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No lado dos produtos que encareceram, o destaque são os bens hortícolas, que viram o preço para o consumidor subir 7,72%, em média, em abril depois de uma queda de 1,72% em março

JOSÉ COELHO/LUSA

No lado dos produtos que encareceram, o destaque são os bens hortícolas, que viram o preço para o consumidor subir 7,72%, em média, em abril depois de uma queda de 1,72% em março

JOSÉ COELHO/LUSA

Produtores estão a vender mais barato, mas preços não descem para o consumidor. Distribuição recusa estar a subir margens de lucro /premium

Em abril quase todas as categorias de bens alimentares ficaram mais caras para o consumidor. Mas os produtores estão a vender mais barato. Distribuição nega subida da margem de lucro.

Com o encerramento dos restaurantes, hotéis e cafés durante grande parte do mês de março e todo o mês de abril devido ao Estado de Emergência, os produtores agrícolas viram-se a braços com um excesso de produção que não conseguiram escoar para aquele que era um dos maiores destinos da produção. A solução foi baixar o preço, na esperança de se verem livres do produto. Porém, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), esta redução para o produtor não está a refletir-se necessariamente nos preços finais para o consumidor.

Segundo o INE, em abril, todas as categorias de produtos alimentares aumentaram de preço, exceto a do “açúcar, confeitaria, mel e outros produtos à base de açúcar”, que caiu, em média, 2,05%, e as bebidas alcoólicas, cujo preço desceu 1,9%, com destaque para a cerveja (-4,46%) e o vinho (-1,59%). No lado dos produtos que encareceram, o destaque são os bens hortícolas, que viram o preço para o consumidor subir 7,72%, em média, em abril depois de uma queda de 1,72% em março (em abril de 2019, tinha descido 0,27%). E nas frutas, a subida foi de 1,56%, após uma redução de 0,94% em março (em abril do ano passado o preço tinha caído). Estes dados são especialmente relevantes numa altura em que os produtores agrícolas nacionais se queixam de dificuldades no escoamento dos produtos — alguns tiveram de os destruir — e da descida dos preços a que têm de vender a produção.

O peixe também continua a tendência de subida para o consumidor (3,61% em abril, enquanto que no mesmo mês do ano passado, o preço tinha baixado 0,48%). Mas há pescadores a queixarem-se de estarem a vender o produto, nalguns casos, a metade do preço.

A evolução dos mesmos preços em igual período de 2019:

Ao Observador, a grande distribuição rejeita que daqui se possa concluir que as superfícies comerciais estão a aumentar a margem de lucro. E diz que os dados do INE podem refletir o facto de Portugal continuar a importar muita produção, nomeadamente de Espanha, que encareceu, designadamente, devido aos constrangimentos com o transporte durante as piores semanas da pandemia. Só que o Governo tem elogiado os retalhistas por estarem a incentivar o consumo de produtos nacionais.

Aquilo que nós temos visto é, por exemplo, várias campanhas nas grandes cadeias de aquisição de produtos nacionais, locais, e com promoções”, disse a ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, em entrevista ao Negócios e à Antena 1.

O que diz cada um dos lados? E, afinal, como evoluíram os preços durante o isolamento? E como estão os diferentes setores a reagir?

Grande distribuição recusa que margens de lucro tenham aumentado

Ao Observador, Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), recusa que a distribuição esteja a aumentar margens de lucro. O responsável diz ter indicação, tanto da ASAE, como do Ministério da Economia (que não respondeu às questões levantadas pelo Observador), de que “o cabaz de preços selecionados se tem mantido estável“. Lobo Xavier diz que há produtos que tiveram aumentos mais expressivos “na ordem dos 30 ou 40%, não por aumento da margem por parte da distribuição, mas por o seu custo no produtor ter subido, nomeadamente nos produtos que tiveram de ser importados por incapacidade da cadeia de abastecimento em Portugal”, que não é autossuficiente nalguns bens como os alhos, as cebolas e os pimentos.

Esse aumento deveu-se, explica, “à escassez” de alguns produtos e aos “ajustamentos” da pandemia, nomeadamente nos transportes — “houve um período muito difícil, nas primeiras quatro semanas, em que teve de haver uma série de ajustamentos”. Por outro lado, garante, a informação do Ministério da Economia é a de que houve diminuição de alguns preços de hortifrutícolas. “No cabaz médio as coisas ficaram estabilizadas”, sublinha.

Gonçalo Lobo Xavier acrescenta que o efeito da descida dos preços aos produtores nacionais não é imediata. “Numa semana comprar alfaces mais baratas não quer dizer que a descida seja imediata. É uma questão progressiva.” Além disso, “os custos fixos da operação — logística, transporte, os recursos humanos, o embalamento — mantiveram-se ou até aumentaram por causa dos níveis de segurança (tivemos de adquirir álcool, gel, equipamentos de proteção individual)”. Mesmo assim, “a margem da distribuição manteve-se baixa”, diz, acrescentando que “é um mito” dizer-se que a distribuição fica “com a maior margem do produto” — este valor, diz, está nos 2%/3%. “A distribuição não aumentou a sua margem e está a adaptar-se a esta nova realidade”, frisa.

No primeiro relatório sobre a aplicação do Estado de Emergência (referente ao período de 19 de março a 2 de abril), a única referência do Governo — que criou um grupo de acompanhamento da cadeia de abastecimento com diversas organizações representativas, como a APED — aos preços é em relação à carne de frango, que sofreu “oscilações na procura e no preço, uma vez que os consumidores desequilibraram o abastecimento entre semanas”. Já no relatório sobre o segundo Estado de Emergência, o Executivo escrevia que, entre 3 a 17 de abril, “não se registaram acréscimos significativos” de preços nos bens alimentares.

Por outro lado, em entrevista ao Negócios e à Antena 1, esta semana, a ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, disse que “há setores nos quais se notaram diversas oscilações ao longo destes dois meses”. Se, numa fase inicial, houve uma “procura inusitada que levou inclusivamente a algumas quebras de stocks”, “rapidamente” se recuperou a estabilidade. “Aquilo que temos vindo a sentir é que há uma oscilação de preços, mas não é ainda significativa”, adiantou, acrescentando que “é inevitável que o preço [dos produtos agrícolas] baixe“. A governante diz que o Executivo tem feito um trabalho de “sensibilização do retalho para a aquisição de produtos nacionais”. “Aquilo que nós temos visto é, por exemplo, várias campanhas nas grandes cadeias de aquisição de produtos nacionais, locais, e com promoções.”

Ao Observador, a Auchan garante que 88% dos produtos que vendem são comprados a fornecedores portugueses e que as margens percentuais se mantêm “estáveis, pelo que a evolução dos preços de venda acompanha a evolução dos preços de compra”.

O Continente, por sua vez, diz estar “a aumentar as compras [a produtores nacionais], de um modo transversal, em todas as categorias”, como a carne, frutas e legumes”. “Neste período do ano, a produção nacional tem uma presença relevante nas lojas, em especial em frutas, legumes, peixe e carne fresca”, afirmou fonte oficial, que não refere a percentagem de produtos portugueses vendidos.

Sobre os preços, refere apenas que sofreram “ligeiros aumentos” nas primeiras semanas de confinamento, “que acabam por se refletir no preço de venda ao consumidor, tracionados pelo aumento da procura”. “Esta situação tem vindo a ser regularizada, com a adaptação dos produtores nacionais a referenciais novos de produção: em quantidade, em qualidade e no seu preço unitário”, adianta. Já o Pingo Doce não respondeu às perguntas colocadas pelo Observador.

Se os preços no produtor estão, então, a baixar, sem um reflexo no consumidor, para onde está a ir a margem de lucro? Qual o entendimento do Governo aos números do INE? O Observador pediu esclarecimentos à secretaria de Estado do Comércio, mas não obteve resposta.

Governo avalia antecipação de pagamentos aos agricultores mais afetados

Primeiro foi o pânico…

É a lei da oferta e da procura: quando o consumo (seja nos supermercados, nos hotéis ou nos restaurantes) se retrai, e a produção se mantém constante, torna-se difícil o escoamento dos produtos. Como resposta, os produtores são obrigados a vendê-los a um preço mais baixo — na tentativa de, assim, estimular a procura. A lógica inversa aplica-se quando o consumo aumenta repentinamente: à falta de bens para fazer face à procura, os produtores aumentam o preço — porque sabem que os consumidores estarão disponíveis para pagar esse montante. Agora, é aplicar esta lei à pandemia da Covid-19, que influenciou de duas formas muito distintas a cadeia de abastecimento — e prepara-se para uma terceira, que os produtores acreditam ser a da normalização.

O primeiro caso de infeção com o novo coronavírus foi oficializado a 2 de março. Os dias seguintes foram de novas confirmações e, em poucos dias, gerou-se a incerteza — nalguns casos o pânico — nos consumidores. O resultado foi uma corrida aos supermercados para encher a despensa. Segundo dados da consultora Nielsen, na semana de 9 a 15 de março, os portugueses acorreram aos supermercados em busca de produtos que pudessem armazenar facilmente: as compras de conservas quase quadruplicaram (subiram 288%) face à mesma semana de 2019, dos instantâneos aumentaram 123%, dos congelados, 115%. Também a febre do papel higiénico foi cedo visível em Portugal, com a procura a subir 229%, seguida pelos lenços, rolos e guardanapos (163%) e produtos para roupa, loiça e limpeza do lar.

Nesta primeira fase, de acumulação de produtos em casa, os preços de alguns produtos, como a carne de frango, subiram, devido à forte procura (este produto é facilmente cozinhado em casa, onde permaneceram milhares de portugueses). Marinela Lourenço, presidente da Associação de Comerciantes de Carne do Concelho de Lisboa e Outros, estima ao Observador que o preço da carne de aves tenha subido cerca de 30% nas duas primeiras semanas de março face ao mesmo período de 2019 porque a procura aumentou “substancialmente”. Pelo menos nos talhos de rua, aos quais muitos afluíram para fugir aos aglomerados nas grandes superfícies, ou para contornar os tempos de espera elevados (nalguns casos chegou a um mês) nas compras online. “Nas duas primeiras semanas de março, foi uma coisa fora de série. Mesmo após esse período, o aumento da procura foi de 30%”, contabiliza. Já na Páscoa, “o borrego e o cabrito esgotaram em absoluto”. Marinela Lourença fala agora numa “normalização” da cadeia de abastecimento que acompanha.

A visão do Governo para o período recente é outra, e segundo o Relatório Semanal de Acompanhamento dos Mercados do Setor da Agricultura (Covid-19), do Ministério do Mar e do Ministério da Agricultura, a “situação de mercado do frango mantém-se crítica, uma vez que a oferta continua a aumentar e a procura é fraca“.

Os frangos que não saíram dos pavilhões nas últimas semanas estão a crescer e têm de ser abatidos para entrarem novos pintos, mas a capacidade de congelação está saturada. Os operadores estão a colocar menos pintos para diminuir a produção. Por outro lado, a abertura de algumas churrasqueiras veio aumentar um pouco a procura de frango para churrasco”, nota o governo. Como resultado, tem-se observado uma descida das cotações de frango para o produtor.

… Depois a queda na procura

Depois da acumulação de produtos nas despensas, assistiu-se a uma certa estabilização das compras de bens alimentares pelos consumidores, com algumas oscilações nas frutas, legumes e carne, segundo os dados da Nielsen.

E o que diz o Governo? Após a afluência aos supermercados nos períodos que antecederam o Estado de Emergência, o Executivo notou, entre 19 de março e 2 de abril, uma diminuição na procura de produtos de “valor acrescentado”, sobretudo os lácteos, como os queijos, produzidos a partir de leite de cabra e de ovelha” e uma quebra na venda de leitões devido ao encerramento de restaurantes na especialidade. Nas frutas e hortícolas, o mercado funcionou “de forma estável”, à exceção de produtos mais perecíveis, como os frutos vermelhos. Já o setor do vinho “desde logo, sinalizou o impacto negativo nas vendas”.

O segundo relatório, de 3 a 17 de abril, já falava em “excesso de oferta, potencial ou efetivo, identificado em diferentes atividades económicas”. O destaque, desta vez, ia para o pescado fresco, cujos estabelecimentos se mantiveram em atividade, mas registaram “quebras em volume e em valor na ordem dos 35%, causadas essencialmente pelas dificuldades de escoamento, derivadas do encerramento dos estabelecimentos de hotelaria e restauração”. As exportações “têm sido gravemente afetadas” devido à situação de dois dos principais mercados de destino: Espanha e Itália.

Ao Observador, fonte oficial do Ministério da Agricultura acrescenta que o encerramento do canal Horeca (acrónimo de hotéis, restaurantes e cafés) “determinou o afunilamento para os supermercados, devido, sobretudo, ao aumento das refeições em casa” e ao encerramento de mercados locais ou feiras. E frisa que, perante as pressões sobre a procura, os mercados agrícolas sofreram algumas variações de preços — umas “mais conjunturais”, outras com uma “tendência mais estrutural”.

Quando os restaurantes fecham, o produtor é que paga

João Bastos, secretário-geral da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS), nota que o consumo de leitões tem sido, “desde o início” da pandemia, a principal preocupação do setor. E a razão é o encerramento dos restaurantes, sobretudo os especializados no leitão. Com os restaurantes fechados, e muitos partos programados, antes da pandemia, para o período da Páscoa, a solução passou pela engorda (o que não é viável para algumas raças) ou a congelação que, porém, “tem custos”. Além disso, há matadouros a chegarem à  capacidade máxima de armazenamento, o que os levou a reduzirem os dias de laboração — de 5 dias para 3 ou 4.

Para fazer face aos custos com o armazenamento, a FPAS já pediu medidas de intervenção ao Ministério da Agricultura a dois níveis: um apoio ao armazenamento de 40 euros por leitão; ou uma ajuda financeira direta aos produtores, “uma modalidade que é menos comum”. Se numa primeira fase ainda tiveram “esperança de que no segundo pacote de ajudas” europeus surgissem apoios, já receberam do secretário de Estado da Agricultura, Nuno Russo, a informação de que “não seria opção do Governo português pedir a Bruxelas o apoio à stockagem privada dos leitões“. Em vez disso, o governante sugeriu que os animais pudessem ser exportados. Mas a solução não convence os produtores.

Não é uma opção viável porque não podemos exportar o leitão como o consumimos aqui. Não pode ser exportado com extremidades — cabeça e as patas — o que, em termos de apresentação, desvaloriza bastante. O que é oferecido como preço pelo leitão acaba por não ser viável. Mais vale congelá-lo e tentar vender mais para a frente“.

Porém, quando o leitão regressar ao mercado, diz João Bastos, haverá uma “dupla depreciação” para os produtores: por um lado, porque serão preteridos face aos leitões frescos; por outro lado, porque houve prejuízo para quem suportou a congelação.

No que toca à restante carne de porco, a procura “tem sido atípica”. Antes da semana do decreto presidencial (anunciado dia 18 de março), “houve um aumento do número de abates porque se deu uma afluência muito grande aos supermercados”. Na semana de 18, os abates terão crescido em 30% face a semanas anteriores; na que se seguiu ao decreto, a subida foi de 11%. Em abril, a situação mudou drasticamente e João Bastos diz que contabiliza que nesse mês, tenham ocorrido menos 50 mil abates de suínos do que no mesmo mês do ano passado, como resultado da pouca procura — também aqui por via do encerramento do canal Horeca, que é dos principais destinos da produção. Nem o aumento esporádico da procura nos supermercados foi capaz de compensar essas perdas. Como consequência, o preço “tem sido sistematicamente revisto em baixa para os produtores“.

Em abril fizeram-se menos 50 mil abates de suínos do que no mesmo mês do ano passado

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“As famílias que estão em casa não vão fazer bife do lombo, procuram outro tipo de carnes. As pessoas quando iam para o trabalho comiam numa cantina ou num restaurante perto. Agora estão em casa, simplificam e fazem outro tipo de alimentação”, arrisca, por sua vez, Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP).

A piorar a situação para o setor da carne estiveram os constrangimentos nas exportações para a China, que reteve contentores durante semanas, em março, e para Angola — o segundo cliente de Portugal, mas muito dependente do preço do petróleo, que chegou a ser negociado a valores negativos a 20 de abril. As vendas para a China já foram, entretanto, retomadas, e depois de uma fase em que os produtores europeus se viram obrigados a baixar os preços (para poderem competir com os EUA), a situação já “normalizou”. Até porque alguns dos principais matadouros norte-americanos estão a ser afetados pela Covid-19 e a encerrar temporariamente. “Neste momento, para o mercado de exportação, é uma excelente altura para os produtores europeus.”

Mas sem turismo, restauração e hotelaria, a procura continua a descer. Carlos Ruivo, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes (APIC), acrescenta que a “pior semana de abates, desde o início do ano” foi a de 17 de abril, quando foi renovado o Estado de Emergência.

O facto de Portugal ter continuado a comprar carne a Espanha, mais barata, também não ajudou, quando, garante Carlos Ruivo, “a produção em Portugal era capaz de responder à procura, que diminuiu”. “Numa situação de pandemia onde há um canal de comercialização que fecha, o Horeca, supostamente a produção nacional devia dar, porque esse canal tem um peso significativo no mercado. Mas verificamos que a carne importada não reduziu na mesma proporção“. O resultado tem sido uma quebra dos preços ao consumidor: que estima Carlos Ruivo, terá passado de 1,5 euros, em média, por kg de animal vivo, para 1,4 euros, no espaço de uma semana.

Os dados do INE não revelam, porém, que essa queda se esteja a repercutir nos consumidores. Em abril, a carne subiu 1,80%, depois de ter subido 0,64% em março (acima do mesmo período do ano passado).

“Numa situação de pandemia onde há um canal de comercialização que fecha, o Horeca, supostamente a produção nacional devia dar, porque esse canal tem um peso significativo no mercado. Mas verificamos que a carne importada não reduziu na mesma proporção."
Carlos Ruivo, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes (APIC)

Em maio, com a reabertura dos restaurantes marcada para dia 18, a expetativa é de “alguma retoma no consumo, mas não para níveis de 2019”, diz João Bastos.

Na agricultura, alguma produção teve de ser destruída. E os frutos vermelhos estão a ser doados

O cenário que Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), pinta sobre o impacto que o novo coronavírus está a ter na agricultura está longe de ser positivo. E a grande fonte da preocupação continua a ser o encerramento dos restaurantes e hotéis, para onde o setor agrícola escoa grande parte da produção.

Só na Europa, quantos milhões de turistas não estão cá? Isso tem um impacto muito grande. Todo esse consumo não está a existir. E a natureza tem um pormenor que uma fábrica não tem: é que não tem nenhum botão para desligar. As vinhas continuam a produzir, as macieiras continuam a ter as mesmas maçãs…”

No vinho, as exportações já caíram na ordem dos 50%, e apesar de um aumento do consumo em casa, o encerramento do canal Horeca deixou os produtores com poucas opções: os que vendem vinhos brancos e verdes “ou os vendem agora ou, como têm colheita outra vez dentro de dois meses, não vão conseguir vender o vinho do ano passado porque já está mais oxidado”.

Além disso, defende Luís Mira, o produto “só vai conseguir sair do mercado com uma intervenção por parte da Comissão Europeia“, dado que a Política Agrícola Comum (PAC) só possibilita a Bruxelas intervir no mercado. “Portugal se quiser fazer intervenção no mercado para retirar 500 milhões de litros de vinho, não pode.” Bruxelas tem em linha de espera vários regulamentos com mecanismos de intervenção. No caso do vinho há a possibilidade de:

Destilar o vinho, ou seja, transformá-lo em álcool;

Apoio à armazenagem ao produtor;

Destruir 50% dos cachos para não ter produção excessiva. Nestes casos, o produtor recebe uma compensação. Luís Mira dá o exemplo do leite, em que uma intervenção no mercado permite fazer leite em pó. “O objetivo do mecanismo de intervenção é estabilizar o preço e não permitir que os preços caiam tanto e que levem à falência das explorações”, defende.

Esta terça-feira, durante uma reunião com o setor, Maria do Céu Albuquerque avançou que “10 milhões de euros do Plano Nacional de Apoio (PNA), dedicado ao setor vitivinícola, vão ser utilizados em medidas para minimizar os efeitos da pandemia”. Entre as medidas estão a destilação e armazenagem de crise.

Nalguns produtos, como os hortícolas, a procura desceu tanto, que a solução foi destruir a produção. “Se eu tiver carne, posso congelar, embora isso custe dinheiro. Mas com as hortícolas não dá para isso. Consigo guardar durante dois ou três dias, numa semana no máximo, mas depois tenho de vender”. Sem o consumo advindo dos restaurantes, as alfaces, já plantadas, “não têm outra solução. É destruí-las“. Para adaptar a produção à procura, os produtores estão a diminuir a plantação. Mas se a alface tem um ciclo mais curto — e essa redução pode começar já a ser feita — “o mesmo não acontece com a vinha, nem com as maçãs ou peras, que produzem uma vez por ano”.

Luís Mira, secretário-geral da CAP (à dir.), ao lado do ex-ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos

Manuel Almeida/LUSA

Depois há o caso dos frutos vermelhos, que são sobretudo consumidos em restaurantes e hotéis. A quebra no consumo foi “muito grande”. “Quem é que vai comprar agora mirtilos ou framboesas? Ninguém: até porque são frutas que duram muito pouco, a pessoa vai uma vez de 15 em 15 dias ao supermercado, não vai trazer uma fruta que passado dois dias está podre.” Os preços ao produtor caíram de tal forma que o Governo foi autorizado a intervir no mercado: os produtos são doados a estabelecimentos prisionais ou a instituições de caridade, como os bancos alimentares, e a Comissão Europeia comparticipa com 40% do preço. “É preferível ser só 40% do que nada”, retorque Luís Mira.

Observam-se, porém, outras tendências. Segundo relata o Público, a laranja do Algarve triplicou de preço, como resultado da forte procura. Razão? Uma maior perceção pública de que a vitamina C pode ser um anti-inflamatório natural que ajuda o organismo a responder ao vírus.

"Só na Europa, quantos milhões de turistas não estão cá? Isso tem um impacto muito grande. Todo esse consumo não está a existir. E a natureza tem um pormenor que uma fábrica não tem: é que não tem nenhum botão para desligar."
Luís Mira, secretário-geral da CAP

Já frutas “mais exóticas” como as mangas ou os abacaxis estarão a ser menos importadas — precisamente porque eram consumidos “maioritariamente em restaurantes”. Luís Mira acrescenta que muita dessa produção chegava a Portugal em voos comerciais, que deixaram de se realizar com a mesma frequência. Outra parte chegava de barco — que, depois de descarregados em Portugal, voltavam ao local de origem com pêra rocha. “Se agora há uma quebra na importação de manga, isso vai refletir-se na capacidade de exportação de produtos que iam para lá na viagem de regresso do contentor.”

A abertura dos restaurantes no dia 18 vai ajudar os produtores, acredita, mas “sabemos que não vai ser de um dia para o outro.”

Procura por alguns peixes caiu 70%. Sardinha “não vai faltar” e até pode chegar mais barata

Humberto Jorge, presidente da Associação Nacional das Organizações de Produtores da Pesca do Cerco (Anopcerco), nota que o impacto da Covid-19 “não foi igual em todas as pescarias”. As mais prejudicadas foram os peixes mais caros, “mais nobres”, como o robalo, cherne, pargos, linguados e salmonetes — cerca de 70 a 80% destas espécies tinha como destino a restauração. Nestes casos, a procura caiu cerca de 50% e, nalguns casos, atingiu os 70% face a período homólogo de 2019. “O que acontece é que apesar de as espécies atingirem preços mais baixos, as famílias não estão habituadas a comprar estes peixes e por e simplesmente não os procuram”, explica. Na última semana, adianta, têm-se registado melhorias, mas ainda “longe dos preços médios para estas espécies”. Já as espécies para “consumo em casa”, mais baratas, como o carapau, polvo ou a cavala, foram “pouco afetadas”.

As quedas dos preços pagos aos pescadores caíram, nalguns casos, a pique. Por exemplo, “o peixe galo, que andava nos 16 ou 18 euros por kg, agora anda a 7 ou 8. A pescada grande estava entre 10 a 12, agora encontra-se a 5, 6 ou 7 euros no máximo. O linguado vendia-se a perto dos 20 euros por kg, agora abaixo dos 10.”

Mas não está tudo perdido: a pandemia tem trazido mais vendas diretamente na lota e há “pequenas peixarias a entregar peixe em casa das pessoas. Nas grandes superfícies também começou a entrar mais, mas não ao mesmo preço“.

Para evitar uma acumulação do pescado, os pescadores reduziram “substancialmente a oferta”. Alguns preparavam-se para inciar a atividade em abril, mas “com todos estes receios e dúvidas acabaram por não o fazer”. “Estamos a falar de embarcações com vários tripulantes, com receio de contágio”, diz Humberto Jorge. A frota prepara-se para reiniciar atividade nas últimas duas semanas deste mês, precisamente o período para o qual está prevista a reabertura dos restaurantes. Em junho, as restrições à pesca da sardinha são levantadas e Humberto Jorge garante: “A sardinha não vai faltar e vai haver com regularidade e abundância“. A procura, estima, “não vai ser tão grande como em anos anteriores” — “não temos cá os turistas, nem os Santos Populares, que eram o símbolo da abertura da época da sardinha, se calhar não vamos ter tantos emigrantes”.

Este ano, julgo que os portugueses não vão deixar de comer sardinha, espero bem que o façam, e que possam até libertar muitas das angústias que viveram nestes últimos meses, ao saborear a nossa sardinha. O problema é que essa boa vontade dos portugueses pode não chegar para escoar o que vamos capturar de forma regular.”

Humberto Jorge prevê uma quebra do preço da sardinha, pelo menos numa primeira fase

FERNANDO VELUDO/LUSA

Os produtores vão tentar encontrar um equilíbrio entre oferta e procura para não terem produto em excesso, mas antecipam uma “quebra no preço médio, pelo menos na primeira venda em lota“. “Até porque em anos anteriores vivemos circunstancias excecionais em que o preço médio foi bastante elevado devido às fortes restrições que tivemos e a uma procura superior à oferta”.

Nos queijos, a exportação foi a “salvação”. “Todas as migalhinhas são boas para nós”

Nos queijos, a procura ressentiu-se, nomeadamente nos curados de ovelha e cabra, tendencialmente mais caros e consumidos em “ocasiões especiais“. “Mesmo assim estamos a produzir mais do que as vendas, estamos a stockar muito produto”, explica João Santiago, CEO dos Queijos Santiago. Porquê esta opção? A resposta está nos queijos frescos, cuja procura também caiu “significativamente” — “é um produto perecível”.

Como são de rápido consumo, a empresa teve de reduzir a produção — e pediu aos produtores de leite com quem trabalha para que reduzissem a quantidade de leite produzida, pagando o mesmo do que antes da pandemia. Só que, “como estamos a produzir menos queijo fresco, sobra mais leite, pelo que produzimos mais do curado, que pode ser armazenado”. O armazenamento dos queijos curados ainda não é um problema, diz João Santiago. “Mas a continuar assim, vai ser.”

A produção dos dois tipos de queijo caiu entre 8 a 10% e as vendas cerca de 36% em março face ao mesmo mês do ano anterior, e 30% em abril (também face a abril de 2019). As exportações foram “a sorte” do setor. “Não tivemos problemas e continuámos a exportar para a Europa: Grécia, Polónia, Chipre, Reino Unido e Hungria. Foi a nossa sorte. Ajudou… neste momento, todas as migalhinhas são boas para nós.”

João Santiago adianta, por sua vez, que as grandes superfícies “têm ajudado”, ao dar mais exposição aos queijos regionais.

O setor dos queijos não é, porém, dos mais afetados. Segundo o relatório do Governo sobre os mercados produtores, em abril os preços médios do queijo flamengo subiram 2,8%, da manteiga 0,9% e do leite em pó inteiro 0,8% face ao mês anterior, “enquanto os do leite em pó desnatado (-2,5%) e do soro de leite em pó (-1,6%) sofreram um ligeiro decréscimo”.

Já o preço do leite na produção, em março – adquirido a produtores individuais – “manteve-se estável em relação ao mês anterior (30,41 para 30,40 EUR / 100 kg)”, apesar de uma descida no continente (-0,1%, de 31,17 para 31,13 EUR / 100 kg), compensada com uma ligeira recuperação nos Açores.

Porém, para o consumidor, segundo o INE, a categoria “leite, queijos e ovos” encareceu, em abril, na ordem dos 1,74%, uma tendência de subida que já vinha de março.

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