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O porta-voz do Livre, Rui Tavares (E), acompanhado pelo candidato à Presidência da República, Jorge Pinto (D), fala aos jornalistas no final de uma reunião com dirigentes da Associação Académica de Lisboa, durante uma ação de campanha para as eleições presidenciais de 18 de janeiro, em Lisboa, 08 de janeiro de 2026. MARCOS BORGA/LUSA
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MARCOS BORGA/LUSA

MARCOS BORGA/LUSA

Rui Tavares aterrou em Portugal e foi à campanha de Jorge Pinto tentar devolver alguma ordem

Ao quinto dia de campanha, depois do folhetim sobre desistência e não desistência, com sondagens de menos de 1%, líder do Livre apareceu na estrada para dar uma força a Jorge Pinto e atacar a esquerda

Ninguém esperava aquela aparição — até porque, e ao contrário do que costuma acontecer nestas campanhas, não foi previamente anunciada aos jornalistas. Esta quinta-feira, depois de Jorge Pinto ter admitido desistir, depois de Jorge Pinto ter garantido que não desistia, depois de Jorge Pinto ter criticado a esquerda por não desistir, e depois de Jorge Pinto ter, finalmente, assegurado que não ia mesmo desistir, Rui Tavares, grande responsável pela transformação do Livre na maior força à esquerda do PS, apareceu na campanha para tentar alavancar uma candidatura em francas dificuldades.

O encontro foi combinado entre os dois. Menos de 24 horas depois de ter aterrado em Portugal — o porta-voz do Livre esteve fora do país por estes dias —, Rui Tavares juntou-se a Jorge Pinto numa ação em Lisboa, deu um salto ao Parlamento para o debate quinzenal e terminou o dia em Barcelos mais uma vez com o candidato. Veio alertar para os perigos de uma revisão constitucional feita apenas à direita — o grande argumento de campanha de Jorge Pinto — e para sugerir que António José Seguro não tem o que é necessário para defender a democracia do avanço da direita radical. Pelo caminho, aproveitou para atirar a Catarina Martins e a António Filipe, que só estarão preocupados em tratar da vidinha dos respetivos partidos.

De manhã, depois de uma reunião com a Associação Académica de Lisboa, no Caleidoscópio, Rui Tavares desdobrou-se em elogios a Jorge Pinto e tentou pôr alguma ordem na casa. Objetivo: tentar evitar uma catástrofe — numa altura em que o Livre tem sondagens que lhe dão 7% nas intenções de voto, Jorge Pinto já vai aparecendo com menos de 1% nas intenções de voto, atrás de Manuel João Vieira.

Por tudo isto, Rui Tavares escolheu a força. Sobre o socialista, o porta-voz do Livre disse que está condenado a fazer a “política do costume” com os resultados de sempre. “Não me orgulharia de ter um Presidente que ache que não se pode combater [as intenções da direita e extrema-direita de fazer uma revisão constitucional errada]. É um Presidente da República que vai chegar lá e não vai fazer nada do que um Presidente deve fazer. Não conseguirá defender a democracia”, alertou Rui Tavares.

Depois, focou-se nos dois outros candidatos apoiados por partidos de esquerda: “Não me descansaria um candidato ou candidata [a Belém] com os olhos postos principalmente na reta da meta por questões partidárias. Numas presidenciais, não é a lógica partidária que deve imperar”, lamentou Rui Tavares, alegando que há um candidato que está obcecado com a ideia de que está a crescer (António Filipe) e uma candidata que está preocupada em “recuperar” o potencial eleitoral do partido (Catarina Martins). “Uma eleição feita com esta lógica não estaria à altura do momento que vivemos.”

Por esclarecer ficou uma pergunta: se a candidatura de Jorge Pinto não se revê em António José Seguro, se não obedece a lógicas partidárias, se não está preocupado com o crescimento ao longo da campanha e se não pretende crescer para lá do score eleitoral do Livre, então persegue afinal que objetivo? Tavares não explicou.

Jorge Pinto: "Outros vingaram mais tarde porque não desistiram à primeira nem segunda nem terceira vez. E muitos tornaram-se nos melhores líderes. Não se aborreçam muito de mim porque dia 19 cá continuarei”

Pinto já se vai despedindo a pensar no futuro

A presença de Rui Tavares no comício desta quinta-feira, o segundo da campanha, animou o espírito de todos os que têm acompanhado Jorge Pinto na corrida a Belém. “Foi muito bom ter o Rui Tavares no arranque desta nova fase mais intensa de comícios e apresentações públicas. Ele não esteve até agora porque esteve ausente do país”, explica ao Observador o diretor de campanha, Hélder Sousa. A presença do também fundador do Livre “trará força” à candidatura.

Rui Tavares partilha a liderança do partido com a deputada Isabel Mendes Lopes, que também se juntará aos principais eventos da campanha agendados para os próximos dias. “Tanto Rui Tavares como Isabel Mendes Lopes vão juntar-se nos próximos dias aos comícios, porque além do Livre apoiar o Jorge Pinto, o próprio Rui Tavares e Isabel Mendes Lopes são grandes apoiantes dele”, esclarece o mesmo Hélder Sousa.

“Ter dois co-porta-vozes connosco traz mais gente, traz mais presença na rua. É bom e vai ajudar a passar a mensagem de que o Jorge Pinto representa o futuro da esquerda. Rui Tavares sempre que puder estará connosco, a Isabel Mendes Lopes também. E outros deputados, como a Filipa Pinto e a Patrícia Gonçalves.”

Até lá, Jorge Pinto terá de tentar fazer a gestão de danos possível depois de ter assumido que desistiria se os rivais à esquerda fizessem o mesmo e ter ficado a falar sozinho. “Estou plenamente tranquilo com o que disse no dia 1 de novembro [quando apresentou a candidatura e propôs um pacto entre esquerdas]. Disse que vinha para marcar agenda. E vim. Consegui que os outros candidatos falassem sobre o grande risco que temos pela frente, que é o de uma revisão constitucional feita apenas pela direita. É um perigo”, despachou esta quinta-feira.

No final do dia, no comício onde estiveram reunidos cerca de 70 apoiantes, Jorge Pinto apelou aos eleitores de esquerda, dizendo-lhes que “este é mesmo o momento de recompensar uma esquerda que veio fazer diferente, uma esquerda desempoeirada que merece ter uma voz mais forte no nosso país”. “Saibamos ter os olhos e ouvidos abertos”, dramatizou Jorge pinto.

Apesar de tudo, o candidato, que é também deputado, vai preparando o terreno para um péssimo resultado. “Estou na política porque penso [em medidas] a 10 anos, 20 anos. Mesmo que isso possa representar um mau resultado eleitoral no imediato”, vai dizendo, antes de admitindo estar igualmente preparado “para ter um mau resultado”, como para ter um bom resultado.

Já quase em registo de despedida, Jorge Pinto também não se cansa de recordar que muitos antes dele foram a votos e perderam, mas continuaram na luta. “Vingaram mais tarde porque não desistiram à primeira nem segunda nem terceira vez. E muitos tornaram-se nos melhores líderes. Não se aborreçam muito de mim porque dia 19 cá continuarei”.

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