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Aos 52 anos, Rui Massena admite que estava bloqueado e que precisava de passar por este processo interior transformado em disco para conseguir seguir em frente
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▲Aos 52 anos, Rui Massena admite que estava bloqueado e que precisava de passar por este processo interior transformado em disco para conseguir seguir em frente

▲Aos 52 anos, Rui Massena admite que estava bloqueado e que precisava de passar por este processo interior transformado em disco para conseguir seguir em frente

Rui Massena: "A Educação Musical afasta os alunos. Continuamos com a flauta, que destrói o gosto"

O novo disco, "Parents' House", inspirado pelo tempo, a família e a finitude; o papel de quem tem influência mediática; a música como necessidade educativa. Entrevista com o maestro e compositor.

Foi num almoço de família, em casa dos pais, que Rui Massena teve uma espécie de epifania — ou pelo menos o início de um processo que o ajudaria a desbloquear uma série de questões que o atormentavam há muito. De repente, olhou à volta da mesa, fixou todos os detalhes e percebeu que teria de fazer as pazes com a inevitabilidade do tempo: os pais não iam parar de envelhecer, os filhos não iam parar de crescer. Nesse dia, chegou a casa, pegou numa partitura — em papel, como antigamente —, e começou a rabiscar aquilo que se transformaria no tema Parents’ House, a sexta faixa que dá origem ao álbum de originais com o mesmo nome, agora editado pela Universal. Seguiu-se uma jornada frenética e avassaladora de emoções, memórias, nostalgia, introspeção e clarividência.

Aos 52 anos, Rui Massena admite que estava bloqueado e que precisava de passar por este processo interior transformado em disco para conseguir seguir em frente. Resultado: sente-se mais livre do que nunca e com vontade de voltar dirigir uma orquestra, fazer um concerto de Natal ou, quem sabe, tudo junto. Três coisas estão já certas: as atuações a 10 de dezembro na Casa da Música, no Porto, dia 11 no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e dia 16 do mesmo mês no Fórum Braga.

Rui Massena nasceu em Vila Nova de Gaia, teve um piano aos cinco anos; tornou-se maestro aos 27; foi um dos grandes impulsionadores de Guimarães enquanto Capital Europeia da Cultura, onde teve a cargo a programação cultural; aproximou o público da música clássica com o programa de televisão Música Maestro; foi jurado noutros conceitos, onde o cabelo indomável foi quase tão protagonista quanto o seu entusiasmo; criou uma escola; colaborou com músicos como Jorge Palma ou Da Weasel; tocou cá e lá fora; dirigiu orquestras cá e lá fora. Partilha agora, através de Parents’ House, um lado mais pessoal — tão pessoal que a mãe tem receio que isso afaste o público que conquistou ao longo dos anos. Porém, a conversa que se segue — da finitude da vida à criatividade, passando pela educação musical no ensino obrigatório e pelos planos (ou a falta deles) para a reforma — poderá provar exatamente o contrário. Rui Massena é o instrutor, como ele próprio diz, e está pronto para guiar quem quiser neste mergulho.

Começando pelo título, Parents’ House ameaça ser o seu trabalho mais pessoal. Confirma-se?
É o sentido de casa, o que significa a construção de uma casa e a importância de, a determinada altura, sobretudo nesta fase da minha vida, observar os meus pais, o seu processo natural de envelhecimento, e os meus filhos, num processo de envelhecimento diferente, que é a construção da autonomia. Eu estou no meio disto e percebi que o único processo que podia fazer era entender o que estava a passar. É um processo, por um lado, de uma certa dor, porque nós queremos parar o envelhecimento. E é um processo que não queremos que aconteça, por outro lado, com os filhos. Depois de tantos anos a apoiá-los, eles, de repente, ficam autónomos.

Que idade têm os seus filhos?
22 e 17. Por um lado, não queremos que vão a lado nenhum; mas, por outro, queremos. Esta perceção de que tudo é dinâmico e tem uma força imparável, dá uma consciência do tempo e da finitude muito, muito forte. Com toda a dor e beleza associadas, acho que só agora percebi o que é o tempo. Nos últimos três anos, tive que mergulhar num processo de consciência profundo para me sossegar.

O que desencadeou esse processo?
Houve um dia em que eu fui a casa dos meus pais e dei por mim a observá-los, a observar toda a base da família, a minha irmã também. Estava toda a gente à mesa e eu observei todos os detalhes do que estava ali a acontecer. Fiquei angustiado com aquilo, foi como se estivesse a ver de fora. Depois fui para casa e não peguei no computador, como é habitual, mas sim numa partitura física e com o meu lápis e a minha borracha comecei a escrever. Foi tudo muito orgânico. Chamei-lhe Parents’ House porque tinha vindo do almoço e aquilo iniciou um processo que foi muito mais do que artístico.

"Quero muito tocar e partilhar o disco com as pessoas, mas se ninguém o ouvir, ele já cumpriu o seu propósito: foi importante para a minha arte existir e para eu existir enquanto artista."

Porque começou por ser pessoal?
Foi o maior processo pessoal que já tive e, portanto, é um disco íntimo nesse sentido. É um disco de construção, de perceção: “Como é que uma pessoa, nesta idade, olha para a vida? Como é que consigo encaixar tudo isto? Como é que consigo sobreviver a isto tranquilamente”? A partir daqui, sem saber bem como, construí o álbum num sopro.

Não estava à procura de fazer um álbum nessa altura?
Não. Já tinha dois álbuns na gaveta, terminados, com capa e tudo. Só que não conseguia validá-los, porque pessoalmente estava muito desconfortável com a vida.

Com o quê especificamente?
Com aquele telefonema da minha mãe, com o telefonema de não sei quem, ver o meu filho a acabar o curso, a procurar trabalho, a ideia de sair de casa, a perceção do meu território mas agora sozinho, ver os meus amigos a mudarem as vidas, os timings a mudarem, uma dinâmica contínua de mudança. No meio daquilo tudo, era como se o meu trabalho fosse a última coisa importante.

O processo de construção deste álbum foi doloroso ou foi um alívio deitar tudo cá para fora?
Acho que a melhor imagem é mesmo essa, foi deitar tudo cá para fora. Houve um dia em que me sentei com o meu filho mais novo. Ele estava numa cadeira, eu ao piano e estivemos ali bastante tempo. Ele ia-me gravando ao piano e eu ia tocando, tocando. No final, ele já estava a dormir no sofá, no meu estúdio, e eu continuava a gravar. Foi uma enxurrada de coisas que depois foi preciso limar, obviamente.

Apesar de ter começado como uma necessidade pessoal, Parents’ House transformou-se num álbum abrangente, que vai levar as pessoas a questionarem-se ou a apaziguarem-se com estes temas — ou ambos. É esse o objetivo?
Queria que isto fosse a celebração de alguns conceitos: o que significa a herança que recebemos dos nossos pais, não só a psicológica, mas também a educativa. O que é que significa identidade, o que é que significa casa, quanto é que daquela casa me permitiu ser quem sou e depois colocar isso em confronto com o mundo perturbado de hoje. Que valores é que tinha, que valores é que estou a passar aos meus filhos, que casa é que construí para eles, que possibilidade é que lhes dei, que possibilidade é que os meus pais me deram? Ouviu o disco?

Sim.
O que é que achou?

É uma viagem atribulada. Começa de forma melancólica e serena, tem temas muito intensos e o descontrolo de emoções dá lugar a uma fase de apaziguamento. Diria que vai mexer muito com as pessoas que estão nesta fase da vida em que são cuidadores dos filhos, mas também dos pais. Ninguém nos avisou que ser adulto também seria isto.
Essa definição é ainda melhor do que a minha, até estou arrepiado. Ninguém nos avisou sobre isto. Este disco é super estranho para mim porque eu não pensei: “Agora vou aqui fazer uma música muito bonita”. Não, ele foi feito para mim, para me pacificar, para chegar ao ponto de dizer: “Pronto, já não posso fazer mais nada”. A perceção da inevitabilidade do tempo levou-me à conclusão de que, se não posso fazer nada para travar, então vou ver isto pelo lado belo. Tive a sorte de ter os meus pais até agora, os meus filhos estão bem, portanto vou ver isto como um ciclo sereno.

Os títulos dos temas têm algumas referências que nos indicam o caminho, mas ao mesmo tempo não condicionam a forma como se ouve o disco. Mas há certamente histórias ou memórias específicas por detrás deles, não?
Não quis dar títulos que fossem muito óbvios, mas ao mesmo tempo tinha de manter uma relação. O cigarette vem do facto de os meus pais fumarem. Portanto, imaginei a linha do tempo a queimar, a queimar, as formas, o fumo no espaço. O see you é quase um “vamos encontrar-nos um dia”. Não sei se vem de uma imagem cristã, mas é a esperança de virmos a ter esse reencontro.

▲ "Dirigi orquestras, fui diretor de um conservatório. É ótimo chegar aqui e sentir que a vida é um lugar orgânico"

Ao mesmo tempo, podemos alargar a discussão ao que se passa fora das nossas casas, no mundo?
Completamente. Se olharmos para o problema da habitação, quando alguém não consegue ter uma casa, não consegue começar a vida, permitir-se crescer.

Criar raízes e memórias?
Sim, quebra-se um ciclo, não se constrói a identidade. Por exemplo, no tema fosse, deixei uma ambiguidade no ar. É sobre um escritor, o Jon Fosse, que tem um sistema de escrita que adoro. De palavra em palavra, vai criando uma rede e, de repente, quando damos conta, já estamos a chorar e a pensar: “Meu Deus, como é que viemos parar a esta cena”? Ele também toca na questão do espírito dos pais e das pessoas. E eu trouxe aquilo para a espiritualidade, como um título muito lato, mas também para a capacidade que eu tive de ser, de me terem possibilitado que eu “fosse” qualquer coisa.

Quando ouvi, pensei primeiro no escritor e depois na conjugação do verbo, mas pode ser as duas coisas, na realidade.
É acerca disso, acerca da espiritualidade. Lembro-me de ser miúdo, com 18 ou 19 anos, de ir a Londres e de gastar todo o dinheiro que tinha ganhado em livros. Vinha com sacos cheios de livros.

E discos, não?
Sim, discos também, mas muitos livros. A estante que está no meu quarto, e que é a capa deste disco, está repleta daquilo que construí até aos 21 anos, que é um mundo acerca do ser filosófico. Há muitos títulos aqui que podem ter tantas interpretações. O tema low fences: se baixamos as vedações, aumentamos a tolerância. Quando construímos muros pequenos, conseguimos dialogar, e é disso que um mundo cheio de intolerância precisa. O memórias de um paraíso é inspirado em tudo aquilo que vivi com os amigos da música. O que era importante não era a música, era aquele grupo que, por acaso, estava ligado pela música, mas podia ser através do futebol ou de outra coisa qualquer. E também está ligado ao [tema] Paraíso do [Ennio] Morricone, tem qualquer coisa da melodia dele. O not to be said fala das coisas que sentimos quando somos novos, mas não dizemos a ninguém. Agora, nesta altura da vida, já tenho poucas coisas que não digo.

Isso só se consegue mesmo com a maturidade.
Consegui fazer o percurso daquilo que sinto, penso e faço para estar o mais ligado possível. O check your mirrors, por exemplo, era uma coisa que o meu pai me dizia sempre. A ideia de que nunca deves ir muito depressa porque, se fores muito depressa, vais isolado. Tem a ver com a desagregação afetiva da sociedade.

Apesar do reboliço emocional, não é um álbum taciturno ou demasiado melancólico.
Queria que fosse uma viagem construtiva, mas acho que pode demorar algum tempo a fazer sentido para algumas pessoas. As pessoas estão tão consumidas pela Internet, pelas redes sociais, pela overdose de informação sem filtro, que até podem estranhar sentimentos bons. É um contraponto com o que estamos a viver hoje, mas é muito preciso.

Os seus pais são uma peça central neste disco. O que disseram eles?
Foi estranhíssimo. A minha mãe disse-me que estava preocupada com a minha carreira, estava com medo que eu deixasse de fazer concertos.

Porquê?
Ela achou que, por ser um processo de dentro para fora, que começou como uma jornada pessoal, isto já não fosse importante para as pessoas. Quero muito tocar e partilhá-lo com as pessoas, mas muito sinceramente, se ninguém o ouvisse, ele já cumpriu o seu propósito: foi importante para a minha arte existir e para eu existir enquanto artista.

Precisava de fazer este álbum para seguir em frente?
Juro, é mesmo isso. Fui gravar a Berlim, porque queria aquele som específico de um piano, um som que fosse intemporal. No final, um técnico de som austríaco disse-me que parecia um filme noir, intemporal. Tudo se encaixou. Tenho uma escola de música há dez anos e percebi porque é que isso é natural para mim, porque é que é natural estar num júri, num concurso. Dirigi orquestras, fui diretor de um conservatório. É ótimo chegar aqui e sentir que a vida é um lugar orgânico.

Chegar a estas conclusões e fazer este disco permite que os outros dois que estão na gaveta possam ser editados?
É engraçado perguntar isso porque estou muito livre. Acho que passou praticamente tudo a fazer sentido. O maior tabu é a morte, ou eventualmente a doença, mas a partir do momento em que nos pacificamos com o nosso mundo, há uma tranquilidade que nos liberta.

"Desde 1992, quando as orquestras regionais foram criadas, poucos mais projetos conseguem viver com sustentabilidade. Percebes que isso significa a incapacidade de estruturar a criatividade no teu país."

Teve um piano aos cinco anos, assim que começou a ter aulas. Foi uma aposta cega dos seus pais?
Sou filho de pais que viveram o 25 de Abril e acho que, para essa geração, castrada durante tanto tempo, o mundo se abriu e tudo era uma possibilidade. No meu caso, acho que se entusiasmaram com aquele caminho que se abriu. A educadora disse: “Deviam pôr o Rui na música, porque ele mostra vocação”. Inscreveram-me em aulas perto de casa e, ao mesmo tempo, compraram-me um piano. O meu pai sentava-se a estudar comigo, gostava tanto ou mais do que eu. Tive sempre este ambiente motivador à volta que, ao mesmo tempo, me centrou. Também não podia desistir quando quisesse. Já os meus filhos, foram expostos a tudo isto e não seguiram música.

Isso incomoda-o ou já fez as pazes com isso?
Nesta fase, tenho as pazes feitas com praticamente tudo. Estou num momento muito bom.

O que também é bom criativamente. O facto de se sentir livre, como dizia há pouco, pode desbloquear uma data de coisas?
Faço uma hora de concerto e as pessoas estão a mergulhar naquela hora. Antigamente, tinha medo que achassem que era demasiado tempo. Agora estou ali a fazer o meu mergulho e as pessoas estão comigo. Sou o instrutor e digo: “Vamos embora, estamos todos debaixo de água”. Se eu levantar a cabeça para ver se está tudo atento, as pessoas vão duvidar também.

É maestro, compositor, já dirigiu orquestras, colaborou com inúmeros músicos, teve programas de televisão. Por estar nesta fase tão livre, há coisas que tem vontade de fazer agora que talvez não tenha feito antes por falta de coragem?
Engraçado, acho que para mim a libertação é esta: tem-me apetecido dirigir novamente. Voltei a pensar num concerto de Natal, num disco orquestral.

Mas não tem pressa para definir o que se segue.
Não, apetece-me tocar, fazer concertos, estar com o público. Portugal tem esta coisa chata de não se ser fácil agendar muitas datas, 20 datas já é uma enormidade, mas a vida de um músico é tocar. É preciso tocar muito.

[A 14 de janeiro de 1986 um acontecimento muda o rumo da campanha das presidenciais: a inesperada agressão a Soares na Marinha Grande. Nas urnas, o socialista e Zenha lutam por um lugar na segunda volta frente a Freitas. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.]

A música clássica ou instrumental continua a ser de nicho. O Rui foi uma figura fulcral para aproximar as pessoas desta área. Foi rotulado como um maestro excêntrico, muito pelo seu cabelo rebelde, mas isso também chamou a atenção.
Visto como excêntrico, mas o engraçado é que fiz um caminho tradicional, cumpri todas as etapas.

▲ A estante que tem no quarto, e que guarda os livros e discos que foi trazendo de Londres, é a capa de "Parents' House"

Criou também uma escola há cerca de uma década, mas que é tudo menos tradicional.
A primeira pretensão quando criei a escola foi a de construção de uma comunidade. Eu vivia naquele sítio e portanto criei um espaço onde as pessoas pudessem juntar-se e criar memórias ao ritmo de cada um. Fui à procura de um sistema de ensino inglês que permite isso. É possível fazer dois anos num, três anos num, ou então demorar cinco anos. Há miúdos que se interessam por estudar muito cedo, há miúdos que nunca se interessam por estudar, há miúdos que vão ali devagarinho, mas o facto de estarem na música lhes vai trazendo uma sensibilidade, há miúdos que vão para a música e encontram miúdos iguais a eles, porque no liceu ou na escola são miúdos um bocadinho mais introvertidos, mas ali encontram sensibilidade comum. Uma escola não é só acerca de produzir grande talento.

A sua mãe gere a escola, mantém-se a tal ligação com o conceito de casa.
Temos valores humanos e são muito claros para as pessoas que lá estão. É uma escola que tem as suas dificuldades para sobreviver, não ganho dinheiro com ela, mas é especial porque é um projeto com a minha mãe e vejo miúdos vibrarem.

O ensino musical no ensino obrigatório não fomenta isso?
No ensino obrigatório, a Educação Musical afasta os alunos da música. Continuamos a ter a flauta que, para mim, destrói o gosto pela música. Acho muito mais interessante a ideia de aprender a tocar ukulele, por exemplo.

A música continua a não ser vista como uma saída profissional séria?
Fui programador da Capital Europeia da Cultura [em Guimarães, 2012] e não conseguimos fixar uma orquestra em Guimarães, que era muito boa e teve um impacto relevante na comunidade. Há tantos músicos na região Norte que estudaram imenso e precisam de trabalhar, mas depois não têm onde. Desde 1992, quando as orquestras regionais foram criadas, poucos mais projetos conseguem viver com sustentabilidade. Percebemos que isso significa a incapacidade de estruturar a criatividade no país. A economia das artes é relevantíssima, gera imensos empregos, direta e indiretamente, mas continuamos em modo sobrevivência, infelizmente.

E é relevante não só para quem lá trabalha, mas para o público, para formar, abrir horizontes, não?
Nunca me esqueço de algo incrível que vi no documentário do Tony Carreira. Uma senhora só comia uma refeição por dia para poder pagar os bilhetes dos concertos. Isso diz-nos uma coisa muito importante: o espírito tem de ser alimentado. Uma sociedade que cria, que produz diferença, que inova, isso também alimenta.

Por ser uma área tão instável, como é que olha para o futuro? Está igualmente apaziguado com a perspetiva de envelhecer nesta profissão?
Claro que me questiono se vou conseguir tocar até aos 70, 80 anos. Mas, primeiro, não podemos deixar que o medo entre e nos consuma. Segundo, sempre provoquei as coisas, não podemos esperar que elas vão ter connosco. Sei que hoje entrego um disco e a partir de amanhã tenho de fazer outra coisa. Mas na reforma não penso, porque sei que, no dia em que parar, alguma coisa já não está bem para mim. Não vou entreter-me com um hobby, não tenho hobbies, só tenho um caminho e o meu caminho é fazer música.

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