Se, na prática, António Costa precisou de apenas três horas para aprovar as listas de candidatos a deputados do PS, Rui Rio precisou de nada menos do que 14 longas horas para acertar os últimos detalhes e disparar os últimos cartuchos de uma guerra que já se arrastava há semanas. A primeira das três reuniões do dia estava agendada para as 13h desta terça-feira, num Hotel de Guimarães, e estendeu-se para lá da hora. Era a reunião da Comissão Permanente, o órgão mais restrito da direção, e só acabou já perto das 17h, antevendo um dia difícil. Seguiu-se a reunião da Comissão Política Nacional, que votou as listas de candidatos a deputados que seriam, horas depois, apresentadas ao Conselho Nacional, que se reuniria noutro hotel da cidade de Guimarães, para a derradeira votação.

Sem tempo para paragens para almoços ou jantares, a direção de Rui Rio circulava nervosa e em mangas de camisa pelos corredores. Mas no fim, feitas as contas, e depois de ouvidas muitas críticas e apupos, as listas de Rio foram aprovadas por 74% dos 108 conselheiros com direito a voto (com 18 votos contra e 10 abstenções). Uma percentagem mais confortável do que os 60% que Rio tinha conseguido no episódio do impeachment de Luís Montenegro, em janeiro. O relógio marcava as 2h50 quando houve aplausos e fumo branco.

Rui Rio saiu, por isso, vivo, de mais uma noite longa no PSD. Mas não sem fazer cedências e deixar alguns dos seus ficar pelo caminho. Para não comprar guerras, a direção do partido acabou por ver alguns dos seus mais próximos ficar fora das listas ou até mesmo em lugares considerados difíceis de eleger. Já depois das 3h da manhã, era o próprio Rio quem fazia o balanço aos jornalistas: “Até foi razoavelmente pacífico”. Dizendo que já viu muitos processos destes ao longo da sua vida política e que são sempre processos muito turbulentos quando o PSD “está na oposição”. “Não há aqui saneamentos selvagens, não são privilegiados os amigos, há o equilíbrio possível dentro do partido”, rematou.

PSD aprova listas de deputados de Rui Rio com 74% dos votos a favor. Houve 18 votos contra e 10 abstenções

Em números redondos, dos 89 deputados eleitos pelo PSD em 2015, 49 estão fora das listas para as legislativas que foram aprovadas esta terça-feira, e 39 voltam a repetir-se, contas feitas pela agência Lusa (ainda que muitos destes estejam em lugares considerados não elegíveis). Mais: do núcleo duro da direção do partido, apenas três elementos são candidatos a deputados: o presidente, Rui Rio, número dois pelo Porto, o secretário-geral, José Silvano, número dois por Lisboa, e Isabel Meirelles, número quatro pela capital. Também Fernando Negrão, atualmente líder parlamentar, aparece em Setúbal como número dois.

Eis os principais momentos de mais um longo dia decisivo para o futuro do PSD.

Um atraso

Tudo começou ao início da tarde, num hotel de Guimarães, e tudo terminou pelas 3h da manhã noutro hotel da mesma cidade. Mas a dada altura, os palcos sobrepuseram-se. Problema: a reunião da direção nacional teve de ser suspensa porque estava dependente da distrital do Porto, que se tinha reunido nessa tarde de emergência para decidir o que ia fazer. O Porto, distrito por onde Rio vai ser eleito, foi o que deu luta até ao fim, com o líder da distrital a ameaçar votar contra e a acabar por se abster como statement do descontentamento da distrital. Foi o suficiente para a Comissão Política Nacional acabar já em cima das 21h, hora a que já estavam os conselheiros a chegar ao outro hotel de Guimarães, palco do derradeiro encontro.

Um veto

Depois de uma semana intensa durante a qual circularam notícias de que a direção de Rio estava a vetar os nomes dos críticos indicados pelas distritais, um por um, o secretário-geral José Silvano chegou ao MitPenha, em Guimarães, com as listas aprovadas pela Comissão Política a defender a tese de que veto, veto, só houve um. O de Hugo Soares e mais nenhum. Segundo o secretário-geral do PSD, a aprovação das listas teve “cedências mútuas”, mas, no fim, “foi largamente consensual e só num caso entrou ou saiu alguém sem a aprovação da comissão política distrital”, disse. Ou seja, no entender da direção do partido, “apenas houve um veto por parte da Comissão Política Nacional, caso de Hugo Soares em Braga, e por indisponibilidade para colaborar com a atual direção”. Segundo Silvano, Maria Luís Albuquerque e de Miguel Pinto Luz, por exemplo, nunca foram vetados, apenas foi sugerida a alteração de lugar, o que as respetivas distritais decidiram não aceitar.

Um vice

José Manuel Bolieiro, o vice-presidente que Rui Rio escolheu para substituir Manuel Castro Almeida (que bateu com a porta recentemente), acabou por ser aprovado por 84 votos a favor, 18 brancos e 12 nulos. Ou seja, com alguma contestação interna. Ainda assim, este que era um dos primeiros pontos da agenda da noite, não originou discussão.

Uma derrota

Para não comprar guerras, a direção do partido acabou por ver alguns dos seus mais próximos ficar fora das listas ou até mesmo em lugares considerados difíceis de eleger. No Porto, por exemplo, Hugo Carneiro, secretário-geral adjunto de Rio, acabou por ficar em 13º lugar na lista, sendo que em 2015 o PSD, sozinho, elegeu precisamente 13 (e este ano, já se sabe, a expectativa é menor). Também Rui Silva, apoiante de Rio desde sempre, segue em oitavo na lista de Braga quando, há quatro anos, o PSD elegeu precisamente 8 naquele distrito. Nomes como Joaquim Miranda Sarmento, que é uma espécie de ministro de Finanças de Rui Rio, ficaram totalmente de fora das listas, ou fiéis como Feliciano Barreiras Duarte ou Rodrigo Gonçalves, que ainda chegaram a ser indicados pela direção, acabaram por cair.

Uma vitória

Ainda assim, Rio conseguiu premiar alguns dos que estiveram ao seu lado no impeachment de Luís Montenegro, como Carlos Eduardo Reis ou Rui Cristina que, de resto, representam uma lista própria no Conselho Nacional que detém 13 importantes votos — votos esses que Rio não quis desperdiçar. Só o nome de João Montenegro, santanista que se mudou para o lado de Rio, a direção não conseguiu impor na lista de Viseu, já que a distrital e o cabeça de lista se opuseram de forma violenta. O máximo que Rio conseguiu para ele foi um quinto lugar, não-elegível, que o próprio rejeitou.

A vitória final, contudo, foi o número: 74% de votos a favor ou, no entender do próprio Rio, 82%. Isto porque, para efeitos de maioria, os estatutos do PSD não contabilizam os resultados da abstenção. Em todo o caso, se Rui Rio já tinha saído da batalha contra Montenegro com 60% de votos a favor, agora sai do Conselho Nacional de elaboração das listas com uma taxa de aprovação interna de 74% dos votos (18 contra e 10 abstenções). “Até foi razoavelmente pacífico”, acabaria por dizer.

Um paraquedista

Uma das certezas que José Silvano deixou na conferência de imprensa onde apresentou os 3 primeiros nomes de cada lista foi a ideia de que só há um paraquedista nas listas, já que todos os outros candidatos (e Silvano sublinhou bastante esta ideia) são naturais, ou têm ligações, ao distrito pelo qual concorrem. O “único paraquedista”, no entender de Silvano, é Pedro Roque, secretário-geral dos Trabalhadores Sociais Democratas, que concorreu por Lisboa nas últimas eleições e agora vai pelo círculo de Leiria. O próprio José Silvano, contudo, é natural de Vila Real e foi autarca em Mirandela tendo sido sempre candidato pelo círculo de Bragança. Agora, na qualidade de dirigente nacional, vai na lista de Lisboa, apontado pela direção.

Um bombeiro

Se Luís Filipe Menezes já se sabia que iria ser o primeiro suplente na lista do Porto, a título simbólico, Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros e conhecido sportinguista, acabou por ser a curiosidade da noite sendo o primeiro suplente na lista de Coimbra.

Uma medalha ao peito

Falando à porta fechada, Hugo Soares, que era uma das intervenções mais aguardadas da noite, criticou Rui Rio acusando-o de “não gostar do partido nem do grupo parlamentar” e afirmou que o veto da direção ao seu nome não era mais do que “uma medalha que carregava ao peito”. Ao início da noite, José Silvano, secretário-geral do partido, tinha anunciado aos jornalistas que, findo o doloroso processo de elaboração das listas, só o nome de Hugo Soares tinha sido efetivamente vetado. Nas palavras de Silvano, porque “sempre mostrou indisponibilidade de colaborar com a atual direção”. É esse veto que, agora, Hugo Soares diz ser uma “medalha”. “Soube pela comunicação social que fui o único veto político desta direção. É uma medalha que carregarei ao peito, mas também vos quero dizer que é um veto político cheio de futuro”, disse dentro de portas. Fora, aos jornalistas, remeteu-se ao silêncio.

Uma mancha (ou três) no currículo

Rui Rio prometeu, em entrevista ao Observador, que todos os “candidatos a deputados do PSD iriam assinar um compromisso de suspensão do cargo caso sejam condenados em primeira instância”, bem como o compromisso de que se demitem imediatamente do cargo caso a condenação transite em julgado. A norma, contudo, não se aplica aos candidatos que estejam a ser investigados na justiça ou sejam arguidos em algum caso judicial.

Nessas condições, há pelo menos três nomes nas listas: Emília Cerqueira, número dois em Viana do Castelo, que foi constituída arguida no caso das falsas presenças de deputados (neste caso do deputado José Silvano) em plenário; Rui Silva, número oito em Braga, que foi acusado de corrupção num processo em que estão em causa vários crimes de corrupção, participação económica em negócio e abuso de poder em Vila Verde; e Carlos Eduardo Reis, número 4 também em Braga, que foi notícia quando o seu nome ficou envolvido na operação Tutti-Frutti, num processo sobre adjudicações entre empresas e autarquias. Carlos Reis não era apoiante de Rio e fez uma lista contrária para o Conselho Nacional, mas quando Luís Montenegro desafiou Rui Rio em janeiro, Carlos Reis esteve ao lado do líder — sendo agora recompensado.

Um (índice de) programa

Rui Rio fez uma intervenção inicial a explicar as linhas gerais do programa eleitoral do PSD, que esta noite foi finalmente divulgado, com alguns deputados e conselheiros nacionais a questionarem o líder sobre o facto de não terem tempo de analisar o programa ao detalhe. Ainda assim, no final o documento foi aprovado com zero votos contra mas 17 abstenções.

Durante a discussão, Bruno Vitorino, líder da distrital de Setúbal que saiu deste processo em rutura com Rio, criticou o facto de os conselheiros estarem apenas a votar “um índice do programa eleitoral” e não o programa ao detalhe (o programa foi distribuído aos conselheiros durante a reunião). António Leitão Amaro, que se auto-excluiu das listas, foi outro dos que falou sobre a apresentação do programa para defender que o partido deve decidir de uma vez por todas ao que vai: “Vamos ou não dar a mão aos socialistas?”. A pergunta ficou sem resposta porque, além do discurso inicial que Rio fez para apresentar o programa, não voltou a tomar a palavra para responder às críticas que lhe fizeram.

As críticas sem resposta

“Eu só falei no ponto relativo ao programa, quando foi a parte das listas não falei, portanto [os críticos] não tiveram reação nenhuma”. Foi assim que Rui Rio disse aos jornalistas que não respondeu aos críticos depois de longas horas a ouvir intervenções críticas a seu respeito.

As principais críticas que se ouviram durante a noite vieram do grupo que mais se tem oposto à liderança de Rio. Aqui, o presidente da distrital de Setúbal, Bruno Vitorino

Um ataque a Passos (que não veio de Rio)

Veio de Luís Filipe Menezes. O ex-líder do PSD resolveu ir ao Conselho Nacional apoiar Rui Rio, à semelhança do que tinha feito no Conselho Nacional de janeiro. À saída falou muito longamente com os jornalistas para provar que as pazes seladas no Conselho Nacional do “golpe de estado” foram mesmo a sério. Menezes saiu em defesa de Rio e, indiretamente, culpou Pedro Passos Coelho por ter iniciado uma trajetória narrativa negativa, de “antecipação da desgraça”. “Não foi Rui Rio que construiu este patamar negativo. Se o Diabo tivesse sido exorcizado há dois anos e meio tinha sido diferente”, disse, dando a entender que se o PSD de Passos Coelho não tivesse tido um discurso de “antecipação da desgraça” no início deste ciclo de oposição, as coisas teriam sido diferentes. “O povo não gosta de antecipação de desgraças, gosta de pensar positivo”, disse ainda. “A questão aqui é”, insistiu: “Se tivéssemos continuado com o Diabo estaríamos melhor ou pior?” “Quem diz que tinha sido diferente e nas Europeias não teríamos tido um resultado ainda pior’”, continuou.

As declarações de Luís Filipe Menezes em defesa de Rui Rio na reta final do longo Conselho Nacional