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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Francisco César: "Não sei porque é que Pedro Nuno terá que sair em caso de derrota"

Francisco César, dirigente do PS, diz que o partido está empenhado na vitória nas próximas legislativas, mas nem por isso deixa de falar sobre o outro cenário. E defende continuidade de Pedro Nuno.

É deputado e dirigente socialista. Acima de tudo, é, além de amigo e colega de Faculdade, um dos conselheiros mais próximos de Pedro Nuno Santos. Numa fase de grande vertigem de acontecimentos, afirma categoricamente: não há qualquer outra opção que não um voto contra do PS à moção de confiança apresentada pelo Governo. Mesmo que isso signifique eleições legislativas antecipadas.

Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, Francisco César garante ainda outra coisa: o PS só trabalha no cenário da vitória nas próximas eleições legislativas. Mas — e há sempre uma mas —, se Pedro Nuno Santos voltar a perder, não será isso que fará derrubar o atual secretário-geral do PS.

Noutro assunto, e mesmo sem dar uma resposta definitiva, o deputado e dirigente socialista admite que o partido tem de estudar as circunstâncias dos deputados que são atualmente candidatos a autarcas, nomeadamente Alexandra Leitão. Com a antecipação das legislativas, e como já aconteceu no passado, os candidatos a autarcas podem ficar fora da lista de deputados. “Sei o que é que vou fazer nos Açores: não teremos candidatos à Assembleia da República que sejam, ao mesmo tempo, candidatos a Câmaras Municipais”, avisa.

[Ouça aqui a Vichyssoise com Francisco César]

Francisco César: “Não sei porque é que Pedro Nuno terá que sair em caso de derrota”

“O que este Governo quer é que não haja escrutínio antes das eleições”

O PS acusa o primeiro-ministro de ser responsável pela antecipação de eleições. Mas avançar com uma inédita comissão de inquérito, como o PS fez, dirigida a um PM não foi um empurrão nesse sentido? Não abre um precedente delicado?
Não. Vamos ver. O PS não avança com uma comissão de inquérito por gosto, nem tem especial prazer em ter que fazer um escrutínio à vida do primeiro-ministro, que nós percebemos que terá necessariamente um grau de exposição que não nos satisfaz. Mas o facto é que fomos obrigados a isto. O primeiro-ministro é que começou com este problema. Todos os dias, sucessivamente, fomos percebendo que o que estava em causa era mais do que aquilo que o primeiro-ministro ia revelando

E o desfecho da Comissão Parlamentar de Inquérito acabou por ser inevitável.
Acontece porque o primeiro-ministro fez uma declaração ao país em que diz: “Ou estão satisfeitos com a explicação que vos dou, ou azar, porque não falo mais sobre o assunto. Quais são os mecanismos que o PS tinha para poder ultrapassar isso? A única forma que tínhamos disponível era de utilizar, como disse bem o Presidente da República, os mecanismos institucionais disponíveis, e aquele que era o derradeiro. Longe de nós pensar que, na verdade, o Governo tinha um roteiro [para eleições antecipadas].

Imaginando que Luís Montenegro, de facto, responde às perguntas que falta responder. O PS ponderaria o seu sentido de voto na moção de confiança?
Não. O Governo, na prática, tem uma estratégia montada para chegar a uma moção de confiança.

Bom, mas se ficar tudo esclarecido, o que é que o PS faz?
Se ficar tudo esclarecido, quer dizer que o Governo pode retirar a sua moção de confiança.

[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

E o PS retiraria a sua comissão parlamentar de inquérito?
Devemos colocar a questão ao contrário. O sentido de voto do PS não está em nada relacionado com o facto de Luís Montenegro prestar ou não prestar esclarecimentos. O sentido de voto do PS em relação a qualquer moção de confiança foi anunciado a seguir às eleições e toda a gente sabe qual é: votaremos contra. Isto em nada está relacionado com o problema que o Governo tem neste momento com a verdade. O Governo é que introduziu a questão das eleições antecipadas. A minha interpretação é que o faz por uma questão interna: percebeu que dentro do próprio PSD há movimentos para retirar Luís Montenegro de primeiro-ministro, ou se esta situação se degradar, como acho que esperam que se degrade, de ser substituído. E, por outro lado, quer tentar evitar que haja um escrutínio mais aprofundado em relação a esta situação. O que este Governo quer é que não haja escrutínio antes de haver eleições. E depois utilizar as eleições como uma chancela, à melhor forma trumpista, para dizer que não tem mais nada a esclarecer porque o povo já disse o que tinha a dizer sobre esta matéria.

Mas se o problema do PS é relativo à falta de respostas por parte do primeiro-ministro, e se as respostas entretanto chegarem, porque é que se mantém a intenção de derrubar o Governo e ir para eleições?
Se a moção de confiança fosse apresentada há três meses ou quatro meses, o PS teria o mesmo sentido de voto. Todos sabem disso. Ou seja, não é que uma moção de confiança permita ao PS derrubar o Governo; uma moção de confiança deste Governo é um pedido de demissão, porque sabe à partida o nosso sentido de voto. O PS não pediu eleições antecipadas, não quer eleições antecipadas. Só pediu uma coisa muito simples: esclarecimentos. Mas também não tem medo de eleições antecipadas.  E o que é que custa colocar em primeiro lugar na listas de prioridades o esclarecimento? Porque é que não respondem aos jornalistas? Porquê é que das 37 perguntas que foram colocadas por todos os partidos, 29 não foram respondidas?

Vão sempre existir novas dúvidas relativamente ao primeiro-ministro? É uma lista interminável? Ou há maneira de tudo isso ser respondido e o PS não ficar insatisfeito?
Não, não é uma lista interminável. O papel do PS é escrutinar a atuação do Governo, neste caso do primeiro-ministro. Se não havia qualquer problema, o que é que custava ao primeiro-ministro? Sentar-se, chamar a comunicação social, com toda a documentação necessária como fez em relação à sua casa de Espinho, e só sair daquela conferência de imprensa quando todas as perguntas fossem respondidas. Pedro Nuno Santos teve um escrutínio muito apertado em relação à sua declaração de rendimentos, em relação às empresas do seu pai. Obviamente é um difícil, ninguém gosta que a sua vida seja devassada, mas ele respondeu a tudo. O que é que custava ao primeiro-ministro fazer isso?

Serão as últimas legislativas de Pedro Nuno? "Não coloco este cenário. Nem se o PS perder. Se eventualmente não tiver o melhor resultado, não sei porque é que Pedro Nuno Santos terá que sair"

“Últimas legislativas de Pedro Nuno? Não coloco esse cenário”

Há apenas um ano Pedro Nuno Santos disse que não criaria obstáculos à formação e ao início da atividade de um governo.
E não o fez. Ajudou.

Se se repetirem os resultados eleitorais, essa palavra é para cair? Ou seja, se o PS voltar a ficar em segundo, não aprovará um programa de governação liderado por Luís Montenegro?
O PS tem sido um fator de estabilidade e tem, nos momentos fundamentais para o país, resolvido as trapalhadas do governo. Quando houve essa necessidade no programa de Governo, o PS esteve lá. Quando houve a questão do Presidente da Assembleia da República, em que ninguém falou connosco, tivemos de ir acudir o Governo. Quando foi necessário garantir que houvesse Orçamento de Estado, o PS resolveu, a bem do país. Foi o que fizemos até agora.

E é para manter essa palavra daqui para a frente, mesmo que Luís Montenegro continue à frente do governo?
Quando fazemos uma discussão de ses, não sei qual é o programa que o Luís Montenegro vai apresentar, se tiver a maioria dos votos; não conheço o próximo Orçamento de Estado, se por acaso, eventualmente, for o PSD a apresentá-lo. Portanto será prematuro fazer este tipo de exercício. Agora, o exercício de moderação e de responsabilidade é naturalmente contrariado com o documento que nos é apresentado, ou a estratégia que nos é apresentada, e não tanto com a figura à frente do projeto.

Se for Luís Montenegro é mais difícil o PS fazer isso? Ou é indiferente?
É impossível responder essa pergunta porque não sei quem seria a alternativa a Luís Montenegro. A pergunta que faço é: se PS for, como nós achamos, a força política mais votada, os outros partidos viabilizarão um governo do PS mesmo que ele seja minoritário?

Em caso de derrota eleitoral, Pedro Nuno Santos fica em causa? Corre o risco de serem as últimas legislativas a que concorre?
Não coloco este cenário.

O PS perder?
Nem se o PS perder. Se eventualmente não tiver o melhor resultado, não sei porque é que Pedro Nuno Santos terá que sair.

Acha que pode manter-se mesmo perdendo?
Isso tudo depende. Se ele tiver essa vontade [de se manter], terá o meu apoio.

Mas acha que um líder que perde duas legislativas seguidas tem argumentos junto do partido para continuar?
Em primeiro lugar, se houver eleições legislativas, o PS poderá ganhar. E acho que Pedro Nuno Santos é um bom secretário-geral, é alguém que tem uma boa visão para o país. Acho que é um excelente secretário-geral e tem uma visão para o país.

Um líder que perde duas eleições seguidas, não pode partir o partido?
Acho que a questão não se coloca. O partido está unido para ganhar as próximas eleições.

Temos de insistir: se Pedro Nuno Santos perder as próximas eleições, o partido não entrará numa convulsão interna? Não haverá quem queira o lugar de Pedro Nuno Santos?
O que lhe posso dizer é que, em qualquer cenário, é bom que o PS tenha mais do que um candidato à sua liderança. Isso demonstra a vitalidade do partido. Se há coisa de que o PS se orgulha é não ter apenas uma corrente. Tem várias correntes, que, nos momentos certos, unem-se sempre em prol do país. O partido está unido e com vontade de trabalhar junto de Pedro Nuno Santos.

"O que este Governo quer é que não haja escrutínio antes de haver eleições. E depois utilizar as eleições como uma chancela, à melhor forma trumpista, para dizer que não tem mais nada a esclarecer porque o povo já disse o que tinha a dizer sobre esta matéria"

“O PS deve ir sozinho à eleição legislativa”

Imaginando que o PS, de facto, vence as eleições. Sem uma maioria de esquerda, como é que governaria?
O PS deve, em primeiro lugar, procurar uma maioria à esquerda. Se não houver maioria à esquerda, o PS deve-se colocar numa posição em que outros possam viabilizar o seu governo. Portanto, aquilo que esperamos é que o PSD faça aquilo que o PS responsavelmente fez. Tão simples quanto isso. Aliás, é uma vantagem da nossa coerência política é ter a legitimidade de exigir aos outros que façam aquilo que nós lhes fizemos.

Faria sentido uma eventual coligação pré-eleitoral à esquerda?
Acho que o PS deve ir sozinho à eleição. Por vários motivos, entre os quais, a maximização daqueles que são os votos também à esquerda.

O PS tem vários deputados que sairão para ser candidatos autárquicos. Mas, entretanto, o calendário inverteu-se e as legislativas serão antecipadas. Essas pessoas, no caso de Alexandre Leitão, de quem acabámos de falar, devem ser candidatas às legislativas para logo a seguir serem candidatos autárquicos?
É uma discussão que temos que ter internamente no PS. Não tenho opinião fechada sobre o assunto. Acho que essa reflexão deve ser feita tendo em conta as circunstâncias. Sei o que é que vou fazer nos Açores: não teremos candidatos à Assembleia da República que sejam, ao mesmo tempo, candidatos a Câmaras Municipais.

O PS vai apresentar o mesmo programa eleitoral ou era boa a altura para ajustes?
Acho que um programa eleitoral tem que ser sempre ajustado. Até porque a situação do país não é a mesma de há cerca de um ano, por exemplo, na área da Saúde. Além disso, esta situação do governo paralisou o país, mas também permitiu ao Governo fazer sobreviver a ministra da Saúde, que, noutra qualquer circunstância, já não era ministra.

"O PS não pediu eleições antecipadas, não quer eleições antecipadas. Só pediu uma coisa muito simples: esclarecimentos. Mas também não tem medo de eleições antecipadas"

“Declarações de Ana Gomes sobre António Vitorino foram infelizes”

Estes casos do último mês, podem criar algum tipo de problema ao candidato presidencial que o PS parece preferir, António Vitorino?
Bom, neste momento deixou-se de falar de presidenciais. Calculo Luís Marques Mendes deve estar bem arrependido de ter saído da SIC e de ter entrado na disputa presidencial. Agora, o PS tem uma posição oficial: vai apoiar um candidato. Seja António José Seguro, seja António Vitorino, seja outro que se perfile dentro dos candidatos naturais do próprio PS. Eu não escondo que gosto do perfil de António Vitorino e que ele seria, naturalmente, um bom candidato.

Se António Vitorino já era uma figura que parecia estar hesitante na entrada na corrida…
Não sei se parecia. Essa é uma opinião que não partilho.

Acha que Vitorino poderá dar esse passo depois de tudo isto estar a acontecer? Quando até dentro do próprio PS Ana Gomes chama a atenção para o seu passado de “advogado lobista”?
São declarações infelizes de Ana Gomes.

Então acha que não vai haver nenhum problema para António Vitorino desse ponto de vista?
O perfil de António Vitorino é de alguém que não chegou agora à política, que conhecemos bem desde que foi ministro de António Guterres, que desempenhou funções de comissário europeu e teve funções ao nível de instituições internacionais que prestigiaram Portugal. São duas personalidades que orgulham o PS. O governo cria um problema e a consequência que retiramos é achar que as candidaturas presenciais do PS estão afetadas.

A nossa pergunta refere-se ao clima que está criado. António Vitorino teve até como advogado um percurso muito ligado às principais empresas do país e isso pode ser eventualmente usado como arma de arremesso político pela oposição.
Vamos ser claros: ter ligações em empresas, sobretudo quando não se exercia qualquer outro tipo de atividades, não tem qualquer tipo de problema.

Aparentemente, para Ana Gomes, por exemplo, tem. Daí a pergunta.
Ana Gomes tem momentos que aprecio e tem muitos momentos que não aprecio. Neste caso em particular, foi infeliz. Em relação a António Vitorino, é preciso distinguir [os casos]. O caso do primeiro-ministro não tem nada a ver com o facto de ele ser um empresário. Tem a ver com o facto de que nós não sabíamos que era um empresário, e que pelos vistos continuou a ser empresário, mesmo que indiretamente, enquanto era primeiro-ministro. Isto é que é grave. Ter vida antes da política não faz mal nenhum. Ter vida depois da política também não faz mal nenhum, desde que cumprida a lei. Ter uma vida privada enquanto está na política e no exercício de funções de primeiro-ministro, isto sim, é um caso complicado e que deve ser escrutinado.

"Calculo Luís Marques Mendes deve estar bem arrependido de ter saído da SIC e de ter entrado na disputa presidencial. Agora, o PS tem uma posição oficial: vai apoiar um candidato. Seja António José Seguro, seja António Vitorino, seja outro que se perfile dentro dos candidatos naturais do próprio PS. Eu não escondo que gosto do perfil de António Vitorino e que ele seria, naturalmente, um bom candidato"

“Vou para os Açores sempre de mochila. E assim ainda tenho as malas todas”

Vamos ao bloco Carne ou Peixe, onde o convidado tem de escolher uma de duas opções. Com quem preferia fazer dupla numa partida de padel: Duarte Cordeiro ou Pedro Nuno Santos?
Depende do tempo que tiver para jogar, geralmente costuma ser uma hora e meia. Podia fazer 45 minutos com o Duarte Cordeiro e 45 minutos com o Pedro Nuno Santos. Sou amigo dos dois e admiro os dois. E somos os três colegas de faculdade.

Se tivesse o azar de trocar malas numa passadeira rolante do aeroporto, com quem teria menos problemas: José Luís Carneiro ou Fernando Medina?
Não tinha problema em trocar com nenhum. Sou amigo dos dois, inclusive. E ando sempre de mochila, quando vou para os Açores nunca vou de mala. E assim ainda tenho as minhas malas todas.

Quem é que preferia receber nos Açores numa futura visita presidencial: António José Seguro ou António Vitorino?
Quem o PS escolhesse.

Há pouco falou numa preferência por António Vitorino.
Tenho uma preferência por António Vitorino. Mas receberia com muito gosto alguém que fosse socialista. E mesmo que não fosse socialista também.

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