Sérgio Praia: “O que se tem dito sobre António Variações não é a história verdadeira” /premium

20 Agosto 2019244

O filme biográfico sobre o cantor chega às salas na quinta-feira, 22 de agosto, e recria os seus últimos anos de vida. Segundo o ator principal, Sérgio Praia, o mito Variações nunca mais será o mesmo.

Três anos depois da peça de teatro Variações, de António, com texto e encenação de Vicente Alves do Ó, Sérgio Praia volta a dar vida ao cantor, mas desta vez no cinema. O filme chama-se “Variações”, é realizado por João Maia e tem estreia marcada para quinta-feira, dia 22, em 60 salas portuguesas.

Dada a popularidade da personagem e a expectativa criada ao longo de meses com excertos na Internet e frequentes notícias sobre a rodagem, talvez seja um dos filmes portugueses mais aguardados dos últimos anos. Segundo Sérgio Praia, em entrevista ao Observador, “Variações” não quer sublinhar a excentricidade ou a dimensão lendária do artista, antes procura apresentá-lo nos últimos anos de vida como uma pessoa comum que teve a coragem de lutar pelo sonho de ser cantor.

António Variações, nome artístico de António Joaquim Rodrigues Ribeiro (1944-1984), nasceu no distrito de Braga e aos 14 anos estabeleceu-se em Lisboa, tendo trabalhado muitos anos como cabeleireiro (ou barbeiro, assim preferia dizer). Teve uma carreira musical muito breve, com apenas dois álbuns gravados, Anjo da Guarda, de 1983, e Dar & Receber, de 1984. Ao longo das décadas a sua imagem pública foi sendo reavaliada, primeiro como exemplo de liberdade individual, depois como pioneiro da música pop portuguesa e, mais recentemente, como ícone gay. Mas terá conhecido, no fim da década de 70, as maiores dificuldades para conseguir um contrato discográfico que lhe permitisse iniciar uma carreira.

O filme reconstitui essa fase e destaca pessoas e circunstâncias ainda pouco conhecidas. A produção é de Fernando Vendrell e nos papéis principais incluem-se Filipe Duarte, Victoria Guerra, Augusto Madeira e Teresa Madruga, além de uma participação especial de José Raposo.

Até aqui se chegar passaram-se mais de 15 anos. O guião original foi escrito em 2003, por João Maia, e as filmagens chegaram a estar marcadas para 2009, mas um desentendimento entre o realizador e a produtora Utopia Filmes, que teve de ser resolvido em tribunal a favor do primeiro, adiou a concretização, até finalmente ter chegado um subsídio do Instituto do Cinema e do Audiovisual, em 2016.

Sérgio Praia, de 42 anos, conhecido do grande público pelas participações em séries e novelas dos canais generalistas, acompanhou grande parte deste processo. Pensou desistir várias vezes, mas não conseguiu. A obsessão com o cantor dura há muito e não termina para já, pois as canções que interpreta na película, com a própria voz, foram transformadas em espetáculo ao vivo. A banda sonora chega às lojas nos próximos dias, com produção de Armando Teixeira (dos Balla). É composta por temas menos óbvios de Variações, incluindo o inédito “Quero Dar Nas Vistas”. Algumas canções já foram apresentadas no festival NOS Alive, em inícios de julho, e um espetáculo idêntico vai andar em digressão pelo país nos próximos meses, até ao fim de 2020.

Sérgio Praia é António Variações no filme de João Maia, um papel que o consome há vários anos

Como é que se sentiu no papel de António Variações?
Foi um regresso às origens e à essência daquilo que sempre imaginei que é ser ator, criador, fazedor de sonhos. Foi como se tomasse um comprimido, como numa das canções dele, e esse comprimido permitiu que me focasse no essencial, numa altura em que os atores andam demasiado preocupados com a autopromoção. É evidente que eu próprio tenho de fazer parte desse sistema, à minha maneira, portanto, contra mim falo. Mas acho que cada vez mais se está a esquecer o papel do ator na sociedade, andamos interessados na promoção de nomes e não de conteúdos. A mensagem hoje é: “Vejam o meu nome, porque eu fiz isto e fiz aquilo”.

Isso é negativo?
Penso que sim. O ator está a exercer uma profissão, mas tem também uma função política: passar informação e ajudar as pessoas. Os atores que ainda o fazem estão a desaparecer e tem surgido uma nova forma de encarar as coisas. Andamos todos muito desfocados. Como acho que nada é por acaso, diria que o António Variações veio ter comigo na altura certa, para voltar a pensar no que me fez querer ser ator. Ele tinha um sonho e quis concretizá-lo. Se pudesse, retirava o meu nome do filme e ficava apenas o nome da personagem. Parece que hoje já não queremos saber das personagens, só estamos interessados nos nomes dos atores. Isso não me interessa, o que quero é que aquela personagem me diga alguma coisa e me faça sonhar.

[O trailer de “Variações”, que chega às salas de cinema esta quinta-feira:]

Indentifica-se com a história pessoal de António Variações?
Identifico-me com a busca. A ideia de sair da zona de conforto, o querer sair da terra desde muito cedo, o querer experimentar as minhas capacidades noutro sítio, tentar emocionar os outros. O António também tinha isso, estava muito focado no seu sonho. O meu sonho era ser ator, o foco dele era ser cantor. Às tantas, isso é tão importante que só pensamos no trabalho. Acho que ele era viciado no trabalho. Percebe-se isso pelas gravações que deixou em cassete.

Ouviu essas famosas gravações?
Sim, sim, foi a [editora] Valentim de Carvalho que as passou ao João [Maia]. O filme tem muito que ver com essas gravações, ou seja, com as maquetes das canções, antes de ele ter feitos os discos em estúdio. As gravações, aliás, permitem conhecer outro António. As pessoas preferem ver nele apenas o animal de palco, o bicho exuberante, porque precisam disso, precisam do santo no pedestal, para acreditarem que podem lá chegar. O António tem sido endeusado e se calhar, afinal, não era tão histórico como se pensa. Era um homem muito tímido, falava baixinho, era reservado. Claro, tinha um apetite sexual muito forte, gostava de se vestir de forma exuberante, mas o vestir não era para dar “show”, era uma coisa pensada, fazia parte dele, era um ato político.

Acha que temos criado uma imagem errada dele?
O que se tem dito sobre o António não é a história verdadeira. Ele era muito mais de comer pataniscas, não é o tresloucado que querem fazer. Ou seja, a forma como alguém se veste ou se apresenta não é aquilo que a pessoa é por dentro. Como existem de facto pessoas que parecem bichos exuberantes, cada país quer ter o seu, para o pôr no altar. Neste caso, foi o António, podia ter sido outro. Este endeusamento é uma construção feita pela sociedade para alimentar uma máquina, que em muitos casos lucra com isso.

"As pessoas preferem ver nele apenas o animal de palco, o bicho exuberante, porque precisam disso, precisam do santo no pedestal, para acreditarem que podem lá chegar."
Sérgio Praia

Como é o António Variações do filme?
Acho que é o António sem a vestimenta, acho que nos leva ao lado mais solitário dele. Não estou a dizer que o António deste filme é que é o verdadeiro, estou a dizer que não é costume falar-se dele desta maneira. Uma das coisas que me levaram a entrar neste filme foi o João ter pretendido mostrar outras possibilidades de interpretação do António. Depois, cada espectador irá construir o seu, à sua medida, à medida do que precisa.

O filme pretende mudar a imagem pública do cantor?
É mais uma camada de interpretação. Ele deixou muitas possibilidades em aberto, nunca foi pessoa de querer fechar os horizontes. Penso que o João não quis mentir, não quis fazer folclore. Existe muito folclore à volta de pessoas como o António. O João não quis artifícios, não há slow motion no filme, por exemplo. O António foi muito maltratado, só depois é que passaram a mitificá-lo. É assim mesmo. As pessoas precisam de santos e o António tinha características que o tornavam diferente, que permitiam a criação de um mito. O nosso país está a sair de uma era em que havia muito preconceito em relação à homossexualidade, e ainda existe, na verdade.

Acha que ele foi prejudicado por ser homossexual?
Penso que sim. Mais do que a proposta musical, a proposta visual é que era muito diferente e mal vista e houve uma fase dos anos 80 em que tudo o que era muito diferente era conotado com a homossexualidade e considerado negativo. Um homem mostrar o corpo, um homem ser sensual, gostar de se exibir, tudo isso era muito estranho naquela época. A opção que ele tomou de acreditar em si mesmo prova que era uma pessoa muito forte. Ele sabia o momento e o país em que estava a viver, por isso é que chegou a estabelecer-se na Holanda. Sentia que aqui estava muito limitado.

Como é que encontrou o tom para a personagem?
Não pensei muito, não fiz disto um bicho de sete cabeças. Senti-o como algo que vive comigo. Tentei misturar o que vi e li e as conversas que tive com várias pessoas. Sobretudo, procurei não me deixar toldar por pormenores. Estas pessoas não são assim tão diferentes de nós.

"Um homem mostrar o corpo, um homem ser sensual, gostar de se exibir, tudo isso era muito estranho naquela época. A opção que ele tomou de acreditar em si mesmo prova que era uma pessoa muito forte."
Sérgio Praia

Que pesquisa fez?
Por exemplo, fui buscar inspirações musicais, tanto as inspirações musicais do António como as minhas, para depois conseguir construir o meu António. Ouvi Joy Division e Iggy Pop, que ele adorava. Ouvi muito Amália, José Cid, Cândida Branca Flor, Lara Li, Lena d’Água, Marisa Liz, Conan Osirs, Filipe Sambado.

Ouviu Conan Osiris para compor a personagem?
Sim, sim, nos últimos meses, quando já estava a filmar.

Há quem diga que Conan Osiris faz lembrar António Variações.
Sim, mas não concordo, ele colhe muitas influências. Vejam as letras do Conan. As pessoas têm necessidade de o arrumar num sítio, mas ele é muito mais do que isso. Acho que muitas vezes as pessoas não olham para os olhos dos artistas, só veem o exterior, o lado esquisito.

O facto de ter feito uma peça de teatro sobre António Variações ajudou-o no filme?
Foram projetos diferentes, mas a peça surgiu precisamente porque estávamos a ter dificuldade em conseguir um subsídio do Instituto do Cinema e já estava cansado. No fundo, tinha de matar o António que andava há muito tempo a construir na minha cabeça. Tentei muitas vezes sair deste projeto, mas o projeto não saía de mim. Queria sair, mas depois entrava num táxi ou ia a uma pastelaria e estava a dar uma música do António. Houve alguma coisa que me fez ficar e acreditar. A peça foi uma última tentativa. No fundo, esperava que alguém olhasse para isto e percebesse que o António que queríamos filmar era sincero, que não queríamos fazer nenhum circo. Convidei o Vicente Alves do Ó para escrever o texto. Só lhe pedi que falasse um bocadinho de Amália, que é a minha âncora, o motivo pelo qual estou vivo e que tanto influenciou o António.Ppedi-lhe também para falar sobre a relação com a mãe e que houvesse um lado de sonho. Foram os pedidos que lhe fiz. O Vicente escreveu a peça e correu muito bem [em 2016]. O João voltou a concorrer ao subsídio e passado pouco meses o subsídio apareceu.

Porque é usaram a sua voz nas canções e não as gravações dos discos de Variações?
Foi uma opção do realizador. Não achava boa ideia, pensei que o público poderia sentir-se enganado, mas depois aceitei e quando gravámos as cenas no Trumps [discoteca de Lisboa onde Variações deu os primeiros concertos] percebi que o João queria mesmo o live, a sensação da voz ao vivo, o suor, o erro.

"Tentei muitas vezes sair deste projeto, mas o projeto não saía de mim. Queria sair, mas depois entrava num táxi ou ia a uma pastelaria e estava a dar uma música do António. Houve alguma coisa que me fez ficar e acreditar."
Sérgio Praia

As canções foram todas cantados ao vivo nas filmagens?
Todas. Antes da rodagem, tive a ajuda do Rui Baeta para ensaiar, mais o Armando Teixeira e a banda dele. Tinha insegurança em cantar e quis fazer esse treino. Gravámos as músicas mas depois, na rodagem, decidimos fazer ao vivo, porque resultava melhor do que gravado. Aqui há, evidentemente, a responsabilidade do timbre. Não tenho o timbre dele, eu sei, mas o importante é celebrar o Variações. Não quero ser o António, quero sintonizar-me com ele.

Agora que o filme está feito já o conseguiu arrumar na sua vida?
Não…

Diz isso com um ar preocupado.
Digo, isto absorve-me muito. Nós envelhecemos com estas coisas, quando somos muito intensos no trabalho. Mas foi essa a decisão que tomei. Ainda não quero que ele se vá embora. Vou agora fazer a digressão com o Armando Teixeira e a banda, vamos andar pelo país até ao fim do ano que vem, para celebrarmos a banda sonora. Depois, quando já tiver sugado tudo do António, cada um vai à sua vida.

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