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Toalha branca, guardanapo no colo, velas acesas e música a tocar no fundo. É este o cenário muitas vezes idealizado para uma noite romântica passada a dois. O dia 14 de fevereiro é sinónimo disso mesmo com diferentes casais a sentarem-se finalmente à mesa daquele restaurante escolhido há meses para um jantar que tanto pode correr bem como mal. Por vezes, aquele cenário dito romântico nem sempre é garantia que haja o tão esperado “sim” no final.
Não foi o caso do chef Henrique Sá Pessoa que, a um dia do São Valentim, decidiu partilhar na sua conta de Instagram que estava noivo. O pedido foi feito em Paris — a cidade do amor — naquela que foi a sua primeira viagem à capital francesa. No Madame Brasserie, na Torre Eiffel, o chef estrelado surpreendeu a namorada, Samanta Soares, quase no final de jantar com um anel de noivado da Eugenio Campos Jewels. Primeira vez em Paris, Sá Pessoa confessa que a cidade “estava guardada para uma data e ocasião especiais, para ser vivida ao lado da pessoa mais incrível”, e adianta ainda o “grande sim” ao pedido de casamento.
Grandes e pequenos gestos, pedidos de namoro e de casamento, primeiros encontros ou encontros que praticamente não chegam a acontecer, divórcios e muitos menus de degustação com pairing de vinho à mistura. As mesas de restaurante são palco de amores e desamores que acontecem também, mas não só, no Dia de São Valentim. A assistir estão todos os outros clientes e as equipas de sala — e de cozinha, quando o caso implica uma cirurgia a uma sobremesa para incorporar uma aliança ou criar um prato especial para o momento da surpresa— que têm o papel de colaborar ou de apagar fogos — como aconteceu com David Jesus, quando um casamento terminou à mesa do seu restaurante. Outros cinco chefs recordam episódios “bizarros”, “desagradáveis” e, claro, “românticos”, que podiam ser saídos de um filme ou de uma novela.
O homem que adormeceu (embriagado) à mesa do LOCO depois de ser rejeitado
“Foi o fim de uma relação que nem sequer começou”, conta o chef Alexandre Silva. Tudo aconteceu por volta de 2017 ou 2018, sem precisar exatamente, quando o restaurante LOCO, com uma estrela Michelin, em Lisboa, recebeu um casal para o seu primeiro encontro. Uma mulher portuguesa e um homem estrangeiro — talvez nórdico — sentaram-se à mesa e pediram o menu de degustação com o pairing de vinhos. No decorrer da refeição, Alexandre Silva recorda que o homem começou a beber e que o seu comportamento foi ficando cada vez mais estranho até que, a certo ponto, passou a ignorar a companhia da mulher. “Ela falava e ele parecia que não estava nem aí”. Com cara de indignação, já não conseguia disfarçar o quão desiludida estava com o assunto: pegou no telemóvel e, debaixo da mesa, conversava com alguém por mensagens.
“De repente, agarra na mala, levanta-se e diz alto e bom som ‘isto foi o maior erro da minha vida’ e saiu porta fora”. Sem reação, a equipa do LOCO recebeu ordens do chef para deixarem a situação arrefecer antes de se dirigirem à mesa, onde o cliente permaneceu sentado, e verificarem também se a mulher tinha apanhado um táxi — fê-lo. Passado alguns minutos, a equipa de sala abordou quem ficara, que respondeu, com serenidade: “Vamos continuar e o pairing que iam fazer-lhe podem colocar no meu copo”.
▲ A sala do LOCO, em Lisboa
Como acabou o jantar? Com o cliente a dormir em cima da mesa, embriagado. “Tivemos de acordá-lo para mandá-lo embora e podermos fechar o restaurante”, conta o chef, recordando também que não foi uma tarefa fácil: “O chef de sala ficou ao lado dele a chamá-lo e não deu resultado. Teve de lhe tocar e de o abanar um pouco até ele acordar. Lembro-me de ele tirar um envelope com notas do bolso e de pagar os dois jantares. Toda a situação muito bizarra”.
O pedido de casamento que resultou num “não”
Foi na Casa de Chá de Boa Nova, em Leça da Palmeira, que o chef Rui Paula assistiu a um pedido de casamento que despertou aquilo que designamos por “vergonha alheia”. Com tudo pronto para o grande momento — e para ouvir um sim — o cliente, de ramo de flores erguido, e com o anel de noivado previamente escondido pela equipa do restaurante com duas estrelas Michelin na caixa de petit four servida no final da refeição, recebeu um “não” após a sua romântica proposta. Pagou e foi-se embora. “No final, coitado do homem, a gastar aquele dinheiro todo, a contar com aquilo e ela não aceitou. O problema é ser num restaurante com as outras pessoas a ver. É porque não queria casar mesmo”, recorda Rui Paula.
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…e o pedido de namoro que nunca mais chegava
“Tenho outra história”, garante o chef da Casa de Chá. No mesmo restaurante, recebeu um casal que, naquele dia, se esperava que começasse a namorar. Depois de horas a “cantar a cantiga do bandido e a mandar vir garrafas de champanhe”, o homem não fazia o pedido de namoro, levando a sua companheira a “chatear-se com ele e a chamar um táxi porque se queria ir embora”. “Então, deixou-o na mesa, foi embora e ele ficou com cara de tacho, sendo que todo o pessoal de sala [do restaurante] gramou isto até às 2 da manhã”, conta. “Eu na altura até disse: ‘se ele não conseguiu iniciar uma relação na Casa de Chá, não consegue em mais lado nenhum‘”.
▲ O chef Rui Paula na Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira
O prato especialmente criado para o anel de noivado
Foi no já extinto The Art Gate que o chef Hugo Candeias organizou um pedido de casamento que, podemos dizer, foge ligeiramente aos tradicionais clichês. Em vez do anel de noivado escondido na sobremesa ou dentro da flute de champanhe, foi pedido ao chef que criasse um prato especial onde pudesse se colocar a aliança. “Fiz uma campânula num prato de madeira, pusemos a caixinha com o anel lá dentro, enchi com fumo, e quando foi levado para a mesa inventei uma história sobre o prato”, recorda, acrescentando ter dito que o prato era inspirado nos bosques, para elaborar um pouco mais. Quando levantou a campânula, o fumo desapareceu e a caixa do anel ficou visível. “Ela olhou para ele e começou a chorar”, conta.
Já no Ofício, um cliente revelou que ia pedir a namorada em casamento e, para tal, pediu ao chef para escrever num prato “queres casar comigo?” em inglês e para ser levado à mesa na altura das sobremesas. “Assim fizemos. Toda a gente aplaudiu”.
Hugo Candeias. Um nómada no Ofício, tarte de queijo na Estrela, e novo restaurante a caminho
O casamento que terminou (ou não) à mesa do Seiva
Há cerca de um ano e meio, um casal habitual do Seiva, em Leça da Palmeira, escolheu a mesa daquele mesmo restaurante vegetariano para pôr fim ao matrimónio. “Claramente eles vinham cá porque a senhora queria, porque o senhor é daqueles de carne, carne, carne”, conta o chef David Jesus. A certo ponto, durante o jantar, o chef foi recolher o pedido da mesa ao lado e ouviu o casal a conversar: “Só temos de ver como é que vamos fazer com os filhos mas por mim podes seguir o teu caminho”. O homem concordou, levantou-se e foi-se embora. “A senhora ficou a chorar na mesa”. Quando achou oportuno, o chef do Seiva dirigiu-se à mesa, mostrou-se empático e disponível para o que precisasse e garantiu que o jantar ficava por conta da casa. “Ela chorou ali em silêncio, recompôs-se, acabou o vinho dela e saiu”, recorda. “Não há um livro que diz como é que se deve lidar com isso, não é? Naquele dia foi uma situação muito desagradável”, confessa.
A história não acaba aqui. Meses passados, o casal, que se terá reconciliado, regressou ao Seiva, juntos, mas com uma postura diferente por parte do homem. Desconfortável, acrescenta o chef, é também quando estes casais que visitam regularmente o Seiva terminam e regressam aos restaurantes com os novos companheiros. “Já aconteceu um casal habitual vir no mesmo dia com companheiros diferentes, e isso parece uma novela. Para mim foi super desconfortável. Não tive coragem de encarar”.
…e os bebés Seiva
Com já três anos de vida, o Seiva tem vindo a testemunhar o início de relações que depois se desenvolvem e dão frutos — os chamados bebés Seiva, como o chef lhes chama. David Jesus conta que são vários os casos de casais que tiveram um primeiro encontro no seu restaurante, começaram a namorar e acabaram por ser pais, levando agora os filhos a provar as suas receitas plant based. “O primeiro bebé chegou em setembro do ano passado. Eles começaram a namorar e surgiu o pequenino e agora já vêm com os filhos ao restaurante e isso é bonito e gostam de ir partilhando essas dinâmicas”, confessa, acrescentando que já houve também um casal que teve o primeiro encontro também no Seiva e que “depois do casamento, do registo, veio cá jantar”.
Uma história de amor no Sult
Esta história atravessa um oceano até ao Rio de Janeiro, onde o chef Nelson Soares conheceu a namorada, Rebeca Brack. Ainda antes de o Sult chegar a Cascais, foi no restaurante homónimo, naquela cidade carioca, que, um dia, o chef atendeu Rebeca, a mãe e a irmã. Apresentados por um amigo em comum, os dois conversaram, “eu contei toda a minha história”, mas, ambos casados na época, nada aconteceu. “Tivemos uma identificação, ficou aquela coisa de gostarmos muito de vinho natural e tinha essa amizade”, recorda. Quase dois anos passados, e já solteiros, foi “numa bela noite” que se reencontraram no Sult. “Foi uma coisa meio mágica, nós encontrámo-nos e ficámos juntos, e estamos até hoje”, afirma o chef brasileiro, destacando ainda como o Sult esteve presente naqueles dois momentos da vida do casal.
Agora em Portugal, o chef Nelson revela que trouxe do menu do Sult do Rio de Janeiro carne cruda e a fregola com polvo e tutano para Cascais por causa de Rebeca. “Ela ama a fregola. É um prato que saiu do menu do Rio e ela ficou frustrada porque saiu. Então lançámos aqui no menu de Cascais e de vez em quando ela pede”, confessa.
▲ O chef Nelson Soares no Sult, em Cascais
O clássico pedido de casamento de joelho no chão
De portas abertas desde o início de janeiro, o Intemporal, em Paço de Arcos, já testemunhou um clássico pedido de casamento. Depois de ter ido experimentar o menu de inverno que inaugurou o novo restaurante do chef Miguel Laffan, um cliente elegeu aquele como o local onde ia pedir a namorada em casamento. E assim o fez. Numa noite de janeiro, o Intemporal abriu apenas para o casal. À entrada ficou o violoncelista a tocar enquanto que no piso de cima a sala principal esperava o casal, com as mesas vestidas de branco e velas acesas. “Estava super romântico”, confessou o chef, comentando ainda o nervosismo que sentiu por parte do cliente: “Mostrou-me o anel umas 10 vezes. Era tão bonito que até eu quase que lhe dizia que casava com ele”.
Quando a então futura noiva chegou ao restaurante, percebeu que se estava a passar algo fora do comum. O jantar foi passando, os pratos chegando à mesa, até que o homem decide levantar-se, meter-se de joelhas e “à antiga” pedi-la em casamento. “E nós todos ali escondidos a ver”, confessou. “Ela disse que sim. Ele chorou, ela chorou. Estavam realmente muito emocionados”, recorda. “Foi o jantar mais giro que eu fiz na minha vida. Eu estava a cozinhar com aquela música maravilhosa à minha frente”, afirma.
Intemporal. Desenhado para alcançar uma estrela, é o regresso de Miguel Laffan ao fine dining