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Serena, a "bebé do porta-bagagens" que a mãe escondeu durante dois anos /premium

Rosa Maria escondeu a filha num porta-bagagens logo que ela nasceu. Uma "negação da gravidez" ou uma "espiral de mentiras"? A emigrante portuguesa em França foi condenada a 5 anos de prisão.

Quase de pé, nas escadas da sua casa, Rosa Maria da Cruz deu à luz o terceiro filho em poucos minutos. O vizinho, que acabaria por se tornar padrinho da criança, ajudou-a no parto. Rosa Maria tinha descoberto que estava grávida ao sétimo mês de gestação. “Quando dissemos ao pai que tinha tido uma filha, ele disse que estava feliz, mas que já tinha filhos suficientes”, recordou o vizinho Alain, ao jornal francês Liberátion.

À data, 2009, o casal tinha já dois filhos. Também o nascimento do segundo, cinco anos antes, tinha sido de tal forma invulgar que se tornou uma história de família, contada e recordada frequentemente. O casal, natural de Póvoa de Lanhoso e emigrado em França, estava a passar o verão em Portugal. Em pleno almoço de família, Rosa Maria, desconhecendo que estava grávida, começou a sentir contrações — sem ainda saber que as eram. “Ela deitou-se no sofá e pensou que ia morrer. Foi quando viu a cabeça do bebé que percebeu que ia ter um filho”, contou a irmã Adelaide, numa entrevista dada ao programa Sept à Huit do canal francês TF1.

Embora o marido, Domingos Alves, considerasse que “já tinha filhos suficientes”, Rosa Maria voltou a engravidar. Ao início da manhã de 24 de novembro de 2011, a sua mulher deu à luz o quarto filho. Desta vez, não estava sozinha em casa — “estavam todos a dormir quando eu trouxe a minha menina ao mundo” — mas, ao contrário dos nascimentos anteriores, ninguém soube deste. “Cortei o cordão umbilical, peguei-a ao colo. Depois, larguei-a, fiz o meu trabalho, acordei os pequeninos, preparei-os para ir para a escola como se nada tivesse acontecido. Para mim, não era uma criança que acabara de nascer“, disse Rosa Maria, numa entrevista também ao programa Sept à Huit.

“Cortei o cordão umbilical, peguei-a ao colo. Depois, larguei-a, fiz o meu trabalho, acordei os pequeninos, preparei-os para ir para a escola como se nada tivesse acontecido. Para mim, não era uma criança que acabara de nascer"
Rosa Maria da Cruz

O segredo persistiu por anos: “No dia do parto, não contei a ninguém. Nem no dia seguinte, nem no outro e assim por diante. Tranquei-me numa mentira, num abismo”. Rosa Maria não desejava aquela filha. Não a matou, mas também não a deixou viver: garantiu apenas que sobrevivesse. Chamou-lhe Serena, por ser uma bebé muito calma, e trancou-a no porta-bagagens do carro, onde cresceu, no silêncio e na escuridão, até fazer 23 meses — quase 2 anos. Agora, cinco anos depois, Rosa Maria foi condenada pelo tribunal em Tulle, por maus tratos agravados, abandono e ocultação.

Terá de cumprir uma pena de cinco anos de prisão efetiva — três deles com pena suspensa — e ainda cinco anos de acompanhamento sócio-judicial. Para além disso, ficou obrigada a pagar 19 mil euros ao município francês de Corrèze. Rosa Maria, que não vai recorrer da decisão, será transportada para a cadeia ainda esta sexta-feira. Quando ouviu a sentença, não teve qualquer reação. As últimas palavras, em tribunal, foram proferidas antes de conhecer a pena que lhe foi aplicada: “Peço desculpa a toda a minha família, aos meus filhos. Peço desculpa por tê-los colocado nesta situação.”

Rosa Maria da Cruz foi condenada a cinco anos de prisão, sendo três deles de pena suspensa (Foto: GEORGES GOBET/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Serena foi encontrada “branca como gesso”, rodeada de fezes e sacos do lixo

“Descobri esta menina no fundo do porta-bagagens, nua, ao lado de uma alcofa podre, nojenta. Dei um salto para trás, tal era o cheiro”. Serena pesava menos de oito quilos e tinha cerca de 70 centímetros. Foi encontrada a 25 de outubro de 2013, por Denis Latour, dono da oficina onde Rosa Maria levou o carro, um Peugeot 307, para arranjar. A mulher recusou abrir o porta-bagagens, alegando que estava muito cheio e que não queria ter de retirar tudo o que lá estava. Mas um “gemido” e uma espécie de um “arranhão” vindo do porta-bagagens levantou suspeitas sobre a verdadeira razão pela qual Rosa Maria não o queria abrir. O mecânico, Guillaume Iguacel, pensou que talvez fosse um animal e pediu ao proprietário autorização para abrir o porta-bagagens.

Lá dentro estava Serena, “branca como gesso”, rodeada de sacos do lixo e fezes. Parecia ofuscada, como se “nunca tivesse visto a luz” e tentava respirar “como se estivesse a sufocar”. Os dois homens, querendo acreditar que Rosa Maria estava tão chocada quanto eles, pediram-lhe para dar água à criança. “Quando ela pegou nos braços da criança, foi um horror. A sua cabeça, os seus braços…tudo parecia desarticulado”, recordou Denis Latour ao Franceinfo. Os dois homens perceberam, então, que aquele cenário não chocava a mulher tanto quanto a eles. Encostada ao Peugeot, Rosa Maria, aparentemente calma, fumava um cigarro.

A alcofa que estava no porta-bagagens foi mostrada em tribunal, durante o julgamento (Foto: GEORGES GOBET/AFP/Getty Images)

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“Na mala do carro havia larvas, moscas, minhocas, fezes e fraldas sujas. O cheiro era nauseabundo”. O relato é de um inspetor que foi chamado ao local, ouvido como testemunha no tribunal em Tulle, que disse estar certo de que, face àquele cenário, Serene viveu longos meses naquele estado de negligência. “Tivemos de arejar o carro durante muito tempo para podermos fazer as nossas diligências”, adiantou.

Os bombeiros foram chamados de imediato, ainda antes da polícia, e ficaram cerca de uma hora a cuidar de Serena e a colocá-lo em oxigénio. “Disseram-nos que, se não tivéssemos aberto o porta-bagagens, ela estaria morta em meia hora”, recordou o mecânico Guillaume Iguacel. “Sei que esta noite podemos ter salvo a vida da sua filha”, disse o funcionário da garagem através do vidro do carro da polícia onde Rosa Maria estava sentada “Obrigada, senhor”, respondeu-lhe.

“Eu não consegui lidar com isto enquanto cuidava dos meus três outros filhos, mas eu tentei mantê-la viva”

Há uma pergunta que fica por responder: porquê?  Numa entrevista dada ao canal francês TF1, pouco tempo depois de Serena ter sido encontrada, a mãe explicou que ao mesmo tempo que cuidava da família, cuidava da filha que ninguém sabia que tinha tido. “Levantava-me antes de todos, preparava o biberão, levava-lhe e ficava lá com ela um bocadinho. Depois, voltava para cima e cuidava dos três”, explicou a mãe.

Rosa Maria falava de um “relacionamento especial”. “Às vezes, dormia com ela à noite, enquanto todos os outros dormiam. Deitava-me ao lado dela, falava com ela, punha música para ela ouvir”, exemplifica, acrescentando que Serena não era “o bebé do porta-bagagens” como acabou por ficar conhecida, porque, por vezes, a levava a “uma sala onde ninguém ia”. A mulher garantiu ainda que nunca maltratou a filha: “Eu não consegui lidar com isto enquanto cuidava dos meus três outros filhos, mas eu tentei mantê-la viva“.

"Eu não consegui lidar com isto enquanto cuidava dos meus três outros filhos, mas eu tentei mantê-la viva"
Rosa Maria da Cruz

As declarações de Rosa Maria, porém, foram mudando ao longo da investigação. Durante o julgamento, negou tudo, incluindo que chamava Serena à filha — disse que foi um nome que inventou quando a polícia chegou. “Queria passar por uma boa mãe, para não perder os meus outros três filhos. Tudo o que disse durante os outros interrogatórios é falso. Para mim, a Serena era uma coisa que não existia“, disse a portuguesa em tribunal, reforçando que nem sequer deu nome à menina e inventou Serena quando a polícia veio à sua procura. Os psicólogos indicaram durante o julgamento que Rosa Cruz teve síndrome de negação de gravidez, que se transformou numa negação da criança.

Na altura em que a criança foi descoberta, o pai, também português, foi indiciado por suspeitas de cumplicidade com Rosa da Cruz. Mas o Ministério Público acabaria por arquivar a acusação por falta de provas. Ainda assim, o pai da criança foi ouvido como testemunha. Garantiu que não sabia de nada e que considerava Rosa Maria uma “boa mãe” e uma “mãe como as outras”. “Ela não fez isso para magoar a criança. Se ela quisesse magoá-la, tê-la-ia matado“, garantiu.

Serena, hoje com sete anos, ficou conhecida como "a bebé do porta-bagagens" (Foto: GEORGES GOBET/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Também o pediatra que examinou Serena, após ser descoberta, foi ouvido como testemunha e revelou que Rosa Maria terá medicado a filha com substâncias químicas presentes em medicamentos analgésicos e anestesiantes. “Nenhuma dessas substâncias é indicada para crianças com menos de seis anos e é discutível o uso em menores. E quando ela foi encontrada, tinha 23 meses”, explicou durante o julgamento. Serena tem agora sete anos e ficou com graves deficiências físicas. Algumas das lesões que sofreu são irreversíveis. Apresenta sinais de autismo profundo e défice mental de 80%. A única palavra que diz é “não”. Os sons que emite são semelhantes aos de “um comportamento animal”. Não chora e tem uma “mastigação oral permanente“.

As acusações contra Rosa Cruz foram agravadas em 2016, quando uma perícia revelou estes problemas físicos e mentais permanentes, motivados pelas circunstâncias em que Serena viveu durante dois anos. Na leitura da acusação, no início do julgamento, Rosa Maria foi confrontada com a informação que dava conta do estado em que a filha se encontrava e começou a chorar — e continuou a fazê-lo ao longo da semana, tentando esconder-se com um lenço. Disse que ainda não tinha lido a acusação — “Talvez não quisesse ler o mal que fiz a Serena” — e pediu desculpa: “Lamento profundamente o mal que fiz a Serena. Estou arrependida”.

A portuguesa, mesmo que já conduzida à cadeia, tem ainda 10 dias para recorrer da decisão. A filha, Serena, está agora entregue a uma família de acolhimento.

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