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O ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz (D), acompanhado pelo presidente da Câmara Municipal do Entroncamento, Jorge Faria (E), pela secretária de Estado das Infraestruturas e Habitação, Patrícia Gonçalves Costa (C), preside à cerimónia de entrega de novas habitações atribuídas por sorteio em arrendamento acessível, financiadas pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no Entroncamento, 01 de agosto de 2024. PAULO CUNHA/LUSA
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▲Miguel Pinto Luz e, atrás, a secretária de Estado da Habitação, Patrícia Gonçalves Costa, apresentaram as alterações propostas a um pequeno grupo de jornalistas na quinta-feira.

PAULO CUNHA/LUSA

▲Miguel Pinto Luz e, atrás, a secretária de Estado da Habitação, Patrícia Gonçalves Costa, apresentaram as alterações propostas a um pequeno grupo de jornalistas na quinta-feira.

PAULO CUNHA/LUSA

Projeto na mão, avisar a câmara e começar a construir casas em oito dias. Governo quer simplificar o simplex

Pouco mais de dois anos após a aprovação do "Simplex urbanístico", pela mão do PS, Miguel Pinto Luz pede autorização ao parlamento para resolver aquilo que, diz, o simplex não resolveu. E foi muito.

As rendas até 2.300 euros apoiadas no IRS dos senhorios e a dedução fiscal maior para os inquilinos concentraram as atenções na quinta-feira, entre as medidas decididas pelo conselho de ministros. Mesmo na área do estímulo à construção (a valores “moderados”), o foco esteve no IVA a 6%, pelo que poucas atenções sobraram para as alterações profundas que o Governo quer fazer no regime jurídico da urbanização e edificação – mais conhecido pela sigla RJUE – que ainda há dois anos foi drasticamente modificado com o chamado “Simplex urbanístico”. Para Pinto Luz, há que simplificar o simplex.

No comunicado do conselho de ministros desta quinta-feira, confirma-se que o Governo vai entregar uma “proposta de lei de autorização legislativa” sobre este tema – ou seja, quer-se a autorização da Assembleia da República para produzir legislação que irá alterar o Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação (RJUE). Este é um processo que, ainda mais com a iminente negociação orçamental, deverá demorar mais alguns meses a produzir efeitos – e até pode nem sair do papel, se a Assembleia da República não der ao Governo a autorização de que precisa para avançar com a legislação efetiva.

O principal objetivo é acelerar o licenciamento, para que a promoção (privada) ganhe ritmo, explicou a secretária de Estado da Habitação, Patrícia Gonçalves Costa, que, ao lado do ministro das Infraestruturas e Habitação apresentou a um pequeno grupo de jornalistas as linhas gerais do anteprojeto legislativo em que o Governo está a trabalhar. Miguel Pinto Luz resumiu tudo numa palavra: a ideia é trazer mais “higiene” para o processo de licenciamento camarário – sendo certo que, na opinião do ex-vice-presidente da câmara de Cascais, uma boa parte do problema dos atrasos no licenciamento não está nas câmaras mas, sim, no Estado central.

Governo lança “política de choque” com “rendas moderadas” até 2.300 euros, mas rejeita que seja “apoio aos ricos”

Um dos pontos principais onde o Governo quer fazer mudanças é na chamada “comunicação prévia“, que tem sido – desde o Simplex urbanístico – um procedimento que “gerou alguma confusão” nas câmaras municipais sobre a forma como lidar com essa questão. Agora, indicou a secretária de Estado, o Governo quer “deixar mais claro que a comunicação prévia é entendida mais uniformemente” como uma comunicação ao município onde o promotor fica responsável pelo cumprimento das normas urbanísticas.

Na prática, o que vai mudar, se os planos forem aprovados, é que poderá ser possível iniciar uma obra em cerca de uma semana, sem estar à espera (muito tempo) da câmara. “A ideia é que se consiga começar a construir em oito dias, porque o promotor comunica, faz a auto-liquidação das taxas e avança para a construção”, referiu Patrícia Gonçalves Costa, argumentando que o conceito do “deferimento tácito” não trouxe à construção o impulso que o Simplex (de 2023) lhe quis dar.

A lei atual já prevê esse deferimento tácito – em que as câmaras têm um prazo para responder mas, na ausência de resposta, presume-se uma aprovação. Mas, muitas vezes, “as câmaras conseguem na mesma meter os projetos na gaveta, desde logo porque não emitindo a guia [para o pagamento das taxas], o processo podia não avançar”, afirmou Pinto Luz. “Claro que indo para tribunal… [a pessoa pode ter razão], mas está a ver o que é ir para tribunal por uma coisa destas?”, questionou.

Câmaras passam a ter apenas um ano para avaliar obra (depois de feita)

Outra mudança potencialmente importante é que o município, a partir do momento em que recebe a documentação e a comunicação, pode avançar para a sua análise do processo. Mas passa a ter apenas um ano, e não os atuais 10 anos, para verificar o cumprimento do projeto.

O momento-zero desses 12 meses é quando a casa acabou de ser construída e está pronta a utilizar, explicou a secretária de Estado da Habitação, Patrícia Gonçalves Costa, sublinhando que isso não impede que as “câmaras, em qualquer momento, fiscalizem aquilo que está edificado no território”.

Mas quer-se eliminar um prazo pós-construção que é, na ótica deste Governo, demasiado longo. “Quem constrói não pode estar 10 anos apertado no pescoço a pensar ‘será que eu fiz tudo bem? Será que está tudo de acordo?’, indicou Miguel Pinto Luz. O ministro sublinhou que a câmara, na prática, tem dois ou três anos para fiscalizar porque não tem de esperar que a obra fique terminada (o tal momento-zero) para “acompanhar” o que está a ser feito (e construir demora entre um a dois anos, tipicamente).

Patrícia Gonçalves Costa

▲ Patrícia Gonçalves Costa diz que o Governo fez uma "grande auscultação" a quem está no terreno.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

E até que ponto é que as câmaras vão conseguir acompanhar, nessa nova realidade que o Governo quer instaurar? O governante reconheceu que as câmaras vão ter de se “adaptar” a essa nova realidade, mas “o contrato de confiança entre os privados e quem decide tem de ser restabelecido”.

Isto porque, diz Pinto Luz, neste momento existe, “como toda a gente sabe, um poder discricionário nas câmaras, que por vezes demoram cinco anos a decidir alguma coisa, metem coisas ‘na gaveta’, ao passo que outras são aprovadas muito rapidamente… Qual é o critério?”. No novo enquadramento, caso seja aprovado, passa a haver mais “higiene” nestes processos e deixa de haver “procedimentos dilatórios” por parte das câmaras, referiu o ministro.

"Quem constrói não pode estar 10 anos apertado no pescoço a pensar 'será que eu fiz tudo bem? Será que está tudo de acordo?'
Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e Habitação

Em entrevista ao jornal Eco, publicada nesta sexta-feira, Miguel Pinto Luz deu a entender que a governação de António Costa, que apresentou o chamado “Simplex Urbanístico” em 2023, falhou porque caiu na “análise simplista de que o problema [dos atrasos nos licenciamentos] está nas câmaras municipais”.

O ministro, que antes de ir para o Governo era autarca, considera que essa é uma perceção “injusta“. “Um grande culpado dos atrasos dos licenciamentos em Portugal é o Estado Central – são processos de licenciamento que entram nas câmaras e, depois, os pareceres de várias entidades do Estado Central não correspondem à velocidade de licenciamento que queríamos”, explicou, dando como exemplos a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), “entre outros, [como] as comissões de coordenação”.

Governo diz ter feito “grande auscultação” a quem está no terreno

Depois de uma “grande auscultação” a quem está no terreno, o Governo indicou nesse encontro com jornalistas, na quinta-feira, que vai querer, também, “assegurar os títulos, que são uma garantia que a banca precisa e que os notários precisam”.

“Desenhámos um requerimento diferente, em que no requerimento há uma síntese da operação urbanística, que deve ser preenchida pelo arquiteto (com todos os parâmetros urbanísticos identificados e com todos os pareceres que estão anexos ao processo) e este documento viabiliza o deferimento tácito – cuja definição é outro problema que temos que é a forma de contabilizar [o tempo] do deferimento tácito”, referiu Patrícia Gonçalves Costa.

A secretária de Estado disse que “este requerimento, passado o tempo que a câmara tem para se pronunciar, a par do pagamento (auto-liquidação) das taxas, serve de título para avançar para a obra”. Em teoria, “hoje em dia, o deferimento tácito já existe mas ele, muitas vezes, não se conseguia consubstanciar desde logo porque [o construtor] não conseguia avançar para qualquer pagamento” das taxas, explicou a responsável.

O objetivo da proposta legislativa será, também, “disciplinar procedimentos administrativos“, referiu a secretária de Estado da Habitação. Um exemplo: nos pedidos dos pareceres das entidades externas “não há um momento definido para quando é que a câmara devia fazer a recolha dos pareceres das entidades externas – e agora fica definido que esse momento tem de ser o âmbito do saneamento liminar”.

“Logo aí, vamos ganhar tempo na decisão da câmara”, refere a responsável.

O que é o "saneamento liminar"?

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Em termos simples, o “saneamento liminar” numa câmara municipal é uma primeira verificação feita logo no início de um processo administrativo (por exemplo, um pedido de licença de obras, uma reclamação ou um requerimento).

Na prática, quando o processo dá entrada, os serviços da câmara fazem logo uma primeira análise para ver se está tudo em ordem — se estão entregues os documentos necessários, se está dentro do prazo, se a pessoa que apresenta tem legitimidade para o fazer, etc.

Se faltarem coisas básicas ou houver um erro evidente, o processo pode ser logo corrigido, convidando o interessado a completar (por exemplo, entregar uma planta em falta). Mas se for algo impossível de corrigir (como um pedido manifestamente ilegal), pode até ser recusado de imediato, sem avançar para a fase seguinte.

Ou seja, é uma espécie de “filtro inicial” que serve para evitar que processos mal instruídos ou inviáveis ocupem tempo e recursos da câmara.

O anteprojeto legislativo também se debruça sobre o tema da chamada “audiência prévia”. O que está em causa são os casos em que há um Pedido de Informação Prévia (PIP). Isso é uma espécie de pergunta que é feita à câmara por um promotor ou construtor particular. Em termos simples: “‘posso construir um determinado prédio de tal maneira”?

No fundo, o promotor faz uma pergunta à câmara que é, basicamente, uma pergunta de sim ou não. Mas em caso de haver um problema, a câmara passa a ter de “definir criteriosamente” em que é que aquela proposta teria de ser reformulada. “Esta [falta de] disciplina da audiência prévia era uma das razões pelas quais os processos estavam eternamente num bate-bola entre câmara e promotor (ou particular)”.

Por outro lado, há a intenção de se antecipar o pedido (e a anexação ao processo) dos pareceres relevantes. “Se estivermos a fazer uma creche ou um lar, há pareceres que têm a ver com a atividade e não têm nada a ver com a implementação no terreno, e esses pareceres passam a fazer parte da instrução do processo”, referiu a secretária de Estado, acrescentando que “em momento algum um arquiteto da câmara deve ter de se pronunciar sobre a área da sala ou do recreio está correta, ou outra coisa, isto deve vir à cabeça para acelerar o processo”.

Vai-se, ainda, tentar “clarificar conceitos”, por exemplo alguns que estão relacionados com as obras de reconstrução/reabilitação. “Um aspeto em torno do qual existem muitas dúvidas e muita discricionariedade na interpretação pelos municípios é na reconstrução das fachadas”, afirmou Patrícia Gonçalves Costa, adiantando que no anteprojeto se “clarificou que estão isentas de controlo prévio se se reconstruir aquilo que era o ‘antecedente válido’, com pequenas alterações desde que não aumentem a volumetria”.

"A [falta de] disciplina da audiência prévia era uma das razões pelas quais os processos estavam eternamente num bate-bola entre câmara e promotor (ou particular)"
Patrícia Gonçalves Costa, secretária de Estado da Habitação

Sem dar mais detalhes, nesta fase, o Governo adianta no comunicado do conselho de ministros que as várias alterações a propor irão “simplifica(r) procedimentos e agiliza(r) os prazos de licenciamentos, permitindo prazos mais curtos para se dar início a obras de construção de habitação”.

Por outro lado, o plano do Governo “garante, ainda, uma adequação da legislação urbanística à realidade dos agentes que interagem no processo, considerando que deve ser acautelada a estabilidade e o equilíbrio entre os direitos dos particulares e a capacidade de resposta efetiva dos municípios”.

Várias entidades, incluindo a Associação Municipal de Municípios, vão ser ouvidas – entre consultas obrigatórias e não obrigatórias – indicou Miguel Pinto Luz, sem especificar quais.

Quanto a prazos, “só depois da negociação do Orçamento é que este tema poderá ser votado – e será, sublinhe-se, a autorização legislativa. “Se até ao final do ano tivermos a autorização legislativa, acreditamos que no primeiro trimestre do próximo ano poderemos ter o processo concluído“, disse o ministro. “Mas não depende de nós portanto não vamos comprometer-nos, até porque pode ser chumbada e vem tudo por terra…”, rematou.

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