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Miguel Gutierrez/EPA

Miguel Gutierrez/EPA

Quatro razões para o golpe de Guaidó ter falhado /premium

A "Operação Liberdade" de Juan Guaidó falhou. O Presidente interino prometeu o fim de Nicolás Maduro, mas no final os militares que o apoiaram fugiram e o povo não saiu massivamente às ruas. Porquê?

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A “Operação Liberdade” de Juan Guaidó falhou. O Presidente interino prometeu o fim de Nicolás Maduro, mas no final os militares que o apoiaram fugiram e o povo não saiu massivamente às ruas. Porquê? Por quatro razões, que descrevemos em baixo.

O simbolismo de Guaidó é forte, mas as armas ainda falam mais alto

O campo do simbolismo é aquele onde Juan Guaidó é mais forte. O jovem político de 35 anos é Presidente interino da Venezuela apenas com poder simbólico, lidera uma Assembleia Nacional com funções meramente simbólicas, é reconhecido por vários países da comunidade internacional com resultados, até hoje, estritamente simbólicos.

Petróleo, ouro e poder: como Maduro comprou os militares e garantiu (até ver) o seu apoio

A ação militar desta terça-feira cumpria essa mesma ordem de ideias: foi uma ação simbólica. Afinal de contas, o que Juan Guaidó conseguiu conquistar foi a libertação de um preso político que estava em prisão domiciliária. E se é certo que este era provavelmente o preso político mais celebrado entre os defensores da oposição ao chavismo, também é incontornável o facto de que retirar alguém de prisão domiciliária não é o mesmo do que:

  • tomar controlo de uma base militar (algo que Juan Guaidó não chegou a conseguir, apesar de relatos em contrário);
  • conseguir o comando de infrastruturas chave (como os meios de comunicação estatais);
  • ou deter efetivamente figuras cimeiras do regime.

Tudo isso teria um valor prático que, como ficou provado, não se compara com a libertação de um preso político em prisão domiciliária.

Juan Guaidó conseguiu a libertação de Leopoldo López e prometeu a libertação de mais presos políticos nos próximos dias (Miguel Gutierrez/EPA)

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Do lado do regime, há o poder de facto — e esse, para já, parece estar do lado de Nicolás Maduro e do regime venezuelano. Aqui, o mais importante são mesmo os militares — que, até agora, não parecem estar dispostos a trair o regime e as suas principais figuras, como são Maduro, Presidente de facto, e Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional e vice-presidente do PSUV.

“Tenhamos em conta que os militares não se pronunciaram desde uma base militar nem submeteram oficiais que estivessem no comando de qualquer quartel. Também não houve pronunciamento de qualquer líder militar.”
Sebastiana Barráez, jornalista especialista em temas militares

Afinal de contas, de acordo com a jornalista venezuelana Sebastiana Barráez, especialista em temas militares, terão sido apenas 25 aqueles que levaram à libertação de Leopoldo López. “Tenhamos em conta que os militares não se pronunciaram desde uma base militar nem submeteram oficiais que estivessem no comando de qualquer quartel. Também não houve pronunciamento de qualquer líder militar”, escreveu aquela jornalista no site infobae. No final, cada um daqueles 25 militares acabou por se refugiar na embaixada brasileira. Além deles, já ao final do dia, também Leopoldo López teve uma fuga semelhante. Primeiro, foi para a embaixada do Chile. Depois, acabou por passar para a de Espanha.

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O povo não saiu (nem conseguiu) ir em peso à rua

O apelo de Juan Guaidó, tanto na terça como na quarta-feira, foi para que os venezuelanos saíssem massivamente às ruas para fazerem “a maior manifestação de sempre”. O facto é que isso acabou por não acontecer em nenhum dos dias — e o apelo de Juan Guaidó pode indiciar que o Presidente interino da Venezuela sabia não ter do seu lado um poderio militar considerável, já que, se o tivesse, estaria apenas a convidar a população para um banho de sangue.

A população, além de ter presente que o regime chavista e as milícias armadas não hesitam em disparar para matar (este ano já morreram 54 manifestantes e, desde que Nicolás Maduro tomou posse em 2013, morreram 271 pessoas em protestos), não terá também totalmente afastada da memória o marco trágico que foi o Caracazo, em 1989. Em apenas 9 dias de manifestações contra as medidas de austeridade impostas pelo então Presidente Carlos Andrés Pérez, o número de mortos superou os valores totais do regime de Maduro: 276 nas contas da Procuradoria-Geral mas, segundo algumas ONG, o número real pode ter chegado aos 3.000.

Ao contrário do que aconteceu noutras ocasiões, como na manifestação da oposição de 2 de fevereiro, desta vez poucas pessoas cumpriram o apelo de Guaidó para encherem as ruas (Rayner Pena/EPA)

Rayner Pena/EPA

Esta quarta-feira, depois do apelo reforçado de Juan Guaidó, os venezuelanos anti-Maduro voltaram a sair às ruas, mas não foram longe. Juntamente com o seu apelo, o Presidente interino publicou uma lista de vários pontos de partida das manifestações em Caracas. O resultado foi que, logo no início, os manifestantes que foram a cada um desses locais foram confrontados com medidas de repressão — sobretudo granadas de gás lacrimogéneo — que os impediram de prosseguir. Quando discursou na tarde desta quarta-feira, prometendo libertar mais presos políticos nos próximos dias, Juan Guaidó acabou por fazê-lo não perante uma multidão de perder de vista, mas antes em frente a um grupo de apoiantes mais pequeno do que aquele que provavelmente esperava.

Maduro terá aceitado afastar-se, mas Diosdado Cabello pôs-se à frente

O El Español escreve esta quarta-feira que Nicolás Maduro já tinha tudo acertado com os EUA, Putin e Juan Guaidó para sair do poder e seguir para o exílio — mas que, no final, este desenvolvimento foi bloqueado pelo presidente da Assembleia Constituinte e vice-presidente do PSUV, Diosdado Cabello.

Aquele jornal dá conta da mesma realidade que alguns jornalistas venezuelanos também deram conta: a operação que levou à libertação de Leopoldo López já estava prevista mas foi antecipada um dia, por receio de as autoridades venezuelanas prenderem Guaidó.

A par do plano — que previa a saída de Nicolás Maduro do poder e que contaria com a colaboração do ministro da Defesa, do chefe da segurança pessoal do ditador venezuelano e também do presidente Supremo Tribunal de Justiça — estavam três países: Brasil, Colômbia e EUA.

Diosdado Cabello é presidente da Assembleia Nacional e número dois do PSUV. O seu círculo de poder choca com o de Nicolás Maduro (JUAN BARRETO/AFP/Getty Images)

JUAN BARRETO/AFP/Getty Images)

Perante o adiantamento por um dia da camada “Operação Liberdade”, aqueles países desdobraram-se em contactos com a Rússia — principal aliada de Nicolás Maduro — para garantir que também Moscovo acedia a uma transferência pacífica do poder. De acordo com o El Español, Vladimir Putin terá dado luz verde para este desfecho após ter garantias de Juan Guaidó de que a Venezuela pagaria a dívida que o regime de Maduro tem contraído de forma progressiva com a Rússia.

Segundo escreve o El Español, Nicolás Maduro já tinha aceitado esta hipótese (tal como disse Mike Pompeo) mas que (e aqui ao contrário do que o secretário de Estado norte-americano afirmou) Diosdado Cabello deitou tudo a perder ao negar sair do poder. Diosdado Cabello, que lidera um núcleo dentro do chavismo que choca com o núcleo de Maduro, negou sair do poder — e a prova disso foi a enérgica declaração que fez ontem à tarde, a primeira de alguém de topo do regime a fazê-lo.

Não alheio a isto, será o facto de Diosdado Cabello ter uma ordem de captura internacional emitida pelos EUA, que o acusam de liderar uma rede internacional de narcotráfico.

Enquanto presidente da Assembleia Constituinte e vice-presidente do PSUV falava, Nicolás Maduro guardava silêncio — silêncio esse que só viria a quebrar já quase de madrugada, numa declaração onde disse ter sido bloqueado o golpe e onde garantiu ter 80% dos militares do seu lado.

Os telemóveis dos conspiradores chavistas que ficaram desligados

A “Operação Liberdade” de Juan Guaidó também não terá tido sucesso muito porque, até agora, três homens de destaque do chavismo que terão estado em negociações com Juan Guaidó acabaram por recuar.

Os seus nomes foram avançados pelo menos por três pessoas: o conselheiro para Segurança Nacional dos EUA, John Bolton; o representante especial dos EUA para a Venezuela, Elliott Abrams; e o coordenador político da Voluntad Popular (partido de Juan Guaidó e de Leopoldo López) em Espanha, Sergio Contreras.

Quem são, então, esses três homens?

  • Maikel Moreno — presidente do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) reconhecido pelo regime mas não pela oposição.
  • Iván Hernandez Dala — responsável pela guarda de honra de Nicolás Maduro e chefe das secretas militares.
  • Vladímir Padrino López — ministro da Defesa.

De acordo com o relato de Antonio Ledezma, ex-autarca de Caracas e opositor exilado em Espanha, Iván Hernandez Dala terá sido “crucial” para a libertação de Leopoldo López. Isto apesar de este gesto estar a ser atribuído em grande parte ao ex-diretor do SEBIN (as secretas venezuelanas), Cristopher Figuera, que, para todos os efeitos, se pôs em fuga após a iniciativa de Juan Guaidó e que terá sido posteriormente detido.

Falaram, falaram e falara e, quando chegou o momento da ação, não estiveram dispostos a avançar."
Elliott Abrams, representante especial dos EUA para a Venezuela

Mas o que poderia cada um deles fazer, então, para derrubar Nicolás Maduro? O plano parecia prever dois momentos essenciais:

  • Primeiro, Maikel Moreno trataria de reconhecer a invalidade do governo de Nicolás Maduro.
  • Depois, em simultâneo, Iván Hernandez Dala trataria de garantir a detenção de Nicolás Maduro ao mesmo tempo que Vladímir Padrino López, homem que lidera as forças armadas há quase cinco anos, trataria de travar qualquer avanço militar para salvar o regime.

No entanto, na Hora H, nenhum deles avançou contra Nicolás Maduro.

Vladímir Padrino López escreveu no Twitter: “Recusamos este movimento golpista que pretende encher o país de violência. Os pseudo-líderes políticos que se colocaram à frente deste movimento subversivo empregaram tropas e polícias com armas de guerra nas vias públicas da cidade para criar divisão e terror”.

Maikel Moreno também usou o Twitter para condenar as movimentações de Juan Guaidó contra Nicolás Maduro. “Expresso a minha condenação contundente perante as tentativas ilegais de um pequeno grupo de militares e civis que procuram tomar o poder político da nação pela força, ao arrepio da Constituição e das leis vigentes do país”, escreveu.

Já Iván Hernández Dala não teve qualquer reação pública. Só silêncio.

E foi silêncio que Juan Guaidó e Elliott Abrams tiveram destes setores. Sem referir nomes, mas apontando apenas para “muita gentes nos altos níveis do governo venezuelano”, o representante especial dos EUA para a Venezuela comentou que houve conversações com várias pessoas — mas que, no final, não fizeram nada. “Falaram, falaram e falaram e, quando chegou o momento da ação, não estiveram dispostos a avançar”, atirou Elliott Abrams, em declarações à agência EFE.

O desprezo foi mesmo literal. Segundo contou aquele responsável norte-americano, quando tentou entrar em contacto com eles por telefone, não conseguiu nada: “Muitos deles desligaram os telemóveis”.

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