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Podem as células estaminais ajudar Michael Schumacher? /premium

Há anos que pouco se sabia sobre a saúde do piloto. Agora estará a fazer um tratamento com células estaminais. A investigação na área tem sido promissora, mas está longe de dar garantias.

No dia 8 de setembro de 1996, Michael Schumacher venceu o Grande Prémio de Monza (Itália) de Fórmula 1 e conquistou, pela primeira vez, um título ao volante da Ferrari. É isso que lembra a mais recente publicação nas redes sociais do piloto, feita no fim-de-semana passado. No dia seguinte, o jornal Le Parisien revelava que Schumacher estaria em Paris para fazer um tratamento com células estaminais. A família, tal como noutras situações, não fez qualquer comentário sobre o assunto. Para desespero dos fãs, há quase seis anos que as informações sobre o estado de saúde do piloto alemão são praticamente inexistentes.

Michael Schumacher, considerado um dos maiores campeões de todos os tempos, teve o pior acidente da sua vida em dezembro de 2013, mas não nas pistas de F1. Aconteceu fora da pista da estância de esqui de Meribel, nos Alpes Suíços, onde se encontrava com a família. A esquiar, com um dos filhos, para lá da área delimitada, bateu com um esqui numa pedra e com a cabeça noutra. O impacto foi tão forte que lhe partiu o capacete e o traumatismo craniano grave deixou-o em coma durante seis meses. Há cinco anos, no dia 9 de setembro de 2014, foi transferido para casa, na Suíça, onde continuou sob vigilância e cuidados médicos.

Corinna Schumacher, mulher do piloto, têm-se esforçado por manter a recuperação do marido longe da comunicação social — AFP/Getty Images

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Desde então que as informações sobre o seu estado de saúde são muito escassas e só ocasionalmente alimentadas por rumores que acabam por ser desmentidos pela família ou pela agente. A última informação oficial sobre a saúde daquele que foi sete vezes campeão do mundo é de janeiro, quando fez 50 anos, e revelava muito pouco: “Podem ter certeza de que ele está em boas mãos e que estamos a fazer tudo o que é humanamente possível para o ajudar”. Mas havia sinais de que estava consciente e a dar sinais de melhoria, porque quer Jean Todt, antigo CEO da Ferrari, quer Bernie Ecclestone, antigo CEO do Formula One Group, disseram em várias ocasiões em que o visitaram que viam, e comentavam, corridas na sua companhia.

Agora, o jornal francês Le Parisien noticiou que estaria a fazer um tratamento com células estaminais no serviço de cirurgia cardiovascular do Hospital Europeu Georges Pompidou, mas nenhuma fonte oficial confirma ou dá informações adicionais sobre o assunto. Certo é que, a confirmar-se o tratamento com células estaminais, este só poderá ser experimental. Há muitos anos que as células estaminais têm sido testadas na regeneração de lesões nos órgãos. Os resultados nos ensaios clínicos têm sido apresentados como “promissores”, mas, ao mesmo tempo, uma promessa que não consegue ser robusta o suficiente para chegar à prática clínica — e também não se espera que isso aconteça num futuro próximo. Mesmo assim, pode ter sido uma opção para a família do piloto. A dúvida está nas vantagens que lhe poderá trazer.

“Podem ter certeza de que ele está em boas mãos e que estamos a fazer tudo o que é humanamente possível para o ajudar.”
Família Schumacher no Instagram

O que se sabe sobre o tratamento a Michael Schumacher?

O ex-piloto da Ferrari terá dado entrada no Hospital Europeu Georges Pompidou esta segunda-feira, acompanhado por um dispositivo de segurança de cerca de 10 pessoas, segundo o jornal Le Parisien. O destino seria o serviço de cirurgia cardiovascular, onde seria acompanhado por Philippe Menasché, pioneiro no tratamento da insuficiência cardíaca com células estaminais.

O tratamento terá sido feito na terça-feira de manhã: uma infusão (injeção) de células estaminais, que se deveriam espalhar por todo o corpo através da corrente sanguínea. O objetivo seria obter uma resposta anti-inflamatória generalizada.

Nem a agente nem o médico responderam às perguntas do Observador (ou de outros jornais) sobre se Michael Schumacher estaria de facto no hospital ou a que tratamento estaria a ser submetido. O hospital, contactado pela AFP, também recusou confirmar ou desmentir a informação avançada pelo jornal francês, alegando leis de privacidade.

Que experiências tem desenvolvido o médico Philippe Menasché?

Philippe Menasché é cirurgião cardíaco no Hospital Europeu Georges Pompidou, professor de Cirurgia Torácica e Cardíaca na Universidade Paris Descartes e líder de uma equipa que investiga a aplicação de terapia celular em doenças cardiovasculares, no Instituto Nacional de Saúde e Investigação Médica. Há mais de 20 anos que o principal interesse do médico de 69 anos tem sido o uso de células estaminais no tratamento da insuficiência cardíaca.

A investigação liderada por Philippe Menasché começou por se focar no transplante de células musculares esqueléticas (aquelas que nos fazem andar ou mexer os braços) — com o primeiro transplante feito no ano 2000 —, mas depois passou a usar outro tipo de células, mais próximas das células do músculo do coração. Em laboratório, conseguiu que as células estaminais embrionárias começassem a transformar-se em células cardíacas, mas não totalmente. O processo tem várias etapas e as células usadas nas experiência não estariam completamente especializadas, mas apenas numa fase intermédia.

Em 2014, o médico francês fez um transplante deste tipo de células (ainda em fase de especialização), ligadas a uma espécie de penso com cola biológica que foi colocado no coração de uma mulher que já não conseguia bombear o sangue corretamente (insuficiência cardíaca) depois de um ataque cardíaco. “Ainda que qualquer conclusão relacionada com a eficácia [do tratamento] não faça sentido, o resultado funcional [melhoria da função do coração] do doente fornece uma pista encorajadora”, concluíram os autores do artigo publicado sobre o assunto na revista científica European Heart Journal. Ou seja, o tratamento mostrou-se seguro, deu esperança, mas nada pode garantir sobre se terão sido as células estaminais a pôr o coração a trabalhar melhor novamente.

No final de um ensaio clínico com seis pessoas, os autores mantiveram que o tratamento era seguro a curto e médio prazo e deixaram aberta a possibilidade de um outro ensaio clínico para testar a eficácia, conforme as conclusões do artigo publicado na revista científica Journal of the American College of Cardiology, em 2018. De notar, no entanto, que os seis doentes também foram sujeitos a um bypass coronário, ou seja, uma cirurgia que cria uma via alternativa para a circulação do sangue e transporte do oxigénio para o músculo coronário — que resulta numa melhoria da função do coração.

“Seria muito presunçoso dizer que há um benefício para os doentes, neste ponto, quando não temos a certeza que as células estão mesmo a fazer aquilo que esperamos que elas façam.”
Philippe Menasché, cirurgião cardíaco no Hospital Europeu Georges Pompidou

O grupo de investigação de Menasché está, agora, focado em algo ainda mais específico: o secretoma, as moléculas que são produzidas por estas células cardíacas derivadas das células estaminais (as tais que ainda estão em processo de diferenciação). A investigação tem demonstrado o papel importante que estas moléculas podem ter, mesmo quando as células estaminais não conseguem, por si, substituir as células danificadas. Caso se mostre eficaz (e seguro), o uso das moléculas pode ser mais simples do que o das células como um todo. O trabalho da equipa de Menasché, contudo, têm-se focado exclusivamente em modelos animais.

“Seria muito presunçoso dizer que há um benefício para os doentes, neste ponto, quando não temos a certeza que as células estão mesmo a fazer aquilo que esperamos que elas façam”, disse Philippe Menasché, numa entrevista à revista European Heart Journal, em 2017. Mas também destacou que qualquer conhecimento obtido nos laboratórios que seja transferido para a prática clínica abre portas importantes. “Vejo que, com as células estaminais embrionárias, muitas pessoas sentem-se encorajadas em seguir nesta direção, [porque] sentem-se tranquilizadas com o facto de parecer seguro, ainda que não saibamos até que ponto é eficaz.”

Qual a relação entre traumatismo craniano e problemas cardíacos?

Apesar de se referir ao serviço de cirurgia cardiovascular do hospital parisiense, o jornal Le Parisien não explicava qual o objetivo específico do tratamento com células estaminais: se era para uma lesão no coração — como se pode supor à partida —, se está relacionado com as lesões decorrentes do traumatismo craniano que sofreu em 2013 ou se é por qualquer outro problema.

De forma geral, sabe-se que as complicações cardiovasculares são comuns depois das lesões cerebrais e estão associadas a um aumento da mortalidade, referiram os autores do artigo publicado na revista científica Continuing Education in Anaesthesia Critical Care & Pain. A probabilidade de a inflamação causada pela lesão cerebral afetar o músculo do coração é tanto maior quanto maior a gravidade da lesão neurológica. Esta inflamação no cérebro e as moléculas que se produzem por causa disso levam à constrição dos vasos sanguíneos em todo o corpo, o que no coração pode provocar a incapacidade de bombear o sangue corretamente.

O Museu Ferrari inaugurou uma exposição sobre Michael Schumacher no início do ano, quando o piloto completou 50 anos — Museu Ferrari

As células estaminais têm conseguido regenerar tecido cardíaco?

Quando as artérias que levam o sangue ao coração ficam bloqueadas e não conseguem levar o oxigénio e nutrientes necessários ao funcionamento das células do músculo cardíaco, pode dar-se um enfarte agudo do miocárdio (ataque cardíaco), que leva à morte desse tecido. Nesse caso, as células cardíacas, que têm pouca capacidade de regeneração, acabam por cicatrizar. É uma forma eficaz de proteger o órgão, mas, ao mesmo tempo, a cicatriz é incapaz de cumprir a função do músculo que existia inicialmente, ou seja, contrair-se e bombear o sangue — o que leva à insuficiência cardíaca.

O interesse em utilizar células estaminais para tratar lesões no coração era conseguir que estas células reparassem, substituíssem ou regenerassem as células danificadas. No entanto, 15 anos de investigação neste sentido deram poucos frutos, diz ao Observador José Belo, no Centro de Estudos de Doenças Crónicas (Cedoc) da Universidade Nova de Lisboa, que trabalha nesta área. “Depois de uma década de pesquisa, mais investigação é ainda precisa para determinar se a terapia regenerativa com células estaminais é clinicamente eficaz e se pode ser implementada rotineiramente na prática clínica”, afirmavam os autores de um trabalho de revisão, em 2014, publicado na revista JAMA Cardiology. Como agravante, alguns estudos com resultados promissores e que foram publicados em revistas conceituadas acabaram por ser desacreditados e considerados fraudulentos.

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A Crioestaminal teve um projeto em que investigou a utilização de células estaminais embrionárias no tratamento de enfarte agudo do miocárdio em ratos de laboratório. Os bons resultados obtidos são “conhecimentos que dão suporte às metodologias aplicadas em humanos”, diz Carla Cardoso, diretora do departamento de investigação e desenvolvimento da Crioestaminal. A técnica de introdução das células estaminais diretamente no músculo cardíaco foi alvo de um pedido de patente em 2014, noticiou o Jornal de Notícias.

Em investigação, seja com modelos animais ou em ensaios clínicos, estão vários tipos de células estaminais, desde as que têm origem embrionária às que foram manipuladas em laboratório (e que começaram a ser diferenciadas, como as de Menasché). As células estaminais embrionárias, que são capazes de se transformar em qualquer tipo de células do corpo de um adulto, são “muito difíceis de controlar”, diz José Belo, o que explica o interesse nas células que já se estão a começar a especializar num tipo específico — neste caso, os percursores das células cardíacas —, com um comportamento mais fácil de prever. Ainda assim, o investigador lembra que não estamos em condições de dizer que basta colocar as células estaminais e que elas vão regenerar o tecido cardíaco.

A regeneração cardíaca é possível, mas as técnicas atuais com células estaminais ainda não permitem fazê-lo, segundo José Belo, investigador no Cedoc

Em estudo está também a forma de introduzir as células no organismos: diretamente no coração, como fez Menasché no ensaio clínico publicado em 2018, ou com uma injeção na corrente sanguínea, esperando que as células encontrem o seu caminho até ao local onde são necessárias. “Há várias vias que estão a ser testadas e ainda não sabe qual é que é a melhor”, diz Carla Cardoso, diretora do departamento de investigação e desenvolvimento da Crioestaminal.

Secretoma: as proteínas produzidas pelas células estaminais

José Belo confirma que — tal como tem sido a aposta de Philippe Menasché — a regeneração das células do coração pode estar mais relacionada com as moléculas que as células estaminais produzem (secretoma), e que criam um ambiente rico em proteínas em torno da lesão, do que com a transformação das células estaminais em células musculares. Ainda assim, o investigador reforça que ainda está tudo no campo da investigação.

“Não é dizer que as células estaminais não vão funcionar nunca, há vários relatórios promissores, mas, até podermos dizer que é possível regenerar tecido cardíaco em seres humanos com infusão de células estaminais, ou algo semelhante, ainda estamos um pouco longe”, diz o investigador. Carla Cardoso confirma que “há vários ensaios clínicos em curso, alguns com ensaios já publicados e com alguns resultados bastante promissores”, mas também não está em condições de dizer se daqui a cinco ou 10 anos já vai ser um tratamento comum.

Carla Cardoso, da Crioestaminal, não consegue dizer se daqui a cinco ou 10 anos o tratamento do enfarte do miocárdio com células estaminais estará na prática clínica

“Apesar dos avanços na otimização das estratégias no que diz respeito à origem das células [estaminais] e ao método de entrega, os resultados clínicos da terapia celular permanecem insatisfatórios”, escreveu o Grupo de Trabalho sobre a Biologia Celular do Coração, da Sociedade Europeia de Cardiologia, num parecer sobre estas técnicas.

Como é que as células sabem para onde ir?

O nosso organismo tem, naturalmente, células estaminais em circulação que, quando há uma lesão em qualquer órgão ou tecido, são atraídas ao local e começam o processo de reparação, explica Carla Cardoso. A investigadora diz, no entanto, que, quando já houve cicatrização da lesão, é mais difícil que as células consigam identificar o local para onde têm de ir, mesmo que se tenha aumentado artificialmente a sua quantidade na circulação sanguínea.

As células estaminais têm também a capacidade de diminuir a inflamação causada pela lesão, sendo esse um dos motivos do interesse crescente em usar células estaminais para tratar vários tipos de doenças.

Por outro lado, quando as células estaminais são transplantadas diretamente no local onde são necessárias, o maior problema não é que não saibam para onde se dirigir, mas que se escapem do local. Daí que Menasché tenha usado uma espécie de penso, na experiência de 2014, para que as células introduzidas não se soltassem do coração com os batimentos cardíacos.

As células estaminais podem ser usadas para tratar lesões cerebrais?

A investigação do uso de terapias celulares para o tratamento de lesões cerebrais, como traumatismos cranianos e acidentes vascular cerebrais, já tem cerca de duas décadas e até ensaios clínicos avançados, mas, à semelhança do que acontece com as lesões do coração, nem por isso tem resultados mais robustos. “Os ensaios clínicos para o traumatismo craniano não produziram uma nova terapia de neuroproteção ou neurorreparação, apesar das múltiplas tentativas”, afirmaram os autores de um artigo publicado este ano na revista Transfusion.

Para os cirurgiões do Centro de Ciências da Saúde, da Universidade do Texas, as falhas dos ensaios clínicos do passado continuam a verificar-se hoje em dia, como dados em modelos animais que depois não conseguem ser replicados em humanos e uma grande diversidade nas lesões, o que dificulta a seleção dos doentes para participarem nesses ensaios.

Estes resultados não invalidam, no entanto, a importância de se continuarem a fazer estudos sobre traumatismos cranianos, visto que estas lesões podem manter uma inflamação no cérebro — e danos crescentes — durante meses, anos ou décadas. Uma inflamação que as células estaminais podem ter a capacidade de reverter.

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