Pedro Nuno Santos sai do PS, depois de uma derrota que nem os maiores pessimistas do partido equacionavam e que os círculos da emigração muito provavelmente ainda vão agravar deixando os socialistas como a terceira força política no Parlamento. A noite fechou com o Chega a uns curtos 49 mil votos de distância, com igual número de deputados (58, para já), o PS em choque absoluto, sem líder e dividido sobre o que fazer em relação à AD e ainda se deve abrir a corrida pela sucessão antes das autárquicas ou deixá-la para depois, para não agravar ainda mais o seu quadro político.

A reunião para essas decisões (da Comissão Nacional do partido) foi marcada para sábado, para dar tempo de ouvir alguns elementos do PS entretanto e só depois definir o calendário mais consensual — “presidentes de federações e candidatos autárquicos não querem eleições internas já”, previne um alto dirigente. Há, no entanto, algumas certezas: Pedro Nuno Santos quer sair rapidamente e José Luís Carneiro já deu sinais de estar interessado em voltar a candidatar-se à liderança do PS e, ao que o Observador apurou, estará interessado em resolver o assunto já. O presidente do partido, Carlos César, pode ficar com a condução do partido nas mãos durante esse interregno em que o PS terá decisões parlamentares de peso a tomar — isso está acautelado pelos estatutos do partido.

A noite começou a desenhar-se cedo no PS, com as projeções a deixarem os socialistas num profundo choque, que saltava à vista no silêncio e falta de figuras do partido no Hotel Altis durante toda a noite. “Uma tragédia”, “péssimo”, “um poço fundo”, “desastroso”, “uma calamidade” iam comentando vários socialistas, mais ou menos publicamente, ao longo da noite sobre o que se estava a passar — foi o terceiro pior resultado de sempre, mas a primeira vez em que o partido arrisca o terceiro lugar (e atrás da extrema-direita), o que ficará fechado após a contagem dos votos nos círculos da emigração. No último piso do edifício, onde normalmente as direções socialistas se instalam em noites eleitorais para acompanhar os resultados, a análise sobre o futuro do partido e a saída do líder Pedro Nuno Santos tornou-se incontornável e a ponderação da saída tomou logo conta do líder — que a dada altura ainda terá ponderado demitir-se mas continuar na luta, ideia que havia de cair rapidamente.

A passagem do PS a terceira força política foi logo assinalada como um caminho sem saída para o líder por alguns dos dirigentes mais próximos, como Pedro Vaz ou João Paulo Rebelo. Alexandra Leitão terá abordado a questão mas sobretudo já com preocupação sobre o futuro e a realização de umas eleições internas e um congresso antes das autárquicas — onde é candidata à Câmara de Lisboa. A posição não é isolada dentro da atual direção e nem no partido em geral, junto de presidentes de federações, candidatos autárquicos e outros socialistas. É o caso de Ascenso Simões, que se apressou a fazer saber, através das redes sociais, que “os autarcas do PS não podem permitir que o partido entre já numa luta interna” porque, “num momento em que o que importa é ganhar as autárquicas, olhar para dentro seria suicídio.” “O PS devia deixar as autárquicas realizarem-se e só depois tratar da vida interna. Isto é mais grave que a simples liderança”, aponta ao Observador um dirigente do partido.

“O PS precisa de não entrar em pânico”, afirma o mesmo dirigente. Outros socialistas apontam como melhor solução entregar a condução dos próximos tempos políticos ao presidente Carlos César. “Existe um presidente do PS”, dizem vários socialistas sobre a ausência de um secretário-geral por um período mais prolongado.

César já fez a convocatória para a reunião da Comissão Nacional e propõe um debate sobre a situação política antes do ponto dois da reunião onde consta a “aprovação do calendário e os regulamentos eleitorais”. Segundo apurou o Observador, a ideia é precisamente permitir esse debate primeiro, conhecendo-se a alta sensibilidade dos autarcas para esta questão, e só depois avançar para a marcação de um calendário, se a decisão for avançar no prazo mínimo. O PS joga muito nas autárquicas, tendo em conta que é o partido mais votado e com mais câmaras e teme agora que a onda de desastre prossiga para as eleições seguintes.

Há alguns elementos da direção que estiveram ausentes das reuniões que o secretariado foi tendo ao longo desta noite e que também interessará ouvir, caso de Duarte Cordeiro, Mariana Vieira da Silva e Marcos Perestrello. No caso de Cordeiro, que esteve a comentar a noite eleitoral no canal Now, “a perspetiva das autárquicas ser positiva” para o PS, “levaria a achar que não se deveria pôr em causa” essa corrida com a saída do líder na sequência das legislativas, mas o dirigente socialista também assumiu que “nunca tinha pensado numa circunstância” como a que o PS está “a viver” e “há que pensar sobre essa dimensão” — disse sobre a imediata da saída do líder (ler abaixo).

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O assunto de quem fica ao comando não é de somenos, afinal Pedro Nuno Santos avisou já que com ele o partido “não suporta um governo liderado por Luís Montenegro” e no novo Parlamento essa será a primeira bola a sair do saco, com o programa do Governo a poder ser sujeito a votos e o PS a ter de tomar uma posição. O líder de saída não está aberto a fazer o papel de viabilizador e já deixou esse jogo condicionado: “Não me cabe o papel de ser suporte do Governo e esse papel também não cabe ao PS”. Foi também por isso que disse, na conferência de imprensa onde assumiu a derrota, que deixa de ser “secretário geral assim que puder. Se puder ser já”, disse espreitando por cima do ombro para Carlos César que estava mesmo atrás.

Depois de anunciada a sua posição sobre o que o PS devia fazer disse mesmo: “Não quero ser um estorvo para o partido nas decisões que o partido tiver de tomar e devo afastar-me”. Entretanto já tinha deixado a sua posição vincada sobre eventuais entendimentos do PS com Montenegro — quase num ato de vingança com os socialistas que comentaram publicamente as suas decisões como líder e prometendo andar por aí como ex-líder –, o que irritou alguns dirigentes.

Um membro da direção comentava com desagrado esse posicionamento, acusando Pedro Nuno de ter “deixado uma assinatura na pasta que passa”, condicionando a discussão a partir daqui, quando podia não ter dito nada sobre o capítulo seguinte, deixando essa posição do partido em aberto. E também não parece ter-se afastado em definitivo, já que na despedida não só deixou em aberto se vai ou não assumir o cargo de deputado para o qual foi eleito nestas eleições como deixou a famosa citação de Mário Soares e ainda um acrescento ao estilo Santana Lopes e o tal “vou andar por aí”: “Só é vencido quem desiste de lutar e eu não desistirei de lutar. Até breve. Obrigado a todos”.

Durante a noite, nas televisões, dirigentes e destacados socialistas tinham passado a longa noite a pedir no mínimo a “reflexão”, perante os resultados eleitorais que estavam a desenhar-se. Mas alguns já empurravam a discussão para os órgãos do partido — como quem pondera o melhor calendário para avançar com as diretas que se iam tornando inevitáveis — bem como outra, sobre o posicionamento do PS face à AD. Neste ponto há, neste momento, dirigentes do partido pouco alinhados com uma linha mais radical como a de Pedro Nuno Santos e que entendem que o PS deve desbloquear a governação e não deixar essa chave nas mãos do Chega.

“Essa é a grande discussão que terá de ser feita”, comentava um destacado socialista com o Observador sobre este ponto. O primeiro a falar no assunto sem rodeios foi Sérgio Sousa Pinto que, na CNN Portugal, começou por ser particularmente duro ao dizer que “ou o PS acaba com esta direção ou esta direção acaba com o partido”. O socialista que recusou manter-se nas listas de candidatos do partido nestas legislativas — quando Pedro Nuno já o tinha colocado em Lisboa — não mostrou dúvidas logo ao início da noite: “Este resultado é uma calamidade para o PS”. E falou mesmo em “desastre de proporções históricas” que “obrigará a decisões rápidas”.

Depois ainda falou sobre o tal debate, defendendo desde já que o PS “devia dizer que o PSD não vai ficar dependente do Chega” — o que Pedro Nuno Santos esteve longe de fazer. Já José Luís Carneiro, que foi adversário interno de Pedro Nuno nas diretas de 2023 — passou o debate interno de há dois anos a defender a “autonomia estratégica” do PS face à esquerda, que Pedro Nuno Santos defendia como via para conquistar o poder.

Durante a campanha, Sousa Pinto nunca esteve ao lado de Pedro Nuno, mas participou numa ação com José Luís Carneiro, em Braga onde o socialista era cabeça de lista — e não foi o único socialista a dar força à sua candidatura em particular nas legislativas: Francisco Assis e Fernando Medina chegaram a gravar vídeos de apoio a Carneiro.

Mariana Vieira da Silva, elemento forte do costismo e próxima de Fernando Medina, também foi uma das vozes que se ouviu logo, em declarações à rádio Renascença, a dizer que “é uma derrota muito pesada, não há outra forma de o dizer. O PS tem de se concentrar nos motivos e refletir.” Mais tarde, no canal de televisão Now, a dirigente que faz parte da direção de Pedro Nuno Santos ainda acrescentou, em linha com o que dissera Sousa Pinto, que o PS “tem de contribuir para a estabilidade” e que o país “não pode estar em eleições daqui a um ou dois anos”.

No mesmo canal de televisão, Fernando Medina também concordava que o resultado eleitoral “deve levar a uma reflexão” do partido, mas que “a primeira palavra deve ser do secretário-geral”. Prometeu ainda nada dizer “sobre eleições internas do PS nem hoje nem nos próximos dias”. Ana Catarina Mendes foi outra socialista que também pediu reflexão, mas à porta do Hotel Altis, para onde se dirigiu a dada altura da noite. A eurodeputada do PS considerou que este é o momento para “uma reflexão profunda” no PS e disse aguardar que o secretário-geral fizesse “a sua avaliação”, defendendo que este é o momento “para os órgãos próprios do PS se pronunciarem”.