António José Seguro venceu a primeira volta e, ao contrário das expectativas e do apoio empastelado do PS, provou que vale mais do que o partido eleitoralmente: com 99,79% dos votos contados, ficou com 31,1% dos votos (mais de um milhão e 700 mil). Teve mais de 300 mil votos do que o PS nas últimas legislativas e deixou André Ventura em segundo lugar, a uma distância de mais de 400 mil votos.
O antigo secretário-geral socialista não fez questão de ter o PS ao seu lado na noite da vitória e fez desta uma conquista exclusivamente sua. Num discurso que parecia de continuidade em campanha — até porque é assim que já está —, o candidato que passa à segunda volta quer manter a linha e agregar os que rejeitam Ventura.
Foi uma verdadeira pedrada no “poucochinho” que marcou a sua saída, pela porta pequena, do PS. É com o líder que preteriram em 2014 que os socialistas voltam a estar perto do Palácio de Belém — onde não estão há 20 anos, desde 2006. Mas o PS não apareceu para cantar vitória nas Caldas da Rainha, onde Seguro quis fazer a sua noite eleitoral. Ao que o Observador apurou, as presenças do líder do partido na campanha e nesta noite foram sempre “articuladas” com Seguro. E desta vez, Carneiro ficou no Largo do Rato.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
No centro cultural das Caldas da Rainha estavam sobretudo cidadãos anónimos e muito poucos socialistas. Só mesmo os mais próximos de Seguro, alguns seus conselheiros e membros da sua direção no partido, caso de António Galamba, Miguel Laranjeiro, Alberto Martins, Óscar Gaspar, João Soares, José Abraão e Miguel Ginestal. De resto, estiveram a acompanhar a noite nas Caldas apenas alguns deputados do PS, caso de Miguel Costa Matos, Pedro Vaz e Davide Amado.
Na intervenção que fez no final da noite, Seguro declarou: “Sou livre, vivo sem amarras. E assim serei como Presidente.” Repetiu tudo o que disse em campanha sobre o carácter “suprapartidário” da sua candidatura, garantindo, tal como durante a campanha até aqui, que não quer a “contaminação” da sua candidatura por “partidos ou lideranças individuais.” Afirmou mesmo, do palco da vitória, que quem define a sua “estratégia” é ele mesmo.
Não tem “reservas de admissão” nos apoios à sua candidatura, mantendo o pedido que já tinha feito no final da corrida para a primeira volta, ao apelar a “todos os democratas, progressistas e humanistas” para que se unam à sua candidatura para, juntos, “derrotarem os extremismos”. “Todos os democratas são bem-vindos. Para mim não há portugueses bons e maus, portugueses de primeira e portuguesas de segunda”, declarou.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
A estratégia é “agregar”, como diz um dos conselheiros do candidato ao Observador. E é também aí que entra a manutenção de uma linha de não-agressão com o primeiro-ministro Luís Montenegro. Depois de os resultados terem penalizado, colocando no quinto lugar, o candidato apoiado pelo líder do PSD (e também do Governo) e nos primeiros os candidatos apoiados pela oposição, Seguro garante a sua candidatura “mantém a linha e coerência estratégica”.
Este ponto tem também importância noutra frente — que não a da simples gestão da capacidade agregadora da candidatura, já que o socialista também não quer pôr em causa as relações institucionais. Nas respostas às perguntas dos jornalistas, Seguro disse mesmo que tudo fará para que “não sejam afetadas” as relações institucionais durante a campanha eleitoral.
A ideia do candidato era ter uma reunião para preparar a segunda volta já esta segunda-feira, mas na noite de domingo já deixou antever os argumentos que vai seguir para enfrentar o seu adversário, André Ventura. Ao contrário do que fez durante a campanha eleitoral, desta vez referiu-o pelo nome, para proclamar: “Entre mim e André Ventura há um oceano de diferenças“. Mais um convite aos “democratas” para o seu lado da barricada.
Não se alongou sobre os apoios que recebeu esta noite, nem oficiais (como dos candidatos à sua esquerda, Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto), nem os menos públicos. Foi questionado sobre se recebera algum contacto de felicitações por parte do atual presidente do Conselho Europeu, e seu antigo arquirival no PS, António Costa, mas esquivou-se com as inúmeras mensagens que chegaram esta noite e que ainda não teve oportunidade de ver de quem são. Na sala de apoiantes, a menção de Costa foi recebida com algum burburinho.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Carneiro apanha boleia da vitória para reafirmar liderança
Esses tempos do PS são agora uma memória longínqua para Seguro que, onze anos depois concorre pela primeira vez com a sua cara nos cartazes, conseguindo uma vitória expressiva e contra alguma desconfiança do seu próprio partido — que tardou em juntar-se à candidatura sem reservas. Mas da parte do PS o aproveitamento da onda de vitória já começou, com a convocatória de uma reunião da Comissão Nacional do partido para o próximo sábado.
A carta enviada pelo presidente do partido aos membros deste órgão máximo do PS entre congressos, a que o Observador teve acesso, fala na natural “análise da situação política”. Mas, na ordem de trabalhos, está também o arranque do processo do próximo Congresso do partido (marcação de data e local, mas também a fixação do “regulamento para as eleições do secretário-geral”. A expectativa de José Luís Carneiro é que esse congresso, que terá de ser precedido de novas eleições diretas, reconfirme a sua liderança, onde chegou em junho.
A vitória do candidato que o PS apoiou nestas Presidenciais — num processo interno que foi doloroso, com alguns costistas a discordarem publicamente do apoio a Seguro — pode servir de balão de oxigénio para o partido que sofreu uma pesada derrota eleitoral há menos de um ano. Agora com outro líder ao comando e sem adversários internos de peso interessados em acelerar calendários nacionais.
VASCO COELHO/OBSERVADOR