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NICOLAS ASFOURI/AFP via Getty Images

NICOLAS ASFOURI/AFP via Getty Images

Quais são os países que já investigam e pedem contas à China

Não é uma ideia consensual, mas há países que estão avançar no sentido de investigar a China. Trump já o faz e a Austrália apoia a ideia. Na Alemanha, um jornal apresentou a fatura a Xi Jinping.

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Explicações, dinheiro ou perdão total de dívida. É isto que alguns países já começaram a exigir à China à medida que a pandemia do novo coronavírus coloca cada um deles à prova e deixa as suas economias a caminhar em perigo.

O coro de críticas começa a subir em torno do regime de Xi Jinping, entre denúncias que apontam para os alegados encobrimentos de Pequim na fase inicial do surto do coronavírus, acusações de domínio da Organização Mundial de Saúde e o levantamento de suspeitas de que o vírus pode ter sido criado num laboratório em Wuhan, do qual terá sido espalhado por descuido e falta de segurança.

O que a China (não) fez para evitar a pandemia. O resto do mundo pode pedir contas ao regime?

Estas acusações já tinham levado a que a Henry Jackson Society e alguns especialistas em direito internacional defendessem a ideia de pedir contas à China na sequência desta pandemia que teve origem no seu território — e que por esta altura soma praticamente 2,7 milhões de infetados em todo o mundo e um total de 188.873 mortos.

Porém, a essa hipótese meramente académica têm-se somado as posições tomadas nalguns países, entre governantes, alguma imprensa e agentes da sociedade civil. São estes alguns desses casos.

(NICOLAS ASFOURI/AFP via Getty Images)

EUA. Trump quer investigar a China, o Missouri e o Mississipi preferem processá-la

O mote foi dado por Donald Trump: os EUA estão a investigar a China. A confirmação presidencial surgiu num dos briefings de Trump na Casa Branca, após lhe ter sido colocada uma questão sobre o vírus SARS-CoV-2 (que leva à doença Covid-19) poder ter tido origem num laboratório em Wuhan.

A pergunta não surgiu do nada: a 14 de abril, o Washington Post escrevia sobre comunicações diplomáticas dos EUA em 2018 que apontavam para essa possibilidade. Ali, lia-se como o laboratório em questão parecia ter “uma séria falta de técnicos e investigadores bem treinados para operar em segurança” as experiências que teriam em mãos. Na conferência de imprensa, o jornalista John Roberts, da Fox News, falou em “várias fontes” e levantou essa questão: “Isto bate com aquilo que tem ouvido?”.

A maneira como Donald Trump respondeu reflete a encruzilhada em que se encontra: por um lado, não quer nem pode hostilizar por completo a única potência capaz de fazer sombra aos EUA, que é a China; pelo outro, não quer ficar atrás do coro de críticas em relação a Pequim, do qual se serve como arma política.

“Bom, não quero dizer isso, John”, começou por responder. “Mas digo-lhe que estamos cada vez mais a ouvir falar sobre essa história. Vamos ver.” Mais à frente deixou a garantia de que os EUA estão a “verificar minuciosamente esta situação horrível que aconteceu”, recusando depois responder se levantou este tema nas conversas que teve com o seu homólogo chinês. “Não é adequado”, respondeu.

Apesar de adotar um tom crítico contra a China, Donald Trump alterna esses momentos com elogios. Porém, na esfera ideológica do Presidente, o tom de críticas não cessa (Thomas Peter-Pool/Getty Images)

Thomas Peter-Pool/Getty Images

Além desta investigação, os EUA estão também a fazer outra em torno do alegado favorecimento da OMS

A China manda mesmo na Organização Mundial de Saúde?

Porém, há quem vá mais longe e fale de forma mais incisiva em relação à China. Primeiro, há o Senado, de maioria republicana. Um conjunto de oito senadores republicanos, onde se incluem os ex-candidatos presidenciais de 2016 Marco Rubio e Ted Cruz, dirigiu uma petição a Donald Trump para que fosse aberta uma “investigação internacional” em torno da China e do novo coronavírus. Os oito senadores propõe uma investigação centrada em dois aspetos: a origem do vírus, acenando à possibilidade (que até agora carece de provas) de o vírus ter tido sido gerado num laboratório; e o processo de decisão da Organização Mundial de Saúde (OMS) durante esta pandemia, em linha com as críticas de que aquela organização seria conivente com a China. Tanto uma como a outra já estão a decorrer, conforme foi anunciado por Donald Trump.

"O governo chinês mentiu ao mundo sobre o s perigoso e a natureza contagiosa da Covid-19, silenciou denunciantes e pouco fez para impedir que a doença se espalhasse. Têm de ser responsabilizados pelas suas ações."
Eric Schmitt, procurador-geral do estado norte-americano do Missouri

Depois, há os estados. Tudo começou com o Missouri, cujo procurador-geral, o republicano Eric Schmitt, decidiu fazer o que nenhum outro país fez até agora: processar a China.

“O governo chinês mentiu ao mundo sobre o perigo e a natureza contagiosa da Covid-19, silenciou denunciantes e pouco fez para impedir que a doença se espalhasse”, disse aquele jurista conservador. “Têm de ser responsabilizados pelas suas ações”, continuou Eric Schmitt. Na queixa, apresentada num tribunal daquele estado no qual tinham sido registados, até esta quarta-feira, 6.137 casos de coronavírus, dos quais 208 resultaram na morte dos pacientes.

Depois Missouri veio o Mississipi, com a procuradora-geral daquele estado sulista, a republicana Lynn Fitch, a seguir o mesmo caminho.

À ação jurídica movida pelo Missouri, a China respondeu através do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang. “Este dito processo é muito absurdo e não tem qualquer base de sustentação factual ou legal”, disse.

(Tracey Nearmy/Getty Images)

Austrália: investigar a China por uma questão de “transparência”

Atrás dos EUA, veio a Austrália. As hostilidades foram abertas pela ministra dos Negócios Estrangeiros, Marise Payne, que numa entrevista à televisão ABC TV admitiu: “A minha preocupação atingiu um ponto alto. Estou preocupada em termos de transparência e quero garantir que conseguimos interagir abertamente”.

E, insistindo sempre na palavra “transparência” ao longo da entrevista, deixou expressa a posição do governo australiano em torno da Covid-19, da sua origem na China e também da gestão da pandemia pela OMS: “As questões relativas ao coronavírus são passíveis de serem avaliadas de forma independente e penso que é importante que o façamos”. E deixou uma certeza: “A Austrália vai absolutamente insistir com isso”.

"A minha preocupação atingiu um ponto alto. Estou preocupada em termos de transparência e quero garantir que conseguimos interagir abertamente."
Ministra dos Negócios Estrangeiros australiana, Marise Payne

Essa garantia foi reforçada mais à frente pelo primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrisson. Eleito pelo Partido Liberal (centro-direita), o seu governo tem tido uma relação tensa com a China e tem-se queixado de tentativas de interferência em assuntos internos, nomeadamente através de ciberataques.

“Quem quer que seja membro de um clube como a OMS deve ter de assumir as responsabilidade e as obrigações que lhe são inerentes”, disse. “O nosso objetivo aqui é muito simples: gostávamos que o mundo fosse mais seguro no que toca aos vírus. Parece-me uma ambição bastante honesta e por isso estou certo que a maior parte das pessoas no mundo inteiro concordariam com ela.”

Scott Morrison, primeiro-ministro da Austrália, a espirrar durante uma sessão parlamentar (Sam Mooy/Getty Images)

Getty Images

Também neste caso, a China respondeu negativamente. “A dita investigação independente proposta pela Austrália é, na verdade, uma manipulação da realidade política”, reagiu o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Geng Shuang. “Aconselhamos a Austrália a desistir dos seus preconceitos ideológicos.”

(Sean Gallup/Getty Images)

Alemanha: o tablóide Bild apresenta a fatura

Da parte do Governo da Alemanha, a reserva em criticar a China neste momento mantém-se. O mesmo não se pode dizer, porém, do jornal com maior tiragem daquele país, o tablóide Bild, que apresentou nas suas páginas uma fatura endereçada à China no valor de 149 mil milhões de euros. Tudo isto sob o título: “É isto que a China já nos deve”.

A conta de dinheiro perdido na Alemanha por causa da pandemia, segundo o Bild, incluía 24 mil milhões pela perda de receita no turismo; 7,2 mil milhões pela indústria cinematográfica germânica; 1 milhão de euros por cada hora no caso da Lufthansa; 50 mil milhões para as pequenas e médias empresas. A lista continua, com exemplos que iam ainda à Volskwagen, aos clubes de futebol ou ao mercado livreiro, entre outros. No final, tudo somado, o Bild pediu à China que pagasse à Alemanha 149 mil milhões de euros, equivalente a uma quebra de 4,2% no PIB.

A proposta daquele jornal, que não poucas vezes adota um tom provocador para abordar os temas mais polémicos, foi mal recebida pela embaixada da China em Berlim, que reagiu no próprio dia. “Qualquer pessoa que faça os mesmos cálculos do Bild só atiça o nacionalismo, o preconceito, a xenofobia e a hostilidade contra a China”, escreveu a porta-voz da embaixada, Tao Lili, numa carta aberta ao diretor do Bild.

"Você foi demasiado orgulhoso e demasiado nacionalista para dizer a verdade, que sentiu como uma desgraça para a nação."
Carta aberta do diretor do tabloide alemão Bild a Xi Jinping

Pouco depois, contra-réplica. O diretor do Bild, Julian Reichelt, reagiu com uma carta aberta dirigida a Xi Jinping, acusando o regime de Pequim de usar uma imagem de “amizade dos povos” como “cavalo de Tróia” de um “imperialismo escondido por trás de um sorriso”. Sobre a Covid-19, disse ao Presidente da China: “Você foi demasiado orgulhoso e demasiado nacionalista para dizer a verdade, que sentiu como uma desgraça para a nação”.

(Getty Images)

Reino Unido: o business as usual pode ter os dias contados

Boris Johnson ainda não teve nenhuma declaração crítica em relação à China. Mas o homem por ele escolhido para tomar as rédeas do Governo do Reino Unido durante a sua ausência sim (Boris Johnson, que foi internado a 6 de abril por Covid-19 e teve alta no dia 12 do mesmo, continua a recuperar).

A 16 de abril, quando lhe perguntaram como é que o Reino Unido pretende lidar com a China daqui em diante, Dominic Raab, que além de primeiro-ministro em funções é ministro dos Negócios Estrangeiros, respondeu: “Não há dúvida de que não podemos fazer negócios como antes [a expressão original foi “business as usual“] depois desta crise”.

“Vamos ter de colocar questões difíceis sobre como é que tudo surgiu e porque é que o vírus não foi travado mais cedo”, acrescentou.

Estas declarações surgiram poucos dias depois de o The Guardian ter noticiado que os serviços de informação do Reino Unido (o MI6, que se foca na segurança externa; e o MI5, que tem o pelouro da segurança interna) apontaram ao ministros de Boris Johnson que o Estado britânico deve adotar uma “visão realista” no que toca à sua relação com a China.

(Andy Wong – Pool/Getty Images)

África: perdoar toda a dívida, como “prova de remorsos”

Não é certo quanto dinheiro o conjunto dos países africanos devem à China. De acordo com os cálculos da China Africa Research Initiative, da Johns Hopkins University, são 152 mil milhões no período entre 2000 e 2018. E, segundo as contas do Banco Mundial, também feitas em 2018, 17% da dívida africana era chinesa. Desde então, a tendência tem sido para aumentar — levando a que, dentro e fora de África, esta prática chinesa fosse muitas vezes descrita de forma crítica como “diplomacia da armadilha da dívida”.

Agora que a crise do novo coronavírus levou mais de 90 países a fazerem pedidos de financiamento urgente ao Fundo Monetário Internacional, já se ouvem várias vozes em diferentes países do continente a favor de um cancelamento da dívida à China na sequência da pandemia da Covid-19 — e para as quais pouco serviu o anúncio de 17 de abril dos países do G20, do qual a China faz parte, de uma moratória sobre o pagamento da dívida por parte dos países mais pobres, a maioria em África.

"A economia da África do Sul já perdeu milhares de milhões de rands por causa do vírus de Wuhan. O governo chinês tem de cancelar a dívida da África do Sul como prova dos seus remorsos. Onde é que a África do Sul vai buscar dinheiro para lhes pagar, por cima de todas as mortes dos nossos cidadãos inocentes?"
Blessings Ramoba, presidente do Mining Forum of South Africa.

O desagrado não é, para já, expresso pelas lideranças políticas dos países — muitos deles, dependentes da China para assegurar a tesouraria, não arriscam fazê-lo. Porém, na sociedade civil e na oposição, o caso muda de figura em vários países.

“A economia da África do Sul já perdeu milhares de milhões de rands por causa do vírus de Wuhan. O governo chinês tem de cancelar a dívida da África do Sul como prova dos seus remorsos”, escreveu no Twitter o presidente do Mining Forum of South Africa. “Onde é que a África do Sul vai buscar dinheiro para lhes pagar, por cima de todas as mortes dos nossos cidadãos inocentes?”

Na Nigéria, um conhecido pastor protestante, Johnson Suleman, defendeu a mesma ideia no seu programa de televisão. “Já disse isto vezes sem conta: a China devia cancelar todas as dívidas. E mesmo isso não iria exculpá-los da dor que causaram ao mundo”, disse, colocando dúvidas sobre a transparência da gestão chinesa desta crise. “De repente, passaram a ser burros”, disse. “Se conseguiram tratar do vírus no seu próprio país, então que digam aos outros como fizeram”.

Em Angola, um dos países em todo o continente africano a quem a China emprestou mais dinheiro, disse à agência Lusa que “não se pode fingir” que as relações entre as duas nações não foram afetadas por esta crise.

“Não se pode fingir” que relações Angola-China não estão a ser afetadas, diz presidente da câmara de comércio

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