológico foi igualmente decisivo. A insegurança que começou a ser sentida com a morte de Haniyeh aumentou e os líderes iranianos passaram a operar sob um constante receio de serem os próximos alvos (ninguém viu o líder supremo do Irão durante dias). O regime iraniano passou a modo de sobrevivência.

Nos dias seguintes, Israel passou de uma ofensiva preventiva para uma campanha continuada. Garantindo superioridade aérea táctica e até mesmo a supremacia aérea em vastas zonas do território iraniano, atacou infraestruturas nucleares, industriais e militares com precisão, eliminou engenheiros e operadores críticos e intensificou as operações psicológicas nas redes internas do inimigo. Simultaneamente, os comandos iranianos mergulharam num silêncio inquietante. As centrais nucleares reduziram a atividade, e não houve mobilização popular relevante, apesar da tentativa do regime de alterar a narrativa e convocar o nacionalismo. A 22 de junho, os EUA intervieram com força, aproveitando a supremacia aérea israelita para bombardear Fordow, Natanz e Isfahan com GBU-57.

Resumindo, em duas semanas, a Operação Rising Lion conseguiu arrasar um adversário forte, organizado e agressivo de forma precisa, limpa e com perdas reduzidas. O regime teocrático iraniano pode sobreviver. Todavia, a sua capacidade militar foi consideravelmente danificada. E apesar das instalações nucleares não terem sido completamente destruídas, vai levar tempo até que possam voltar a trabalhar a 100%.

Note-se que, contrariamente ao que o Irão defende desde 1979, Israel não pretende ocupar ou destruir o Irão. Apenas assegurar que os aiatolas não tenham capacidade de exportar a sua visão extremista da religião, principalmente pela violência, subversão e destruição.

6 Nível Internacional

Neste nível é necessário equacionar as acções dos China, Rússia, EUA e da UE.

Devido à sua postura utilitarista, a acção da China não deixa de ser previsível uma vez que a sua principal preocupação são os seus interesses. A China tomará decisões tendo em mente as consequências para as peças que já posicionou em vários tabuleiros.

A expansão da ofensiva Rising Lion com os seus ataques ao campo South Pars — a maior reserva de gás natural do mundo, explorada conjuntamente pelo Irão e Qatar – provocou reacções. A China, que importa quase 30% do seu petróleo bruto do Irão, manifestou “profunda preocupação”, reflectindo a ameaça estratégica que o conflito representa para a segurança energética chinesa.

Esta posição da China levanta outras considerações. O Irão não é apenas um parceiro energético para Pequim; é uma peça-chave na estratégia chinesa para o “Global South” e um corredor fundamental na Belt and Road Initiative (BRI). Uma guerra prolongada ameaça comprometer investimentos chineses em infraestruturas e rotas comerciais que atravessam o Irão em direcção à Ásia Central, ao Cáucaso e à Europa. As declarações do Presidente chinês indicam muito mais do que diplomacia e paz. São um sinal claro de que a China precisa que o regime iraniano se mantenha estável. Não por afinidade ideológica, mas para protecção dos seus interesses petrolíferos, o investimento na BRI e a sua reputação estratégica. E a alta probabilidade de manutenção do actual regime iraniano são sinais que China interpretará como positivos.

Convém não esquecer que a declaração de Xi Jinping não se guiou por princípios morais, mas por interesses estratégicos: proteger fluxos energéticos, evitar instabilidade regional e preservar a margem de manobra da China. A guerra entre Israel e o Irão expõe uma lição que a realpolitik nunca esqueceu: usualmente a estabilidade internacional não é garantida por valores, mas por cálculo frio, dissuasão eficaz e capacidade de adaptação. Para os devidos efeitos, a força continua a ser instrumento central na definição da ordem mundial. Não obstante, há espaço para a diplomacia. Inclusive para a diplomacia que não se cinge ao “sangue e ferro.”

Ao ter desviado a atenção e a diminuição dos apoios à Ucrânia, o reacender do conflito Israel-Hamas foi útil a Putin. Depois da deslocação de Sergey Lavrov a Teerão, delegações do Irão e do Hamas foram recebidas em Moscovo. Não obstante outras circunstâncias, como o aumento do caos internacional, e até pontuais vantagens, o apoio público da Rússia tem como o objectivo principal garantir o fornecimento de armas por causa das necessidades decorrentes da invasão da Ucrânia. Porém, a incapacidade da Rússia em honrar os compromissos com o Irão depois do ataque israelita originou desconfiança entre os dois países.

Os israelitas estão unidos na pressão ao seu Governo pelo resgate dos reféns. Porém, nas sondagens indicam que o Likud não obterá maioria. Isto significa que Netanyahu pode deixar de ser primeiro-ministro. Ora, isto é o expectável em democracia. Mas, e com o Hamas? Quem é que retira o Hamas do poder?

Durante a administração Biden, os EUA mantiveram uma postura diplomática face ao conflito Israel-Irão, tentando reactivar o acordo nuclear e evitar uma escalada militar. Biden apoiou Israel na sua defesa, mas procurou conter acções ofensivas, privilegiando o diálogo multilateral e a coordenação com aliados. Com Trump, a política externa sofreu uma viragem abrupta. A nova administração apoiou a operação Rising Lion de Israel com ataques a três instalações nucleares iranianas – Fordow, Natanz e Isfahan – utilizando bombas de penetração e mísseis Tomahawk.

Por fim, uma palavra sobre a UE. Esta crise só veio reconfirmar a sua irrelevância a nível internacional. A probabilidade da UE vir a ter de fazer escolhas é muito alta. Especialmente, no que concerne à sua natureza e até composição. É evidente que o neo-funcionalismo europeu já não responde aos desafios do mundo actual. Nem interna, nem externamente.

7 Consequências da guerra

Na guerra não é surpreendente acontecerem comportamentos irracionais e emocionais. Portanto, a probabilidade de ambos os lados cometerem atrocidades é alta. Mas eu estou certo de que se do lado de Israel forem encontrados indícios de crimes de guerra, os mesmos serão investigados e sendo confirmados, os responsáveis pagarão pelos seus actos. Do lado do Hamas, não acredito que tal se venha a verificar. O caso de Vittorio Arrigoni, um activista italiano pró-palestina que se mudou para Gaza e que acabou por ser raptado e morto pelo grupo salafista Jahafil Al-Tawhid Wal-Jihad fi Filastin demonstra isso mesmo. Este acto foi condenado por várias facções palestinianas, mas os responsáveis não foram criminalizados.

Este caso permite-nos fazer outra analogia. Os israelitas estão unidos na pressão ao seu Governo pelo resgate dos reféns. Porém, nas sondagens indicam que o Likud não obterá maioria. Isto significa que Netanyahu pode deixar de ser primeiro-ministro. Ora, isto é o expectável em democracia. Mas, e com o Hamas? Quem é que retira o Hamas do poder?

Cada vez estou mais convencido de que não haverá paz na região enquanto estruturas como Hamas existirem por serem organizações que nem sequer respeitam a vida do seu próprio povo. Ismail Haniyeh, Moussa Abu Marzuk, Khaled Mashal entre outros lembram-me os dirigentes comunistas. Lenine, Estaline, Brejnev, Fidel Castro, Pol Pot, Mao, etc., para além de não pagarem impostos, viveram na abundância enquanto os “proletários” eram pobres. Os líderes do Hamas vivem na riqueza, seguros no Qatar, longe do sofrimento dos palestinianos. Neste ponto, tem de ser dito que o Hamas vive duas realidades. Uma em Doha e outra em Gaza e entre ambas não há comunicação. Não é descabido afirmar que o Hamas já não consegue controlar toda a Faixa de Gaza.

Curiosamente, também aqui pode ser feito um paralelismo com o actual dirigente do regime russo. A guerra na Ucrânia acaba assim que Putin o desejar. Se o Hamas libertasse todos os reféns, deixaria Israel sem argumentos para continuar as suas operações em Gaza. Resta saber se os dirigentes do Hamas estão disponíveis para isso?

Com o fim das hostilidades virá o tempo para analisar e apurar as infracções ao jus in bello, assim como aos excessos e exageros cometidos. O que importa agora é a Paz e uma contribuição mútua para a manter e consolidar.

7.1 – Direito à defesa

O direito à defesa de Israel, enquanto Estado soberano, é reconhecido pelo direito internacional, nomeadamente com base no Artigo 51.º da Carta das Nações Unidas. Este artigo consagra o direito inerente à autodefesa individual ou colectiva em caso de ataque armado, até que o Conselho de Segurança tome as medidas necessárias para restaurar a paz e a segurança internacionais. No contexto dos ataques perpetrados pelo Hamas em 7 de Outubro de 2023, que resultaram em mais de 1.200 mortos e na captura de cerca de 250 reféns, Israel invocou esse direito de forma legítima para proteger a sua população e território. No entanto, o exercício desse direito deve respeitar os princípios do direito internacional humanitário, nomeadamente os princípios da proporcionalidade e da distinção, que regulam a conduta durante os conflitos armados.

O Artigo 52.º do Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra de 1949 reforça estas obrigações, ao proteger os bens de carácter civil, estipulando que estes não devem ser alvo de ataques ou represálias. Os ataques devem limitar-se a objectivos militares claramente definidos, cuja destruição represente uma vantagem militar concreta. Em caso de dúvida, presume-se que o bem tem carácter civil. Israel sustenta que as suas operações em Gaza têm como alvo infraestruturas militares do Hamas, tais como túneis, depósitos de armas e centros de comando. Por exemplo, ataques a túneis subterrâneos usados para lançar ofensivas ou armazenar armamento podem ser considerados legítimos, desde que respeitem o princípio da distinção. No entanto, a elevada densidade populacional em Gaza e a utilização deliberada de áreas civis pelo Hamas para fins militares dificultam a aplicação prática deste princípio, resultando num elevado número de vítimas civis e em acusações de violações ao direito internacional.

epaselect epa12281181 Israeli army vehicles maneuver inside the Gaza Strip, as seen from the Israeli side of the border with Gaza, in southern Israel, 03 August 2025.  EPA/ABIR SULTAN

ABIR SULTAN/EPA

Por outro lado, o Hamas desrespeita frequentemente o Artigo 52.º ao lançar foguetes indiscriminadamente contra zonas civis israelitas, como as cidades de Sderot e Telavive, o que configura crime de guerra. Estes ataques não distinguem entre alvos civis e militares, contrariando de forma flagrante os princípios fundamentais do direito humanitário. Acresce que a actuação do Hamas envolve práticas claramente proibidas pela Convenção Internacional contra a Tomada de Reféns, de 1979. O Artigo 1.º dessa convenção define a tomada de reféns como o acto de capturar uma pessoa e ameaçá-la com o intuito de coagir terceiros. A captura de civis israelitas em Outubro de 2023, incluindo mulheres, crianças e idosos, com o objectivo de negociar a sua libertação em troca de prisioneiros palestinianos, constitui uma violação grave desta norma internacional. Nesse contexto, a acção de Israel para libertar os seus cidadãos reféns é legítima, enquadrando-se na obrigação de proteger a sua população, desde que respeite os limites humanitários estabelecidos.

A análise das diferenças fundamentais entre Israel e o Hamas revela contrastes significativos. Israel é um Estado soberano vinculado ao cumprimento das Convenções de Genebra e de outras normas internacionais, enquanto o Hamas, enquanto grupo armado não estatal, embora também sujeito ao direito internacional humanitário, ignora reiteradamente essas regras, recorrendo a tácticas como escudos humanos e ataques indiscriminados. As operações israelitas, apesar das críticas relativamente aos danos colaterais, são geralmente planeadas para atingir alvos militares específicos. Já o Hamas ataca propositadamente civis, comprometendo qualquer alegação de legalidade nas suas acções. Relatórios das Nações Unidas indicam que, em 2023, mais de 70% das vítimas em Gaza eram civis, o que levanta preocupações quanto à proporcionalidade das acções israelitas. No entanto, os ataques do Hamas são, por definição, indiscriminados.

Na prática, Israel realizou diversas operações em 2023 com o objectivo de eliminar líderes militares do Hamas, acções que podem ser consideradas legítimas ao abrigo do Artigo 52.º do Protocolo Adicional I, desde que os danos civis sejam reduzidos ao mínimo. Contudo, incidentes como o bombardeamento do campo de refugiados de Jabalia são susceptíveis de crítica por causa do elevado número de civis mortos. Por sua vez, o Hamas lançou mais de 10.000 foguetes contra território israelita desde Outubro de 2023, visando intencionalmente centros urbanos, em clara violação do direito internacional humanitário. Quanto à recuperação dos reféns, Israel efectuou operações terrestres em Gaza para localizar e libertar os sequestrados. Estas acções são justificáveis como parte do direito à autodefesa, mas, mais uma vez, devem observar os princípios de proporcionalidade e de distinção.

Assim como o deve o Estatuto de Potência Ocupante. Qualquer país que exerça tais competências tem direitos e deveres. É o direito internacional quem o diz. Mas a natureza da ocupação não deixa de estar constrangida à averiguação do direito internacional.

Em suma, o direito à autodefesa de Israel é claramente reconhecido pelo Artigo 51.º da Carta das Nações Unidas. Todavia, a sua aplicação deve obedecer rigorosamente às normas do direito internacional humanitário. A aplicação do Artigo 52.º do Protocolo Adicional I e o respeito pela Convenção contra a Tomada de Reféns evidenciam as diferenças essenciais entre as acções de Israel, que visam alvos militares e procuram justificar-se no quadro jurídico internacional, e as do Hamas, marcadas por flagrantes violações do direito internacional, como os ataques deliberados a civis e o sequestro de reféns. A legalidade do direito de defesa de Israel é, portanto, sustentada por normas internacionais, mas a sua legitimidade depende do respeito contínuo pelos princípios humanitários destinados à protecção dos civis em situações de conflito armado.

7.2 – Efeitos da Guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, independentemente de ter sido uma resposta ao Blitz nazi e aos bombardeamentos de Coventry, Manchester e Londres, é inegável que a campanha estratégica britânica de bombardeamentos que incluiu cidades – Colónia e Dresden – acabou por ser instrumental no âmbito da guerra total contra a Alemanha. Ora, nem todos os alemães eram apoiantes de Hitler. Civis, entre os quais mulheres e crianças, perderam a vida nesses bombardeamentos. Nessa altura, tal como agora, houve críticas às decisões tomadas, especialmente às do Marechal da Força Aérea Real Arthur Travers Harris. Contudo, a estratégia foi mantida. Mesmo tendo os aliados conhecimento de não existirem instalações militares na cidades alemães. Porquê? Porque era imperioso acabar com o regime nazi e com o mal que dele emanava. Infelizmente haverá sempre baixas colaterais na guerra.

Contrariamente ao verificado nos bombardeamentos dos nazis às cidades inglesas e dos aliados às cidades alemães durante a Segunda Guerra Mundial, Israel deu tempo aos palestinianos se deslocaram para longe das áreas onde está a operar, avisando antecipadamente que vai atacar onde o Hamas tem as suas instalações militares. Ironia das ironias, é Israel (e não o Hamas) quem está a proteger os palestinianos que aproveitam os corredores humanitários para se deslocarem para zonas mais seguras. Não posso deixar de salientar um episódio muito recente. Os palestinianos foram brutalmente espancados pelos partidários do Hamas quando tentavam levar alimentos de um camião de ajuda humanitária.

A “arte da guerra” foi evoluindo ao longo do tempo. Apesar das tácticas de guerrilha remontarem à Antiguidade, julga-se que o termo foi utilizado pela primeira vez na Guerra Peninsular (1808-1812). O objectivo da guerrilha é uma guerra de resistência que procura levar um adversário mais forte a combater em condições difíceis e duras onde seja possível empregar contra ele recursos limitados de modo a prolongar o conflito até se atingirem os objectivos. É precisamente isto que o Hamas faz. Tem como objectivo eliminar o Estado de Israel e utiliza todos os meios para o conseguir.

Ao contrário do que aconteceu na Alemanha de Hitler, o Hamas serve-se deliberadamente do povo palestiniano como escudos humanos. Como se explica que assim que chegou ao poder tenha optado por transformar Gaza num base operacional para actividades terroristas em zonas residências e de hospitais? Como se explica que o Hamas tenha optado por uma resistência de guerrilha que apenas potencia a morte de mais palestinianos, incluindo mulheres, crianças e bebés?

7.3 – Fome

Há fome em Gaza. Isso é indiscutível. Não reconhecer o facto tem sido o maior erro de percepção dos israelitas.

O que está a acontecer na Faixa de Gaza é novo? Em todos os cenários de guerra é possível identificar comportamentos análogos. Lembram-se do que aconteceu em países como a Somália, o Sudão do Sul, a República Democrática do Congo e a República Centro-Africana? Neste países, a distribuição de ajuda alimentar não foi profundamente comprometida pela presença de senhores da guerra e grupos armados não estatais? Esse tipo de líderes, que controlam territórios e recursos através da violência, prosperam em contextos de fragilidade institucional, pobreza extrema e tensões étnicas.

Situação semelhante ocorre na Faixa de Gaza, onde a crise humanitária se intensificou drasticamente desde os ataques do Hamas em outubro de 2023 e a subsequente ofensiva militar israelita. Tal como em África, a distribuição de alimentos enfrenta obstáculos graves. A logística da ajuda em Gaza tornou-se complexa, perigosa e objecto de propaganda e de acusações. Ninguém questionou que os senhores da guerra africanos desviavam ajuda humanitária; sobre Gaza, ninguém aceita que o Hamas contribui para a fome e que condiciona a distribuição de alimentos. Israel, por sua vez, controla os acessos ao território e tem sido criticado por impor bloqueios que dificultam a entrada de ajuda. A Fundação Humanitária de Gaza (GHF), criada por Israel e os EUA para substituir a ONU na entrega de alimentos, tem sido alvo de críticas por parte de organizações humanitárias e da própria população palestiniana, que denuncia humilhações e violência nos pontos de distribuição. É verdade que os pontos de distribuição diminuíram, mas não é possível dizer que tudo acontece por responsabilidade de Israel.

O Hamas também saqueia. A Faixa de Gaza é um local sem lei e ordem. E isso não incomoda o Hamas. Desde que fique com a sua parte não se importa que gangues armados façam o mesmo e que a população sofra.

Uma coisa é certa, a crise alimentar na Faixa de Gaza atingiu níveis sem precedentes em 2025, com múltiplos factores, incluindo  disputas sobre responsabilidades, que agravaram a situação. Isso não significa que não haja zonas em Gaza onde se faz comércio de alimentos. Aliás, essa realidade tem sido transmitida pelas reportagens internacionais. Não é difícil chegar à conclusão de como esse comércio é possível. Basta observar as imagens da ajuda alimentar que chega por via aérea. Usualmente, são gangues de criminosos armados que acabam por ficar com os alimentos para depois os venderem no mercado negro.

Várias reportagens internacionais independentes transmitiram que Faixa de Gaza é um local onde o medo é permanente e persistente. Até os trabalhadores humanitários, incluindo membros de clãs locais, afirmam que só com escoltas armadas que disparam tiros à população é possível transportar a comida. Obviamente, não é possível dizer que o Hamas e os gangues armados não fazem o mesmo. E isto significa que só parte da comida será distribuída. Saliente-se, por fim, que a própria ONU, num dos seus mais recentes relatórios, reconheceu que cerca de 85% dos camiões com ajuda alimentar foram saqueados. E não foram por Israel.

Volto a repetir que o Hamas também saqueia. A Faixa de Gaza é um local sem lei e ordem. E isso não incomoda o Hamas. Desde que fique com a sua parte não se importa que gangues armados façam o mesmo e que a população sofra.

Há fome em Gaza. Mas não é possível afirmar que a fome é generalizada. Israel tem responsabilidade? Tem. Pergunto-me é se terá tanta como o Hamas? Mas independentemente das responsabilidades e das circunstâncias, quem está a perder a guerra das percepções é Israel.

7.4 – Reconhecimento do Estado Palestiniano

Para que não haja dúvida, eu apoio a existência do Estado de Israel. Por outras palavras sou sionista. Como penso pela minha cabeça, isso não me impede de criticar Israel quando acho que o devo fazer e fá-lo-ei aqui. E volto a repetir que sou apoiante da solução de dois Estados. Assim, apoio a criação de um Estado palestiniano. Antes de elencar as minhas preocupações, relembro que já houve cinco propostas para a criação dos dois Estados, todas recusadas pelos árabes. E por parte do Hamas não há indicação para o reconhecimento do Estado de Israel. Basta, por exemplo, rever as declarações de Ghazi Hamad.

Quando mencionei Herzl, salientei que de acordo com os cânones internacionais, para ser reconhecido como tal, um Estado necessitava de três elementos; povo, território e organização política. Esta tríade de critérios existe desde o Tratado de Westfália. E estes requisitos foram actualizados e reafirmados na Convenção de Montevideu sobre os Direitos e Deveres dos Estados de 1933.

A visão de uma solução de dois Estados – Israel e Palestina vivendo lado a lado em paz – é um objetivo nobre e necessário. No entanto, a criação de um Estado palestiniano deve estar enraizada em valores democráticos, não num autoritarismo teocrático. Com o Hamas no controlo, o último é, tragicamente, o resultado mais provável.

O Hamas não é um defensor da liberdade palestiniana. É, sim, um executor de repressão, silenciando dissidentes e negando direitos básicos ao seu próprio povo em Gaza. Para o Hamas, os palestinianos não passam de instrumentos que podem ser sacrificados. Uma liderança que prende jornalistas e pune críticos não pode ser confiável para construir um Estado que proteja as liberdades civis. Pior ainda, o Hamas rejeita fundamentalmente o direito de Israel à existência. Opera não como um parceiro político em busca de compromisso, mas como um ator ideologicamente rígido comprometido com a destruição de Israel. Não é possível uma resolução pacífica quando uma das partes recusa reconhecer a legitimidade da outra.

Se um Estado palestiniano for reconhecido nestas condições, a probabilidade de evoluir para uma teocracia dominada pelo extremismo religioso é altíssima. Isto não é especulativo – é a trajetória mais provável, considerando a visão política e o estilo de governação do Hamas. Longe de proporcionar liberdade, tal Estado institucionalizaria a repressão, perpetuaria o conflito e alienaria e condenaria os palestinianos a uma guerra permanente.

Assim, o reconhecimento de um Estado palestiniano deve permanecer condicionado à reforma democrática, à renúncia ao extremismo, ao afastamento do Hamas (e de outras organizações jihadistas) e a uma liderança que priorize a paz em vez da luta perpétua. Até que isso aconteça, a legitimação internacional arrisca fortalecer as mesmas forças que bloqueiam o progresso.

Felizmente, na recente reunião da ONU para a discussão do Estado palestiniano, diversos intervenientes, incluindo o primeiro-ministro palestiniano Mohammad Mustafa, defenderam que o Hamas deve abdicar do controlo da Faixa de Gaza e entregar as suas armas à Autoridade Palestiniana. Esta foi a primeira vez que países árabes condenaram publicamente o Hamas, incluindo os ataques de 7 de outubro de 2023.

A Declaração de Nova Iorque, assinada por países como França, Reino Unido, Arábia Saudita, outros membros da Liga Árabe e da União Europeia, reforçou esse apelo. O documento propõe um plano faseado que inclui:

  • O desarmamento do Hamas;
  • A exclusão do grupo da governação palestiniana;
  • A transferência da administração de Gaza para a Autoridade Palestiniana, com apoio internacional;

A recusa de Israel em aceitar este cenário é compreensível. A paz não pode ser construída sobre alicerces de intolerância e dogma. Exige uma liderança comprometida com a coexistência, o pluralismo e a verdadeira liberdade do seu povo.

Mas também tenho preocupações relativamente a Israel. Há o perigo de Israel se tornar numa teocracia. E o reconhecimento do Estado da Palestina pode ser o rastilho. Mencionei várias vezes ao longo do texto que não se pode descurar os vectores político e religioso quando se analisa este conflito. Há extremismo político e religioso em Israel e em Gaza.

Volto a lembrar que quem construiu o Estado foram, principalmente, as lideranças trabalhistas de esquerda de David Ben-Gurion, Levi Eshkol, Golda Meir, Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Ehud Barak. Ora, nos últimos vinte anos, o extremismo político e religioso ganhou preponderância no Knesset. E tem poder significativo no executivo de Netanyahu. Os ministros Ben-Gvir e Smotrich incentivam esse radicalismo através de posições e de acções políticas, indicando a possibilidade de Israel não reconhecer o Estado Palestiniano. Por estas razões, convém dedicar-lhes algumas linhas.

Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, baseados numa ideologia religiosa e nacionalista, defendem uma visão expansionista das fronteiras de Israel. Esta visão assenta no conceito bíblico de Eretz Yisrael (a Terra de Israel) que rejeita as fronteiras internacionalmente reconhecidas, incluindo a proposta de criação de um Estado palestiniano.

Ambos, particularmente Ben-Gvir, identificam-se com o sionismo religioso e com a ideologia kahanista, que apela à soberania judaica exclusiva sobre todos os territórios descritos nas escrituras bíblicas, como em Génesis 15:18, onde se refere uma terra que se estende “desde o rio do Egipto até ao grande rio, o Eufrates”, por outras palavras, do Nilo à Mesopotâmia. Ora, como esta leitura implica uma reivindicação de territórios que ultrapassam largamente as fronteiras do atual Estado de Israel, abrangendo a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, partes da Jordânia, do Líbano, da Síria e até do Egipto, no mundo contemporâneo isso é uma impossibilidade. Ben-Gvir tem declarado publicamente que Israel não deve ceder nenhuma porção de terra, defendendo inclusivamente a reocupação da Faixa de Gaza e o restabelecimento de colonatos judaicos na região.

Khames Alrefi/Anadolu via Getty Images

A oposição à solução de dois Estados é outro pilar das suas convicções políticas. Ambos rejeitam as fronteiras pré-1967, conhecidas como Linha Verde, que têm servido como base em negociações de paz. Ambos consideram que qualquer tentativa de criação de um Estado palestiniano representa uma ameaça à soberania judaica sobre a totalidade da terra. Em maio de 2024, durante uma visita ao Monte do Templo, Ben-Gvir reafirmou que não permitirá qualquer concessão que envolva a declaração de um Estado palestiniano, insistindo que o local pertence exclusivamente a Israel. Smotrich, por sua parte, defende abertamente a anexação de grandes partes da Cisjordânia, promovendo a expansão dos colonatos e referindo-se à Faixa de Gaza como parte inseparável de Israel.

No que respeita ao exercício de funções governamentais, Smotrich, apesar de ser ministro das Finanças, detém poderes ministeriais em matérias de defesa sobre a Cisjordânia, e tem impulsionado medidas que favorecem os colonos judeus e consolidam o controlo israelita sobre o território, que chama de Judeia e Samaria. Ben-Gvir, por sua vez, enquanto ministro da Segurança Nacional, tem priorizado os direitos e a liberdade de movimento dos colonos israelitas em detrimento dos palestinianos, refletindo uma política de supremacia judaica na região.

Relativamente à Faixa de Gaza, ambos os líderes rejeitam a retirada unilateral realizada por Israel em 2005. Defendem o reassentamento judaico e, em momentos como o atual conflito em Gaza, Ben-Gvir considera que existe uma oportunidade para incentivar a migração dos residentes palestinianos, enquanto Smotrich defende a reocupação plena da zona.

Ideologicamente, Ben-Gvir lidera o partido Otzma Yehudit e é um seguidor declarado do rabino Meir Kahane, cujo pensamento kahanista propõe a expulsão dos palestinianos e a criação de um Estado exclusivamente judaico em Eretz Yisrael. Já Smotrich, à frente do Partido do Sionismo Religioso, partilha princípios semelhantes, embora adopte uma abordagem mais institucional e menos provocadora, centrando-se na anexação territorial e no fortalecimento dos colonatos. Ambos rejeitam acordos históricos como os de Oslo e qualquer proposta das Nações Unidas que envolva partilha ou concessão de territórios a um futuro Estado palestiniano.

Resumindo, Ben-Gvir e Smotrich advogam uma visão maximalista de Israel que inclui a Cisjordânia, Gaza e outros territórios fora das fronteiras internacionalmente reconhecidas. Rejeitam a criação de um Estado palestiniano e incentivam políticas de colonização e controlo territorial inspiradas por uma leitura religiosa e nacionalista que os coloca em rota de colisão com a comunidade internacional e os esforços de paz na região.

Estas posições reforçam as minhas preocupações. A criação do Estado palestiniano provocará acesas discussões em Israel cujas repercussões podem não ser completamente antecipadas. Para além disso, o reconhecimento do Estado Palestiniano colocará Israel numa posição difícil no que ao direito internacional diz respeito. Quando membros do Governo israelita defendem a anexação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza estão a reconhecer que os territórios não lhes pertencem.

Chegados a este ponto devemos considerar um paradoxo. Podemos não estar perante uma inversão, mas antes defronte um reforço de intransigência onde nenhuma das duas partes está disponível para reconhecer o Estado da outra.

8 Observações finais

A solução para resolver o problema do conflito entre árabes e judeus foi rapidamente encontrada. Data de 1936, e deve-se à Comissão Peel. Infelizmente, a intransigência dos árabes não possibilitou a sua concretização. Hajj Amin al-Husseini, Líder do Alto Comité Árabe, teve a chave na mão em 1947, com a ONU, e recusou-a.

Com o passar do tempo, enquanto os países árabes se foram aproximando de Israel, com a excepção do regime teocrático criado no Irão em 1979, e normalizando relações diplomáticas, os diversos representantes dos palestinianos continuaram a recusar a solução de dois Estados. No lado de Israel, vários governos mantiveram a defesa dessa solução.

Se Israel regredir para uma teocracia, que distinção haverá entre o Irão e Israel? Seja como for, como há demasiada desconfiança de parte a parte, creio que o reconhecimento do Estado da Palestina não vá ser pacífico. Nem pela Palestina, nem por Israel.

A partir da primeira década do século XXI, as circunstâncias começaram a alterar-se. A vitória do Hamas em Gaza, também fruto da incapacidade da Fatah em resolver o problema, sinalizou uma mudança para o radicalismo, ficando evidente que a solução de dois Estados dificilmente se concretizaria com o Hamas no poder. Este acontecimento teve reverberações em Israel. Gradualmente, a direita ortodoxa e extremista começou a ganhar preponderância política, ocupando actualmente uma posição determinante no Governo de Israel.

É possível encontrar paralelismo entre as ideias defendidas por Ben-Gvir e Smotrich e as ideias expostas na Carta constitutiva do Hamas. Ambas expressam extremismo, exclusivismo étnico-religioso e o uso da política para marginalizar o “outro”, potencializando a desumanização e a violência. Há, contudo, uma diferença fundamental que deve ser referida. Apesar de rejeitarem a convivência entre povos no mesmo território, Ben-Gvir e Smotrich não propõem oficialmente a destruição do povo palestiniano, nem o extermínio étnico.

De uma certa maneira, a alteração das circunstâncias foram paradoxais. Fartos da governação do Hamas, os palestinianos estão agora disponíveis para aceitar as fronteiras de 1967; Em Israel, estas palavras de Yitzhak Rabin  estão praticamente esquecidas: “I suppose one does not make peace with one’s friends,” Oxalá esteja enganado. Mas parece-me que há pouca vontade de recuperar as ideias Yitzhak Rabin, Shimon Peres, Ehud Barak e Ehud Olmert. Esse tempo já passou.

Se Israel regredir para uma teocracia, que distinção haverá entre o Irão e Israel? Seja como for, como há demasiada desconfiança de parte a parte, creio que o reconhecimento do Estado da Palestina não vá ser pacífico. Nem pela Palestina, nem por Israel.

Por fim, não tenho qualquer dúvida de que o reconhecimento para um Estado de Palestina não acontecerá sem negociações para um novo entendimento sobre território e fronteiras.

Bibliografia

Livros

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“Anwar El Sadat: In Search of Identity an Autobiography” por Anwar Sadat, 1978, Harper & Row.
“A Peace to End All Peace: The Fall of the Ottoman Empire and the Creation of the Modern Middle East” por David Fromkin, 1989, Henry Holt and Company.
“A History of the Jews” por Paul Johnson, 1998, Harper Perennial.
“Theodor Herzl: Visionary of the Jewish State” por Robert S. Wistrich, 1999, Magnes Press.
“Image and Reality of the Israel-Palestine Conflict” por Norman Finkelstein, 2003, Verso.
“A History of Love and Darkness” por Amos Oz, 2004, Harcourt.
“Herzl’s Vision – Theodor Herzl and the Foundation of the Jewish State” por Shlomo Avineri, 2008, BlueBridge.
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“The Balfour Declaration: The Origins of the Arab-Israeli Conflict” por Jonathan Schneer, 2010, Random House.
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“Yitzhak Rabin: Soldier, Leader, Statesman (Jewish Lives)” by Itamar Rabinovich, 2017, Yale University Press.
“Palestine: A Biography” por Rashid Khalidi, 2020, Princeton University Press.
“The Story of Israel: From Theodor Herzl to the Dream for Peace” por Martin Gilbert, 2020, Headline Publishing Group.
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“The Making of the Modern Middle East: A Personal History” por Jeremy Bowen, 2022, Picador.

Artigos académicos

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“The Jewish Diaspora and the Idea of Return” – Gabriel Piterberg, Journal of Jewish Studies, Vol. 61, N.º 2, 2010
“Hamas and the Logic of Violence” – Wendy Pearlman, Studies in Conflict & Terrorism, Vol. 35, N.º 7-8, 2012
“The Palestinian Rejection of the 1936 Peel Commission Plan” – Efraim Karsh, Middle Eastern Studies, Vol. 49, N.º 6, 2013
“The Trump Administration Policy Recommendations for Israel” – Eldad Shavit, The Institute for National Security Studies, Policy Paper, January 26, 2025
“Don’t Ship Weapons to Troubled Hot Spots” – Llewellyn H. Rockwell Jr., Mises Wire, July, 29, 2025
“US Policy in the Middle East: Second Quarter 2025 Report Card (A Quarterly Assessment of the Trump Administration’s Regional Foreign Policy)” – Brian Katulis, Middle East Institute, July 31, 2025

Artigos

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“Smotrich tears up during speech on the sacrifices of the religious Zionist community during the war” – The Jerusalem Post, Publication Date: October 28, 2024
“Senior Hamas Official Ghazi Hamad: We Never Said That We Accept The Two-State Solution; Nobody Expected Such A Barbaric Reaction From Israel; We Had No Alternative To October 7” – Menri TV, Publication Date: November 20, 2024
“Ben-Gvir boasts of blocking Gaza hostage deal ‘time and time again’” – The Jerusalem Post, Publication Date: January 14, 2025
“Smotrich says he supports Saudi normalization, but not if it means ending war” – Times of Israel, Publication Date: February 3, 2025
“Hamas’s Attack on Aid Convoy Kills Five Palestinian Workers” – Times of Israel, Publication Date: April 30, 2025
“Smotrich says Gaza to be ‘totally destroyed,’ population ‘concentrated’ in small area” – Times of Israel, Publication Date: May 6, 2025
“Ben Gvir calls to ‘encourage emigration,’ resettle Gaza at ultra-nationalist rally” – Times of Israel, Publication Date: May 14, 2025
“The Two Extremists Driving Israel’s Policy” – The Atlantic, Publication Date: May 30, 2025
“Netanyahu falls short of forming gov’t in latest voting projections / survey” – The Jerusalem Post, Publication Date: June 6, 2025
“Ungentlemanly Robots: Israel’s Operation Rising Lion and the New Way of War” – Center for Strategic & International Studies, Publication Date: June 13, 2025
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“Israel’s Strikes on Hamas Targets in Gaza Kill 20, Including Civilians” – The Jerusalem Post, Publication Date: July 23, 2025
“Gaza’s Food Crisis Is Worsening: What to Know” – Council on Foreign Relations, Publication Date: July 27, 2025
“Narrow majority of Israelis oppose annexation of Gaza territory” – Times of Israel poll, Publication Date: July 31, 2025
“Hamas Wants Gaza to Starve” – The Atlantic, Publication Date: July 31, 2025
“New poll shows Bennett-led opposition could oust coalition” – The Jerusalem Post, Publication Date: August 2, 2025
“Senior Hamas Official Ghazi Hamad: October 7 Led to International Recognition of a Palestinian State and Proved Defeating Israel Is Not That Difficult; We Will Never Surrender Our Weapons – Israel Can Dream We Will” – Menri TV, Publication Date: August 2, 2025

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