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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Portugal com números de Espanha e Itália? "Há essa possibilidade, claro". Entrevista ao diretor da Infecciologia do Curry Cabral

Em entrevista, o diretor do Serviço de Infecciologia do Curry Cabral diz que preferia não ter de usar as 300 camas que está a preparar, mas duvida. E é crítico de algumas medidas tomadas pelo Governo.

É um trabalho de preparação que está a ser feito, mesmo que Fernando Maltez preferisse acreditar que não seria preciso. Mais camas e mais espaço para receber infetados com coronavírus, agora que o Curry Cabral se prepara para ser uma unidade totalmente dedicada à Covid-19. “Espero bem que não sejam necessárias, mas duvido”, diz o diretor do Serviço de Infecciologia, em entrevista ao Observador, no hospital que, nas últimas semanas, tem recebido doentes de todo o país, por ser uma das unidades de referência para o tratamento da doença.

O especialista acredita que as medidas de contenção implementadas podem ter um efeito positivo no controlo do surto, mas critica a forma como algumas foram aplicadas — nomeadamente a cerca sanitária imposta em Ovar, que, acredita, devia ser acompanhada de mais restrições na circulação; ou as exceções para “quebrar” o isolamento voluntário pedido a todos os portugueses. “As pessoas têm autorização para sair de casa para ir ao supermercado, mas, se em vez de irem uma vez forem três vezes por semana, deixa de fazer sentido”, explica.

O isolamento rigoroso será fundamental para tentar evitar que o problema tome em Portugal a dimensão do que aconteceu em países como Espanha e Itália, onde continua a multiplicar-se o número de mortos e infetados. Essa hipótese, diz, não está afastada.

Sobretudo tendo em conta que o sistema de saúde não tem uma capacidade ilimitada. Diz que, no Curry Cabral, para já, não tem falta de material ou de profissionais de saúde, mas antecipa problemas. Lembra que não é fácil encontrar infecciologistas disponíveis — portanto, o problema não está no dinheiro — e que as equipas estão a ficar cansadas. Além disso, um agravamento da situação colocaria problemas sobretudo no tratamento dos casos mais graves, que precisem de cuidados intensivos e ventiladores. “Portugal não estará imune a isso. Se se mantiver a taxa de internamentos como aconteceu na Lombardia, em Itália, pelos menos 12 países da União Europeia vão ver colapsar as suas unidades de cuidados intensivos — Portugal incluído.”

Disse na RTP que as medidas para fazer face ao surto, em Portugal, foram tomadas acompanhando o desenvolvimento da pandemia. Continua a achar que as medidas que Portugal tomou — e está a tomar — são suficientes?
Não há nenhum medidor para avaliar o momento ideal para se introduzirem determinadas medidas — neste caso, as medidas de contenção. O sinal de alarme para se introduzirem estas medidas é quando chegamos ao ponto de não saber quais são as vias de transmissão do vírus entre as pessoas, este é o ponto em que se deve introduzir estas medidas e chegámos a esse ponto. E, portanto, nessa perspetiva, a introdução dessas medidas no nosso país foi feita de uma forma atempada, mas com deficiências. Eu diria até que foram tomadas de uma forma mais precoce do que aquilo que aconteceu noutros países da Europa, nomeadamente a Itália ou até mesmo em Espanha. Nós introduzimos e introduzimos na altura certa. Isto é, estas medidas, habitualmente, não devem ser introduzidas de uma forma aditiva, devem ser todas introduzidas numa forma simultânea, só assim faz algum sentido. Isto não invalida que muitas destas medidas, na sua eficácia e na sua rentabilidade, sejam questionáveis. Muitas delas são questionáveis.

Quais são essas medidas questionáveis?
Relativamente a alguns aspetos do encerramento das escolas, alguns aspetos também da cerca comunitária, como aconteceu em Ovar, em relação em alguns aspetos da quarentena… alguns aspetos destas medidas são questionáveis. De qualquer das formas, são os únicos meios que temos à nossa disposição para tentar conter a transmissão e, por isso, temos de os tentar implementar o melhor possível. Mas estas medidas têm de ter validade e eficácia, caso contrário não servem para nada porque o objetivo é cortar as redes de transmissão. Por exemplo: encerrar escolas no caso da gripe sazonal faz sentido porque são as crianças o principal elo de transmissão do vírus, mas, no caso do coronavírus, não é isso que acontece. Em relação à cerca comunitária, ela só faz sentido de uma forma rigorosa e em conjunto com o isolamento. Se as pessoas continuarem a circular, não faz sentido, e, por isso, digo que não fomos rigorosos nisso, numa tomada de medidas duras em relação à quarentena e isolamento das pessoas. Por exemplo: as pessoas estão autorizadas a sair de casa para fazer exercício ou passear o cão. Se fizerem exercício sozinhas, tudo bem; mas, se fizerem exercício com mais quatro pessoas, esta “quarentena”, entre aspas, não faz sentido. As pessoas têm também autorização para sair de casa para ir ao supermercado, mas, se em vez de irem uma vez forem três vezes por semana, deixa de fazer sentido dizer-se o que se diz em relação à restrição das saídas de casa. Deviam ser tomadas medidas mais duras e restritivas em relação às medidas já implementadas. Agora, penso que nos fomos adaptando às diferentes fases da pandemia, as medidas gerais foram sendo modificadas e adaptadas de acordo com essa evolução e a introdução, na minha opinião e em geral, destas medidas mais radicais foram atempadas, apesar de, num ponto ou noutro, achar que deviam ter sido mais restritivas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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O hospital Curry Cabral está a conseguir responder a este aumento do número de casos? De que maneira?
Estamos a responder aumentando a nossa capacidade de internamento, quer em enfermaria comum quer em internamento em cuidados intensivos. Estamos a alargar o número de camas, prevenindo a necessidade de internar um número crescente de doentes, criando condições de albergar e acomodar esses doentes. Temos pavilhões já de reserva para mais doentes: temos aqui um pavilhão já vazio com capacidade para 36 camas e vamos ter também, nos próximos dias, outro pavilhão com capacidade para mais 40 camas. Temos um outro serviço que também já está completamente esvaziado onde podemos alojar mais 40 doentes e podemos ir até, na melhor ou na pior das hipóteses, até às 300 camas. Além disso, temos também em vista cerca de 26 tendas de campanha que nos vão dar uma capacidade para mais de 200 camas, num projeto da Ordem dos Cavaleiros da Cruz de Malta, que nos vai permitir alojar esses doentes ao abrigo da intempérie dentro do Campo Pequeno.

Estas medidas extraordinárias serão implementadas quando?
Eu espero bem que estas medidas não venham a ser necessárias, sinceramente espero bem que não sejam necessárias, mas duvido. As últimas previsões apontavam para um pico da epidemia para 14, 15 ou 16 de abril, à volta disso. Esperemos que, até lá, consigamos dar resposta às necessidades e que não precisemos deste número tão elevado de camas.

A intenção, portanto, é tornar o hospital Curry Cabral um hospital dedicado?
Exato, um hospital 100% dedicado à Covid-19.

Os outros doentes que estão internados aqui irão para onde?
Estes doentes estão ser redistribuídos por outros hospitais com os mesmos serviços e especialidades em Lisboa.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Mas estão a receber doentes com Covid-19 de outros hospitais por serem um hospital de referência. Esta solução é sustentável para os serviços do Curry Cabral?
É verdade, nós também temos recebido doentes, por sermos um hospital de referência, com prognóstico positivo, de outras zonas do país e hospitais. No entanto, vai sair na próxima quinta-feira uma nova orientação da Direção Geral de Saúde, porque, tendo em conta o número elevado e crescente de doentes, esta norma começaria a ser uma solução insustentável para nós. Essa nova orientação da DGS vai tornar os restantes hospitais autónomos e responsáveis nos cuidados aos seus próprios doentes.

Quantos doentes internados nas enfermarias e nos cuidados intensivos o Curry Cabral tem neste momento?
Neste momento temos internados 22 doentes. Neste exato momento [10h00 de terça-feira, 24 de março], são 22 doentes internados nas nossas enfermarias com diagnósticos confirmados como positivo, embora a meio do dia alguns possam sair e serem acompanhados em casa e outros que poderão ter de ir para os cuidados intensivos. No domicílio temos 85 doentes, que acompanhamos em permanência através de chamadas telefónicas, várias vezes ao dia. Este número, ao final do dia de hoje, deverá ser diferente e deverá, certamente, ser aumentado. Na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) temos 15 doentes, temos as camas todas ocupadas.

Portugal poderá chegar aos números, tanto de pessoas infetadas como de mortes, de Itália ou Espanha?
Tenho esperança de que, com as nossas medidas, esses números não se verifiquem, mas claro que há a possibilidade de Portugal ter, à sua escala, esses números. Isto tudo, claro, se os portugueses não cumprirem as medidas tomadas pelo Governo. Mas há essa possibilidade, claro.

O hospital Curry Cabral, na antiga urgência, está também a realizar testes de despiste ao novo coronavírus. Quantos testes têm capacidade de fazer diariamente?
Nós estamos a fazer uma média de 200 testes por 24 horas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Este número irá crescer ou manter-se, tendo em conta outros centros de rastreio que abriram em Lisboa esta semana?
Acho que estes números têm obrigatoriamente de crescer. Cada vez temos de procurar rastrear mais.

E há capacidade para o Curry Cabral realizar mais testes? Qual é essa capacidade?
Até agora, há — e não temos tido falta de testes. Para já, estamos preparados para fazer os testes que forem precisos, porque não temos falta de testes.

Tanto a Ordem dos Médicos como a Ordem dos Enfermeiros têm denunciado, entre muitas outras coisas, faltas de material e falta de profissionais de saúde. Como é a situação em concreto do Curry Cabral?
Ora bem, a cada dia que passa, todos os profissionais de saúde aqui vão-se sentido cansados. O número de casos tem sido progressivamente maior e o nossos profissionais de saúde vão chegando, para já, mas vão ficando exaustos. O trabalho é muito. Essas criticas em relação à escassez de recursos humanos… obviamente que eu gostaria de ter mais meios humanos a trabalhar comigo, mas, para já, o número que tenho tem sido suficiente para dar resposta. Vamos ver o que é que vai acontecer no futuro. Mas há aqui uma coisa que é importante realçar: é difícil encontrar alguns profissionais de saúde. Infectologistas são muito difíceis de encontrar porque somos muito poucos. Eu tenho autorização e permissão do Conselho de Administração para contratar infectologistas, o problema é que não os há. Em relação à escassez de material técnico, até agora não há escassez, mas é evidente que, se a epidemia se mantiver nestes valores — e se, em Portugal, acontecer o mesmo que aconteceu em Itália e está a acontecer em Espanha —, os recursos humanos e técnicos vão-se tornar muito diminutos, é natural que os serviços de saúde se tornem incapazes de dar resposta e que as unidades de cuidados intensivos colapsem. Todos os países com esta taxa de infeção e mortalidade vão sentir grandes dificuldades, caso de Portugal também. Portugal não estará imune a isso. Se se mantiver a taxa de internamentos como aconteceu na Lombardia, em Itália, pelos menos 12 países da União Europeia vão ver colapsar as suas unidades de cuidados intensivos — Portugal incluído. As únicas armas que temos neste momento para combater este surto é pedir às pessoas que se isolem e fiquem em casa, de modo a prevenir ao máximo os casos que precisem de internamento e de cuidados intensivos — que, em consequência, precisem de utilizar ventiladores —, de modo a prevenir ao máximo que se esgotem esses recursos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Na noite passada o primeiro-ministro António Costa dizia que Portugal iria enfrentar um “tsunami” e que não haveria boias que nos salvassem desse “tsunami”. Concorda com estas palavras?
Esta expressão não é exclusiva e da autoria do nosso primeiro-ministro. Esta expressão “tsunami” foi de uma colega minha, uma médica italiana, quando se viu confrontada com o dilema de ter de ventilar doentes e não ter ventiladores disponíveis. Eu não sei se isto será um “tsunami”, é seguramente uma pandemia, uma pandemia com aspetos de grande gravidade, não tanto pelas consequências clínicas, mas mais pelo grau de transmissibilidade e pelos números que vai atingir. É muito grave pelas suas consequências sociais e económicas, mas, os que sobrevivermos, iremos com certeza sair desta pandemia mais solidários, mais amigos e mais leais.

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