A entrega de qualquer lista aos órgãos sociais comporta uma sensação de alívio complicada de explicar. Não é o início de nada, também não é o fim de tudo, gera aquele respirar fundo com um expirar que sabe a vitória. A seguir, tudo começa. No caso de Martim Mayer, esse início ficou marcado por uma vídeochamada tendo o Estádio da Luz como fundo. Coloca a pasta de cabedal castanha encostada a uma cadeira, passa a mão pelo cabelo, sorri como nunca quando vê a pessoa do outro lado. “Olá, mister Louis. Gostava de lhe transmitir que já sou oficialmente candidato à presidência do Benfica”, atira com um visível orgulho. Van Gaal, que estava a sair do Algarve rumo a Lisboa, mostra-se satisfeito com a novidade, dá os parabéns e aproveita para falar do dress code para o encontro que teriam pouco depois já na capital. “Não é preciso vir de gravata. Eu estou de gravata porque tem de ser, mas é vermelha”, responde o empresário. Tudo corria como estava planeado.
Com a pontualidade britânica que parece ter herdado do avô, Duarte Borges Coutinho, Martim Mayer chega ao parque junto ao Estádio da Luz por volta das 10h00, hora combinada com os restantes elementos da lista para fazer a entrega de toda a documentação para formalizar a candidatura à presidência do clube da Luz. Vem em passo apressado, cumprimenta sorridente os presentes, acelera a um ritmo que algumas vezes se torna complicado de acompanhar. Neste caso, não há problema: iria passar pela porta 18 e seguiria sempre em frente para avisar o segurança de que chegara para ser recebido pelos serviços do clube. Enquanto espera, encontra e cumprimenta funcionárias que conhece, olha para o projeto do Benfica District com aquela cara de que dificilmente passará de maqueta, fica impressionado com o arcaboiço de jogadores da equipa de andebol que vão passando, torce o nariz quando Kristian Olsen surge com uma bota ortopédica.
A ansiedade é indisfarçável. Olha para o telefone que tem a imagem da filha mais nova de fundo (vestida à Benfica, claro), vê algumas mensagens que lhe vão chegando, espera ser chamado. Quando segue pelas escadas rolantes, procura onde está uma maqueta do Seixal como existe do Estádio da Luz e é recebido por uma funcionária do clube que o leva até à sala onde tudo será entregue. João Salgado, secretário geral dos encarnados há quase 25 anos, faz de anfitrião. As listas são entregues, o suporte digital que também é pedido fica na mesa, uma bandeira grande do Benfica é colocada atrás da mesa para a habitual fotografia da praxe onde entra também Miguel Olazabal de Almada, candidato a vice com a área jurídica. “Desculpe, deixe-me só ajeitar aqui as folhas e este símbolo do Benfica. Nestas coisas tenho OCD”, atira Martim Mayer, que fica a ouvir as histórias de João Salgado sobre o Benfica (sendo que até o toque do telefone é uma música do clube).
Para que não falte nada, o próprio agarra na caneta de mão esquerda e rasura os restos de folha em branco a poupar trabalho aos serviços. “Isto agora sabe como é, temos de ir contar as assinaturas todas, validar todos os votos… Há sempre aquelas pessoas que por alguma razão não têm as quotas pagas, outras que assinam duas vezes e assim”, ouve. “Claro que sim, sei como é. Mas se quiser e ajudar temos todos os números de sócio por ordem numérica organizados num ficheiro, se calhar facilita. Temos bem mais do que os dez mil votos”, responde o candidato, enquanto tenta organizar as coisas para fazer chegar a tal lista.
▲ Martim Mayer começou o dia a entregar as listas oficiais aos órgãos sociais do Benfica, aproveitando para anunciar a boa nova a Louis van Gaal
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
A outra responsável dos serviços que reúne todas informações está na Luz ainda há mais tempo mas, apesar de trabalhar no Benfica desde o final da década de 70, já não se cruzou com o avô do candidato. “Mas foi por pouco que não trabalhou com ele”, atira. Mais do que a influência clubística que faz com que se assuma como benfiquista ainda antes de nascer, mais do que o sucesso desportivo alcançado com sete Campeonatos em oito anos entre 1969 e 1977, Martim Mayer, que ainda surgia como “Martim Coutinho” quando em 2021 falou ao jornal Record sobre os 100 anos que Duarte Borges Coutinho faria se ainda fosse vivo, revê-se na liderança que o avô teve como líder dos encarnados. Com diplomacia, com desportivismo, com essa “arte” para colocar todos a remar para o mesmo lado e chegar ao sucesso, com a sagacidade de saber como segurar Eusébio ou como fazer as vendas milionárias de Humberto Coelho para o PSG ou de Jordão para o Saragoça, com a veia visionária para perceber que todo o futuro do Benfica passava por crescer nas infraestruturas.
“Depois de ele morrer, a minha avó, Ana Maria Coutinho, continuava a levar-nos ao antigo estádio onde ele comprou dois camarotes vitalícios. O meu avô teve sete filhas e, nessas deslocações à Luz, crescemos orgulhosos a ouvir histórias sobre o seu carácter. Foram momentos muito importantes para a minha geração pois fomos crescendo dentro dos valores do desportivismo. O meu avô, já na sua época, conhecia o potencial único do Benfica e sabia que podia apontar a ser um dos maiores clubes da Europa e do Mundo pois as bases estavam lá”, contou, antes de recordar uma outra história que lhe foi contada por António Simões: “O meu avô prometeu aos jogadores pagar um prémio por cada golo marcado. O Benfica marcou três mas só ganhou por 2-1 porque o árbitro anulou um de forma escandalosa. Ele corrigiu essa injustiça pagando o prémio pelos três golos. Deixou valores que passaram gerações e ainda são recordados. Foi o seu legado mais importante”.
Há muito de Duarte Borges Coutinho na maneira de pensar de Martim Mayer. Nunca se alistou como piloto voluntário da Royal Air Force para combater os nazis na Segunda Guerra Mundial como aconteceu com o avô mas concebe a vida, o futebol e o Benfica à luz das mesmas diretrizes. Em 2012, quando entrou na lista de Rui Rangel como vice-presidente (então como Martim Borges Coutinho), começou a pensar na possibilidade de ser ele um dia a encabeçar uma candidatura à liderança do clube de sempre. Mais recentemente, foi tendo encontros com outras figuras que formariam também as suas listas, ouviu tudo e todos a começar pelo seu mandatário António Simões e trabalhou com o propósito de chegar às urnas com maior afinco nos últimos seis meses, com a particularidade de ter feito as primeiras ações de campanha nos EUA, durante o Mundial de Clubes. Foco principal? O futebol, aquele que seria o ponto chave neste dia que passou com o Observador ao seu lado.
▲ Uma primeira passagem pela Luz, uma segunda passagem pela Luz: Mayer fez questão de ir à estátua de Eusébio com Andries Jonker
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
– Porque é que decidiu candidatar-se à presidência do Benfica? Alguma vez pensou duas vezes durante a campanha eleitoral?
– Nunca me arrependi, nem nunca me vou arrepender. Estou profundamente motivado, os propósitos iniciais mantêm-se: trazer um Benfica internacional, trazer uma proposta concreta para o futuro do clube, algo com solidez para os sócios apreciarem, verificarem e verem entrar no Benfica. Não vejo isso em mais nenhuma candidatura, está na origem da minha perceção quando me decidi candidatar que seria isso que iria acontecer porque estou a olhar para o Benfica há muito tempo, a reunir as pessoas certas…
– Foi em 2012, quando entrou na lista de Rui Rangel, que cresceu esse bichinho?
– Começou, foi aí que começou e agora senti que era a altura certa para trazer esta proposta, com as pessoas certas. Entendo que é uma lista e uma ideia imbatíveis face à concorrência.
– Tem o lema “Benfica no Sangue”, é neto de um dos maiores presidentes de sempre do clube. Sente que quando olham para si podem rever aquilo que foi Duarte Borges Coutinho?
– Haverá em mim como presidente muito de Duarte Borges Coutinho mas não me posso esconder atrás dele, ele foi ele e eu sou eu. Tenho as minhas competências, tenho a minha personalidade mas muitas das coisas que me foram transmitidas por ele estão lá. Além disso, é uma responsabilidade adicional que sinto todos os dias, que a minha equipa sente todos os dias, e queremos estar à altura disso. Mas eu sou uma pessoa de compromissos. Já recuperei várias empresas, meti-me na indústria automóvel sem conhecer nada com uma empresa que tinha muitos problemas mas muitas boas pessoas e conseguimos em conjunto dar a volta, tenho seis filhos e um compromisso familiar profundo e isso também é ter Benfica no Sangue. Ter a família no sangue, ter a devoção ao trabalho no sangue, ter o compromissos no sangue.
– Duarte Borges Coutinho deixou um legado com muitas histórias, no Benfica e não só ou não tivesse sido piloto na Royal Air Force na Segunda Guerra. O que é que mais o inspira?
– Olhe, inspira-me… [pausa]… Inspira-me uma forma de ser de ser muito generosa que consegue encontrar o equilíbrio perfeito entre o respeito e a proximidade humana. Era algo transversal à sua maneira de ser e acho que os próprios colaboradores reconhecem… [pausa, visivelmente emocionado]
“O futebol é o coração do Sport Lisboa e Benfica e é um dos grandes focos do programa desta candidatura. É factual que ao longos dos últimos 35 anos somámos apenas dez títulos de campeão nacional e cinco Taças de Portugal. Considerando todas as provas nacionais disputadas, a taxa de insucesso foi de 80%. Nos últimos cinco anos, com três títulos conquistados em 20 disputados a nível nacional, apenas um referente ao título de campeão nacional, a taxa de insucesso subiu para 85%. Em 15 anos gastaram-se mais de mil milhões em compras de jogadores e mil e setecentos milhões em vendas. Destas vendas, 652 milhões referem-se a jogadores formados pelo Benfica. Se excluirmos o valor de vendas de jogadores da formação, o saldo é próximo de zero. A continuação deste raciocínio, tem de ter em consideração que só nos últimos três anos o Benfica comprou 29 jogadores e vendeu 45 e do grupo de 29 jogadores que iniciou a época passada. 15 já saíram e dos dez que chegaram ao longo da época, metade também já saíram”, diagnostica no seu programa.
“Comigo, este paradigma irá mudar e a base de pensamento para o futebol. A gestão das decisões desportivas deve ser sustentada por uma visão estratégica de médio prazo, como fazem os clubes mais bem sucedidos da Europa. Vamos fazê-lo através de cinco pilares fundamentais: estabilidade no plantel, reduzindo o número de entradas e saídas; renovações planeadas, protegendo os ativos e evitando perdas desnecessárias; formação com impacto real, alimentando a equipa principal com o talento que sente o clube; investimento sério nas infraestruturas, para potenciar rendimento e património; controlo rigoroso dos fluxos financeiros, com planeamento de médio e longo prazo (quatro e oito anos)”, acrescenta, antes de fazer “o” acrescento.
“Deve ser criado o cargo de diretor geral que pensará e coordenará toda a estrutura do futebol. Alguém com perfil internacional e profundo conhecimento do jogo, quer na sua vertente técnica, quer na gestão de recursos e relacionamento humano. O diretor geral do futebol do Benfica, estará ao mesmo nível hierárquico que o treinador da equipa A e que o diretor do futebol. O treinador de futebol e o diretor de futebol estarão focados no curto prazo e no planeamento das diferentes provas da época em curso enquanto o diretor geral irá estar focado na Academia, no scouting e ainda nas equipas Sub-23 e B. O diretor geral irá garantir que toda a estrutura do futebol adote um modelo de jogo e uma filosofia de jogo que será a identidade do Benfica. Desta forma, todos os escalões promoverão um tipo de jogo semelhante ao praticado na equipa A, preparando atletas desde cedo na carreira e acelerando o talento para o disponibilizar à equipa A o mais cedo possível”, propõe também para o futuro do futebol dos encarnados em caso de vitória.
▲ Candidato saiu da Luz para rumar ao aeroporto, onde estava a chegar Andries Jonker vindo de Amesterdão
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Há mais algumas ideias, como o Formação Benfica 360, um programa que passará a ter um plano académico e de formação de carácter individual acompanhado com os pais, a tentativa de reter por mais tempo o talento e a manutenção, atualização e crescimento das infraestruturas no Seixal. No entanto, era na figura do diretor geral que entroncava o motor de tudo o resto. Numa expressão que foi utilizando em várias ocasiões, “não é só dizer o que é preciso, é mostrar o como”. Era o seguinte passo para Martim Mayer neste longo dia, resultado de vários contactos que foi fazendo com algumas figuras do futebol mundial como Valdano, Zidane ou Mateo Alemany que foram ouvindo aquela que era a ideia do candidato até Van Gaal apontar Jonker.
– Disse várias vezes que não basta dizer aquilo que se quer para o Benfica, é preciso explicar como se faz. O futebol é o exemplo paradigmático disso no seu programa?
– Este processo tem várias fases e o primeiro tem a ver com o diagnóstico. Temos que ver todas as áreas do clube, ver o que está bem feito e o que pode ser melhorado. Depois temos de ver com especialistas de cada área quais são as linhas que podemos decidir percorrer. Quando decidimos essa linha, temos de concretizar numa proposta concreta. Isso é transversal a tudo, modalidades, parte financeira, infraestruturas, futebol. Foi isso que fizemos. Ligámos a pessoas competentes em cada área. O Benfica tem esta característica que é extraordinária: é o maior clube do mundo e abre portas até a um candidato nos quatro cantos do mundo. Agora, posso confirmar que é mesmo assim, falei com pessoas dos cinco continentes e todas falaram comigo, todas atenderam o telefone, todos ajudaram. E não é por mim, é pelo Benfica.
– Como é o caso de Louis van Gaal?
– O senhor Louis van Gaal quando trabalha comigo em cima daquilo que é a atual estrutura do Benfica e tentamos perceber onde estão os aspetos a melhorar, ele trabalha para ajudar e por respeito ao Benfica, ele próprio me disse isso. A partir do instante em que isto acontece, temos de saber fazer uso disto porque o Benfica permite isso. Quem não fizer, não está a potenciar o Benfica e é isso que eu mais quero.
– Sentiu diferença em termos de campanha depois desse anúncio?
– Senti, claro que sim. Até porque os sócios querem é saber do futebol e quando veem pessoas com o máximo de competência envolvidos no projeto Benfica no Sangue compreendem que não sou um curioso, que independentemente do mediatismo que me dão faço as coisas com qualidade, competência e com muita paixão. Eu não quero que o Benfica seja um clube rico, eu quero que o Benfica seja um clube vencedor, esse é o meu mote. Quando veem alguém como Louis van Gaal, quando foram conhecer o perfil de Andries Jonker e conseguem perceber que irá atuar em todas as áreas do futebol e que irá ter grande impacto na equipa A, ficam mais atentos, mais curiosos, mais ligados. Crescemos muito desde que isso aconteceu.
Depois da chamada para Van Gaal, o candidato tira ainda algumas fotografias com o Estádio da Luz como fundo, olha para o relógio e desce de forma rápida para sair pela porta 18 e entrar no carro que o tem de levar até ao aeroporto em tempo quase recorde a meio da manhã. “Ainda por cima agora estou com este carro, que não é meu… Outro dia fez uma travagem brusca que só depois é que percebi que era uma coisa de segurança”, vai contando enquanto dá a volta na rotunda Cosme Damião e entra na Segunda Circular. Vai a caminho do aeroporto, quer dar o exemplo de chegar a horas, não concebe mesmo a ideia de se poder atrasar para receber aquele que será um dos protagonistas do dia. Pelo meio, não esquece a chamada “obrigatória”. “Leonor, estás a falar com o primeiro candidato oficial à presidência do Benfica!”, atira enquanto fala com a mulher. “Era só para contar isto, já nos vemos mais logo”, acrescenta enquanto procura todos os espaços que lhe permitam ir chegando ao parque das chegadas do aeroporto Humberto Delgado. E ainda tem tempo para partilhar uma primeira imagem daquilo que pode ser o Campus das Modalidades. Apesar do nervosismo, está a horas.
A vida de Martim Mayer tem sempre agenda cheia. A parte do exercício está sempre presente, seja através do ténis (que começou a jogar com três anos, tendo entrado mesmo no top 20 dos cadetes nacionais), do padel, do golfe ou dos desportos aquáticos – o râguebi, onde chegou a sagrar-se campeão nacional e foi internacional Sub-19, é o único que já não entra no cardápio. A família é uma parte basilar ou não tivesse seis filhos, quatro rapazes e duas raparigas. O trabalho também. Quando ainda estava na faculdade, no curso de Gestão na Católica entre especializações em Private Banking and Wealth Management no BCP e em Foreign Exchange, Financials and Swaps no Banco Mello de Investimentos, em Londres, teve o primeiro emprego como corretor na Bolsa. Passou pela Siemca Broker, pelo Banco Mello de Investimentos, pelo BCP, pela Full Trust Asset Management e pela Orey Financial. Em 2013 chegou o maior desafio profissional de todos.
▲ Martim Mayer colocou o futebol como ponto chave do projeto que tem à liderança do Benfica
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Foi aí, há mais de dez anos, que fundou a Flow International Holdings, grupo que viria a adquirir a Ibérica Indústria de Componentes Metálicos S.A., fornecedora da indústria automóvel, de defesa e de mobilidade elétrica. Sem ter de despedir ninguém, algo que funciona como símbolo dessa “vitória”, conseguiu fazer uma recuperação de toda a empresa, começou a fornecer materiais para marcas maiores como a Volkswagen e a BMW e conseguiu internacionalizar o nome, chegando a um patamar de 80% de produção para fora ao mesmo tempo que alargava as áreas de operação aos sistemas de partilhas de bicicletas elétricas. Aos 51 anos, olha para as coisas tendo sempre algo mais para fazer ou para “inventar”. O Benfica é o próximo desafio, Andries Jonker uma das principais peças para desenvolver essa mola real de todo o projeto chamado futebol.
A cara da mudança de paradigma: Andries Jonker é o diretor geral para o futebol de Martim Mayer
Irrompe em passo acelerado pela zona das chegadas, cumprimenta um amigo que encontra pelo caminho, começa a andar de um lado para o outro quase que a estudar o melhor sítio para ficar à espera, vai esticando o pescoço para ver quando chega fintando uma placa mais à frente do Portugal Football Summit, que decorre na Cidade do Futebol, em Oeiras. O avião da KLM já tinha aterrado, o neerlandês não demoraria a sair pela porta das chegadas. Um aceno com a mão de forma discreta, um encontro no final da rampa, um abraço que deixa Martim Mayer visivelmente orgulhoso. A viagem foi tranquila, as histórias começam a ser contadas. Jonker nunca defrontou equipas portuguesas em qualquer competição europeia mas aproveita a chegada a Lisboa para parar no Estádio da Luz e tirar fotografias junto da Catedral e da estátua de Eusébio enquanto vai percebendo que o “no” que está no “Benfica no sangue” não é uma palavra negativa como no inglês.
“Fomos os primeiros a entregar as listas esta manhã. Hoje é o dia em que seis meses de trabalho vão passar à prática”, explica o candidato. “Agora vamos até ao hotel onde será feita a apresentação, depois mais logo já temos mesa marcada no meu restaurante preferido em Lisboa”, acrescenta. Mais do que nunca, Mayer passa ao lado das sondagens que lhe conferem um resultado modesto e mostra-se confiante de que poderá ainda ter uma palavra a dizer na primeira volta das eleições. “Acho que as sondagens são altamente limitadas. Se na política já são, imagine-se aqui onde existem diferentes ponderações de voto…”, comenta, recordando uma sondagem que não passou ao lado do universo benfiquista a propósito da corrida pela Câmara Municipal de Lisboa onde 48% dos lisboetas são adeptos do Sporting e apenas 30% do Benfica: “Mas alguém acredita que há mais sportinguistas do que benfiquistas em Lisboa? Quem acreditar que venha discutir comigo”.
No hotel Altis, um espaço com muita história ligada ao futebol do malogrado Fernando Martins e aos estágios do FC Porto sempre que se desloca à capital, Catarina Valente Rodrigues, neta do empresário e antigo líder dos encarnados, tem tudo preparado na sala onde haverá a apresentação de Andries Jonker. Antes do almoço no restaurante da unidade hoteleira, há espaço para ensaios e questões de protocolo tendo já as presenças dos candidatos a vices José Bartolomé Duarte e Paulo Casimiro (mais tarde outros elementos dos órgãos sociais iriam também juntar-se). “Estamos a ver se o Dani vem cá, ou hoje ou amanhã”, conta. “A sério? O Dani ainda se lembra de mim?”, responde Jonker num dos raros momentos nessa fase em que rasga o sorriso – está concentrado, está interessado em todos os detalhes, quer saber quem estará presente. “Uma das razões para ter ainda mais a certeza de que era a escolha certa foi uma conversa que tivemos sobre como as equipas A são apenas a ponta de um icebergue onde o mais importante não se vê”, destaca aos presentes.
O neerlandês faz algumas perguntas quando Martim Mayer ensaia o discurso, o candidato explica em inglês aquilo que dissera em português, está na hora de descer novamente do 12.º andar ao piso zero perante a chegada de Van Gaal. Cumprimenta os presentes, recorda a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1962 entre Benfica e Real mal vê António Simões (“Mas alguém que goste de futebol podia esquecer aquele 5-3?”, questiona), troca umas palavras com ex-adjunto Jonker e tem uma passagem rápida pelo quarto antes de juntar-se à comitiva ao almoço. “Almoço rápido”, diz o industrial, recordando que a apresentação do diretor geral está marcada para as 15 horas. Acaba por atrasar alguns minutos mas a sala não demora a encher com todas as cadeiras a terem nas costas o cartaz “Martim Borges Coutinho Mayer 2025-2029”.
▲ Martim Mayer passou pela Luz com Jonker e seguiu para o hotel Altis, onde preparou a apresentação do neerlandês antes das chegadas de António Simões e Louis van Gaal
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
“O Benfica tem um novo treinador, tem um bom diretor de futebol, precisa de um diretor geral. A duração média de um treinador no Benfica em 121 anos de história foi de um ano e quatro meses, 16 meses. É preciso alguém que trate tudo o que esteja por baixo da ponta do icebergue, que é a equipa A. Quero alguém que me acompanhe ao longo dos quatro anos para poder dar estabilidade ao projeto. Foi preciso falar com muita gente, foi preciso perceber mutações que aconteceram no tempo mas conseguimos fazê-lo, alguém que sabe dirigir uma equipa B e uma equipa Sub-23, alguém que olhe para a formação sem limites. Em paralelo com isso, é alguém que sabe falar com quem está, com quem trabalha a curto prazo para ter os resultados imediatos na equipa A. Só temos de abrir horizontes, ter coragem, falar nos fóruns certos, a trabalhar o Benfica de forma grande e global”, destacou Martim Mayer durante a apresentação de Jonker.
Neerlandês, de 63 anos, teve uma carreira como jogador em clubes mais modestos como o De Volewijckers, o Volendam, o De Meer ou o ZFC, destacando-se sobretudo pelo trabalho que mostrou como treinador com passagens por Barcelona (adjunto), Bayern (adjunto e técnico interino), Arsenal (diretor da Academia) e Wolfsburgo (treinador e adjunto), tendo orientado nos últimos três anos a seleção neerlandesa depois da passagem como coordenador da formação da Federação dos Países Baixos. Tem como grandes referências Rinus Michels, Johan Cruyff e Louis van Gaal, com quem trabalhou no Barça e no Bayern e que estava agora na fila da frente a assistir a uma apresentação onde foram destacados elogios feitos por Arjen Robben ou Arsène Wenger antes de contar algumas histórias que foi tendo ao longo de décadas de carreira.
▲ Apresentação pública de Andries Jonker com Van Gaal e Simões na primeira fila foi um dos pontos altos do dia de Martim Mayer
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
“Toda a gente consegue ler sobre quem eu sou, eu vou contar aquilo que as pessoas não sabem. Cresci na zona norte de Amesterdão, numa comunidade onde trabalham muito com as mãos. Pintam, trabalham com madeira. São pessoas de trabalho, corretas, humildes. Eu sou assim, mantive isso comigo. Conhecia bem o Benfica, quis ler o programa do Martim e pareceu escrito no norte de Amesterdão por aquelas pessoas que pintam, que trabalham com a madeira. É feito do coração, é feito para os fãs. O Benfica precisa ter uma identidade de jogo, um estilo que o defina. Qual? Ganhar, claro, mas jogar bem, ter um jogo atrativo. O scouting tem de saber aquilo que são as ideias, aquilo que se procura. O Louis [van Gaal] no Bayern tinha tudo mas faltava uma peça porque jogava com três avançados e não dois. Faltava isso. Quando chegou o Arjen Robben, ficou como queria. Sei que o Benfica não tem ganho tanto como se quer, sei que há muita vontade de ganhar. Este é um plano grande, global e estarei muito contente em juntar-me se for essa a escolha”, realçou, entre recordações de carreira dos primeiros anos de Bukayo Saka, Emre Çan e Iniesta.
Martim Mayer, Louis van Gaal e Andries Jonker falam depois da apresentação à comunicação social, todo o ambiente muda quando a sala começa a esvaziar. Há quase uma sensação de dever cumprido, de objetivo alcançado, de orgulho. Todos os filhos do candidato estão presentes, os rapazes com t-shirts do “Benfica no Sangue” e a filha mais nova com uma camisola do Benfica, a mulher Leonor também o acompanha em todos os momentos que se seguem. Menos ansioso, tira o casaco, tira a gravata, abre um botão da camisa e fica no rooftop do hotel Altis com Van Gaal e Jonker à conversa antes de descer a Avenida da Liberdade duas horas depois e fechar o dia com os neerlandeses num jantar no Gambrinus onde se junta a equipa. Por ele, o dia acabava também ali. Longe disso. E já depois das muitas selfies pedidas até por empregados de mesa ao ex-campeão europeu pelo Ajax ao longo da Rua das Portas de Santo Antão, que não resistiu a um empadão de lagosta (Jonker alinhou por um rosbife), Mayer segue para o último compromisso na agenda.
▲ Martim Mayer esteve à conversa com Van Gaal depois da apresentação de Jonker antes de seguirem para um jantar no restaurante Gambrinus
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
É em Alfragide que o empresário vai ter o primeiro debate com outro candidato, neste caso com João Diogo Manteigas depois das acusações entre ambos na sequência da última Assembleia Geral do clube e sobre uma possível proposta que teria sido apresentada pelo advogado para integrar a sua lista como administrador da SAD. Acompanhado pelo diretor de campanha, por José Bartolomé Duarte e por Paulo Casimiro, é o único que continua a olhar para todas as pastas que traz consigo. Futebol, modalidades, finanças, infraestruturas, o Programa Eleitoral completo e encadernado, uma chamada onde confere alguns dados em relação à forma como a dívida está estruturada. A sala está quente, o industrial mantém a frieza – e enquanto todos os presentes seguem a entrevista de João Noronha Lopes na CNN, depois de o prejuízo de quatros das suas empresas ter sido notícia de abertura no Jornal da Noite da TVI, vai olhando para as notas que leva para esse reencontro.
João Diogo Manteigas chega depois, e só mesmo quando se deslocam para o púlpito é que se cruzam e trocam cumprimentos. Conhecem-se, já foram juntos a Assembleias Gerais, encontraram-se antes de existirem as listas finais a sufrágio. É isso que faz com que pare dois segundos para perceber como irá tratar aquele que por quase duas horas será seu “adversário” enquanto vai tirando alguns tópicos para a pergunta ao outro candidato e para a mensagem no final. “Pirómano e bombeiro”, “mentira” ou “cobarde” foram alguns dos termos que se ouviram nos minutos iniciais, antes de Mayer dizer que não era “farinha do mesmo saco” como Manteigas ou Noronha Lopes e Manteigas a acusar Mayer de ter indiretamente defendido o principal pirómano na reunião magna — que era Luís Filipe Vieira. Falou-se de futebol, de modalidades, de Estádio, de infraestruturas, de finanças. Houve períodos mais calmos, outros de “choque”. Até que, entre uma pausa por problemas técnicos, chegava a parte final com “tema livre” onde cada um poderia fazer uma pergunta.
– Apresenta em termos de infraestruturas um projeto de aumento do Estádio da Luz em 15 mil lugares já devidamente estudado e pensado a nível de custos e receitas, tem o mesmo sobre um Campus das Modalidades. Já algum candidato falou consigo sobre a hipótese de ficar com esses projetos caso não vença as eleições?
– Ninguém falou comigo e eu tenciono também ganhar as eleições, terei alguma reserva em falar sobre esses temas até às eleições e à tomada de posse do próximo presidente. A partir do dia seguinte, caso não seja eu a assinar o livro de tomada de posse, deixo claro que as propostas ficam à disposição do Benfica.
– Já falou sobre o gosto que teria em ver a Adidas como uma das acionistas minoritárias da SAD, com o clube a ficar com 67% tendo duas grandes marcas no capital social. Como é que isso pode ser feito com a dispersão que existe de ações ainda do que aconteceu no passado?
– Vamos combinar uma coisa: no dia a seguir à tomada de posse, eu explico-lhe tim-tim-por-tim-tim a operação toda, até lá não posso. Aquilo que posso dizer é que é uma operação possível, que o clube pode ficar com 67% da SAD sem que tenha de entrar dinheiro novo com esforço do clube e também é possível encontrar espaço para, de forma unilateral, cada um desses novos acionistas tinham 10%. No dia 26 ou no dia seguinte à segunda volta tenho todo o prazer em voltar aqui e explicar tudo com o meu CFO. Eu sei explicar, sou um homem dos mercados, da banca mas é mais interativo virmos os dois.
▲ Martim Mayer terminou o dia com um debate com João Diogo Manteigasno podcast Visão Vermelha
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
– Em relação às finanças, aponta muito para a diferença entre receitas e custos, na ordem dos 70 milhões negativos e foi explicando como se diminui esse fosso. Nesta altura, é mais preocupante para o Benfica os custos a mais ou as receitas que deve potenciar mais?
– Primeiro com os custos, têm crescido de uma forma avassaladora. Isso tem de terminar, não podem continuar a crescer e têm de levar uma pancada de 20% para baixo. É possível e é a primeira medida que se tem de mudar. Em cima de tudo isso está o nosso projeto de internacionalização, um Benfica que seja global em zonas em que temos comunidades de benfiquistas superiores a 100 mil adeptos. É aí que o clube tem obrigação de chegar, para os adeptos viverem o clube e poder encontrar novas fontes de receita. É uma medida que vamos tentar logo implementar embora tenha um a dois anos de tempo para começar a reverter receitas para o clube. Vai trazer receitas muito importantes para o clube.
– Na parte das modalidades, tem algo que o diferencia dos outros candidatos e que passa pela redução dos salários aumentando os prémios por objetivos desportivos, anexar ao rendimento e às vitórias a parte financeira. É só para as modalidades ou chega ao futebol?
– São mundos à parte, por razões várias. O mercado de jogadores de futebol não funciona assim mas nas modalidades é aplicável, em especial no Benfica. Qualquer atleta de qualquer modalidade deve sentir um grande orgulho por vir para o Benfica, não pode vir à procura do dinheiro mas sim do projeto, das vitórias e a probabilidade de ganhar é sempre maior. É nesta base que vamos trabalhar, sendo compensados de forma financeira e fechando o círculo com todos focados nos mesmo objetivos.
– Como é que se convence os sócios do Benfica de que não existe a figura do voto útil numas eleições que podem ter segunda volta?
– São os próprios estatutos que o dizem, qualquer sócio que os leia chega a essa conclusão. Por isso, temos de olhar para a razão pela qual passou a haver duas voltas e fica expresso aí que não é necessário fazer um voto útil. Tem que se desconfiar muito das sondagens, não há outra forma de dizer. Sem uma sondagem séria e uma perceção exata da realidade, não pode haver sentido para o voto útil…
▲ Martim Mayer voltaram a falar do que se passou na Assembleia Geral do Benfica, discutiram o futuro do clube e terminaram com o mesmo espírito de fair play
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
“João Diogo, temos ouvido várias pessoas do universo do Benfica a fazer uma comparação entre si e o Bruno de Carvalho. Porque é que isso acontece?”, perguntou Martim Mayer. “Não sei, tem de perguntar a quem diz isso, não a mim, sou a pessoa errada. O Benfica é incomparável, não tem comparação com nenhum clube”, respondeu João Diogo Manteigas. Depois, uma inversão de papéis. “Alguma vez deixou de pagar quotas do Benfica?”, questionou João Diogo Manteigas. “Já deixei de pagar quotas duas vezes. Sabe, é que eu digo sempre a verdade, sempre. E posso desenvolver: tenho seis filhos, tive de lutar pela minha vida e houve alturas em que isso me fazia muita diferença. Mal consegui, recuperei o número de sócio e sou com muito orgulho o associado 5.206-1. Eu digo sempre a verdade”, respondeu Martim Mayer, que acabaria a pedir para que os associados não olhassem à ideia de “voto útil” por haver agora primeira volta nas eleições e que não ligassem também ao que dizem as sondagens que o colocam nesta altura na quinta posição.
– A certa altura do debate, quando João Diogo Manteigas lhe pergunta se deixou de ser sócio, explica com uma humildade que não é habitual de ver que nem sempre a vida permite. A forma como respondeu de forma espontânea pode ajudar a explicar o candidato que é?
– Acho que ninguém se pode candidatar à presidência de um clube como o Benfica sem estar preparado para responder a verdade, quando lhe convém ou não convém. Essa responsabilidade deve ser transversal a qualquer candidato. Para mim foi natural dizê-lo, estou disponível para que todos os sócios vejam quem é que eu sou, para que vejam também os meus defeitos e conheçam as minhas fragilidades. Aquilo que quero é que quando exista um mandato que me seja dado para dirigir o clube haja plena consciência também de alguma parte que não seja tão boa. É assim que me dou a conhecer. Quero aportar muito mais coisas boa, coisas positivas, propostas, muito mais pessoas de qualidade. Temos que nos dar a conhecer em todas as partes, nas melhores ou nas piores…
– Que neste caso não é propriamente uma parte “pior”…
– São coisas que acontecem, são vicissitudes. Há alturas da vida em que temos mais desafogo de dinheiro, outras em que temos de deixar algumas coisas para trás mesmo quando não queremos e trabalhei com mais afinco ainda para poder pagar as minhas quotas e foi isso que consegui fazer.
As 6 grandes ideias dos 6 candidatos à presidência: o que saiu das 6 entrevistas de meia hora na BTV
14 horas depois de ter entrado na porta 18 para oficializar a candidatura à presidência do Benfica, chegava ao fim o dia de Martim Mayer, que chegou a encostar-se um pouco na cadeira depois de duas horas num púlpito a debater e saiu ainda a transpirar pelo calor dos holofotes. Troca algumas palavras com a sua equipa, revela a sua satisfação pela forma como acabou a noite, encaminha-se para o carro. Finalmente vai para casa mas já está a pensar em tudo o que tem a fazer no dia seguinte. Até dia 25 de outubro, essa será a sua rotina.