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O turismo italiano está a ser fortemente afetado pela crise do novo coronavírus

AFP via Getty Images

O turismo italiano está a ser fortemente afetado pela crise do novo coronavírus

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Itália tenta salvar-se do descalabro económico, quando todos os caminhos vão dar ao coronavírus

A situação já não era fácil, mas a invasão do coronavírus deixa a economia italiana com um gigante problema para resolver. Roma começa agora a despejar dinheiro para mitigar efeitos. Será que chega?

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Depois de mais de uma década a andar para trás — com quatro recessões, aumento da dívida pública, fragilidades na banca e vários problemas estruturais por resolver — Itália terá, com o novo coronavírus, uma vida bem mais complicada em 2020. E, provavelmente, nos anos seguintes.

O executivo de Roma pediu temporariamente aos italianos para não saírem de casa se não houver emergências ou trabalhos essenciais e ordenou o encerramento de todas as escolas, universidades, museus, lojas, cafés, restaurantes, bares e discotecas. Escaparam farmácias, a venda de comida, incluindo supermercados e mercearias, e fica garantida a prestação de serviços públicos essenciais, incluindo transportes, serviços de utilidade pública, banca e correios. Pouco mais.

Medidas drásticas para conter a crise de saúde pública, mas que, muito em breve, deverão fazer emergir consequências económicas de peso.

A recessão parece certa. Mas em quanto?

Só em lojas e armazéns trabalham quatro milhões de italianos, como lembra o Financial Times, ou seja, 15% da população. Está em causa, só em comércio, 12% do PIB italiano. Uma situação que será sempre grave mesmo que se verifique apenas durante algumas semanas. Mas ninguém consegue garantir que o problema de saúde pública é resolvido em breve ou mesmo médio prazo — só nos últimos dois dias foi registado um total de 5 mil novos casos. E ninguém sabe o que fará o governo italiano se não houver melhorias.

É, por isso, muito cedo ainda para perceber até onde poderá chegar esta nova crise económica. Se até aqui, Itália prometia mais um ano de crescimento anémico, com a nova conjuntura a recessão parece mais do que certa.

O executivo de Conte assume uma postura cautelosa, admitindo, sem dar detalhes, impactos consideráveis no PIB italiano ao longo dos próximos meses. Mas há já quem arrisque previsões. O banco de investimento suíço UBS, citado pelo Financial Times, espera agora uma queda anual do PIB para Itália de 0,4% a 0,8% (em vez do crescimento de 0,3% previsto até há pouco tempo). Também Jack Allen-Reynolds, economista da consultora londrina Capital Economics, citado pelo The Guardian, aponta para uma queda da economia em 1% nos primeiros três meses do ano e mais 1,5% de abril a junho, assumindo que o encerramento do país dura até abril. Mas vai mais longe: se a economia ficar bloqueada até junho, a quebra pode ser ainda mais aparatosa no segundo trimestre, atingindo 4,5%. E o JPMorgan acredita mesmo que a produção possa cair 7,5% só no primeiro trimestre, comparando com o últimos três meses de 2019, esperando depois uma progressiva recuperação ao longo do ano.

Em declarações ao Observador, o italiano Wolfgango Piccoli, co-presidente da consultora global Teneo, tem poucas dúvidas de que “toda a economia vai sofrer, mas com especial incidência no turismo e nos serviços, tendo em conta o encerramento de lojas”. O consultor recorda ainda que as regiões de “Veneto e Lombardia, juntas, valem cerca de 32% do PIB italiano e 40% das exportações”, o que torna o problema ainda mais agudo. Mas, naturalmente, “depende do tempo que a crise tiver”.

Também Antonio Villafranca, economista italiano do think thank ISPI (Istituto per gli Studi di Politica Internazionale), diz ao Observador que “depois dos recentes desenvolvimentos em Itália, com o encerramento de várias atividades económicas, quase todos os setores serão atingidos pela crise”. Mas já antes de o Covid-19 ter ficado descontrolado em Itália, “quando a epidemia era vista como ‘um problema chinês’ e a atenção estava centrada essencialmente no turismo e no comércio com a China, alguns setores de atividade italianos foram severamente atingidos, como os setores alimentar, automóvel e produtos de luxo”.

O verdadeiro impacto, no entanto, “não dependerá apenas do que acontecer em Itália”. Será decisivo o que fizer o mundo para combater o Covid-19 e o tempo que durar esse combate global. “Parece muito provável uma recessão em Itália em 2020. Mas também pode ser o caso para muitos outros países”, antevê Antonio Villafranca.

Em especial, diz Wolfgango Piccoli, muito dependerá do que possa acontecer naturalmente na UE, “considerando o peso considerável das exportações na economia italiana e as relações estreitas com as economias europeias”, mas também nos EUA — em ano de eleições, e com um sistema de saúde muito particular, em que o acesso à saúde é altamente dependente de seguros que não estão acessíveis a uma parte considerável da população. O consultor entende que as decisões que Donald Trump possa ou não tomar nos próximos tempos para fazer face à pandemia serão muito importantes.

Um ano perdido para o turismo italiano

Para quem conhece Veneza, por exemplo, em que os visitantes “lutam” por cada metro quadrado nas principais ruas e praças da cidade, será estranho ver as fotografias de uma praça de São Marcos deserta. Mas é isso que acontece por estes dias, com as novas reservas para a cidade a serem canceladas pelo menos até setembro.

O turismo, que vale anualmente mais de 40 mil milhões de euros à economia italiana, sofrerá, na opinião de Antonio Villafranca, “um forte impacto a curto e médio-prazo”. A China, por exemplo, está em quarto lugar no ranking de visitantes e “são os turistas chineses que mais gastam por dia — cerca de 300 euros”. O economista do ISPI não acredita, no entanto, que haja um impacto estrutural. Assim que a pandemia desaparecer, Antonio Villafranca antecipa um progressivo retorno à normalidade no setor.

Veneza. A praça de São Marcos tem estado irreconhecível

AFP via Getty Images

Ligada ao turismo está ainda a situação da Alitália, a companhia aérea de bandeira italiana, que suspendeu esta semana todas as operações em Milão. Se várias companhias aéreas em todo o mundo enfrentam agora sérias dificuldades por causa da pandemia, a Alitália — que tem sobrevivido graças a empréstimos estatais desde que declarou falência há cerca de 3 anos, num total de 1,3 mil milhões de euros —, está na linha da frente para apresentar problemas sérios. “A Alitália já estava em grandes dificuldades e é difícil perceber como vai ser o seu futuro”, reconhece Wolfgango Piccoli.

A questão é que a Alitália não é apenas uma companhia aérea — é o bilhete de entrada para muitos turistas no país, defende o consultor.

Os milhões prometidos por Conte “serão sempre pensos rápidos”

Para mitigar os efeitos da crise, o governo italiano já prometeu despejar 25 mil milhões de euros na economia. O ministro das finanças, Roberto Gualtieri, adiantou que até esta sexta-feira deverá ser aprovado um primeiro pacote financeiro de 12 mil milhões de euros. O restante valor servirá como reserva para futuras medidas que venham a ser tomadas.

Wolfgango Piccoli critica, em declarações ao Observador, a lentidão do governo Italiano, porque “há 10 dias que falam no pacote de ajudas, mas até agora ninguém as viu”. O consultor entende que os 25 mil milhões de despesa adicional prometidos por Roma são pouco sustentados em certezas, tendo em conta a evolução da pandemia. “A primeira vez que falaram nas ajudas apontaram para 3,6 mil milhões de euros, mas já vai em 25 mil milhões. Claramente não fazem ideia”.

Os pombos tomam conta da Piazza del Duomo, em Milão

AFP via Getty Images

E o que poderá estar a caminho? Além da suspensão de pagamentos de empréstimos à banca para os italianos que estiverem em quarentena — que já foi decidida pelo governo de Conte, segundo o The Guardian —, Wolfgango Piccoli antecipa que se possa “adiar o pagamento das ‘utilities’ [contas da luz, gás, água e telecomunicações] e de impostos, reforçar apoios para novos desempregados, garantir mais pessoal nos hospitais ou dar vouchers para fazer face a necessidades de baby-sitting”. Estas medidas, acredita o consultor, estarão na calha para serem aplicadas, tendo em conta a discussão pública em Itália, e deverão ser anunciadas já a partir desta sexta-feira. A Bloomberg refere ainda a possibilidade de haver mais dinheiro para um fundo de garantia que proteja empréstimos a pequenas e médias empresas, bem como apoios a inquilinos.

Mas pode não ficar por aqui. A avaliação de novas medidas será ponderada depois de o governo italiano avaliar a primeira dose. Wolfgango Piccoli avisa, por exemplo, para o problema dos trabalhadores liberais — muitos deles precários — que em Itália são quase 10 milhões.

Em todo o caso, para o consultor, estes “serão sempre pensos rápidos” face à dimensão da crise que Itália deverá enfrentar nos próximos tempos.

“Não parece que a UE tenha acordado ainda”

Terceira maior economia europeia e membro do G7 (o clube dos países mais ricos do mundo), Itália representa um desafio adicional à União Europeia, até pelo risco de contágio. Vai a relação entre Bruxelas e Roma mudar? “A situação italiana é sem dúvida extraordinária e eu estou certo de que a Comissão Europeia vai garantir a máxima flexibilidade a Itália, como já está previsto no programa de estabilidade e crescimento para esses casos extraordinários”, diz Antonio Villafranca ao Observador, sublinhando que Bruxelas já aceitou o pedido italiano para não ter de cumprir os objetivos do défice em 2020.

Itália vem de mais um braço de ferro o ano passado com a Comissão Europeia para evitar a abertura de um procedimento por défice excessivo. Bruxelas acabou por aceitar em julho as promessas de Roma para controlar as contas públicas, desistindo, até ver, desse processo. A pandemia do coronavírus, e as respetivas consequências, prometem trazer uma postura mais flexível das autoridades europeias.

Mas, além da flexibilidade no défice, o que pode oferecer Bruxelas? “Não parece que a UE tenha acordado ainda”, lamenta Wolfgango Piccoli, apesar das indicações deixadas pelos líderes europeus, esta segunda-feira, ao prometerem aumentar a coordenação e libertar fundos até 25 mil milhões de euros para face à nova crise em todo o espaço europeu.

No âmbito desta promessa, ainda não concretizada, a Comissão Europeia vai disponibilizar 7,5 mil milhões de euros, que deverão desencadear perto de 18 mil milhões de euros adicionais em regime de co-financiamento, conjuntamente com os governos nacionais. A UE promete ainda ser mais flexível na execução das regras de ajudas de Estado, para permitir que os diferentes estados-membros possam dar subsídios a algumas indústrias sempre que necessário.

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel,  prometeu “usar todos os instrumentos que forem necessários”, com o intuito de limitar o alastramento do vírus, assegurar que não há disrupção na distribuição de equipamento médico, promover investigação para encontrar vacinas e tratamentos para o Covid-19 e lidar com as consequências económicas. Mas o que é que isto significa para Itália? Wolfangango Piccoli vai esperar para ver o que acontece, nomeadamente, em relação às ajudas de Estado e à flexibilidade no défice.

Também o Banco Central Europeu decidiu esta quinta-feira permitir aos bancos da zona euro terem rácios de capital mais baixos e descontos nas taxas de juro cobradas em operações de financiamento a longo prazo — para estimular a concessão de crédito às pequenas e médias empresas. Mas Wolfgango Piccoli acredita que medidas como essas não conseguem ajudar as PME italianas, responsáveis pela esmagadora maioria do PIB do país. “O BCE não fez nada por Itália hoje”. Antonio Villafranca concorda que as medidas europeias anunciadas até agora “têm sido bastante limitadas até ao momento”, mas diz ser provável que haja “um reforço a curto prazo”.

“A maior vítima pode ser a Europa”, lamenta Wolfgango Piccoli. “A UE não apareceu bem na fotografia e o sentimento geral em Itália é de que não está a ter solidariedade dos parceiros: O Banco Central Europeu não fez nada; Áustria fechou as fronteiras com Itália; e o Governo italiano pediu um reforço de medicamentos e ninguém respondeu”.

O embaixador italiano na UE, Maurizio Massari, acusou esta quarta-feira a UE de ser muito lenta na reação face à ajuda que Itália precisa, lamentando a falta de solidariedade. Entre as queixas está, precisamente, a falta de resposta dos estados-membros ao pedido de equipamento médico adicional, incluindo máscaras. O The Guardian lembra que há vários países europeus que impuseram limites às exportações de equipamento de proteção pessoal para fazer face ao vírus, entre os quais Alemanha e França. Em contraponto, a China disponibilizou-se para vender a Itália vários equipamentos, como ventiladores, máscaras ou fatos de proteção.

“A UE não apareceu bem na fotografia e o sentimento geral em Itália é de que não está a ter solidariedade dos parceiros: O Banco Central Europeu não fez nada; Áustria fechou as fronteiras com Itália; e o Governo italiano pediu um reforço de medicamentos e ninguém respondeu”
Wolfgango Piccoli

O vírus adia a resolução dos problemas

Desde 2008 (crise financeira global), Itália acumulou quatro recessões anuais (1,0% em 2008, 5,3% em 2009, 3% em 2012 e 1,8% em 2013); teve ainda um crescimento nulo em 2014; e um crescimento inferior a 1% em 2011, 2015, 2018 e 2019. O máximo que conseguiu neste período foi um aumento de 1,7% do PIB em 2010 e 2017.

Nas contas públicas, os défices sucessivamente acumulados deixaram a dívida do Estado sempre acima de 130% do PIB desde 2014. E na banca, desde que a crise do euro começou, em 2010, Itália — que escapou a um resgate no tempo da Troika, mas que assustou os mercados por ser a versão soberana dos grandes bancos (“too big too fail”) — foi obrigada a um intenso trabalho para limpar “toneladas” de crédito malparado no sistema financeiro. A nova crise traz, por isso, problemas acrescidos a um país já habituado a maus resultados económicos e financeiros.

As indicações dadas pela Comissão mostram que haverá mais flexibilidade para o governo italiano fazer face à pandemia. E não se antecipam grandes discussões sobre défices em 2020. Só que, como os problemas estruturais da economia italiana não vão desaparecer com o vírus, a discussão voltará necessariamente depois da pandemia passar. Para já, no entanto, todos os caminhos vão dar ao coronavírus e os braços-de-ferro com a UE deverão ficar esquecidos até esta “guerra” acabar.

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