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Esta quarta-feira, ouvimos Vladimir Putin e Xi Jinping a discutir os avanços da biotecnologia e as possibilidades de se vir a prolongar a idade média de vida até aos 150 anos — e chegaram a levantar as hipóteses de virmos a atingir a imortalidade num futuro próximo. Joana Neves, investigadora portuguesa no Gulbenkian Institute of Molecular Medicine (GIMM) dedica-se a este tema. Num laboratório co-dirigido com o investigador Pedro Sousa-Victor em Lisboa, é com vista para o Hospital Santa Maria que têm vindo a fazer avanços significativos numa possível terapia celular que pode vir a revolucionar a qualidade de vida em idades mais avançadas. Em 2019, quando começou o projeto, foi a grande vencedora do Sartorius & Science Prize for Regenerative Medicine & Cell Therapy, pelo grande potencial da sua descoberta relacionada com a proteína MANF — que poderá ser a chave para a prevenção de doenças crónicas que surgem com o avançar da idade.
Em entrevista ao Observador, a especialista não nega a possibilidade de se vir a atingir o feito da imortalidade, mas esclarece que não é esse o foco do seu estudo. Com o apoio de uma equipa com cerca de uma dezena de elementos, Joana Neves coordena, desde 2019, o laboratório que estuda o envelhecimento e a regeneração de tecidos, numa perspetiva que é abordada única e exclusivamente no terceiro piso do edifico partilhado com a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
“O nosso objetivo é utilizar os princípios da medicina regenerativa como uma forma de combater os problemas de envelhecimento”, explica a investigadora que passou a grande maioria da sua carreira científica nos Estados Unidos da América, no Buck Institute for Research on Aging, depois de ter concluído o seu doutoramento em Biologia do Desenvolvimento em Barcelona. Referindo que o poder regenerativo vai desvanecendo com o passar dos anos, Joana Neves, Pedro Sousa-Victor e a restante equipa olham para as origens da perda desta capacidade para poderem, algures nas próximas décadas, intervir e usar efetivamente novas técnicas para potenciar a regeneração dos órgãos.
Joana Neves, em conjunto com “os melhores cientistas que trabalham no envelhecimento”, estiveram reunidos no Pavilhão Portugal, em Lisboa, entre os dias 4 e 6 de setembro para o GIMM Fest, um evento unicamente dedicado à longevidade.
“Quando pensamos na investigação do envelhecimento, mais do que pensar em estender o tempo de vida, estamos a pensar em estender a qualidade de vida”
Quando se pensa em técnicas para combater o envelhecimento, há quem associe a imagem de Bryan Johnson, o empresário norte-americano que quer “contrariar a morte”. É disto que se trata a vossa investigação?
O campo de envelhecimento em si, e a forma como o percebemos, é muito diverso. É uma das razões que o torna num dos campos de investigação mais atrativos, porque tanto o envelhecimento como causa de doenças e o envelhecimento como perda de função dos nossos corpos têm um papel tão importante nas nossas vidas. Existem pessoas, como nós, que tentam abordar o envelhecimento de um ponto de vista terapêutico. Pensar não só como é que acontece, mas como é que o podemos combater. Mas existem também pessoas que tentam perceber, de um ponto de vista quase teórico, porque é que nós envelhecemos — aquilo que nós chamamos as teorias do envelhecimento — e o que é que falha nas nossas células para que elas percam a função de pensar? Nós pensamos: as células falham, então, se nós substituirmos as células, conseguimos resolver o problema.
Mas o vosso objetivo é conseguir reunir as ferramentas para alcançarmos a imortalidade?
Existem implicações que podem ser debatidas do ponto de vista socioeconómico, se queremos ou não [imortalidade], mas não é o nosso papel fazer isso. Na verdade, quando pensamos na investigação do envelhecimento, mais do que pensar em estender o tempo de vida, estamos a pensar em estender a qualidade de vida que a ciência nos deu no último século. A capacidade de combater a maioria das doenças infecciosas — que eram a maior causa de mortalidade global— fez com que a nossa esperança de vida aumentasse muitíssimo. Mas o que é que isso fez? Fez com que problemas que naturalmente acontecem pelo processo de envelhecimento das nossas células agora se comecem a manifestar. É por isso que hoje as doenças crónicas são uma das maiores causas não só de mortalidade, mas também de perda de qualidade de vida. Ou seja, as pessoas vivem mais, mas passam mais anos em doença. O grande objetivo da ciência de investigação em envelhecimento é compreender como é que nós conseguimos combater o processo de tal modo que, mesmo vivendo mais, este período de longevidade é passado com saúde.
E os resultados da vossa investigação devem ser aplicados apenas em pessoas idosas ou de idades mais avançadas?
Existem dois tipos de estratégias. Uma é reverter o envelhecimento, ou seja, é pensarmos que existem alterações que acontecem nas nossas células e nós podemos fazê-las andar para trás. Mas há outras abordagens e de intervenções que são do tipo preventivo. Isto é, se nós alterarmos certas condições no nosso estilo de vida ou tivermos um determinado número de intervenções a partir da meia idade, podemos também atrasar este processo de envelhecimento e fazer com que aquilo que normalmente acontece numa determinada escala de tempo, seja prolongado. E com ambas as abordagens conseguimos aumentar este período em que estamos a ter saudabilidade dentro do aumento da longevidade que temos.
Então não é só administrarem uma certa proteína ou fármaco e as pessoas envelhecem mais lentamente, certo? É preciso uma conjugação de fatores que envolve alterações do estilo de vida das pessoas…
Nós descobrimos um fator [a proteína MANF] que controla a capacidade do nosso sistema imunitário de responder a um dano do tecido e provocar a regeneração e, assim, tem um papel muito importante em tornar o processo regenerativo bem sucedido. O que nós descobrimos é que, quando envelhecemos, a capacidade do nosso corpo de produzir esta molécula quando tem um dano diminui muito. Mas o que também descobrimos é que se nós pegarmos nesta molécula e voltarmos a reintroduzi-la num contexto de dano e de regeneração, conseguimos recuperar a capacidade regenerativa dessa área. Nós fizemos este estudo num contexto de prova de princípio no músculo, que é o órgão que nós estudamos como modelo e que tem uma elevada capacidade regenerativa. Por exemplo, se um jovem tiver um acidente e tiver um dano muscular, ao final de duas semanas, tudo regenerou e não se lembra do que aconteceu. Mas se uma pessoa idosa passar pelo mesmo processo, por causa desta perda de capacidade regenerativa, já não é capaz de recuperar a função desta mesma forma. Acho que se consegue entender que isso tem um grande impacto na qualidade de vida das pessoas. O nosso objetivo é chegar a um cocktail em que conseguimos encontrar os pontos chave de intervenção e que, na nossa visão, podem ser estes nódulos de interação entre o sistema imunitário e as células estaminais. Então, queremos chegar ao cocktail mínimo que é necessário, para fazer o sistema voltar a funcionar como funcionava quando éramos mais jovens com o mínimo de intervenções possíveis.
As células estaminais já são utilizadas por atletas de alta competição para recuperar de lesões. É um procedimento semelhante ao que têm vindo a desenvolver?
O tipo de células estaminais que neste momento se utiliza nesse tipo de terapias são normalmente as células estaminais mesenquimais. Ou seja, não estão a ser utilizadas elas próprias para reconstruir o músculo, neste caso. Mas elas próprias secretam fatores [o que é usado no músculo], porque são células de suporte deste processo regenerativo e que ajudam a qualquer que seja a condição para as que estejam a ser utilizadas. E existem várias. Quando estamos a pensar no processo restaurativo e quando pensamos, por exemplo, numa terapia que envolva a combinação de um transplante de uma célula estaminal muscular com um fator — como este que encontramos, o MANF — o que estamos a pensar é mesmo em células que sejam capazes de reconstruir o tecido que foi perdido, ao mesmo tempo que recebem exatamente as instruções certas para construir esse tecido da forma mais eficiente possível. Não existem ainda neste momento, terapias que estejam para o envelhecimento a ser baseadas nesta combinação. Nós estamos ainda um passo atrás.
E em que fase do projeto é que estão? Já estão a pensar em formas de aplicação?
Não creio que nos próximos dez anos vamos ter a medicina regenerativa como uma estratégia de terapêutica a ser aplicada. Porquê? Porque é um processo complexo, que depende da interação entre muitos fatores e da construção do conhecimento científico que nos permita entender não só o processo em si, mas de uma forma muito mais complexa, como é que o envelhecimento impacta o próprio processo. São duas questões demasiado grandes e com demasiada complexidade para uma única resposta. O que acontece normalmente é que cada vez que damos uma resposta, abrimos cinco perguntas a seguir, e eu imagino que vamos estar num processo em que precisamos responder ainda a muitas perguntas para chegar a uma fase em que podemos aplicar [aquilo que já descobriram].
Mas temos pequenas descobertas que podem em si dar origem a aplicações muito concretas, ou seja, não a ideia global de utilizar a medicina regenerativa como uma estratégia de rejuvenescimento, mas potencialmente direcionar algum destes fatores que podemos encontrar para uma utilização específica. Imaginemos a recuperação de tecido muscular depois de uma operação, em que as pessoas idosas não têm a mesma capacidade regenerativa. Podem ser úteis para este tipo de aplicações mais restritas, que são de complexidade mais reduzida. E apesar de não estarmos ainda num ponto em que avançamos para ensaios clínicos, por exemplo, estas são questões a que podemos dar uma resposta de uma forma mais imediata.
O efeito destas terapias pode ser afetado por determinadas predisposições genéticas ou hereditárias?
O envelhecimento tem uma componente genética. Nós sabemos isso porque, por exemplo, temos estas pessoas que vivem muitos anos e que apelidamos centenários ou supercentenários. Isto é algo que normalmente é hereditário e que existe na família. Mas também sabemos que a genética é apenas uma das componentes, porque temos conhecimento que este processo é maleável. Ou seja, nós podemos intervir sobre esta condição se mudarmos o estilo de vida. Uma pessoa que tenha muito bons genes, que seja exposta a um ambiente desfavorável, não vai manifestar a longevidade que seria esperada baseada nessa genética. E o contrário também é verdade.
Nós sabemos que, no dia de hoje, a alimentação e o exercício físico são as duas principais intervenções que nós podemos utilizar para aumentar a nossa longevidade e os nossos anos de vida em saúde. Portanto, isto diz-nos que, apesar de haver uma componente genética, existe um grande espaço para intervenção que pode ser baseado neste tipo de abordagens não farmacológicas, mas que através da investigação que nós e as outras pessoas fazemos, podem também ser melhoradas com estes conhecimentos que podem levar ao desenvolvimento de uma intervenção que, de uma forma cooperativa, nos permite ser ainda mais bem sucedidos nesse processo.
▲ Joana Neves é uma investigadora do Gulbenkian Institute of Molecular Medicine, especialista em envelhecimento e medicina regenerativa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Podemos isolar uma célula da nossa pele, reprogramá-la para ser uma célula embrionária e depois voltar a diferenciá-la no tipo de célula que queiramos”
Quais é que têm sido os maiores obstáculos nestes últimos seis anos de investigação?
Eu vou dizer que o principal desafio é realmente que demora muito tempo — e requer muito dinheiro. Portanto, nós fazemos a nossa investigação maioritariamente em ratinhos. Para um ratinho para atingir a idade equivalente aos 70 ou 80 anos, demora de dois a três anos. O que significa que nós temos que manter os ratinhos no laboratório durante este período, e precisamos de fazer experiências que às vezes demoram todo este tempo, o que faz com que a investigação do envelhecimento não tenha o mesmo tipo de celeridade que noutros modelos de doença pode ter.
Isto faz com que aquilo que estejamos a olhar também seja muito variável, porque acho que se nós olharmos para a população em geral, percebemos que não envelhecemos todos da mesma maneira. E os ratinhos também não. Isto significa que nós também precisamos de analisar um número de indivíduos muito maior do que normalmente se faz numa experiência apenas baseada em manipulações genéticas, porque, na verdade, temos toda a variabilidade que está associada ao processo de envelhecimento presente no nosso espaço experimental. Portanto, requer muito investimento e ficamos bastante dependentes de financiamento europeu e de ter acesso a financiamento que permita assistir este estudo durante todo este tempo, o que é um desafio.
Além dos clássicos ratinhos de laboratório, há uma outra espécie que tem um papel importante no vosso trabalho, certo?
Exatamente. Grande parte do trabalho que fizemos ainda nos Estados Unidos foi em Drosophila — e acabamos por trazê-las de lá. O nosso princípio é normalmente utilizar estas moscas da fruta como uma plataforma de descoberta. O fator MANF, que nós descobrimos, descobrimos em Drosopohila e utilizámos o conhecimento que fizemos neste contexto, num organismo modelo, mais simples e mais acessível à experimentação, e traduzimos para o ratinho. Portanto, nós utilizamos a Drosophila muito como plataforma de descoberta e para testar hipóteses de uma forma rápida. Neste preciso momento da investigação, como estamos numa fase oposta, em que temos uma certa quantidade de descobertas que na verdade queremos expandir, temos trabalhado menos com a mosca da fruta e estamos muito focados nos modelos de mamíferos como uma forma de avançar o conhecimento.
Porque não usar peixe-zebra, por exemplo? Há alguma vantagem que favoreça a utilização destas moscas?
Uma mosca da fruta vive 30 a 60 dias. O peixe-zebra vive tanto como um ratinho ou mais. Portanto, o peixe-zebra é um excelente modelo, por exemplo, para estudos de regeneração, mas para estudos de regeneração e envelhecimento, não apresenta uma vantagem, por exemplo, em relação ao modelo de ratinho, porque em termos de tempo de execução da experiência, vai acontecer exatamente a mesma coisa. Temos que esperar os mesmos dois ou três anos.
A mosca da fruta tem duas vantagens: vive 30 a 60 dias, portanto, fazemos uma experiência de envelhecimento em dois meses e não é regulada eticamente, o que significa que nós podemos fazer experiências de uma forma muito rápida. Não existe qualquer tipo de limitação porque é um invertebrado e tem uma grande palete de ferramentas genéticas para ser utilizada. Portanto, é muito fácil fazer experiências de manipulação genética em Drosophila, de uma forma mais rápida do que nunca. Daí ter estas vantagens como plataforma de screening e como plataforma de descoberta.
Em termos de semelhanças, existe um grande nível de conservação em termos de genes, no geral, e genes que foram associados a doenças humanas. Uma grande quantidade das descobertas que são feitas em organismos modelos, em Drosophila, são totalmente traduzíveis. Por exemplo, esta molécula [MANF] que encontrámos na mosca da fruta, tem uma homologia enorme com a proteína humana, de tal modo que nós podemos utilizar a proteína humana para recuperar os fenótipos que temos na mosca da fruta quando reintroduzimos o gene humano na mosca da fruta. A função é totalmente conservada e demonstrar essa conservação é um dos passos essenciais para mostrarmos realmente que o que estamos a descobrir tem depois a tradução de um ponto de vista de saúde humana
Levantou as questões éticas associadas às moscas, mas por curiosidade, têm enfrentado alguns dilemas morais com o avançar do vosso trabalho?
O tipo de células estaminais com que nós trabalhamos são células estaminais adultas. Isto é, são células estaminais que já existem no nosso músculo e que já fazem essa função. Do ponto de vista do trabalho específico que nós fazemos, não existe um recurso a células embrionárias, não existem essas questões éticas. Estamos a utilizar células que existem no adulto e, da mesma maneira que podemos voltar a recuperar a função de um neurónio, estamos a recuperar a função de uma célula estaminal.
As células iPSC [células estaminais pluripotentes induzidas] são umas das formas que foi encontrada já há algumas décadas para contornar este problema. São células que podemos gerar. Podemos, por exemplo, isolar uma célula da nossa pele, reprogramá-la para ser uma célula embrionária e depois voltar a diferenciá-la no tipo de célula que queiramos.
No órgão em que estudamos, podemos focar o nosso trabalho em fazê-las voltar a funcionar, ou isolá-las e retransplantá-las depois de lhes corrigir os defeitos. Existem outros órgãos em que as células estaminais não existem. E, portanto, quando nós pensamos numa estratégia de medicina regenerativa aplicada a órgãos que não têm células estaminais endógenas, vamos sempre passar por um processo em que esta célula terminal tem de ser feita in vitro, no laboratório.
Mas, em qualquer dos casos, esta interação entre o ambiente e a célula estaminal é sempre essencial. Quando tentamos transplantar estas células que fazemos para os órgãos, muitas vezes elas não funcionam. E é simplesmente porque estamos a transplantar para órgãos que não estão preparados para fazer este processo regenerativo. Daí a investigação que fazemos, em que tentamos procurar este papel fundamental do sistema imunitário, que dá as instruções à célula estaminal para fazer o que deve, de modo a que seja também relevante neste tipo de terapias — algo que não está ainda a ser completamente considerado.
Nesta etapa, o trabalho passa muito pelos músculos, porque também é o meio mais acessível para começar. Mas a ideia é também passar a olhar para o impacto que estas terapias podem ter na prevenção de doenças neurodegenerativas?
O nosso laboratório, como base, não tem ambição de se expandir a todos esses modelos. O que temos é a ambição que os princípios que nós descobrimos sejam suficientemente universais para que possam ser aplicados a vários órgãos. Este tipo de avanços existe num contexto de cooperação, que será muito melhor com uma pessoa que tenha o conhecimento e expertise na área específica. Mas a nossa visão, quando procuramos este tipo de mecanismos, é que eles sejam tão universais quanto possível, para que possam ser utilizados de forma genérica, em que podemos aplicar os princípios da medicina regenerativa, não para rejuvenescer um órgão, mas para rejuvenescer todo o organismo.
▲ Joana Neves é uma investigadora do Gulbenkian Institute of Molecular Medicine, especialista em envelhecimento e medicina regenerativa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“As pessoas, muitas vezes, esperam que as coisas aconteçam de uma forma rápida, sem problemas e sem limitações”
Apesar de ser um conceito ainda num futuro algo distante, prevê que estas terapias sejam acessíveis à população?
Acho que tudo vai depender de como evoluir a investigação e como será vista e aceite na sociedade. Isto tem dois papéis fundamentais. Por um lado, é fazer o público em geral compreender como se faz a investigação, quais são as dificuldades de fazer a investigação e as suas limitações. As pessoas, muitas vezes, esperam que as coisas aconteçam de uma forma rápida, sem problemas e sem limitações. E acho que se conseguimos explicar de uma forma descomplicada como é o processo, quais são as dúvidas, quais são os problemas que enfrentamos no nosso dia a dia cada vez que estamos a tentar responder a essas perguntas, a expectativa e a forma como vão encarar o desenvolvimento deste tipo de terapias é diferente.
Por outro lado, [é importante] também para entidades reguladoras e para pessoas que vão dar o apoio necessário para que este tipo de intervenções possam progredir para a clínica. Precisamos de muito investimento nesta fase de teste, onde muitas coisas vão falhar até acertarmos naquela que vai funcionar. E acho que só quando se compreender que realmente falhar é o principal para poder atingir o objetivo de ser bem sucedido, conseguimos então atrair este financiamento e este interesse. É importante que compreendam realmente como funciona este processo que nos permite ter, no final, ter um só composto ou terapia, depois de termos passado 20 ou 30 anos a testar 50 ou 60 hipóteses.
E que tipo de reação está à espera do público em geral sobre os avanços nesta área?
Eu acho que existe um grande interesse do público em geral, neste momento, pelas questões do envelhecimento e da longevidade. As pessoas têm uma curiosidade natural também pelo próprio processo científico. Vimos isto, por exemplo, durante a época do Covid-19, quando tivemos uma grande quantidade de cientistas presentes nos media a explicar todo o processo que estava por trás, por exemplo, da produção das vacinas. E isso ajudou as pessoas a compreender a importância da ciência nestes momentos.
Acho que no caso do envelhecimento isso é ainda mais importante, porque existe muita investigação científica, mas existe também muita informação não científica que muitas vezes não consegue ser distinguida pelo público em geral. E é um papel muito importante que nós temos, de conseguir transmitir às pessoas, da melhor forma que conseguimos, o conhecimento que temos, para poderem também fazer esse tipo de discernimento.
É importante explicar que temos novas descobertas e coisas que ainda não sabemos. Ser transparente e dizer: “Isto é o que nós sabemos hoje. Isto é o que nós vamos procurar responder nos próximos dez anos”. E eu acho que também é importante ouvir as pessoas, que muitas vezes fazem questões que nem sequer nos lembramos de pensar.
Menciona muito este prazo de 10 anos… Apesar de ser apenas figurativo, como é que acha que vai estar a investigação daqui a uma década?
Acho que é completamente impossível de prever. Acho que é completamente impossível de prever. Porquê? Porque nós, neste momento temos uma lista de perguntas e uma certa abordagem que estamos a ter. Se há dez anos me tivessem perguntado em que ponto estaríamos agora, provavelmente teria previsto algumas das coisas em que estamos, mas não teria previsto a outra metade. E é porque a maioria das descobertas que fizemos acabam por acontecer por perguntas e observações inesperadas que fazemos enquanto estamos a perseguir uma hipótese que acaba por ser falsa.
Ou seja, nós propomos uma hipótese, testamos essa hipótese, fazemos uma experiência e ficamos muito dececionados porque não foi confirmada. Mas, ao mesmo tempo que não confirmamos a nossa hipótese, fazemos uma observação, uma observação estranha que nos leva a formular uma nova hipótese. E essa hipótese não poderia ter sido concebida antes de termos feito aquela observação, e não teríamos feito aquela observação se não tivéssemos ido testar a hipótese anterior.
Portanto, apesar de haver algumas coisas que nós, claro, prevemos e existem alguns tipos de ângulos no envelhecimento, que eu acho que nos próximos dez anos vão ter um avanço —como a reprogramação celular e do envelhecimento imunitário, e medicina regenerativa. Eu acho que estas estes campos estão muito no princípio mas vão desenvolver. E tal como outros campos, vamos encontrar limitações e não as conseguimos antever ou saber quais vão ser bem sucedidas.
“Uma das respostas que nós não conseguimos dar até agora é como é que esta molécula funciona”
Lembra-se do primeiro momento “Eureka” desta investigação?
O principal momento “Eureka” que tivemos foi ainda antes de chegar a Portugal. Foi quando começámos a explorar a função deste fator MANF. Nós sabíamos que o MANF existe em circulação em nós, nas moscas, nos ratinhos e que em todos estes organismos a sua quantidade decrescia com a idade.E a nossa pergunta era: se nós restabelecermos os níveis de MANF, conseguimos ou não melhorar a saúde geral do organismo?
Antes de nos focarmos na parte da regeneração, fizemos uma experiência muito típica, que até é difícil de explicar. Passa pela junção do sistema circulatório de dois ratinhos — basicamente cose-se um ratinho a outro — e, assim, todos os fatores e células do sistema imunitário que estão em circulação vão circular entre os dois ratinhos. Em tempos, descobriram que se juntarem um ratinho velho a um jovem, os fatores do jovem são passados para o mais velho e promovem o seu rejuvenescimento, enquanto os do ratinho velho passam para o jovem e promovem o seu envelhecimento. Isso indica que existe uma componente do ambiente do sistema circulatório que modula o processo de envelhecimento e rejuvenescimento.
Olhando então para o nosso fator, decidimos juntar o ratinho velho a um ratinho jovem sem o MANF, para verificar se efetivamente o rejuvenescimento do mais velho não acontecia. Mas nunca acreditamos que a experiência fosse funcionar. Há muito poucas pessoas que fazem esta técnica. Felizmente, quando estávamos em São Francisco, tínhamos um colaborador ao lado que a fazia regularmente e, por isso, foi com ele que fizemos a experiência. Quando vieram os resultados, foi altamente surpreendente, porque eram muito óbvios.
Tínhamos o rejuvenescimento quando tínhamos um ratinho normal inalterado, mas quando tínhamos o nosso ratinho transgénico — sem o MANF — os efeitos de rejuvenescimento, especialmente a nível dos fenótipos imunes e inflamatórios, eram completamente perdidos. Acho que este foi provavelmente o primeiro momento em que ficámos verdadeiramente surpreendidos. Não acreditámos. Tentámos durante várias vezes pensar que problema é que podia ter havido com a experiência. É a natureza do cientista. Temos sempre de questionar se teríamos um resultado muito positivo, temos o próprio dever de questionar se existem outras explicações alternativas que não aquela que estamos a propor desde o princípio.
E ao contrário? Algo que tinha quase a certeza que iria funcionar, mas que depois não se traduziu como idealizado…
Uma das respostas que nós não conseguimos dar até agora é como é que esta molécula funciona. Sabemos que o MANF é uma molécula que é libertada, que está em circulação no nosso corpo, que quase todas as nossas células produzem e sabemos que atua sobre o sistema imunitário. Nós e outros laboratórios mostrámos todos os seus efeitos muito especiais, mas, até hoje, ninguém conseguiu encontrar nenhum recetor através de que esta célula de que esta funciona, nem um mecanismo de reação da molécula.
Antes de vir para cá, achámos que ia ser o primeiro problema que íamos resolver durante os primeiros dois anos em Portugal. Até hoje ainda não resolvemos.
Têm recebido muito interesse da indústria? Pessoas que estejam a insistir para que o processo e os resultados apareçam de forma mais acelerada?
Desde que começámos a trabalhar com o MANF, que sempre tivemos uma interação muito direta com a indústria. No início, tivemos uma grande parte do projeto financiado por uma empresa que detinha toda a propriedade intelectual necessária para avançar nesta componente do mecanismo molecular. Depois, trabalhámos com a Calico, uma empresa do grupo Google. Aqui, financiaram uma grande parte deste trabalho que fizemos quando estudámos a molécula como um fator de rejuvenescimento global.
Já aqui, quando viemos para Portugal, colaborámos diretamente com a GeneNTech. Portanto, com a ajuda do nosso Tech Transfer Office (TTO), temos criado bastantes pontes com parceiros que podem ajudar a desenvolver determinados aspetos da aplicabilidade e também a financiar esta parte de resolver a questão mecanística que temos sobre o modo de funcionamento da molécula, para podermos avançar.
▲ Joana Neves é uma investigadora do Gulbenkian Institute of Molecular Medicine, especialista em envelhecimento e medicina regenerativa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Podemos fazer investigação exatamente ao mesmo nível que os EUA, mas para o fazer, precisamos de ter uma atitude diferente”
Estiveram os dois nos EUA antes de iniciaram esta etapa no GIMM. Tiveram dificuldades na transição de volta para Portugal?
O laboratório juntou-se quando ainda então era o Instituto de Medicina Molecular em 2019, seis meses antes da pandemia, nós viemos os dois nos Estados Unidos, do Buck Institute for Research on Aging, onde já desenvolvíamos muitas das linhas de investigação que trouxemos para aqui. Portanto, desde aí temos nos focado neste processo e realmente focado muito na interação entre o nosso sistema imunitário e as células estaminais como um novo alvo em que podemos intervir.
Sentiram muito a diferença de ambiente de trabalho nesta mudança? Afinal de contas, foi a primeira experiência real num laboratório cá em Portugal…
Durante o período da Universidade, quando estava a fazer a licenciatura em Química Aplicada, trabalhei em laboratórios mas durante períodos de dois a três meses. Portanto, as experiências que tive nessa altura foram muito focadas em laboratórios de química. A primeira experiência que tive em laboratório de investigação biomédica foi durante o estágio do final do curso, porque seguia a vertente de biotecnologia.
Na altura, fui fazer um estágio ao EMBL [European Molecular Biology Laboratory], em Roma, no laboratório de investigação biomédica, e foi a primeira vez que tive contacto com um laboratório de investigação nessa área. Depois, daí fui diretamente para Barcelona, de Barcelona para os Estados Unidos. Quando chegámos a Portugal tivemos que reaprender tudo sobre como se faz.
Mas o que é que muda concretamente?
Eu costumo dizer, cada vez que me fazem esta pergunta, que é tudo igual, mas o mindset tem de ser diferente. Isto é, a ideia que muitas vezes é transmitida de que não podemos fazer investigação ao mesmo nível que se faz nos Estados Unidos, para mim, é errada. Nós podemos fazer investigação exatamente ao mesmo nível que os EUA, mas para o fazer, precisamos de ter uma atitude diferente, porque nós temos as mesmas coisas disponíveis.
Não temos acesso ao mesmo tipo de financiamento, não temos acesso a algumas coisas, mas sabemos que elas existem e sabemos como alcançá-las, só temos de mudar a nossa atitude para que possamos ter acesso a elas e construir a investigação que fazemos aqui. Nem eu nem o Pedro Sousa-Victor teríamos voltado se não acreditássemos que podíamos fazer investigação em Portugal ao mesmo nível que fazíamos nos Estados Unidos.
E estão a fazer aqui aquilo que poderiam estar a fazer nos EUA?
Sim, sim, porque conseguimos também o financiamento a nível europeu que nos permitiu isso. Portanto, o Pedro conseguiu uma ERC Consolidator [bolsas da União Europeia que chegam a atingir os dois milhões de euros ao longo de cinco anos]. Portanto, o facto de termos uma ERC a financiar o laboratório, neste momento, é essencial para que possamos desenvolver aquilo que temos. Existem outros financiamentos também conseguidos com a Fundação La Caixa, com uma agência em França e com a FCT, também.
Precisámos de angariar todo esse tipo de financiamento para conseguir. Tivemos, também, um grande apoio do GIMM — anteriormente IMM — enquanto instituição, e aí diria que temos algo que é melhor do que tivemos em qualquer sítio que estivemos lá fora. Seja pelo apoio que existe, e pela forma como o instituto está construído em termos de plataformas de apoio. Isto é, não só os cientistas que trabalham no nosso laboratório, mas todos os cientistas e não cientistam que trabalham à nossa volta e que fazem por nós uma grande quantidade de coisas para que nós não tenhamos que as fazer.
A qualidade e a eficiência com que isso é feito aqui, é melhor do que aquela que encontramos em qualquer um dos outros sítios onde trabalhámos. E isso faz a diferença com os problemas que temos que enfrentar aqui. Conseguimos, realmente, ter uma mentalidade diferente e suplantar essas limitações.