Suponho que não seja discutível que andamos, mais ou menos desde que se iniciou o século XXI, a viver, no nosso mundo ocidental, uma tendência generalizada para o revivalismo e a nostalgia. Logo em 2001, os norte-americanos The Strokes introduziram o revivalismo do rock de garagem, e seguiu-se-lhes uma vaga de redescoberta de visuais, sonoridades e predisposições com vinte, trinta, quarenta ou mais anos de distância. A cultura pop ocidental do novo milénio tornou-se, a dada altura, obcecada com as últimas décadas do século XX, das séries de televisão de sucesso ao regresso do vinil, passando pela febre do vintage e do retro em torno do mobiliário e da decoração de interiores, até a festas Revenge of the 90s ou 80s e aos slogans políticos – nem mesmo o famoso Make America Great Again é uma invenção da segunda década do século XXI, mas um revivalismo dos anos 80 do século anterior. Por cá não deixámos de ter as nossas pequenas excitações em torno das marcas que vincaram a infância da geração que se tornara adulta neste século, com Nuno Markl a liderar a onda revivalista durante vários anos. Mesmo a religião, de certo modo abandonada ou tida como antiquada, acabou por se manifestar de outros modos e com outras fórmulas, do ioga ao budismo, do veganismo às permanentes ameaças de apocalipse climático, robótico, pandémico ou outro qualquer; de certa forma o Homem ocidental não deixou de sentir necessidade de expressar o seu carácter religioso.
É muito curioso que, ao mesmo tempo em que o Ocidente temia o futuro, e parecia mesmo incapaz ou insuficiente para o construir, tenha resolvido olhar para trás, como para uma espécie de paraíso já vivido e que tentava, agora, apenas reproduzir como memória permanentemente vivida. E é mais curioso ainda porque, durante as últimas décadas, fomos, de certa forma, convencidos de que ter raízes era uma coisa absolutamente embaraçosa, uma reminiscência de um outro mundo antigo, provinciano e pouco sofisticado, que a globalização se encarregaria de arrumar definitivamente numa gaveta. É paradoxal, de facto, mas ao mesmo tempo em que olhávamos, enquanto comunidade ocidental, para o passado à procura de referências, também nos convencemos, ou convenceram-nos, de que ter apreço pelo lugar onde se nasce, zelar pelas tradições, confiar nas identidades herdadas, não eram mais do que formas de provincianismo. E, que diabo, ninguém queria ser provinciano, excepto quando se iam recuperar as mobílias de casa da avó.
Vingou durante bastante tempo a ideia de que a família, a religião, a pátria, as fronteiras, os costumes, a tradição, as Histórias nacionais, no Ocidente, deviam ser sujeitas a escrutínio, por oposição ao resto do mundo, naturalmente oprimido pelos ocidentais e, naturalmente, pelo capitalismo, que não deveriam sofrer qualquer agrura em relação a nada, podendo e devendo instalar nos países ocidentais essa mundivisão e essa presença física e espiritual. Colectivamente, produzimos a ideia de desenraizamento, ao mesmo tempo em que andávamos desesperados à procura de símbolos, significados, tradições e legados sociais, culturais e históricos em rótulos de Tuli Creme e bicicletas Orbita. A tradição passou a ser suspeita, a identidade uma construção, a pátria um conceito abolido e o passado numa espécie de tribunal permanente, acabando mesmo por ultrapassar as barreiras do ensino crítico da História, alcançando a ideia de que a nossa relação com a História se deve guiar exclusivamente pela ideia de culpa. O Ocidente tornou-se particularmente competente na criação de órfãos culturais, na medida em que a herança colectiva passou a ser um punhado de coisa nenhuma. Pior, fê-lo ao mesmo tempo em que aceitava no seio das suas comunidades agentes e interpretações absolutamente contrárias ao legado histórico-cultural do Ocidente, negando raízes aos seus e permitindo quaisquer raízes aos outros.
Se há coisa que os tempos em que vivemos nos dizem é que, mais depressa ou mais devagar, com maior ou menor radicalismo, as populações ocidentais se cansaram da ideia de que cada um pode ditar, individualmente, as suas próprias regras aos outros, e ainda mais da ideia de que devem sentir culpa por tudo o que são e receberam e aceitar acriticamente tudo o que lhes seja contrário. Não por acaso, e independentemente do facto de me sentir muito próximo de umas e muito distante de outras, a busca pela recuperação das raízes no mundo ocidental tem sido liderada, politicamente, por mulheres. As elites podem continuar a discutir se as raízes importam e se é ou não fascista defendê-las. Se não percebem o que as massas, que não rejeitam muitas das ideias e das realidades da globalização e do comércio livre, lhes estão a dizer, depressa serão substituídas por outras. É um privilégio ver o mundo a girar, confesso.