O Bloco de Esquerda que chega este fim de semana à XI Convenção não é o mesmo que em anos anteriores se reunia no pavilhão do Casal Vistoso. O mais parecido que há é o Bloco de Esquerda de 2016, que já tinha dado o passo de apoiar uma solução governativa do PS. Mas mesmo em relação a esse BE, há diferenças: se no início da “geringonça” o partido ainda tinha dúvidas internas sobre as eventuais repercussões de um apoio, ainda que parlamentar, ao PS, agora está seguro do passo que deu e até quer deitar por terra o tabu da governação, admitindo mesmo poder vir a integrar um governo de coligação – desde que com um grande resultado com valores que, até agora, nunca conseguiu atingir.

Sem desafiadores à liderança (ao contrário do que aconteceu em 2014, quando Pedro Filipe Soares desafiou Catarina Martins), e com os críticos da “geringonça” acantonados em duas moções políticas de expressão muito residual, o Bloco de Esquerda prepara-se este fim de semana para uma Convenção que antecede importantes provas eleitorais. Com alguns nomes do passado e vários rostos do futuro, eis um guia para perceber quem é quem num partido que começou por ser um aglomerado de várias sensibilidades dentro da esquerda, e que já teve muitos altos e baixos desde que conquistou os seus primeiros lugares no parlamento, em 1999.

Catarina Martins, a líder incontestada

É a convenção mais tranquila para a líder do Bloco de Esquerda desde que dirige o partido. Depois de, em 2012, ter assumido a liderança bicéfala ao lado de João Semedo e de em 2014, depois de um conclave que terminou com empate entre as correntes internas do BE, ter saído eleita como porta-voz de uma direção de seis pessoas, chegou a 2016 para assumir a Coordenação Nacional do partido. Então o Bloco ainda estava a tentar perceber os benefícios, riscos e prejuízos de ter aceitado fazer parte da “geringonça”. Venceu a convenção por larga maioria, recebendo um voto de confiança dos aderentes.

Assim, esta é a convenção em que entrará e sairá com a liderança do partido nas mãos e sem sobressaltos. O facto de o partido ter pacificado internamente confere-lhe uma maior margem de atuação. E Catarina Martins vai aproveitar para dar um passo em frente e colocar o Bloco de Esquerda com um discurso de partido de poder, não negando a possibilidade de vir a integrar um Governo. A experiência desta legislatura correu bem para o partido reforçando a legitimidade para desbravar novos caminhos.

Mas falta saber se o Bloco conseguiu capitalizar eleitoralmente esta experiência. Para isso, os meses na estrada que se seguem, com eleições europeias, regionais na Madeira e legislativas, vão ser um teste ao partido e a Catarina. Não tem origem política em nenhuma das três correntes fundadoras do Bloco de Esquerda (até porque ingressou já tardiamente no partido), e ideologicamente é mais próxima de Francisco Louçã. Atualmente é uma líder consensual e incontestada. Quer continuar a segurar as rédeas nos próximos dois anos. E depois? “Depois, logo dirá”.

Pedro Filipe Soares, o desafiador aliado


É o líder parlamentar desde 2012 e não se adivinha que vá ser (muito) mais do que isso nos próximos anos. 2014 não foi assim há tanto tempo e nessa altura Pedro Filipe Soares era o adversário da dupla Catarina Martins/João Semedo na convenção que — pela primeira vez na história das convenções — acabou empatada. Longe vão esses tempos, em que o Bloco de Esquerda oscilava entre lideranças bicéfalas e lideranças a seis, mas as raízes mantêm-se. E as raízes do Bloco são muitas, sendo uma junção de correntes políticas nos anos 90: a União Democrática Popular (UDP), de cariz marxista, e o Partido Socialista Revolucionário (PSR), de inspiração trostkista, juntando-se também o movimento Política XXI (ou Fórum Manifesto), o mais social-democrata dos três, que admitia na sua génese aproximações ao PS em regime de alianças governativas.

Isto para dizer que, enquanto Catarina Martins se insere ideologicamente na corrente do Socialismo, que provém do PSR (de Francisco Louçã), Pedro Filipe Soares tem o seu pensamento assente na UDP (de Luís Fazenda, a quem, de resto, sucedeu na liderança da bancada do BE). Acresce que a UDP sempre foi a corrente mais adversa a uma política de alianças com o PS. Tanto que, em 2014, naquela que foi a convenção mais disputada do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares apresentou-se com uma moção alternativa à de Catarina/Semedo onde se propunha como coordenador único do partido. Em causa na altura estava, sobretudo, a crítica que fazia aos então coordenadores por terem “batido à porta do PS” durante a crise política de 2013. A sua moção perdeu para a de Catarina Martins por 8 votos apenas, enquanto as duas listas empataram na votação para os órgãos de direção.

Depois da fricção, contudo, o Bloco de Esquerda entrou num clima de paz em torno da coordenadora porta-voz Catarina Martins — que dura até hoje, não havendo sinais de discórdia entre Pedro Filipe Soares e Catarina Martins, que se articulam diariamente no Parlamento. No debate orçamental, e sobretudo no plano das negociações do Orçamento do Estado, o líder parlamentar assume um lugar de destaque liderando a equipa do Bloco de Esquerda no Parlamento.

Mariana Mortágua, a ministra sem governo

Há dois anos, Francisco Louçã deu uma entrevista ao Expresso onde vaticinou: “Mariana Mortágua há de ser ministra das Finanças”. À direita, já houve quem dissesse (em tom crítico) que “é ela quem manda no Governo” — como Jorge Moreira da Silva, em 2016, então vice-presidente do PSD. E até já deu nome a um imposto (o adicional do IMI passou a Imposto Mortágua), por ter sido ela a anunciá-lo, antes mesmo do Governo o fazer. Mariana Mortágua foi lançada por Francisco Louçã e foi precisamente depois da saída dele do Parlamento, em 2012, que o Bloco de Esquerda sentiu necessidade de ter ali uma nova voz forte em temas económicos. Em 2013, depois da sair Ana Drago (que um ano depois rompeu com o partido), o Bloco tratou de tudo para conseguir ter Mariana na bancada parlamentar. As nove pessoas que estavam entre ela e Ana Drago na lista pelo círculo de Lisboa renunciaram ao mandato, permitindo a entrada de Mortágua no Parlamento.

Nessa altura, o Bloco assumiu mesmo que o tinha feito por considerar que Mortágua era a pessoa que “melhor serviria os interesses do partido na Assembleia da República, em virtude dos seus conhecimentos na área da Economia” e que essa necessidade se vinha “a fazer sentir desde a saída de Francisco Louçã”. Teve uma rápida ascensão como uma das vozes fortes e a mais autorizada da bancada em matérias orçamentais. Tudo com a benção do fundador Louçã, que já assinou com ela dois livros: “Isto é um assalto”, uma banda desenhada sobre a história da dívida e a vinda da troika, e “A Dívidadura”, sobre a crise das dívidas soberanas. Mariana é licenciada em Economia pelo ISCTE e estava em Londres a fazer o doutoramento em economia na School of Oriental and African Studies quando veio para Lisboa ser deputada, aos 27 anos.

Com a negociação dos orçamentos do Estado como nervo central da atual solução governativa, a voz mais autorizada no grupo parlamentar do BE nessas matérias ganhou ainda mais volume. O protagonismo foi algumas vezes mal recebido dentro do PS. Por exemplo, em 2016, Fernando Medina criticou-a por se ter antecipado ao Governo no anúncio do adicional do IMI e nesse mesmo ano irritou alguns socialistas quando foi a uma conferência do PS aconselhar:  “Temos de perder a vergonha e ir buscar a quem está a acumular dinheiro”. Um discurso mais radical que até foi aplaudido pela sala, mas que fez Sérgio Sousa Pinto colocá-la entre os  “jovens burgueses cripto-comunistas e habilidosos pantomimeiros da velha escola”.

À polémica que tantas vezes provoca, pelo discurso mais radical, alia-se uma certa irreverência — está muitas vezes no Parlamento de ténis. Tudo isto se mistura numa das vozes políticas do Bloco que mais interessa ouvir neste congresso onde é expectável que ponha acento naquela parte do discurso bloquista que permite a descolagem do PS: a crítica ao respeito pelas regras europeias que tem, segundo argumenta o partido, limitado o investimento. É difícil que venha a cumprir o desígnio de Louçã de acabar no Terreiro do Paço a gerir as Finanças. Fora do Ministério, vai sendo uma das pessoas que mais ataca Centeno — que já classificou de “força de bloqueio” — ainda que com ele se sente à mesa anualmente para viabilizar orçamentos.

Joana Mortágua, a gémea marxista-leninista

É irmã gémea de Mariana, mas tem um percurso político e uma raiz de pensamento político diferente. Enquanto a irmã sempre esteve associada à linha de Louçã, Joana é fiel ao marxismo-leninismo da UDP (ala de Luís Fazenda e Pedro Filipe Soares). Joana Mortágua era, inclusive, até há pouco tempo a presidente da Associação UDP (entre 2010 e 2015). Em 2010, a propósito do 36º aniversário da UDP, explicaria, num discurso chamado Desenvolver o Marxismo, o papel da UDP no seio do Bloco de Esquerda: “O nosso partido é o Bloco de Esquerda. A única razão da UDP é o Marxismo. (…) Tirem-lhe a Comuna e a formação ideológica e a UDP terá desaparecido”. Ou seja, a UDP passou a ser uma corrente de pensamento apenas assente no jornal ideológico, a Comuna.

No BE desde os 18 anos, chegaria mais tarde do que a irmã ao Parlamento: foi eleita nas últimas legislativas, em 2015, enquanto Mariana tinha sido escolhida para substituir Ana Drago dois anos antes. Já tinha sido cabeça de lista por Évora (em 2013), mas não foi eleita. Atualmente, Joana faz parte da geração na casa dos 30 a quem foram atribuídas algumas das pastas mais importantes no Parlamento, no caso, a Educação. Tem ganho cada vez mais protagonismo no seio do Bloco, tendo até encabeçado uma candidatura autárquica em 2017, acabando eleita vereadora em Almada.

Curiosa foi a sua postura pós-eleitoral naquela câmara, que os socialistas roubaram ao PCP, embora sem maioria: Joana Mortágua recusou coligar-se com o PS, tendo os socialistas acabado por se juntar ao PSD, num bloco central em contra-ciclo com a “geringonça” nacional. Esta sexta-feira, numa entrevista ao Público, Joana Mortágua explica que o tabu do Bloco de Esquerda não participar em governos já caiu: “O BE está pronto para governar — e isso é o fim de um tabu —, se essa governação se fizer com um programa de governo de esquerda, de transformação económica do país, de recuperação social a níveis que este acordo não permitiu fazer, um programa que tem como condição o enfrentamento com as obrigações orçamentais de Bruxelas, porque, caso contrário, não existe”, disse.

Marisa Matias, a expatriada

Não será propriamente a surpresa do ano, mas a confirmação de que Marisa Matias voltará a ser a cabeça de lista do Bloco às Europeias é umas das notícias esperadas nesta Convenção. As pistas estão todas aí. Marisa Matias está disponível para isso, (como admitiu ao Observador este verão), até porque, diz, “há mais muros para derrubar” numa Europa onde o espaço vazio “tem vindo a ser ocupado por uma narrativa muito racista, muito xenófoba, muito nacionalista.”

Catarina Martins só revelou ao Observador que a decisão do anúncio seria tomada na última reunião de preparativos, mas na mais recente entrevista que deu, à agência Lusa, elogiou o “trabalho extraordinário” da eurodeputada do Bloco, sublinhando que “é reconhecido não só em Portugal, mas em toda a Europa e mesmo do ponto de vista internacional”.
Ou seja, a eurodeputada do bloco só não sairá como uma das protagonistas desta Convenção, se a direção do partido tiver mudado de ideias à última hora.

Socióloga e Investigadora da Universidade de Coimbra, tem estado na primeira linha do partido há vários anos. Na rentrée do Bloco, o Fórum Socialismo, deixou uma das críticas mais sonantes ao ministro das Finanças, em reação às palavras do presidente do Eurogrupo sobre fim do terceiro programa de resgate à Grécia: “As recentes declarações de Mário Centeno são uma triste imagem”, disse, “o seu programa nunca foi outro a não ser o da austeridade”. E depois concluiu: “Não foi Centeno que entrou no Eurogrupo, foi o Eurogrupo que entrou em Centeno”.

É membro da Mesa Nacional e da Comissão Política do BE, mas desde 2009 tem morada em Bruxelas. É presidente Delegação para as Relações com os Países do Maxereque (Egito, Jordânia, Síria e Líbano), é membro da Comissão de Assuntos Económicos e este ano entrou também para a Comissão que investiga os LuxLeaks e os Documemtos do Panamá.
Em 2016 foi a candidata do partido a Presidente da República e conseguiu 10,1% dos votos, tendo-se tornado a mulher mais votada de sempre em eleições presidenciais.

José Manuel Pureza, o católico

Militante do Bloco de Esquerda desde a sua origem, é um dos rostos incontornáveis no seio do partido. Foi líder parlamentar antes de Pedro Filipe Soares. No parlamento tem a área dos Direitos, Liberdades e Garantias, considerada um dos dossiês mais pesados. Este ano teve grande protagonismo como um dos rostos pelo sim no debate sobre a legalização da morte assistida. Saiu derrotado, mas este é um dos temas que o Bloco de Esquerda deverá querer trazer novamente a discussão na próxima legislatura.

Ainda no Parlamento, José Manuel Pureza foi o nome indicado pelo partido quando, na atual legislatura, o Bloco de Esquerda ficou com uma das vice-presidências da Assembleia da República (por ser a terceira força política com maior representação parlamentar). É por isso que, no seio dos bloquistas, é carinhosamente tratado por “a nona”, uma referência ao lugar que ocupa no protocolo de Estado (é a 9ª  figura de Estado, por ser vice-presidente da AR).

Eleito deputado à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Coimbra, de 2009 a 2011, acabaria por não ser eleito em 2011 quando o BE reduziu a sua bancada para metade. Voltaria ao Parlamento na atual legislatura, em 2015. Nas suas origens políticas, Pureza traz ainda a participação na campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintassilgo tendo também feito parte da Comissão Nacional de Justiça e Paz. Nas eleições presidenciais de 2006 foi mandatário nacional da candidatura de Francisco Louçã.

Uma particularidade: é católico, o que é invulgar naquele meio político.

Ricardo Robles, Xeca-mate

O grande ausente desta Convenção é o bloquista que estava em ascensão e que em julho passado se demitiu de todos os cargos políticos que ocupava. Ricardo Robles deu nome à maior crise pública que o BE já enfrentou desde a sua existência, depois de ter sido descoberto o negócio imobiliário que estava prestes a fazer e que poderia ter significado uma mais-valia superior a 4 milhões de euros em quatro anos de um prédio que se destinaria a alojamento local. Tudo errado para os cânones bloquistas.

O facto de ser um dos maiores críticos da especulação imobiliária em Lisboa — Câmara onde era vereador — fez com que o caso acabasse na demissão de Robles, com o Bloco a acabar por isolar aquele caso nessa mesma demissão. Uma espécie de barreira higiénica à volta da origem da crise que, inicialmente, Catarina Martins chegou a tentar desdramatizar. A onda de críticas levou à demissão, com Robles a admitir “um problema político real” que tinha criado “um enorme constrangimento” à sua “intervenção como vereador” na Câmara onde tinha um acordo com o socialista Fernando Medina.

Em poucos anos, Robles passou de deputado municipal a vereador com um acordo para que o PS tivesse maioria na Câmara. Era também o coordenador da concelhia de Lisboa do BE. Estava a ganhar relevo político no partido onde entrou logo na altura da fundação. Mas Xeca, como é chamado pelos amigos, acabou antes por ser o causador de uma ferida de difícil cicatrização, apesar de todos os esforços que o partido fez para não a deixar infetar. Foi um xeque-mate, não caiu o rei, mas o príncipe Xeca.

Certo é que até o PS já veio aproveitar a ferida para desestabilizar o seu parceiro. Na negociação do Orçamento para o próximo ano, o BE garante que estava a negociar — e que até teve indicações positivas sobre a proposta — uma medida para combater a especulação imobiliária. Mas o PS deitou tudo por terra, com António Costa a dizer que “foi feita à pressa” — frase entendida como uma indireta ao BE que estaria a avançar com a proposta numa tentativa de fazer assentar o pó sobre o caso Robles. Aliás, o mesmo Costa fez questão de beliscar o Bloco numa entrevista onde se assumiu “surpreendido” com o caso, porque não esperava este tipo de “pecadilhos” de quem “prega com tanta virulência a moral política”. Os bloquistas ficaram furiosos com a tirada, mas sabem que esse é um ponto fraco à espreita. É a nuvem que vai continuar a pairar sobre o BE que, mesmo assim, vai insistir na proposta de alteração ao Orçamento.

Manuel Grilo: depois do mau aluno, o professor

Até este verão, poucos teriam ouvido falar de Manuel Grilo. E o próprio vereador da CML dificilmente conseguiria imaginar uma entrada tão mediática na autarquia da capital. Tudo porque ocupou o lugar que Ricardo Robles deixou vago quando se demitiu, na sequência da polémica em torno do seu imóvel em Alfama.

O caso marcou a atualidade política durante dias a fio e terminou com a entrada em cena de Manuel Grilo, professor de 59 anos, pertencente ao Conselho Nacional de Educação. Deixou de dar aulas em 2016, quando passou a desempenhar funções de assessor do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda na área da Educação. Foi durante vários anos dirigente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, membro do secretariado nacional da Fenprof e do Conselho Nacional da CGTP.

Tendo sempre tido uma preocupação pelo ativismo, aproximou-se do Bloco de Esquerda e integrou as listas do partido para Lisboa nas eleições autárquicas de 2017. Era o terceiro da lista. Aceitou a vereação depois de a número dois, Rita Silva, ativista pelos direitos a habitação e forte opositora da especulação imobiliária, ter recusado. Membro da direção do movimento Habita, renunciou ao mandato devido às “responsabilidades dirigentes” no movimento, que considerava “incompatíveis” com o cargo de vereadora. Foi a explicação pública, embora fossem conhecidas as divergências com a governação de Medina, o que tornaria inviável a manutenção do acordo. A batata quente passou para Manuel Grilo, que aceitou substituir Ricardo Robles. Ficará sempre associado ao caso.

Francisco Louçã, o ideólogo

Foi um dos quatro fundadores do Bloco de Esquerda (a par com Miguel Portas, Luís Fazenda e Fernando Rosas) e o seu primeiro líder. Com Luís Fazenda ocupou os dois primeiros lugares de deputado que o partido conseguiu, nas eleições de 1999. Viu o Bloco crescer até aos 16 deputados (2009), embora em 2011 descesse para metade. O partido não tinha aceitado estar nas reuniões com a troika e isso saiu-lhe caro. Louçã já admitiu que o BE errou e devia ter participado. No ano seguinte, saiu do Parlamento e, depois disso, de todos os cargos dirigentes do partido que ajudou a fundar. Mas a sua influência está sempre presente.

Por exemplo, no dia antes das legislativas de 2015 falou com António Costa ao telefone, num contacto que serviu a ambos para medirem o que se passaria se a direita vencesse mesmo as eleições — como indicavam as sondagens. O próprio já chegou a contar publicamente que foi ele quem passou o contacto da líder Catarina Martins a Costa, para conversarem sobre a possibilidade de um entendimento à esquerda. E é também a ele que é atribuída a ideia do desafio ao socialista, lançado por Catarina Martins no debate da TVI24, colocando três condições para conversar com Costa depois das eleições.

Tem sido uma espécie de ideólogo do BE — termo de que não gosta muito — que continua a ter uma palavra a dizer no planeamento da estratégia política, aconselhando a liderança do partido, mas também na arena pública. É comentador da SIC-Notícias e todas as sextas-feiras faz a sua análise da semana e, por vezes, até levanta umas pontas sobre as medidas do Governo. Nas negociações para o Orçamento do próximo ano, foi Louçã quem veio explicar os cenários possíveis, equacionados pelo Governo, para o aumento dos funcionários públicos, precisamente nesse espaço semanal. Também foi ele quem, numa entrevista, colocou uma fasquia para a participação do BE num Governo: “Um Governo que reestruture a dívida e proteja Portugal da próxima recessão financeira só acontecerá no dia em que o BE tenha 20% ou 25% dos votos. Quando puder ser parte integrante de um Governo”. Continua ativo, mas o único lugar político oficial que mantém é o de Conselheiro de Estado. Foi a primeira vez que o Bloco pôde indicar um nome para este orgão de consulta do Presidente da República, e o partido escolheu, claro, Louçã.

Luís Fazenda, o guardião do tempo

É o outro fundador do Bloco que ainda conta na gestão diária política do partido. Luís Fazenda é o único dos quatro fundadores que se mantém num órgão de direção do partido, na Comissão Política do BE. Ele e Louçã foram os dois primeiros deputados eleitos pelo Bloco de Esquerda, vinham de lados diferentes da esquerda: Francisco Louçã, do PSR e do trotskismo, e Fazenda, da UDP e do marxismo.

Luís Fazenda desfiliou-se da UDP — que liderou entre 95 e 2001 — em 2002, quando já tinha sido eleito deputado pelo Bloco, partido a que aderiu e do qual foi sendo sempre dirigente. Tem funcionado como a voz da consciência bloquista e lidera a corrente Esquerda Alternativa, no partido, que foi a ala dentro do BE que mais questionou a formação da “geringonça”. Ou pelo menos, contra a entrega do poder a Costa de mão beijada, colocando nas suas mãos a responsabilidade de resolver a situação de impasse político no pós-legislativas de 2015.

No ano anterior a esta solução governativa, Fazenda tinha ido à Convenção reclamar um regresso às origens: “Urge regressar às origens e recuperar a identidade do Bloco num novo contexto político”, escrevia no documento da sua corrente. “O partido deve direcionar-se ao socialismo” e não ao Partido Socialista que, neste texto, era colocado à margem do futuro do BE. “A promessa inicial do Bloco foi a de nada esperar do PS e não ficar à espera do PCP. Essa é a identidade que temos de recuperar”, constava no documento entregue pela corrente Esquerda Alternativa que dizia mesmo que “não obstante o apoio popular ao PS de setores da esquerda com quem devemos dialogar, é errado desejar que o Bloco possa embelezar um governo ‘à Hollande’ em Portugal”. Acabaram mesmo por fazer essa ponte.

A função de Fazenda tem sido quase a de guardião das fundações do partido e ainda recentemente, quando foi descoberto o negócio imobiliário de Ricardo Robles em Lisboa, foi ele o primeiro a vir dizer publicamente que o partido tinha de “tirar conclusões” da situação, por serem “circunstâncias que, no Bloco de Esquerda, nós condenamos e que levam à gentrificação”. Tudo isto numa altura em que Catarina Martins ainda defendia a manutenção do vereador do partido na Câmara de Lisboa. Robles saiu nesse mesmo dia.

Fernando Rosas, o fundador independente

É um dos quatro fundadores do partido. Em 1999, o Bloco de Esquerda nasce fruto da junção de três partidos políticos da esquerda – a União Democrática Popular, o Partido Socialista Revolucionário e a Política XXI, aos quais depois também se juntaram outros pequenos movimentos políticos e de cidadãos. Os fundadores eram quatro: Luís Fazenda (UDP), Francisco Louçã (PSR), Miguel Portas (PXXI) e Fernando Rosas (independente), que chegou a militar no PCP (antes do 25 de abril) e no MRPP.

Depois do 25 de abril dirigiu o jornal oficial do MRPP, Luta Popular, até 1979, mas acabaria por ser afastado daquele partido. A partir daí é várias vezes candidato independente a deputado nas listas do PSR, o tal partido de Louçã que viria a ser uma parte integrante do Bloco de Esquerda. Foi eleito deputado à Assembleia da República, em 1999 e 2005, pelo círculo de Setúbal, e em 2009, pelo círculo de Lisboa. Foi também candidato à Presidência da República em 2001, com o apoio do BE.

Historiador de formação e sempre muito ligado ao jornalismo, Fernando Rosas está hoje afastado da política ativa, mas mantém presença como comentador na TVI, tendo sido também colunista no Público. Nesta convenção, fica claro que o Bloco de Esquerda quer continuar a dar palco a um dos seus fundadores: Rosas é um dos oradores da sessão internacional que antecede os trabalhos da convenção dedicada ao tema “Bella Ciao: por uma Europa de solidariedade e liberdade”.

Jorge Costa, o especialista em energia

Militou desde cedo no PSR de Francisco Louçã e com ele foi para o Bloco de Esquerda. Jorge Costa é licenciado em Comunicação Social, pela Universidade Técnica de Lisboa, mas é na área da energia que se especializou no Parlamento.

É vice-presidente da bancada parlamentar do Bloco de Esquerda e é também membro da Mesa Nacional e da Comissão Política do partido. Esteve nas reuniões da negociação da “geringonça” e está desde então presente em todas as negociações parlamentares que fazem avançar esta solução governativa. Teve, por exemplo, assento garantido nas negociações de cada um dos quatro orçamentos do Estado negociados à esquerda.

A pasta que tem nas mãos, a da energia, é uma das que o partido considera mais importantes e foi também nestas matérias que surgiram momentos de tensão de relevo nos últimos anos, fosse pela criação da taxa para as empresas produtoras de energias renováveis — que avançou e recuou para agora voltar a ser tida em conta no Orçamento do Estado, precisamente por insistência do Bloco de Esquerda. O Bloco tinha tentado no ano anterior, mas à última hora António Costa travou a aprovação dessa taxa extraordinária, o que fez com que Mariana Mortágua tivesse vindo acusar Costa de não ter “honrado a palavra dada” e até mesmo de “deslealdade” com o BE, com quem teria acordado que a medida avançava. Mesmo com essa tensão registada no ano passado, o Bloco conseguiu que na proposta do Governo que está agora em discussão no Parlamento constasse a medida de estender a contribuição extraordinária sobre o sector energético aos produtores de energias renováveis (que recebem subsídios pelas tarifas da eletricidade).

Ainda no capítulo da Energia, foi Jorge Costa quem veio anunciar em abril passado a criação de uma comissão de inquérito sobre as decisões políticas de 2004 e 2007 a garantir “remunerações excessivas” à EDP. A comissão, que apanha governos do PSD/CDS e também do PS (e do seu ministro da Economia Manuel Pinho) está ainda a decorrer no Parlamento e o representante do Bloco nessa investigação parlamentar é precisamente Jorge Costa, proponente e relator, uma voz de peso na geração que se seguiu (e segue) no BE.

José Soeiro, o velho jovem conhecido

Tem apenas 34 anos mas entrou há 11 para o Parlamento. Chegou à Assembleia da República em 2007 para substituir a deputada Alda Macedo. Tinha então 23 anos. Apesar de ainda ser dos deputados mais jovens é já um rosto conhecido dos portugueses e uma das figuras importantes do partido. Quando aceitou o mandato de deputado era um acérrimo crítico dos políticos e da própria Assembleia da República. “No Teatro do Oprimido [onde era animador], a realidade é usada como forma de intervenção política. Aqui, no Parlamento, a política é usada como teatro”, afirmava então.

Licenciado em Sociologia, especializou-se na área do Trabalho e da Segurança, onde há anos luta pelo fim da precariedade. Nesta legislatura foi um dos principais responsáveis por discutir com o Governo a criação do PREVPAP – o programa do Governo para regularizar a situação dos trabalhadores precários da Administração Pública. Desde cedo que se empenhou também na defesa da comunidade LGBTI, uma das causas pelas quais mais lutou desde que entrou para o Parlamento.

É tido como um dos quadros mais válidos do partido. Foi o primeiro membro do Bloco a abrir caminho para a renovação geracional que o partido tem levado a cabo nos últimos anos. Ironicamente, chega a esta convenção já como um velho conhecido.

Moisés Ferreira, o senhor doutor

É o rosto do Bloco de Esquerda para a saúde. Entrou para o Parlamento apenas em 2015 mas foi ganhando destaque de forma paulatina. Uma das causas pelas quais mais se bateu foi a legalização da canábis para fins medicinais. Um caso que o levou para diferentes palcos e que o colocou debaixo dos holofotes.

Recentemente ficou responsável por coordenar a proposta dos bloquistas para a criação da nova Lei de Bases da Saúde. Tem utilizado esse terreno para se afirmar como um crítico da postura do PS na área da Saúde. Na rentrée do partido, que decorreu no início de setembro em Leiria, deixou uma provocação ao partido de António Costa: “A proposta do BE é aquela que os socialistas querem para o Serviço Nacional de Saúde. Resta saber se é a proposta que o PS quer”.

A líder, Catarina Martins olha para Moisés Ferreira como um dos exemplos de sucesso da estratégia de formação de quadros do Bloco de Esquerda.

Artigo corrigido nos textos referentes a José Manuel Pureza e a Joana Mortágua