“Quadro de Honra”. A história do underground nacional, contada por quem a viveu

17 Julho 2016162

Mais do que uma compilação de entrevistas (e não só) publicadas na revista LOUD!, "Quadro de Honra" pretende contar a história do movimento underground nacional. Uma homenagem há muito merecida.

Quando a revista LOUD! nasceu em 2000, nasceu com um objetivo: ser “o metal em revista”. Passados 16 anos, muita coisa mudou e o slogan deixou de fazer de sentido. Caída a frase, a revista já não tem vergonha de ter o José Cid na revista nem de ter uma entrevista ao músico de “Na cabana junto à praia” no meio de um livro que pretende homenagear o movimento underground português, que viu a sua época dourada nos anos 90.

Quadro de Honra, lançado recentemente pela editora Saída de Emergência, é uma compilação de várias entrevistas retrospetivas, centradas em álbuns emblemáticos do panorama musical português, que foram publicadas durante cerca de dois anos e meio na rubrica com o mesmo nome. Ao todo, foram entrevistados 35 elementos e ex-elementos de várias bandas nacionais, a maioria formanda no final dos anos 80 e princípio dos anos 90. Alguns, afastados da música, não falavam com os antigos colegas de banda há décadas.

Quadro_de_Honra

O livro, publicado pela Saída de Emergência, encontra-se à venda nas livrarias desde o final de junho

À medida de que o livro ia nascendo, Ricardo Amorim e José Miguel Rodrigues aperceberam-se de que este não se tratava apenas de uma reunião de trabalhos publicados na LOUD!. Para além dos álbuns e das bandas que quiseram homenagear, as entrevistas, no seu conjunto, contavam uma outra história — a história underground português. A história de um grupo de pessoas apaixonadas por música — verdadeiramente apaixonadas por música — que acredita que tinha algo a dizer.

Depois de uma pequena tour de apresentação do livro, sentámo-nos à mesa do café com os dois entrevistadores que, numa rara exceção, fizem papel de entrevistados. Falou-se sobre metal, hardcore, sobre um underground que acreditam estar mais vivo do que nunca e sobre a LOUD!, a mais antiga revista de música portuguesa e a única dedicada à música alternativa. O peso da responsabilidade sentem-se, mas Ricardo Amorim garante que não é por serem “os únicos”. “É por sermos uma referência.”

José Miguel Rodrigues (à esquerda) é diretor da "LOUD!" e Ricardo Amorim (à direita) é colaborador

Como é que surgiu a ideia de compilar em livro entrevistas a várias bandas do underground nacional?

José Miguel Rodrigues: Queres começar ou começo eu?

Ricardo Amorim: Tu é que és o diretor, tu é que mandas. Eu sou o último a decidir coisas aqui.

JMR: Bem, há sensivelmente quatro anos, pegámos definitivamente na LOUD!, que tinha uma direção diferente daquela que tem agora. Nesse momento, decidimos fazer uma reestruturação gráfica e editorial, e criámos uma série de secções novas para tornar as coisas mais entusiasmantes e também para fugir um bocado àquela rotina da entrevista só porque uma banda tem um álbum novo ou porque está em tour. Até ali tínhamos um slogan que era “o metal em revista” e que deixámos cair por uma série de razões. Se ainda o tivéssemos, ter o José Cid na capa tinha sido uma dor de cabeça a todos os níveis.

Era muito mais limitado em termos de escolha.

JMR: Sim, era bastante mais limitado. Decidimos alargar o espetro também para termos hipótese para abarcar mais géneros, mais bandas, mais discos.

Criámos inicialmente uma lista para o “Quadro de Honra” e levámos a cabo a rubrica durante cerca de dois anos e meio até que decidimos parar não só porque estávamos a esgotar os títulos que tínhamos em carteira, mas também porque estavam a entrar uma série de novos lançamentos que, se os deixássemos envelhecer mais um pouco, podiam figurar no “Quadro de Honra”. Quando fizemos essa paragem, surgiu logo a ideia de compilar isso num livro. Não há muitas publicações do género em Portugal, focadas na música nacional, e, ainda por cima, no metal e no underground. Abordámos logo a [editora] Saída de Emergência, mas a decisão não foi logo imediata.

RA: Já tinham o calendário editorial para o ano seguinte, portanto, tivemos de aguardar uns meses. Depois disseram-nos que em 2016 queriam pegar neste projeto e perguntaram se ainda tínhamos interesse. E nós dissemos logo que sim. Mas a ideia [do livro] não foi só no fim.

JMR: Sim, já andávamos a falar disto há algum tempo.

RA: À medida que fomos fazendo o “Quadro de Honra”, fomo-nos apercebendo de que, mais do que a história de cada um dos discos, estava a ser contada a história de todo o movimento underground nacional — com especial enfoque nos anos 90 — e que isto devia ficar registado de outra forma.

"Fomo-nos apercebendo de que, mais do que a história de cada um dos discos, estava a ser contada a história de todo o movimento 'underground' nacional e que isso devia ficar registado de outra forma."
Ricardo Amorim

Como é que selecionaram as bandas e os discos que queriam destacar? As entrevistas focam-se sempre num álbum específico, e há algumas que são inéditas.

RA: Sim, temos quatro textos inéditos — temos os Corpus Christii e os Process of Guilt, que achámos que por aquilo que têm feito nos anos mais recentes deviam surgir neste livro, até para dar uma ideia de continuidade. Isto não é algo apenas focado no passado. Também tem um olhar de continuidade sobre o que aconteceu.

Concluímos também a análise, digamos assim, do Bestiário [de 1998], dos Bizarra Locomotiva, com o Armando Teixeira, que é um músico multifacetado, com uma grande presença na música nacional, não só neste espetro, mas também nos outros — na pop com os Bala, fez parte dos Da Weasel… É uma figura muito conceituada e que, há muitos anos (tanto quanto sei) não falava dos Bizarra Locomotiva, que continuaram com um percurso significativo depois da saída dele, que foi o fundador e o principal compositor do disco que aqui está.

O critério para a escolha dos restantes discos foi, basicamente, a importância e o impacto que eles e as bandas tiveram na “cena”. Há discos em que temos a perfeita noção — nós e os próprios músicos — de que não são clássicos. Não são discos que ouvimos agora e que soam tão bem como soavam há 20 anos.

Não são intemporais?

JMR: Há alguns que não envelheceram assim tão bem.

RA: Há alguns que não envelheceram bem sequer.

JMR: Quem ler o livro vai perceber, até pela reação de alguns músicos. Há aqueles que sim, que acham ou notam que o trabalho perdurou ao longo dos anos, mas outros nem por isso. Acham que foi um disco importante para eles, pessoalmente, mas que acabou por não assim tanto impacto como nós achamos. Isso também acaba por ser um bocadinho subjetivo. Um disco que teve impacto para mim, pode não ter tido para o Amorim. A lista inicial surgiu de um brainstorming super democrático, em que toda a gente atirou títulos para cima da mesa e em que discutimos as bandas ou os lançamentos.

E deve ter havido muita coisa que ficou de fora.

JMR: Há muita coisa que ficou de fora, sim. Há inclusivamente coisas que queríamos ter feito e que acabámos por não fazer para este livro — ou porque os timings não permitiam ou porque apanhámos as bandas numa má altura.

RA: Sim, estamos a falar de muitas bandas que já acabaram, de cujos elementos já não têm nada a ver com a música, que se calhar já não vêm os outros elementos há 20 anos, que não moram em Portugal… Na net já nos perguntaram porque é que pusemos a banda x e não a y. É fácil falar. Se calhar até havia bandas que não tinham muito interesse em falar sobre as coisas. Mas agora vêm que isto é uma forma de documentar o que aconteceu, de contar uma história, e isso dá-lhe alguma dignidade também. Não é algo que fique perdido nas páginas de uma revista e que tenha um tempo de validade. Isto vai perdurar no tempo.

"Não é algo que fique perdido nas páginas de uma revista e que tenha um tempo de validade. Isto vai perdurar no tempo."
Ricardo Amorim

Apesar de as bandas que escolheram terem começado no underground, algumas delas conseguiram sair e até ter uma influência muito para além desse núcleo.

JMR: Sim, há uma delas que teve um impacto muito para além do underground e até no mainstream — os Mata-Ratos, que continuam hoje em dia. Continuam a existir, a fazer música, a lançar discos. Aliás, têm agora um disco novo pronto para sair. Mas a formação que gravou o Rock Radioactivo [de 1990], que foi o disco que provocou aquele fenómeno de popularidade, não estava junta há décadas.

RA: Há 16 anos.

JMR: Juntaram-se numa mesa de café com o nosso jornalista para fazer a entrevista. Foi engraçado, até acabou por ser uma situação gira. Eles não se viam, não tinham contacto há uma série de anos. Os Gangrena estão agastados do metal há imensos anos. Lá conseguimos, através de contactos de bandas no Porto, arranjar um Facebook ou um número de telefone para ligar e para falar com eles sobre coisas em que já não pensavam há imenso tempo. E tudo isso teve imensa piada.

E isso também foi algo que vos deu algum gozo, não? Ir procurar essas pessoas que estavam desaparecidas há tanto tempo.

RA: Sim, sim. E para nós, que ouvimos estes discos na altura como fãs, e alguns deles marcaram-nos muito, foi muito gratificante falar com as pessoas que os fizeram, conhecer as histórias em primeira mão. Pessoalmente, refiro sempre o disco dos Mão Morta porque, para mim, houve um antes e um depois. Falar com o Adolfo [Luxúria Canibal] sobre as histórias do Mutante S.21 [de 1992], sobre o que é que o inspirou, foi especialmente gratificante.

A "LOUD!" nasceu a partir da antiga revista "Riff", criada em 1999 por António Freitas

A vossa veia de fãs também veio um bocadinho ao de cima?

RA: Sim, vem sempre. Quem escreve sobre música e quem gosta de música, encara isto até como um privilégio. Há entrevistas que a gente faz na nossa atividade, na LOUD!, que são um bocado por obrigação. Mas há outras que nos dão um gozo genuíno. Somos os fãs a falar com a banda.

JMR: A veia de fã tem sempre de vir ao de cima. Lembro-me de ouvir os Genocide, os Thormenthor, os Decayed e até os Moonspell, na altura das maquetes, e eu era um miúdo que sonhava em ser jornalista musical. Fazia uma fanzine, correspondia-me com os músicos, fazia entrevistas por carta, trocava cassetes… Sim, fazer isto é de facto um privilégio, como o Amorim disse.

E depois há no Quadro de Honra uma nostalgia à qual as pessoas parecem apegar-se um pouco. Ela está lá, mas o livro também ajudou-nos a desmistificar uma série de ideias que se calhar existiam em relação àquela altura. Hoje em dia temos a tendência de olhar para trás, para os anos 90, como o período do boom, o período dourado, em que tudo era melhor. Mas se calhar não era tudo assim tão bom e se calhar existiam uma série de curiosidades em relação a estes lançamentos que as pessoas desconheciam. Acho que o Quadro de Honra acaba por ser um bom retrato daquela altura em que, sei lá, as pessoas estavam a tentar descobrir, vingar, marcar uma posição e, nalguns casos, sair do underground. Foi uma altura muito boa, mas se calhar também houve coisas que não foram muito bem feitas.

"Lembro-me de ouvir os Genocide, os Thormenthor, os Decayed e até os Moonspell, na altura das maquetes, e eu era um miúdo que sonhava em ser jornalista musical."
José Miguel Rodrigues

Como foi o caso dos Decayed, que podiam ter assinado por uma editora importante, a Osmose, e que não chegaram a fazê-lo.

JMR: É uma história no mínimo caricata.

RA: Também mostra a ingenuidade da altura. Acho que este livro procura também repor a justiça sobre o que foi este período. Lemos muitas vezes sobre o que foi a música de intervenção antes do 25 de Abril, sobre o que foi a geração do Rapública, uma compilação de artistas de hip-hop que saiu nos anos 90 e que teve repercussões alargadas, mas também existo um movimento no rock e no metal. Ninguém fala nisso, parece que não existiu. Por exemplo, a cena hardcore nacional tinha mais força do qualquer outro movimento em Portugal nos anos 90. Os X-Acto metiam 800 pessoas no Ritz à tarde. Havia uma mobilização muito grande e acho que isso devia ficar registado. Devíamos contar essa história às novas gerações.

Falaram há bocado em desmistificar alguns conceitos. A ideia que as pessoas têm do hardcore também mudou muito. Nesse sentido, acham que o livro também ajuda a explicar o que foi e o que é o movimento?

RA: Hoje em dia as pessoas têm bocado aquela ideia de que o hardcore é aquela cena do tough boy, os gajos com as tattoos e os alargadores nas orelhas e que só querem andar à porrada nos concertos. O livro também desmistifica um pouco. A cena hardcore nos anos 90 em Portugal era muito positiva. Havia bandas que eram straight edge mas havia outras que também não eram. Mas era uma “cena” muito mais positiva. Havia uma sensibilização para as causas — causas sociais, dos direitos dos animais, vegetarianismo, contra a homofobia, contra as touradas. Uma série de coisas que, se calhar, agora se perderam um bocado.

Mas as pessoas que viveram aquela altura — e isso está muito bem explicado na entrevista dos New Winds e também dos X-Acto — adquiriram valores e uma ética de trabalho que perduram até hoje. Não foi uma coisa que aconteceu ali e que passou.

O escritor José Luís Peixoto fala exatamente isso no prefácio que escreveu para o livro. Como é que ele veio aqui parar?

RA: Conheci o José Luís Peixoto exatamente aqui. Quando ele fez o disco com os Moonspell, entrevistei-o a ele e ao Fernando Ribeiro. Não conhecia o Peixoto e mantivemos uma boa relação desde aí. Ele às vezes colaborava numa outra revista que eu tinha, que era a Underworld. Fazia textos para nós. E entretanto tornou-se num dos maiores escritores portugueses vivos e tem todo esse background que faz sempre questão de sublinhar publicamente. Nunca o renega, muito pelo contrário — faz sempre questão de sublinhar isso. E depois também descobri na entrevista que fiz aos X-Acto que ele chegou a fazer uma audição para ser vocalista.

Porque ele teve uma banda. É uma coisa que a maioria das pessoas não sabe.

RA: Exatamente. E vai a concertos e está a par do que vai acontecendo, dos novos lançamentos. E quando soube da historia, que ele teve para ser vocalista dos X-Acto, pensei “ok, vai ser ele de certeza” [a escrever o prefácio]. Mandei-lhe logo a entrevista quando a fiz, e ele disse que até ficou emocionado quando leu aquilo. Disse-lhe que tínhamos a ideia de que, quando tivéssemos uma compilação maior, de sair em livro e que queria que ele fizesse o prefácio. Ele disse logo que sim. Nem hesitou durante dois segundos.

Falaste há bocado nos Moonspell, uma das bandas que surge livro. Um dos capítulos foi escrito pelo Fernando Ribeiro, que também desvenda um pouco como é que os Moonspell conseguiram lançar-se lá fora e como é que chegaram a onde chegaram. É um relato em primeira pessoa, e não uma entrevista. Porque é que optaram por esse formato?

RA: Foi uma questão prática. Fiz uma entrevista com o Fernando quando saiu o penúltimo álbum, o Alpha Noir [de 2012], e ele tinha acabado de comprar a revista em que saiu o “Quadro de Honra” com os Thormenthor. E disse que estava maluco com aquilo, que adorava Thormenthor, e ficámos a falar um bocadinho. Eu disse-lhe que mais tarde ou mais cedo tínhamos de falar do Wolfheart [de 1995].

É inevitável?

RA: É inevitável porque há um antes e um depois do Wolfheart em Portugal. Custa muito a algumas pessoas, mas é verdade.

Quando achámos que era altura de fazermos um artigo sobre o Wolfheart liguei-lhe e tentei marcar com ele, mas foi um muito complicado porque eles iam fazer uma turné na Rússia, onde a grande parte das viagens iam ser feitas de comboio. Ele disse-me que para fazermos aquilo e para sair naquela edição tinha de ir ter com ele no dia seguinte ao aeroporto para falarmos antes de embarcar. Mas eu achei que era uma coisa um bocado à pressa e que se calhar não ia correr muito bem, então disse que, como ia estar em turné e com o computador, para escrever. À Júlio Verne. Ele achou uma ótima ideia, e resultou muito bem. Dá um toque diferente. Depois, para o livro, disse-lhe para continuar e escrever sobre o Irreligious [de 1996], que faz 20 anos.

Disseste que há um antes e depois do Wolfheart, e vocês fizeram questão de escrever isso no Quadro de Honra. Porquê?

JMR: Lá está, há bocado estávamos a falar de bandas que batalharam para conseguir alguma coisa, e os Moonspell conseguiram de facto marcar uma posição. Primeiro com o [EP] Under the Moonspell, que conseguiram editar por uma editora francesa, mais pequena, a Adipocere Records. Só isso bastou para ficar toda a gente a pensar: “Bolas, afinal é possível ser uma banda nacional, tocar metal, assinar por uma editora estrangeira e ter uma exposição maior”. Quando eles assinaram por seis discos com a Century Media ento, alto lá! Acho que acaba por marcar um bocadinho por ai. Custe às pessoas ou não, como o Amorim estava a dizer, os Moonspell foram a primeira banda que provou que um grupo de metal português podia ir lá para fora e rivalizar com tudo o que era feito naquela altura. Abriram portas.

A "LOUD!" é uma revista independente, mensal, dedicada "a tudo o que é alternativo"

Fizemos a apresentação do livro no fim de semana passado na Fnac do Porto e tivemos como convidado o Ricardo Dias dos Heavenwood, uma das poucas bandas que aproveitou esse abrir portas dos Moonspell. E ele admite que eles de facto ajudaram a abrir caminho, porque provaram que era possível, porque batalharam imenso. Acho que todas as bandas deviam olhar para os Moonspell e perceber o que é que têm de fazer para vingar. É óbvio que hoje os tempos são diferentes. É óbvio que uma banda já não se consegue afirmar como os Moonspell se afirmaram naquela altura. Até porque foram o típico caso de…

RA: Sítio certo no momento certo.

JMR: Sim, até porque o black metal estava a rebentar naquela altura em termos de popularidade. O que os Moonspell faziam inseria-se nesse campeonato, apesar de ser um bocadinho diferente. Havia uma série de coisas que soava um pouco exótico às pessoas lá de fora, e eles conseguiram captar a atenção por causa disso. Não há como lhes tirar o mérito.

RA: Acho que a primeira turné que fizeram foi numa carrinha atrás dos Morbid Angel e dos Immortal. Eles eram a terceira banda, e vendiam mais t-shirts do que os Morbid Angel. Tudo isto teve um grande impacto nas pessoas. Claro que houve sempre o “ah, agora são vendidos”, quando estavam apenas a fazer aquilo que todas as bandas gostariam de estar a fazer.

JMR: Ao ponto de olharmos para trás e acharmos que muitas bandas tiveram a perder tempo a dizer mal deles em vez de aproveitarem a boleia.

RA: Exatamente, exatamente. Aproveitar a boleia ou fazer alguma coisa.

O livro é constituído maioritariamente por entrevistas a bandas de metal e hardcore, mas também inclui um capítulo dedicado ao 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, lançado em 1978 por José Cid. Porque é que fizeram questão de o incluir?

RA: É uma curiosidade. Desde puto que ouvia dizer que o José Cid tinha um disco de rock progressivo, que era muita bom. Na altura, nos anos 90, não podíamos ir à net sacá-lo e ouvi-lo e ver se era verdade ou não.

Então tornou-se numa espécie de mito urbano.

RA: Sim, era um bocado. Ainda antes de o José Cid o ter recriado, tivemos essa ideia [de o entrevistar].

JMR: É o disco mais antigo que está no Quadro de Honra.

RA: Lembramo-nos de que seria giro fazer qualquer coisa com o tal disco mítico, que foi feito com grandes músicos da altura e que, para os apreciadores do rock progressivo, era muito importante. Achámos que era uma curiosidade engraçada, e as pessoas reagiram muito bem. Ele também foi muito cooperante com o [jornalista] Nelson Santos.

"Os Moonspell foram a primeira banda que provou que um grupo de metal português podia ir lá para fora e rivalizar com tudo o que era feito naquela altura. Abriram portas."
José Miguel Rodrigues

E até admitiu que gosta de metal.

JMF: Sim, de speed metal, thrash metal.

Foi uma surpresa para vocês?

RA: O que vem do José Cid já não surpreende.

JMR: Sim, do José Cid só se espera o inesperado. [Risos].

O grande foco do livro são os anos 90, mas há bandas e álbuns mais recentes. O Fæmin dos Process of Guilt, por exemplo, saiu em 2012. Isso quer dizer que vocês consideram que o underground não morreu?

RA: Não, continuou.

E está mais forte?

RA: Sim, sem dúvida. Há muito mais coisas a acontecer. Por exemplo, quando estes discos saíram, havia muito a tendência, provinciana, de nos compararmos com o que se fazia lá fora. E andávamos sempre atrasados. Quando apareceu o Chaos A.D., de Sepultura, em 93, só anos mais tarde é que se começou a sentir a influência do disco nas bandas portuguesas. O primeiro disco dos Machine Head então foi uma praga! Passados uns anos, todas as bandas queriam soar a Machine Head. Quem mudou isso também foram novamente os Moonspell. Tinham as suas influências, mas eram aquilo.

Eram eles próprios.

RA: Exato, eram eles próprios. E hoje há bandas parecem que não estão a correr atrás dos outros. Seguem o seu caminho.

No prefácio, José Luís Peixoto fala com saudades daquele tempo, que foi tão importante para ele. Identificaram-se com as palavras dele?

RA: Sim, claro, até porque somos mais ou menos da mesma geração. Há uma diferença de alguns anos — ele mais velho, eu se calhar mais puto e o Zé no meio. Mas vivemos todos aqueles momentos, aqueles anos que nos formam como pessoas. Tendo sido pior ou melhor do que é atualmente, marcou-nos. Há sempre um olhar nostálgico sobre isso.

Lembram-se do vosso primeiro concerto? Há algum que vos tivesse marcado especialmente, como o dos X-Acto marcou José Luís Peixoto?

RA: O meu primeiro concerto foi Grog na Escola Secundária de São João do Estoril, que foi uma semana ou duas antes de Metallica em Alvalade. Foi ali um período da minha vida muito impactante.

Muito intenso.

RA: Sim, muito intenso. Vi um concerto de uma banda portuguesa de underground totalmente extrema, e a seguir vi o expoente máximo da “cena” no Estádio de Alvalade, com 70, 60 mil pessoas. Mas, do maior ou mais pequeno, os concertos nessa altura marcavam. Guardávamos recordações, os bilhetes.

JMR: Lembro-me de ir de Benavente para o Barreiro para ver uns gajos alemães que eram os Accurary (que era uma banda de que eu nem gostava especialmente), com os Decayed a abrir. Lembro-me bem desse concerto porque conheci montes de gente lá. Estava lá tudo, estabeleci uma série de contactos. Estavam lá pessoas com quem me correspondia e que conheci pessoalmente. Também estive no primeiro concerto de Filiii [Nigrantium Infernalium].

Foram uma série de momentos que os miúdos de hoje em dia também acabam por ter.

"Vivemos todos aqueles momentos, aqueles anos que nos formam como pessoas. Tendo sido pior ou melhor do que é atualmente, marcou-nos. Há sempre um olhar nostálgico sobre isso."
Ricardo Amorim

Menos a parte da correspondência.

JMR: Sim, menos a parte da correspondência. Mas, quer dizer, podem mandar uns emails!

RA: Depois adicionam a pessoa no Facebook. O princípio é o mesmo, só que é tudo muito mais rápido.

Mas não acham que se perdeu um bocado da magia?

JMR: Sim, mas acho que se perdeu no geral. Até em relação à música, como forma de arte ou de entretenimento. Tornou-se uma coisa muito mais descartável. Acho que já não lhe dão a importância que davam naquela altura. Porque, lá está, é mais fácil.

Texto de Rita Cipriano, fotografia de Hugo Amaral.
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