Há mais de uma semana que os iranianos não conseguem aceder à internet. Desde 8 de janeiro, o Irão está praticamente num apagão informativo. O regime iraniano pretende não só desmobilizar os protestos espalhados por todo o país, como também impedir que a comunidade internacional tenha conhecimento da repressão estatal usada contra os manifestantes. E o blackout não deve terminar tão cedo: segundo informações avançadas esta sexta-feira pela porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajerani, a situação pode durar até meados de março.
A estratégia não é propriamente nova. No passado, o regime iraniano já fez o mesmo quando outras vagas de protestos irromperam. O que é inédito é a pressão a que o país está sujeito: pela primeira vez, os Estados Unidos ponderam bombardear o Irão para apoiar os manifestantes, isto se a República Islâmica continuar a matar indiscriminadamente civis ou a prendê-los para depois os executar. Donald Trump teria estado prestes a ordenar um ataque esta quarta-feira — dia em que o espaço aéreo iraniano esteve encerrado durante cinco horas —, mas terá sido convencido do contrário por aliados norte-americanos no Golfo Pérsico e por Israel.
Nesta lógica, o regime estará a esconder do resto do mundo o que se passa dentro do país, não desejando que os EUA tenham total conhecimento da repressão. Para tentar apoiar os manifestantes, com o apoio da Casa Branca, Elon Musk forneceu gratuitamente o serviço Starlink dentro do Irão, o que ajudou a quebrar o isolamento total. Mesmo assim, o serviço não chega a toda a gente e o governo iraniano também estará a tentar bloqueá-lo, ainda que os iranianos tenham planeado várias estratégias para contornar o blackout.
▲ Um dos kits dos Starlink
CLEMENS BILAN/EPA
O Departamento de Estado já avisou as autoridades iranianas: apesar do apagão informativo que “já dura mais de 190 horas” e que “isola o povo iraniano do mundo” e “oculta a brutal repressão” do regime, o “mundo está a ver”. Os Estados Unidos estão bastante atentos ao que se passa dentro do Irão, como, aliás, reconheceu na quinta-feira a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt. Todas as opções estão ainda “em cima da mesa” — e uma ação militar não está de todo afastada.
قطع کامل و سراسری اینترنت در ایران اکنون وارد هفته دوم خود شده است، بیش از ۱۹۰ ساعت که رژیم جمهوری اسلامی عمداً مردم ایران را از جهان جدا کرده و سرکوب وحشیانه خود را پنهان میکند. سانسور یک ملت نمیتواند صدای آنها برای آزادی را خاموش کند و اقدامات خشونتآمیز رژیم جمهوری اسلامی را… pic.twitter.com/ODiNYttfZ2
— USAbehFarsi (@USABehFarsi) January 16, 2026
Como o apagão pode ter ajudado a acalmar as manifestações
As autoridades iranianas já celebram. O chefe de polícia iraniana, Ahmadreza Radan, declarou, esta sexta-feira, que se cravou “o último prego no caixão do terrorismo”. A noite de quinta-feira foi marcada por “calma e segurança sem precedentes” com o regime a assegurar que praticamente já não há protestos nas ruas. Estas declarações não estão totalmente erradas, apesar dos exageros propagandísticos: existem sinais de que a afluência nas manifestações está a diminuir.
Também é bastante difícil perceber se há ou não protestos por conta da falta de informação. E isso também acaba por ser um trunfo para o regime iraniano: sem internet, os manifestantes perdem capacidade de mobilização. “Em termos gerais, a comunicação é impossível. Não é apenas a internet que está cortada, mas também [estiveram] as comunicações por telefone, seja por telemóvel ou por telefone fixo, dentro do país e também para o estrangeiro”, explicou Amir Rashidi, especialista iraniano em cibersegurança à RFI.
Nestas circunstâncias, é difícil saber quando e onde acontecem manifestações, tornando a coordenação e organização de protestos uma tarefa bastante complexa. Por exemplo, a 8 de janeiro, dia em que a internet foi cortada, o príncipe herdeiro, Reza Pahlavi, pediu aos iranianos para que saíssem às ruas. Através das redes sociais, o filho do último xá da Pérsia — exilado nos Estados Unidos desde final dos anos 70 — conseguiu que a sua mensagem fosse ouvida dentro do Irão.
É este tipo de iniciativas que o regime iraniano pretende evitar que se concretizem, especialmente oriundas de uma figura desprezada e ostracizada pela República Islâmica. Ao cortar o acesso à internet, os iranianos, alguns dos quais que sentem uma profunda nostalgia pelo tempo da monarquia e do xá, não conseguem ouvir os apelos de Reza Pahlavi.
A especialista da Amnistia Internacional, Rebecca White, esclareceu, num artigo publicado no site da Organização não Governamental, que os apagões informativos como este no Irão servem precisamente para “silenciar os dissidentes”: “Colocam as pessoas numa escuridão digital, bloqueando aqueles dentro do país de receber informações e partilhá-lo com o mundo exterior”.
▲ Reza Pahlavi, o príncipe herdeiro e filho do último xá da Pérsia, convocou manifestações através das redes sociais
AFP via Getty Images
Há também outro fator, refere Rebecca White. As autoridades tentam “esconder as violações graves de direitos humanos e crimes sob o direito internacional dos maiores protestos desde 2022”, acusa a especialista da Amnistia Internacional, reforçando: “Previne que as violações dos Direitos Humanos, incluindo os assassínios pelas forças de segurança, sejam documentados e perpetua a impunidade para esses crimes”.
O número de manifestantes e como os protestos estão a ser reprimidos no Irão são informações bastante difíceis de apurar através de fontes abertas. No entanto, vários países, incluindo os Estados Unidos, têm rede de espiões no país que conseguem recolher dados. Segundo Donald Trump, cerca de 800 execuções que estariam previstas acontecer esta semana não se concretizaram — e isso terá pesado na decisão de não atacar para já o território iraniano.
Ou seja, por muito que o regime iraniano tente isolar o país em termos informativos, parte da informação continua a sair através de redes clandestinas, satélites e serviços de informação estrangeiros. Israel, um dos principais aliados dos EUA, tem uma longa história de operações secretas dentro do Irão, atribuídas à Mossad, os serviços de informação israelitas.
▲ Protestos contra o regime a 9 de janeiro
Middle East Images/AFP via Getty
Pode o Starlink ajudar os manifestantes? Sim, mas regime está já a agir
Elon Musk providenciou acesso gratuito do Starlink, a rede de satélites da empresa aeroespacial SpaceX que fornece internet em praticamente todo o mundo, ao Irão. É preciso ter um dispositivo — um terminal de satélite — para se poder conectar. “É apenas ligar e conectar. Apenas é preciso colocá-lo em qualquer lugar que tenha acesso a vista limpa do céu”, descreveu à imprensa internacional Ahmad Ahmadian, diretor-executivo da organização Holistic Resilience que ajuda os iranianos a conectarem-se à internet.
Muitos iranianos não têm esse dispositivo, mas alguns grupos mais organizados da oposição sim, tendo em conta os apagões passados. E estava preparada para is usar. Através do Starlink, a oposição tem conseguido partilhar imagens para fora do Irão. As imagens de vários cadáveres nas redondezas de uma morgue no sul do Teerão, que chocaram o mundo, terão sido divulgadas ao mundo graças à rede de satélites de Elon Musk.
Citado pela ABC News, Mehdi Yahyanejad, líder da organização iraniana Net Freedom Pioneers, descreve que o Starlink foi “crucial” e que a associação que chefia tem conseguido que alguns dispositivos entrem clandestinamente dentro do Irão: “Mostraram algumas centenas de corpos no chão e isso foi divulgado por causa do Starlink. Acho que esses vídeos mudaram o entendimento do que está acontecer”.
Durante os protestos contra o regime, rua perto de morgue em Teerão enche-se de cadáveres
Estima-se que cerca de 50 mil terminais do Starlink estejam atualmente em território iraniano, se bem que o regime tenha proibido o uso desses equipamentos durante o ano passado e tente punir por lei a sua utilização. Ainda assim, estes dispositivos não eram propriamente um grande problema para o regime antes dos protestos — eram mais ou menos tolerados, tal como o uso de VPNs, que permite o acesso a sites internacionais que o regime iraniano censura.
Muitos iranianos tiveram acesso aos terminais através de redes clandestinas que passam por países como os Emirados Árabes Unidos, o Iraque, a Arménia e o Afeganistão. Em declarações ao New York Times, Ahmad Ahmadian afirmou que custa pelo menos 700 dólares (aproximadamente 603 euros) ter acesso a um dispositivo Starlink. Os dissidentes do regime adquiriram alguns, assim como alguns iranianos mais ricos que gostam de ter acesso a alguns sites e redes sociais proibidos pelo governo.
Essa tolerância que o governo do Irão demonstrou em relação ao Starlink acabou oficialmente no final de dezembro, quando começaram os protestos antigovernamentais que já se prologam há semanas. O regime começou a recorrer a técnicas de interferência para tentar torná‑los inoperacionais. Porém, essas tentativas nem sempre funcionam, uma vez que os dispositivos estão conectados a uma rede de satélites própria.
▲ Starlink tem sido um problema para as autoridades iranianas
SOPA Images/LightRocket via Gett
Quem tem um dispositivo destes também tenta escondê-lo em terraços e localizações discretas, o que torna difícil ao regime detetar e cortar o acesso à internet. De acordo com relatos feitos por ativistas à imprensa internacional, as autoridades iranianas estão a usar drones para localizar os equipamentos. Nos órgãos estatais, têm sido transmitidos vídeos a avisar que configura um crime a posse da tecnologia do Starlink e também vídeos em que são vistos confiscos destes dispositivos.
Nos últimos dias, o regime iraniano tem estado particularmente empenhado em confiscar todos os equipamentos da Starlink que conseguir, de modo a não quebrar o isolamento imposto pelas autoridades. A missão afigura-se, contudo, praticamente impossível: quase todos os dispositivos estão escondidos e espalhados pelo Irão. As redes da oposição estão também preparadas para evitarem este controlo estatal.
E depois do apagão informativo? Vai o Irão seguir o exemplo da China?
Não se sabe quantos dias durará o apagão informativo, se bem que o regime tenha já indiciado que durará até meados de março — quando se comemora o início do ano novo persa —, mesmo que tenha assegurado que os protestos estejam a acalmar. A malha deverá manter-se apertada nos próximos tempos, mas o governo já desbloqueou, em partes do Irão, as chamadas telefónicas, incluindo para o estrangeiro.
▲ Internet pode voltar apenas ao Irão no início do ano persa
ABEDIN TAHERKENAREH/EPA
O que vai acontecer após este blackout é uma incógnita — e não se sabe sequer se o regime vai aguentar muito mais tempo: o chanceler alemão, Friedrich Merz, já vaticinou que está nos “últimos dias”. De qualquer forma, o governo terá de lidar com uma nova realidade se os protestos efetivamente terminarem: o acesso praticamente irrestrito à internet vai continuar a ser minimamente tolerado ou serão aplicadas medidas mais duras?
No último cenário, o exemplo que o regime iraniano poderá seguir é o da China. O país impôs uma “grande muralha” digital que impede o acesso a vários sites censurados. O sistema é sofisticado e Pequim bloqueia o acesso a serviços como o Facebook ou o Google, tendo desenvolvido as suas próprias aplicações, como o WeChat. O Irão ainda não está nessa fase, mas poderá lá chegar.
“Uma grande preocupação é como a internet vai parecer quando voltar. O Irão tornou-se muito mais sofisticado na forma como tem implementado os apagões”, alerta, ao Financial Times, Amanda Meng, professora universitária na School of Computer Science no estado norte-americano da Georgia. A especialista também fez a previsão de que “coisas vão ser realmente diferentes quando a internet voltar” — e aposta que serão mais parecidas com a China.
Para travar a atual vaga de protestos e evitar que Reza Pahlavi ganhasse ainda mais mediatismo, o regime iraniano impediu que a população tivesse acesso à internet — num shutdown praticamente total. Apenas os serviços da Starlink funcionam e permitem que milhares de iranianos possam falar com familiares e partilhar o que se passa no Irão. A República Islâmica não vai tolerar e promete desmantelar aquele que pode ser o último reduto do acesso livre à informação no país.