Sampaio da Nóvoa. Um jogador tático, um ator charmoso e um líder sereno

11 Abril 2015854

"Nóvoa" mudou-se para Coimbra para jogar na Académica. Talento promissor, largou tudo pela paixão pelo teatro e partiu para Lisboa. Só mais tarde abraçou a academia. Hoje é candidato a Belém.

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa (…) pobres, esfarrapados e olheiras profundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente (…)”.

As palavras pertencem ao poeta norte-americano Allen Ginsberg. Escreveu-as em 1955 em Howl (Uivo, em português). Tido por muitos como obscena e pornográfica, a obra de Ginsberg influenciou gerações de jovens, quando a liberdade era pouco mais do que um sonho e um grito preso na garganta. Por cá, as linhas do poema uniram-se e fundiram-se com o percurso de um valenciano, que cedo se mudou para Oeiras, terra que deixou ainda adolescente para descobrir o futebol na Académica e o teatro na Universidade.

O mesmo homem que viria a tornar-se professor de expressão dramática no Magistério Primário de Aveiro, ao mesmo tempo que encenava a peça “Uma corda para cada dedo”, onde fazia das palavras de Ginsberg fio condutor dos diálogos das personagens idealizadas por ele. É lá que começa esta viagem pela vida de António Manuel Seixas Sampaio da Nóvoa, antigo reitor da Universidade de Lisboa (2007-2013) e atual candidato à Presidência da República.

Quem traz memórias desse tempo é Rui Sérgio, diretor do Teatro Trindade e um dos fundadores do Grupo Experimental do Teatro da Universidade de Aveiro, do qual Sampaio da Nóvoa foi o primeiro encenador, em 1980. Da peça, Rui Sérgio lembra-se pouco, afinal “já lá vão 35 anos”.

“Era uma peça sobre uma revolta. Fazíamos uma série sketches e, depois, havia uma carroça que sofria um ataque. Entre os sobreviventes, quem fazia cedências, acabava por sobreviver. Os outros não. No intervalo do espetáculo, uns serviam cálices do vinho do Porto, outros faziam rapel. Pelo meio, citávamos o poema Uivo “, conta com algum esforço, mas sem esquecer o quão “libertadores” eram os momentos em cima do palco.

Ensaios conduzidos pela batuta de um homem “com uma disponibilidade muito grande para ouvir, conversar e aconselhar” um “grupo completamente louco, mas muito unido”. No meio dessa irreverência e loucura, naturais de quem “estava a aprender a viver em liberdade”, levantava-se a voz de um líder que “sabia falar connosco, sem ser diretivo ou paternalista, mesmo sendo nosso professor”.

“Nóvoa sabia criar esse espaço de liberdade. Numa altura em que se discutia tudo – em que era importante discutir tudo – ele não colocava entraves ou bloqueios, criava consensos. Não apontava o dedo a ninguém e ajudava-nos a encontrar o nosso próprio caminho no meio daquela loucura. Não me lembro, aliás, de ver muitos momentos em que a tampa lhe saltasse. E mesmo quando saltava, ele sabia dar-nos a volta com um jeito brincalhão”.

"Nóvoa sabia criar esse espaço de liberdade. Numa altura em que se discutia tudo - em que era importante discutir tudo - ele não colocava entraves ou bloqueios, criava consensos. Não apontava o dedo a ninguém e ajudava-nos a encontrar o nosso próprio caminho no meio daquela loucura. Não me lembro, aliás, de ver muitos momentos em que a tampa lhe saltasse. E mesmo quando saltava, ele sabia dar-nos a volta com um jeito brincalhão".
Rui Sérgio, diretor do Teatro Trindade

É assim que Rui Sérgio se lembra de Sampaio da Nóvoa ou “Nóvoa”, como era conhecido entre os alunos mais próximos. Então professor no Magistério Primário de Aveiro, o antigo reitor vivia aos 26 anos “numas águas-furtadas, junto à Universidade, que tinha um terraço pequenino”, que não raras vezes servia de arena para, professor e alunos, jogarem “à bola”, ora “três contra três, ora quatro contra quatro”. Dessas alturas, Rui Sérgio lembra-se que as canelas eram, mesmo, as que mais sofriam. “Acertávamos mais nas canelas do que na bola”, lembra entre risos. “Mas ele dava uns toques”. Ele, Sampaio da Nóvoa, apaixonado por futebol. Mas já lá vamos.

O encenador, que, a partir de um “subsídio de 10 contos da Universidade de Aveiro”, fez um “espetáculo de sucesso, sempre esgotado”, não limitava o ensino às paredes do teatro em Aveiro. “Participávamos em longas tertúlias à volta de umas cervejas, onde se discutia tudo, inclusive política. Sampaio da Nóvoa era de esquerda, obviamente, mas nunca esteve engajado com nenhum partido, nem nunca usou o teatro como um instrumento panfletário, numa altura em que esse era o caminho mais fácil”.

O destino deste “grupo de loucos” conduzido pelo líder “sereno” era muitas vezes Lisboa, onde encenador e atores assistiam a várias peças de teatro na capital. Sampaio da Nóvoa fazia questão de os receber no apartamento, como recorda Rui Sérgio.

“Às vezes íamos todos juntos para Lisboa, onde acampávamos em casa do Nóvoa. Aquilo era uma brincadeira constante. Certa altura, estávamos a olhar para a uma reprodução de um quadro de [Hieronymus] Bosch [n.r.: O Jardim das Delícias Terrenas] e fizemos um jogo onde cada um escolhia, de forma secreta, o que preferia – a terra, o céu ou o inferno. Só uma pessoa escolheu o céu – e foi a primeira a casar. Todos escolhemos a terra, mesmo com os todos os defeitos e virtudes da existência terrena”.

Para descobrirmos como começou esta paixão de Sampaio da Nóvoa pelo teatro temos de recuar até 1971, ano em que chega à Universidade de Coimbra pela porta da equipa de futebol juvenil da Associação Académica de Coimbra. Tinha sido observado por um olheiro dos estudantes em Oeiras e, como na altura só estudantes podiam envergar o equipamento negro, matriculou-se em Matemática, curso que nunca viria a acabar.

Fez duas épocas ao serviço das camadas jovens da Académica, primeiro sob o comando do professor Bentes, antigo internacional português já falecido, e José Manuel Crispim, que conta ao Observador como era a “jovem promessa” Sampaio da Nóvoa.

“Não era um jogador muito veloz, mas era tecnicamente e taticamente perfeito. Como médio atacante, tinha uma visão de jogo incrível e sabia muito bem os terrenos onde pisar”, começa por recordar Crispim. “Era um moço impecável, educadíssimo, sempre leal, mesmo com os adversários. E nunca, nunca faltava aos treinos, mesmo com os ensaios no teatro”. Sim, porque nessa altura já Sampaio da Nóvoa divida o “velhinho pelado do Santa Cruz” com os palcos do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC).

É lá que dá os primeiros passos na arte da representação e é lá que conhece Júlio Roldão, ex-jornalista do Jornal de Notícias. E é também lá que, “entre uns canecos” e a “efervescência da atividade associativa”, então votada à clandestinidade depois da crise estudantil de 69, que sobe pela primeira vez ao palco na peça “Woyzeck”, onde vestia a pele de um soldado.

Dessa altura, Júlio Roldão lembra-se de um jovem “inteligente, expressivo, firme, mas de grande serenidade. Alguém que esteve sempre do lado certo da luta: primeiro contra o regime e depois ao lado de quem defendia a democracia, com um distanciamento partidário e ideológico que, agora, anos depois, é invejável”.

Um distanciamento crítico de alguém cujas origens familiares eram marcadamente “diferentes” do resto dos membros do TEUC. “Nós éramos maioritariamente jovens da província. Não se discutia política em minha casa, por exemplo. Por isso, quando surgia uma discussão política, nós reagíamos com grande paixão e entrega. Principalmente depois do 25 de abril, numa altura em que a maioria das pessoas do nosso círculo enveredou pelo PCP. Sampaio da Nóvoa não o fez. E nesse tempo não era fácil ser distanciado”.

João Vilar e António Nóvoa (1)

João Vilar (à esquerda) e Sampaio da Nóvoa (à direita) a ensaiarem no Teatro Universitário

Foi também no TEUC que Sampaio da Nóvoa conheceu Manuel Lisboa, de quem se viria a tornar amigo de longa data e, mais tarde, colega na Universidade de Lisboa. Partilharam juntos o palco do teatro, mas não só. Entre os vértices do “triângulo” que era a vida de Sampaio da Nóvoa (Académica, teatro e intervenção associativa), havia espaço para umas tertúlias no mítico café “Atenas” ou para uma partida de matraquilhos no não menos mítico “Café Moçambique”. “Nóvoa jogava bem, mas era bem melhor a jogar futebol”, recorda Manuel Lisboa, entre risos.

Mas era no teatro que Sampaio da Nóvoa se sentia melhor. A “via cultural” e a “dimensão criativa” eram as únicas “formas de intervenção” capazes de satisfazer as necessidades de alguém que sempre demonstrou “enormes preocupações sociais” e que sempre foi muito ativo na defesa da liberdade, construindo “pontes” onde antes não existiam, conta. Era a “voz” de Sampaio da Nóvoa. Ou o “uivo” de Ginsberg, se quisermos.

E foi a paixão pelo teatro que levou a melhor em 1973, quando Sampaio da Nóvoa decide largar a Académica, onde o treinador o queria levar para os seniores, e a carreira matemática “brilhante” que tinha pela frente, para ingressar no Conservatório de Lisboa.

José Manuel Crispim, o treinador dos estudantes, recorda com estranheza essa decisão: “Ele já jogava com os mais velhos e eu queria-o levar para os seniores, mas acho que foi o pai que preferiu que ele fosse para Lisboa”.

O pai, sempre o pai. Um dos principais pilares na vida do professor catedrático. Alberto Sampaio da Nóvoa, juiz conselheiro Jubilado do Supremo Tribunal de Justiça e antigo ministro da República na Região Autónoma dos Açores entre 1997 e 2003, durante a Presidência de Jorge Sampaio e os governos de António Guterres. Seria depois, já com Durão Barroso no poder, que Alberto Sampaio da Nóvoa deixaria o cargo por vontade própria em março de 2003.

Ao Observador, Manuel Lisboa disse não se lembrar se foi o pai que motivou o abandono precoce do promissor Sampaio da Nóvoa. Mas garante que o antigo reitor não era homem de tomar “decisões de forma irresponsável” ou sem refletir. Aliás, esse é um dos maiores traços que destaca da personalidade de Sampaio da Nóvoa, “um intelectual brilhante, muito atento” e com uma enorme capacidade “refletiva”, que antes de tomar qualquer decisão, “ouve” quem tem de ouvir. E, nesse processo de transição entre a movida de Coimbra e o Conservatório de Lisboa, é natural que tenha ouvido o pai e toda família, admitiu Manuel Lisboa.

De resto, a família era uma constante na vida de Sampaio da Nóvoa, cultivada, literalmente, à nascença pela mãe, Saladina Nóvoa, que fez questão de dar à luz os cinco filhos no mesmo quarto da casa da família em Valença do Minho. Ou, anos mais tarde, quando um já adolescente Sampaio da Nóvoa passava as férias de verão na Quinta de Boamense, em Cabeçudos, Vila Nova de Famalicão. Uma quinta que pertencia ao trisavô, também ele Alberto Sampaio, um camarada de tertúlias de Antero de Quental e uma das maiores influências de Sampaio da Nóvoa.

A peça Três Irmãs com São José Lapa

É então em 1973, já o Estado Novo se precipitava para o fim, que Sampaio da Nóvoa ingressa no curso de Teatro do Conservatório com uma bolsa da Fundação Gulbenkian. Lá conhece São José Lapa que se lembra de um jovem Sampaio da Nóvoa como alguém “com muito inteligência, genica e imaginação”. Ensaiam juntos a peça “Três Irmãs” de Tchékhov, numa altura em que acreditavam “ser possível fazer um teatro completamente diferente do que se fazia em Portugal”, ao mesmo tempo que estavam a “descobrir” essa paixão pela representação. O destino de ambos acabou por seguir rumos diferentes: São José Lapa seguiu a carreira de atriz e Sampaio da Nóvoa preferiu a academia, mas fica a recordação de um “camarada e colega muito simpático”.

Nessa mesma altura, conhece também Carlos Fragateiro, professor na Universidade de Aveiro e antigo diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II. Começa aí, nas primeiras lutas como representantes dos alunos do Consevatório, uma relação de amizade que se estende até hoje.

“Sampaio da Nóvoa era o melhor de todos nós. Muito despojado, solidário, inteligente, capaz de fazer leituras múltiplas e reagir rapidamente às adversidades”. Mais uma vez, uma pessoa “capaz de criar pontes”, descreve Carlos Carlos Fragateiro.

Foi essa capacidade que o levou, mais tarde, em 1992, a criar, em conjunto com Carlos Fragateiro e outros colegas, a IDEA, uma associação internacional de teatro e educação associada à Unesco e fundada no Teatro Rivoli. O teatro portuense recebe nessa altura uma conferência sem antecedentes em Portugal, que contou com o apoio de pessoas como as britânicas Vanessa Readegrave e Glenda Jackson, ambas galardoadas com Óscar, ou o dramaturgo Eduard Bond.

É Carlos Fragateiro que nos ajuda a recordar as palavras de Nóvoa no encerramento da conferência principal, que esteve a seu cargo: “[O] único despertador: [é] a descoberta. Só a invenção prova que pensamos verdadeiramente a coisa, seja ela qual for. Penso, logo invento; invento, logo penso. Já houve tempo sem escolas. E não sabemos se este tempo regressará. Uma coisa é certa: tempos virão em que a sociedade necessitará de escolas diferentes”.

Ambições políticas esgotaram-se no pós-25 de abril?

Voltamos a recuar no tempo. Estávamos, por fim, em maio de 1974. Rebentava o 25 de abril e, com ele, a liberdade de um povo oprimido por quatro décadas de ditadura. Nesta altura, o teatro e o Conservatório ficam em segundo plano e Sampaio da Nóvoa dedica-se à intervenção política. Longe das máquinas partidárias, mas nunca numa lógica anti-partido, recorda Manuel Lisboa.

Com 20 anos, Sampaio da Nóvoa “envolve-se muito com organizações de base”, onde procura participar ativamente nas decisões das comunidades que o rodeiam, sobretudo na Parede, concelho de Cascais, que viria a adotar como seu, antes de se radicar definitivamente em Oeiras. É na Parede que ajuda a fundar o TMUPA – Trabalhadores e Moradores Unidos Pela Autarquia para concorrer à Assembleia de Freguesia. O resultado dessas eleições, esse, já está para lá da memória de Manuel Lisboa, mas ajuda a construir a imagem de um homem que se afastou dos partidos, sem nunca se afastar da política. Que foi sempre “muito independente”, mas nunca “anti-partidos”.

É também nesta altura, talvez um pouco antes, que Sampaio da Nóvoa conhece uma das maiores influências da sua vida: Zeca Afonso, com quem reúne várias vezes em tertúlias entre Coimbra e Lisboa. Uma das maiores influências, mas longe de ser a única: há também a música de Chico Buarque e Maria Bethânia; e as palavras de Gabriel García Márquez em “Cem Anos de Solidão” – e, aqui, mais uma vez a importância das raízes familiares.

As ambições políticas esgotaram-se no período pós-25 de abril e nas organizações de base que coordenava. Ou nunca chegaram a existir. Enquanto outros procuraram um percurso caminhando sobre a intervenção política em tempos de ditadura, Sampaio da Nóvoa fê-lo através da academia, diz Manuel Lisboa. Reflexos de um “homem simples e discreto”, talvez.

Do Conservatório e da luta política em Lisboa até ao Diploma de Estudos Avançados (DEA) em Ciências da Educação na Universidade de Genebra, na Suíça, onde, de resto, concluiu a formação universitária, damos um salto temporal de oito anos. Pelo meio, regressamos novamente ao Magistério Primário de Aveiro através das memórias de Conceição Sá, então professora de Matemática e uma das colegas mais próximas de Sampaio da Nóvoa, um jovem “bonito e gentleman, muito querido pelas meninas”.

“Não há nenhum aluno que não se lembre dele. Era um professor ponderado, um profissional a sério, que sabia o seu lugar, mas que ao mesmo tempo era muito descontraído. Veja lá que ia todos os dias para a escola de ‘socas’ [n.r.: calçado tradicional de Trás-os-Montes”.

"Não há nenhum aluno que não se lembre dele. Era um professor ponderado, um profissional a sério, que sabia o seu lugar, mas que ao mesmo tempo era muito descontraído. Veja lá que ia todos os dias para a escola de 'socas' [n.r.: calçado tradicional de Trás-os-Montes".
Conceição Sá, professora e antiga colega

Certa altura, recorda ao Observador, os alunos desafiaram os dois professores a inverterem os papéis e serem eles os avaliados. Então, “como Sampaio da Nóvoa era professor de expressão dramática, decidiu imitar uma cena da telenovela de sucesso na altura, o “Astro”. Fizemos par romântico: ele era o Astro e eu a Armanda. Saltámos para cima da secretária. Ele pegou numa toalha, enrolou-a à volta da cabeça e fez dela um turbante, enquanto imitava o gesto da personagem a acender um cigarro. E eu tentava-o seduzir”, recorda, entre risos. Fizeram a cena para gáudio de alunos, professores e empregados que assistiam. Sampaio da Nóvoa era assim, um “homem de consensos”.

Entretanto, troca Aveiro pela Suíça, onde, depois de obter o DEA em Ciências da Educação, é convidado para prosseguir estudos de doutoramento – que conclui em 1986 -, ao mesmo tempo que dá aulas. Regressa depois a Lisboa, altura em que conhece a mulher e começa a carreira académica que o leva a reitor da Universidade de Lisboa. Viria, mais tarde, a liderar em conjunto com António da Cruz Serra, o processo de fusão da Universidade de Lisboa e da Universidade Técnica de Lisboa. Abandona cargo em 2013.

Em Lisboa, porém, há uma paixão que não abandona: o futebol. Longe dos relvados, dá azo ao talento reconhecido desta vez no futebol de salão, onde forma com o pai e os irmãos a equipa “Os Nóvoas”, um assunto “quase sagrado” para o clã, lembra Manuel Lisboa. E, mais uma vez, o pai. O pai como “pilar central de uma equipa que ganhava todos os torneios, não só em Oeiras, mas também na Parede”.

Em 2013, parte para Brasília, materializando uma ligação ao outro lado do Atlântico que começou largos anos antes, quando em 2000 co-coordenou o projeto “Estudos comparados sobre a escola: Brasil e Portugal – séculos XIX e XX”. Na capital do país, esteve como professor visitante na Universidade de Brasília e numa missão internacional da UNESCO junto do Governo brasileiro. Mais precisamente, a convite do então secretário de Educação Superior do Ministério da Educação do Brasil, Paulo Speller. É ele que nos recorda como foi a passagem de Sampaio da Nóvoa pelo Brasil.

“O que chama atenção em Sampaio da Nóvoa é que, além de ser um grande intelectual, que lê muito, que sabe muito, ele está sempre de bom humor e gosta muito de conversar”. Prova deste prazer pela conversa é um episódio que envolveu uma viagem de táxi em Brasília e que Sampaio da Nóvoa adorava contar. “Pois é, numa certa viagem, ele conversou tanto com o taxista que, no final, o motorista disse-lhe: ‘olhe, o senhor para estrangeiro fala muito bem português”.

Apesar de gostar de conversar, fosse à mesa do restaurante onde tantas vezes almoçavam, fosse em qualquer circunstância, o táxi não era, de todo, o meio de transporte predileto de Sampaio da Nóvoa. “Cá em Brasília, ele comprou uma bicicleta e usava-a sempre que conseguia”. Um hábito antigo, importado de Oeiras, donde tantas vezes saía de bicicleta para só parar na Universidade, em Lisboa.

Paulo Speller confessa, aliás, que a única vez que viu Sampaio da Nóvoa “contrariado” foi numa visita ao Memorial de JK, dedicado ao ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitschek, fundador da capital do Brasil. O motivo? Na exposição estava uma fotografia de Marcello Caetano junto de Juscelino Kubitshcek. Então, conta Speller, Nóvoa chamou o responsável pela exposição e disse que aquele não era o melhor tributo ao antigo Presidente brasileiro.

O caminho está aberto e o tema da corrida a Belém acaba por se tornar incontornável. “Eu acho que Sampaio da Nóvoa daria um bom candidato. Ele tem uma enorme facilidade em relacionar-se com toda a gente e tem uma enorme capacidade como mediador” – alguém que faz pontes, claro está. Ainda assim, Paulo Speller, atualmente Secretário-Geral da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura, não acredita que Sampaio da Nóvoa se “sujeitasse a um papel como o da Rainha de Inglaterra, como costumámos dizer aqui no Brasil. De acenar e cortar umas fitas. Ele seria alguém que procuraria ter um papel importante”.

No Brasil, Sampaio da Nóvoa é uma das maiores referências na área das ciências da Educação e as suas palestras são “autênticos comícios”, tal é a multidão que procura assistir às suas intervenções, conta o homem que se fez amigo de Sampaio da Nóvoa na cidade que faz sombra ao Mondego. Manuel Lisboa, pois claro. Uma versão, de resto, corroborada por Paulo Speller, mas não só.

Cybele Amado, líder do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa, também se cruzou com Sampaio da Nóvoa nesta experiência pelo Brasil e explicou ao Observador que “os estudos do Professor António Nóvoa sobre a formação de professores constituem uma referência importante no trabalho realizado por mim e por diversos outros educadores na região em que vivo e trabalho”.

A investigadora ajuda, ainda, a traçar o perfil de Sampaio da Nóvoa, uma pessoa que, “além do rigor e da qualidade das reflexões apresentadas”, “sempre nos chamou a atenção” pela “forma gentil e respeitosa com a qual se relacionou connosco”.

Gentileza e boa disposição parecem ser traços da personalidade de um homem “que prefere rotinas simples, entre amigos” regadas por um “bom vinho português” e acompanhadas por “azeitonas frescas”, conta-nos outra colega de Sampaio da Nóvoa, Fátima Brandão, docente na Universidade de Brasília. “Do Brasil, a sua segunda terra natal, o Professor leva o sabor da tapioca” e de “Brasília, a lembrança da sua casa, da paisagem verde e do Beijódromo da Universidade de Brasília”, conta a docente universitária.

Mas as influências de Sampaio da Nóvoa não se esgotam em Brasília, onde a paixão pelo futebol o levou a assistir ao encontro entre Portugal e Gana durante o Campeonato do Mundo, no estádio Mané Garrincha. Estendem-se ao resto do país, como conta Vera Gaspar, que trabalha com o antigo reitor “há mais de quinze anos” na Universidade do Estado de Santa Catarina. Conheceu-o primeiro “através dos livros, particularmente aqueles dedicados a discutir a história da profissão docente e o papel central do professor na história da escolarização” e depois em 2000, no tal projeto de pesquisa construído cá e lá.

Conta que Sampaio da Nóvoa tem com “São Paulo uma intimidade ímpar mas não se intimida em cruzar o país, indo do Rio Grande do Sul ao Acre” e que “impressiona a capacidade de trabalho, o vigor, a reflexão inovadora que sempre provoca e a dedicação com que o faz”.

Uma das maiores lições que Vera Gaspar aprendeu foi, precisamente, com Sampaio da Nóvoa: “Lembro-me de quando me encontrou transcrevendo coisas que julgou que eu deveria ter digitado diretamente num notebook e perguntou-me ‘sabes quanto custas ao teu país?’ Esta pergunta acompanha-me e acompanha muitos dos que tiveram o privilégio de passar pelas suas mãos: o custo público da nossa formação precisa ser devolvido com seriedade, competência e um trabalho que tenha como meta o bem público”.

Mas há duas características repetidas por todos os que conhecem bem Sampaio da Nóvoa: o grande sentido de humor e a paixão pelo desporto-rei. Os colegas do teatro disseram-no, os de Aveiro também, Manuel Lisboa e Fragateiro repetiram-no, vezes e vezes sem conta. Vera Gaspar não foge à regra, claro, e lembra as “inúmeras vezes em que ele interrompeu o percurso para ver ou comprar uns ténis ou uma bola de futebol”. Mesmo que já não jogue tantas vezes como antes. Mesmo que já não jogue com o pai, entretanto retirado dos pavilhões.

E foi ao pai que dedicou o Prémio Universidade de Coimbra, em 2014. Ao pai, mas também ao trisavô, colega de Quental. E aos irmãos. Dedicou-o também à cidade por onde “passou” e onde “aprendeu sobre tudo aquilo que é importante saber: a amizade, a independência, a vida cultural e desportiva, a poesia, o teatro, a revolta e a liberdade”. E, claro, onde aprendeu o amor pela Académica, o único clube pelo qual sofre verdadeiramente, garante quem o conhece.

E foi em Coimbra, na mesma cerimónia, no mesmo discurso, que lembrou a ligação ao Brasil e parafraseou o Presidente Lula da Silva, lançando as bases para aquilo que hoje podemos associar à decisão de avançar para Belém: “Há muita gente que não gosta da política. Mas há momentos na vida em que não podemos deixar a política apenas para aqueles que gostam dela, e nem sempre pelas melhores razões”.

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