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A 24 de Março de 2018, pelas 11 da manhã, um terrorista de origem marroquina entrou num supermercado de Trèbes, no Sul de França, e, após proclamar-se como soldado do Estado Islâmico, abateu duas pessoas e fez vários reféns. O edifício foi cercado pelas forças da ordem e durante a negociação para a libertação dos reféns, Arnaud Beltrame, tenente-coronel da Gendarmerie, ofereceu-se para tomar o lugar de uma refém.

Após um impasse de algumas horas, Beltrame tentou desarmar o terrorista e solicitou o avanço da polícia: o terrorista foi abatido, mas não antes de ter disparado várias vezes sobre Beltrame e de o ter apunhalado repetidamente na garganta – o tenente-coronel viria a sucumbir aos ferimentos pouco depois.

Beltrame foi louvado pelo Ministro do Interior e pelo presidente Emmanuel Macron, e o Estado francês prestou-lhe homenagem numa cerimónia oficial nos Invalides. O seu nome merece, sem dúvida, ser recordado, ao contrário do do terrorista, mas a sua actuação abnegada e corajosa levanta uma questão: o que poderá levar um homem com uma vida realizada e confortável e que se casara recentemente com “a mulher da sua vida”, a sacrificar-se por desconhecidos?

A biologia e, em particular, a teoria da selecção natural, têm vindo a instalar no imaginário a ideia de que a vida é uma luta implacável, em que todos colocam os seus interesses e a sua preservação acima de tudo. Será que o gesto de Beltrame contradiz as teorias de Darwin? Será a espécie humana uma notável excepção às regras impiedosas da selecção natural? Ou será que o naturalista britânico anda a ser mal interpretado?

Charles Darwin em 1868, por Julia Margaret Cameron

O gene egoísta

Foi em 1858, numa comunicação à Linneaen Society, que Charles Darwin explanou pela primeira vez em público uma ideia que começara a desenvolver 20 anos antes, no rescaldo da sua iluminadora viagem à volta do mundo no Beagle. A comunicação passou relativamente despercebida e só chamou a atenção quando Darwin voltou ao assunto, no ano seguinte, em A origem das espécies, livro cujo título original é todo um programa: On the origin of species by means of natural selection, or The preservation of favoured races in the struggle for life. Nele, Darwin definia selecção natural como “o princípio pelo qual cada ligeira variação [de uma característica de um organismo] é preservada, caso seja útil”. Por outras palavras, as variações, mesmo que ínfimas, nas características transmissíveis hereditariamente de organismos da mesma espécie, traduzem-se em diferentes probabilidades de sobrevivência e de produção de descendência.

O mecanismo de actuação da selecção natural ficou lapidarmente expresso no termo “sobrevivência dos mais aptos” (“survival of the fittest”), que foi cunhado por Herbert Spencer, a partir da sua interpretação das teorias de Darwin. Este achou o termo tão feliz que o adoptou em livros posteriores, ainda que a menção a “sobrevivência” possa ser mal interpretada, pois o que é crucial é o sucesso reprodutivo de cada organismo (mesmo que tenha uma vida breve), não a sua longevidade (que será irrelevante se o organismo não produzir descendência).

Herbert Spencer (1820-1903), biólogo, sociólogo, antropólogo, filósofo e um dos mais influentes intelectuais do seu tempo

Num mundo de recursos limitados, estabelece-se uma competição sem quartel, entre indivíduos da mesma espécie (e entre diferentes espécies), em que apenas os mais aptos sobrevivem e transmitem o seu património genético à geração seguinte e esse diferencial de sucesso reprodutivo acaba por traduzir-se na paulatina transformação das características de uma espécie. É natural que a pressão evolutiva favoreça os organismos mais rápidos, mais ágeis, com reflexos mais rápidos, dentaduras mais afiadas, carapaças mais resistentes, olfacto mais apurado, pelagem ou plumagem mais discreta. E, claro, que não hesitem em cilindrar a concorrência para obter alimento, água, território e parceiros sexuais. Seria portanto de esperar que a actuação desta pressão evolutiva, geração após geração, tivesse suprimido completamente o altruísmo nos seres vivos.

Gregor Mendel (1822-1884)

Pela altura em que Darwin formulava a teoria da selecção natural, um frade agostinho chamado Gregor Mendel estabelecia as leis da hereditariedade, que se tornariam no fundamento da ciência genética, embora, claro, ainda estivesse longe a descoberta do mecanismo molecular que lhe é subjacente – o que só viria a acontecer quase um século depois, com a identificação do DNA como a “molécula da hereditariedade”.

James Watson e Francis Crick junto ao modelo da molécula de DNA que descobriram em 1953 com Rosalind Franklin

Em 1976, o biólogo Richard Dawkins publicou The selfish gene (O gene egoísta), que se revelaria uma das mais influentes obras científicas de todos os tempos, colocando os genes no centro do processo evolutivo e estendendo o conceito de selecção natural, usualmente restrito ao domínio das características biológicas, aos comportamentos culturais. Segundo Dawkins, a evolução cultural não actua sobre os genes mas sobre os memes, todavia processa-se por mecanismos análogos (deverá ter-se em atenção que o conceito de meme delineado por Dawkins não coincide com o termo hoje corrente para designar elementos – vídeos, imagens, frases – que têm difusão “viral” através da Internet e assim desfrutam de uma glória efémera).

Dawkins teve o cuidado de explicar que quando usou o termo “gene egoísta” não estava a sugerir que os genes fossem dotados de vontade e arbítrio, mas que, na prática, se comportam como se assim fosse, “fazendo” tudo o que está ao seu alcance para serem replicados no processo de selecção darwiniana.

Capa da 1.ª edição de The selfish gene

Darwin vs. Rousseau

Darwin desfruta de má fama entre a esquerda do espectro político, pois a teoria da selecção natural é vista como inspiradora do capitalismo, sobretudo na sua versão mais destravada, e como legitimadora de um estado de coisas em que os mais fortes ficam com tudo e os mais fracos são implacavelmente triturados.

Já Jean-Jacques Rousseau é um pensador benquisto à esquerda, que acolhe favoravelmente a sua tese de que o homem, no seu estado mais primitivo, seria naturalmente bom e que é a civilização que o corrompe. Ao contrário do que por veze se pensa, Rousseau não defendia um regresso da humanidade a uma vida primitiva, mas, sem se deixar intimidar pela sua absoluta ignorância no domínio da antropologia e da biologia, elaborou teorias fantasiosas e romantizadas sobre a “natureza” que ainda encontram larga aceitação nos nossos dias. No seu célebre Discours sur l’origine et les fondements de l’innegalité parmi les hommes (1755) – onde também  designa a propriedade privada como origem de todas as desigualdades – explana uma concepção da natureza humana em que uma “demanda ardorosa do bem-estar e da auto-preservação” seria contrabalançada por “uma repugnância inata por ver morrer ou sofrer qualquer criatura sensível [hoje diríamos “senciente”], em particular se for um seu semelhante”, instinto que, afirmava Rousseau, o homem partilharia com os outros animais.

Página de rosto do Discours sur l’origine et les fondements de l’innegalité parmi les hommes (1755), de Rousseau

A visão de Darwin como precursor espiritual do tubarão financeiro Gordon Gekko do filme “Wall Street” (1987) e da sua famosa proclamação “Greed is good”, assenta em vários equívocos: o primeiro é confundir explicação com justificação e até com apologia. A teoria da selecção natural pretende elucidar os mecanismos que fazem com que mundo seja tal como é, nada diz sobre como deve ser; não faz sobre eles um juízo de valor, nem conclui que, por estes mecanismos serem naturais, sejam intrinsecamente “bons” e produzam resultados desejáveis. Por outro lado, a selecção natural, embora explique de forma consistente o mundo natural, não pode ser transposta irreflectidamente para o mundo dos homens, uma vez que, embora o Homo sapiens não possa escapar à sua condição animal, é também fortemente moldado nos seus comportamentos pela sociedade em que se insere e por um quadro de valores culturais acumulados ao longo da história da civilização.

A história da humanidade mostra-nos que, desmentindo as teses de Rousseau, que as mais relevantes aquisições civilizacionais – a protecção dos mais fracos, o combate a discriminações com base em raça, nacionalidade ou género – têm sido feitas contra a “natureza”, ou seja, ao arrepio do que os nossos instintos mais “primitivos” ditariam.

Darwin em más companhias

Boa parte da aura negativa que envolve Darwin resulta da sua associação ao “darwinismo social”, uma expressão e um conceito de que não foi autor e que não decorre necessariamente das suas teorias e escritos. O darwinismo social, embora reclame fundar-se na teoria da selecção natural – bem como na mundividência catastrofista de Thomas Malthus (1766-1834) – foi sobretudo obra do já mencionado Herbert Spencer e de Francis Galton (1822-1911), primo de Darwin e fundador da eugenia.

Francis Galton, c.1850-60

Foi Galton, quem, inflamado pela leitura de A origem das espécies (1859), se aplicou na transposição para o ser humano das teorias evolutivas que Darwin explanara nas espécies animais e vegetais, e concebeu uma civilização orientada para “o melhoramento da raça”, em que “o orgulho racial fosse encorajado […], os mais fracos encontrassem um acolhedor refúgio em mosteiros e conventos, e em que a melhor estirpe dos emigrantes e refugiados de outras terras fossem convidados e integrados e os seus descendentes naturalizados” (Hereditary genius, 1869). A sua perspectiva eugenista previa também estímulos financeiros ao casamento precoce de membros das famílias de elite.

O darwinismo social nunca foi claramente definido, pelo que a expressão tem sido empregue de forma genérica e vaga – e quase sempre com conotação pejorativa. Mas nem por isso a teoria da selecção natural deixou de ser invocada para justificar políticas e atitudes, nomeadamente o racismo e o domínio – e até o extermínio – dos povos “mais fracos” pelas potências europeias na segunda metade do século XIX. Mas o que mais maculou a teoria da selecção natural foi a sua associação ao nazismo – em From Darwin to Hitler (2004), o historiador Richard Weikart defende que “por mais retorcida que seja a via que vai de Darwin a Hitler, é evidente que o darwinismo e a eugenia prepararam o caminho da ideologia nazi e em particular para a ênfase nazi no expansionismo, na guerra, na luta de raças e no extermínio racial”. Diga-se de passagem que a conexão Darwin-Hitler – que teria sido intermediada por Ernst Haeckel, um discípulo alemão de Darwin – tem sido explorada pelos defensores do criacionismo e do “design inteligente” para desacreditar as teorias de Darwin, como se este tivesse culpa de as suas ideias terem sido grosseiramente distorcidas pelo nazismo.

Ernst Haeckel (1834-1919)

A verdade é que nas primeiras décadas do século XX não faltavam entusiastas da eugenia e do melhoramento das raças entre governantes e políticos dos mais diversos países e quadrantes ideológicos – até a URSS, na década de 1920, a promoveu como ferramenta de construção de uma nova sociedade regida por critérios estritamente racionais e científicos, antes de Stalin a ter desacreditado como ciência burguesa e fascista. Muitos democratas do mundo ocidental entendiam que os portadores de deficiências hereditárias deveriam ser privados de direito de voto e de algumas liberdades cívicas (nomeadamente o direito a gerar descendência) e até o economista John Maynard Keynes (hoje muito estimado à esquerda) dirigiu, entre 1937 e 1944, a Eugenics Society, fundada em 1907 por Francis Galton. Mas em nenhum outro país a distorção maligna do conceito de “luta pela vida” e “sobrevivência do mais apto” teve expressão tão intensa e sinistra como na Alemanha nazi.

Altruísmo num mundo-cão

Contrariando a perspectiva de que vivemos num “dog-eat-dog world”, há espécies que nos dão impressionantes demonstrações de altruísmo: é o caso das abelhas, formigas, térmitas e outras espécies eussociais, isto é que, espécies que criam os seus juvenis em conjunto, que se reúnem em grupos em que coexistem diversas gerações e em que existe divisão de tarefas, à qual corresponde usualmente uma divisão em castas especializadas.

Térmitas subterrâneas acorrem a uma zona danificada do seu ninho, a fim de a reparar

O Homo sapiens pode não cumprir todos os critérios biológicos da eussociabilidade (além dos insectos, apenas duas espécie de ratos e algumas espécies de camarões os cumprem), mas é evidente que é uma espécie com forte componente social e que a sua ascensão de “macaco nu” ao domínio do planeta só foi possível graças a uma notável capacidade para trabalhar em grupo.

Na maior parte das espécies, a selecção natural exerce-se apenas ao nível do indivíduo, e nessas os genes “altruístas” (isto é, que determinam comportamentos altruístas) foram eliminados e apenas sobraram os genes “egoístas”. Os primeiros biólogos e geneticistas que defenderam que a selecção natural poderia, nas espécies sociais, operar também ao nível do grupo foram alvo de forte contestação. Nas formigas, abelhas e outros himenópteros, as obreiras são estéreis e trabalham para proteger, alimentar e maximizar o sucesso reprodutivo da rainha, mas como, devido ao peculiar processo reprodutivo destas espécies, as obreiras pouco mais são do que clones da rainha, o seu comportamento altruísta pode ser visto como resultado da selecção por parentesco (kin selection) – um conceito que Darwin já discutira em A origem das espécies.

Obreiras numa colmeia

Mas o altruísmo entre humanos, embora mais frequente entre familiares, também se estende a vizinhos, colegas de trabalho, companheiros de viagem ou absolutos desconhecidos, com os quais o altruísta não partilha material genético. Edward O. Wilson, especialista em formigas e pioneiro da sociobiologia (o estudo das bases biológicas do comportamento social no homem e outros animais), que já tinha discutido a forma como a biologia evolutiva moldou a natureza humana com o seminal livro Sociobiology, em 1975, regressou ao assunto em 2012 com The social conquest of Earth (2012, editado em Portugal como A conquista da Terra pelo Clube do Autor), em que reflecte sobre o altruísmo e defende que a evolução humana foi moldada pela “selecção multinível”, que resulta do jogo entre a selecção individual (que favorece comportamentos egoístas) e a selecção de grupo (que favorece o altruísmo).

O altruísmo não é bom para a perpetuação dos genes do indivíduo, mas é benéfico para a perpetuação dos genes do grupo que integra indivíduos altruístas. Uma tribo de Homo sapiens só com genes egoístas seria como uma equipa de futebol com jogadores que só pensam em si: mesmo que fossem, individualmente, craques, têm boas probabilidades de perder no confronto com uma equipa de jogadores sofríveis mas que joga como equipa.

O velhaco egocêntrico que só zela pelos seus próprios interesses pode, à partida, parecer que tem mais hipóteses de propagar os seus genes, mas os seus parceiros de grupo vão ficar tão furiosos com o seu comportamento que acabarão por expulsá-lo. E como um Homo sapiens isolado é uma criatura fisicamente débil e de sentidos embotados, os grandes egoístas dos tempos pré-históricos tendiam a morrer de fome ou a converter-se no jantar de alguém, pelo que a propagação dos seus genes foi limitada. Realce-se: “limitada”, não travada, já que os egoístas mais dissimulados e/ou maquiavélicos têm conseguido, ao longo dos séculos, arranjar maneira de disfarçar ou justificar o seu egoísmo, manter-se no grupo (e até liderá-lo) e propagar os seus “genes egoístas”.

A maior parte de nós não se situa nos extremos do espectro que vai do absoluto altruísmo ao absoluto egoísmo: vivemos no meio, atormentados por sentimentos contraditórios, dúvidas e remorsos, sentindo ao mesmo tempo “o apelo da consciência, do heroísmo contra a cobardia, da verdade contra a mentira, do empenhamento contra o distanciamento” (Wilson). Este estado de angústia e conflito interno que molda tão fortemente a natureza humana e tem sido um dos principais temas da literatura e das artes, é visto por Wilson como um reflexo das forças contraditórias que actuam na selecção multinível.

Outros cientistas argumentam que o comportamento dos seres humanos em sociedade é mais determinado pelas “crenças adquiridas socialmente” – a cultura, no sentido lato – do que pela genética. Mas as explicações não têm de ser mutuamente exclusivas e é possível que selecção multinível e cultura se combinem nas sociedades humanas para fazer persistir, ao arrepio dos instintos dominantes da auto-preservação e da demanda do interesse próprio, “bizarrias” como o gesto de abnegação e coragem de Arnaud Beltrame.