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O staff do hotel em que decorre a ação desta terceira temporada, protagonistas de uma história dentro da própria história, eles que garantem tudo o que é necessário para o bem-estar da tragédia dos outros
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▲O staff do hotel em que decorre a ação desta terceira temporada, protagonistas de uma história dentro da própria história, eles que garantem tudo o que é necessário para o bem-estar da tragédia dos outros

▲O staff do hotel em que decorre a ação desta terceira temporada, protagonistas de uma história dentro da própria história, eles que garantem tudo o que é necessário para o bem-estar da tragédia dos outros

"The White Lotus", temporada 3: como é que eles se desgraçam com tanto requinte?

Susana Verde já viu seis dos oito novos episódios deste caso sério de sucesso no streaming. No dia da estreia, este é um relatório sobre quão acertado é este regresso — e sem spoilers.

Eu sei que pode ser muito irritante. A expressão vulgarizou-se, a frase é cuspida sem critério e nos tempos que correm devia ser usada com parcimónia.  Às vezes, atiram-ma e apetece-me responder “Não mandas em mim, não és meu pai!”. Felizmente, isto é um diálogo que acontece apenas na minha cabeça, e rapidamente percebo o quão ridículo seria dizer isto, mais que não seja porque tenho 45 anos e já me emancipei há um tempinho. Então, limito-me a acenar a cabeça manifestando concordância e junto a sugestão na nota do telemóvel que uso para o efeito. Sim, estou a falar do “Tens de ver!”. Assim, exclamativo, autoritária, quase a carregar uma sentença de vida ou morte. É impressionante como nos tornámos numa espécie de testemunhas de Jeová das plataformas de streaming. E eu não me estou a colocar de fora da equação. Aliás, aproveito para fazer um mea culpa e me dirigir a todos aqueles que tentei evangelizar relativamente a Fawlty Towers, Os Sopranos e a Better Call Saul entre outros. As minhas sentidas desculpas. Mas vejam, que é para eu poder bater no peito e atirar-vos um “Eu disse! Disse ou não disse?”

Não há uma conversa sobre séries em que não saia uma mão cheia de “Tens de ver!”. E juro que adorava acatar todas as recomendações, mas o dia tem 24 horas e eu já durmo pouco, para ver tanta série que “está épica” tinha de fazer sacrifícios para os quais não tenho força interior. Tinha de cortar com tudo é o que é junk food audiovisual, que tanto alento me dá (à data, estou a acompanhar três realities). Não podia rever filmes que preciso de rever periodicamente por motivos: Música no Coração, um Almodóvar aleatório, Os Dez Mandamentos, o Tarantino que estiver a dar no Hollywood, Good Fellas, um Stanley Kubrick qualquer, Balbúrdia no Oeste… E vai-se a ver e também tenho de trabalhar, porque ainda não li o Pai Rico, Pai Pobre.

[o trailer da terceira temporada de “The White Lotus”:]

Mas a verdade é que já vi muita coisa graças ao “Tens de ver!”. E quando me falaram do White Lotus, em 2021, o caso foi defendido com tal afinco, e tantas vezes me referiram a excelência do guião (o que para mim é um golpe baixo, mas extremamente eficaz), que fui ver. E depois vi outra vez. E ainda revi uns quantos episódios uma terceira vez com a minha filha. Não sei se a primeira temporada do White Lotus roça a perfeição ou se chegou mesmo a vias de facto com ela, mas inclino-me para a segunda hipótese. Quando vejo uma coisa tão bem escrita, passo por uma montanha russa emocional com três fases:

  1. Fico assoberbada, obcecada e apetece-me correr pelas montanhas a cantar “The Hills are alive with the sound of Music”, tal é o meu entusiasmo.
  2. Entro num fossa semelhante ao “never drinking again state of mind” e sinto que não vale a pena escrever mais um advérbio que seja, porque nunca chegarei sequer perto da genialidade do que acabei de assistir.
  3. Inflijo-me duas chapadas mentais e faço-me à vida, que as páginas não se enchem sozinhas.

Adiante. A segunda temporada não me provocou o mesmo, devo confessar. Não houve euforia, mas deixou-me alegre, com aquele tirinho na asa de meia garrafa de tinto alentejano robusto. Continuou a ser uma grande série, claro, teve momentos icónicos que estamparam T-shirts (“These Gays, They’re Trying to Murder Me!”) e não beliscou nem um pouco a vontade de ver a terceira temporada que agora chega à Max. Tanto assim é que, quando me propuseram ver os primeiros 6 episódios em ante-estreia, me pus a cantar a música do genérico e a dançar pela sala de forma extremamente ridícula.

Em "The White Lotus" há sempre gente a fugir de alguma coisa e outros tanto a a correr desesperadamente atrás de algo ou alguém. Estas personagens são, na sua larga maioria, bastante distorcidas, amorais ou simplesmente chanfras. Se isto é a vossa praia, como é a minha, na terceira temporada têm à disposição um resort cheio.

Depois de uma estadia no Havai e uma passagem pela Sicília, a terceira temporada aterra na Tailândia, país que nunca visitei, mas ouvi dizer que é bom para uma pessoa se encontrar, comer Pad Thai e ver senhoras a projectar bolas de ténis de mesa com a vagina. Pessoalmente, gosto muito de Pad Thai. Este White Lotus tailandês, mais do que um hotel, é um wellness center, onde os hóspedes têm à disposição mentores de saúde, massagens de todo o género e tapetes de yoga por toda a parte. Um staff muito zen, disponível para servir um bando de pessoas à beira de um ataque de nervos.

Mike White, o criador da série, parte de uma premissa que vale ouro: juntar debaixo do mesmo teto um grupo improvável de pessoas, fruto de uma circunstância singular: estarem hospedados no mesmo hotel ou fazerem parte do staff do mesmo. Em The White Lotus há sempre gente a fugir de alguma coisa e outros tanto a a correr desesperadamente atrás de algo ou alguém. Estas personagens são, na sua larga maioria, bastante distorcidas, amorais ou simplesmente chanfras. Se isto é a vossa praia, como é a minha, na terceira temporada têm à disposição um resort cheio. E porque é muito difícil falar sobre The White Lotus sem fazer spoiler, é nisso que me vou focar: no buffet de gente perturbada que temos à disposição nestes novos episódios. Como no passado, podem contar com esta espécie de cluedo reverso: é-nos dito que alguém morreu e dá-se um flashback para descobrimos não só quem matou, mas fundamentalmente quem quinou. E quem são os candidatos a presunto trasladado desta feita? Há para todos os bons gostos e maus paladares.

▲ O guião é o tanque de guerra que leva o resto da tropa atrás em direção àquilo que me parece ser uma temporada vitoriosa

Para começar, temos a família Rattliff “from Austin, Texas”. Os progenitores: a mãe Victoria (pela mui talentosa Parker Posey) que não sabemos se é alienada, porque está sempre drunfada, ou vice-versa; o pai Timothy (Jason Isaacs aka Lucius Malfoy, sim é daí que o estão a reconhecer) um homem da alta finança, grato à industria farmacêutica por dopar a mulher. É certo que nasceu com dinheiro, mas tem terror de o perder e do que os outros vão dizer se isso acontecer.

A prole: Saxon (Patrick Schwarzenegger. E sim, é filho de quem estão a pensar) é o mais velho e o mais repulsivo, um auto-proclamado macho alfa que trabalha para o papá, gosta de cortejar mulheres enquanto mastiga pastilha elástica, fazendo lembrar Tom Cruise no Top Gun, embora tenha mais altura e menos cientologia; Piper (Sarah Catherine Hook) é a irmã do meio e o motor desta viagem de família (porque alegadamente quer entrevistar um monge para a sua tese), está a fazer um caminho para o budismo, o que não ajuda a refrear a dose de auto-medicação da mãe; e por fim, o mais novo, Lochlan (Sam Nivola que entrou em O Casal Perfeito, podem ler sobre aqui) que está dividido entre a admiração pelo irmão, um exemplar deluxe de douchebag e a ligação com a irmã, com uma natureza sensível e mais semelhante à dele. Uma família deliciosamente disfuncional, como se quer.

[No podcast “Pequenas Reivindicações de Liberdade“, a paciência da pessoa convidada é sempre posta à prova e nada a impede de abandonar o estúdio — mas o que está dito, está dito. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Temos depois um belo casal composto Rick (Walton Goggins que exibiu a cara de mau em Django Unchainded e Heightul Eight, entre outros), um mal encarado, de mal com a vida e com o mundo, de manhã à noite, e Chelsea (Aimee Lou Wood, a Aimee de Sex Education) uma professora de yoga de Manchester, personagem que me encantou de sobremaneira. Ela acredita que é a alma gémea dele, ele nem alma tem.

A realização é um mimo, a montagem e a fotografia idem idem aspas aspas. A forma como a música vai pontuando e sublinhando a tensão é de génio e o elenco está impecável, como nas temporadas anteriores: parece uma miscelânea descabida, mas resulta na perfeição.

Para fechar este onze dinâmico, temos um trio de amigas de infância liderado por Jaclyn (a deslumbrante Michelle Monaghan da pérola Kiss Kiss Bang Bang) que é atriz, famosa, pagou tudo e cuja atenção é disputada pelas outras duas: Kate (Leslie Bibb, Christine para os fãs de Iron Man), a mulher de família, e Laurie, a divorciada (Carrie Coon, a irmã de Ben Affleck em Gone Girl). A dinâmica destas três tem tanto de tóxico, como de divertido de assistir. E vá, relacionável, toda a gente conhece relações destas e se diz que não conhece, é porque está lá no meio. Há ainda um casal que não está hospedado no The White Lotus, mas anda por lá, porque mora numa mansão nas imediações, sobre o qual não vou dizer nada, porque prometi que não fazia spoilers e vou cumprir. Mas estou mortinha por dizer. Mas vou cumprir.

Quanto ao staff, deixem-me dizer antes de mais nada: que tailandeses lindos de morrer. Pronto, disse. Sritala (Lek Patravadi) é a dona do resort, ex-atriz, cantora, diva de cima a baixo. Fabian (Christian Friedel) é o diretor-geral e o capacho pessoal da patroa e está sempre com ar de quem vai ter uma quebra de tensão. Mook (Lalisa Manoban, que faz parte das Blackpink, uma girl band sul-coreana, que desconhecia em absoluto até hoje, porque sou velha) é uma boneca de porcelana que trabalha no hotel e encantou o segurança Gaitok (Tayme Thapthimthong), que tem tanto ar de boa pessoa, como de íman de azares. Belinda é a repetente, a massagista que foi descartada por Tanya na primeira temporada, vem transferida do The White Lotus do Havai para aqui, para lamber as feridas, e tem como formador Pornchai (Dom Hetrakul). Ele é a serenidade em pessoa, se fosse um objeto seria uma daquelas caixinhas de areia com seixos e uma ancinho para fazer desenhos, sabem? Rapidamente, percebemos que Belinda não se importava de dar uma lambidela em Pornchai.

▲ Este resort é uma panela de pressão com defeito que mais cedo ou mais tarde vai rebentar e deixar manchas no bonito soalho que não saem por muito que se esfregue

Fechamos com dois mentores de saúde: Pam, que embora tenha o mesmo propósito de Pornchai, é tão zen que apetece bater-lhe; e Valentin, um russo lindo de morrer a quem a mim não me apetece nada, porque sou uma mulher casada e séria e o meu marido lê isto.

Posto isto, a realização é um mimo, a montagem e a fotografia idem idem aspas aspas. A forma como a música vai pontuando e sublinhando a tensão é de génio e o elenco está impecável. E por falar em elenco, devo dizer que gosto muito destes castings que, em qualquer uma das temporadas, parecem ser uma miscelânea descabida, mas que resultam tão bem: atores de género a fazer papéis de outro género, profissionais em alta, em média ou em “Quem?”. Há de tudo como no Grandela (jovens, é ir ao Google). Não posso deixar de falar dos cenários que são lindos e das paisagens que são de cortar a respiração, tudo é um colírio para a vista.

“The White Lotus”: “Esta é uma série sobre a banalidade neste mundo. Mas uma banalidade muito rica”

Estéticas à parte, o guião é o tanque de guerra que leva o resto da tropa atrás em direção àquilo que me parece ser uma temporada vitoriosa. Veio-me à cabeça o temo alemão “schadenfreude” que é, basicamente, a alegria com a desgraça alheia. Este resort é uma panela de pressão com defeito que, não tenho dúvida, mais cedo ou mais tarde vai rebentar e deixar manchas no bonito soalho que não saem por muito que se esfregue. E eu vou gostar de ver. Agora que penso nisso, se calhar não são só as personagens que são perturbadas… É levar para a terapia.

Concluindo, a dado momento uma das personagens levanta a seguinte teoria: “Será que esta vida é só um teste? Para nos tornarmos melhores pessoas?” Faltam-me dois episódios para terminar a temporada. Se esta teoria estiver certa, cheira-me que esta turma vai chumbar e não é por pouco. Por isso… tens de ver!

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