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Konstantinos Tsakalidis

Konstantinos Tsakalidis

Ursos, lobos e falcões. Conservar outras espécies como forma de redenção para a Humanidade /premium

Reportagem nas montanhas do norte da Grécia e nas planícies alentejanas. Em vários pontos do mundo, multiplicam-se esforços, às vezes solitários, para proteger espécies ameaçadas.

Desde o século XVI, pelo menos 680 espécies de animais vertebrados já foram extintas por causa da ação direta do ser humano, diz um relatório da ONU publicado no ano passado. Atualmente, cerca de um milhão de espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção. E muitas podem desaparecer por completo da Terra nas próximas décadas.

São vários os fatores que contribuem para isto aconteça: a evolução natural leva ao desaparecimento de algumas espécies animais e vegetais, grandes desastres naturais já foram responsáveis por múltiplas extinções em massa ao longo da história do planeta e as alterações climáticas conduziram à extinção de várias outras espécies. Mas há muitos séculos que o ser humano deixou de ser só mais uma espécie à face da Terra, passando a ter um impacto decisivo sobre tudo o que acontece no planeta — e aquela que mais alterações provoca. A ciência estima que o ritmo natural de extinção das espécies tenha aumentado significativamente por causa da Humanidade e que as extinções estejam a acontecer a uma velocidade mil vezes superior do que seria natural sem interferência humana.

Apesar da dimensão do estrago causado e da irreversibilidade da extinção já sentenciada a centenas de espécies, em diversos lugares do mundo, centenas de organizações humanas dedicam-se à conservação de espécies em risco — quase sempre devido ao comportamento humano. Fazem-no quase sempre em contracorrente com as práticas habituais, e o sucesso das práticas de conservação depende da capacidade de envolver as comunidades locais no processo.

SOOC

É o que acontece em Aetos, uma pequena vila rural com menos de 3 mil habitantes nas montanhas do norte da Grécia, a 25 quilómetros da fronteira com a Macedónia. Ali, a ONG ambiental Arcturos dedica-se, desde 1992, à preservação do urso-pardo, uma espécie que, apesar de globalmente não se encontrar ameaçada de extinção, corria o risco de desaparecer daquela região do mundo devido à tradição dos ursos dançarinos, muito populares na Europa e na Ásia desde a Idade Média — e que no início do século XXI ainda eram explorados em países como a Bulgária, a Albânia, a Sérvia e a Grécia.

Roubados por caçadores ainda em crias, os pequenos ursos eram ensinados, desde o nascimento, a dançar através de um método cruel: em cima de brasas quentes e ao som de música. Na tentativa de evitar queimar as patas, os ursos davam pequenos saltos que se assemelhavam a uma dança — e o treino era repetido até que o animal o associasse à música. Depois desse treino intensivo, bastava ao urso ouvir a música para repetir os movimentos. A prática era uma atração de rua comum na região dos Balcãs, mas em 2007 foi proibida pela União Europeia, por configurar maus-tratos a animais.

"Não é exagerado dizer que, se não fosse a Arcturos, os ursos estariam extintos na Grécia"
Panos Stefanou, centro ambiental Arcturos

Em 1992, o empresário grego Yiannis Boutaris, então presidente da câmara de Tessalónica, cruzou-se com um urso dançarino na rua e indignou-se: afinal, a Grécia já tinha proibido a prática na década de 1960 (altura em que deixou de ser património cultural protegido no país). Foi Boutaris quem decidiu, nesse ano, criar uma associação para resgatar, acolher e reabilitar os ursos que tinham sido explorados. “Não é exagerado dizer que, se não fosse a Arcturos, os ursos estariam extintos na Grécia”, assegura-nos Panos Stefanou, um dos responsáveis do centro, durante uma conversa na pequena sede da organização, em Aetos, depois de contar a história dos ursos dançarinos.

Em quase três décadas, a organização alargou o espectro da sua ação: hoje, tem dois santuários (um para ursos-pardos e outro para lobos) e gere um programa de reintrodução do cão pastor-grego entre os agricultores locais — espécie que foi perdendo a pureza ao longo do último século —, de modo a restaurar um ecossistema fundamental para as montanhas da Grécia, que estava em vias de ficar totalmente destruído devido aos cruzamentos de espécies feitos pelo Homem, à caça e à prática dos ursos dançarinos.

A quatro mil quilómetros dali, em Castro Verde, a luta é outra. No meio da planície alentejana, encontramos um cenário muito diferente das montanhas gregas. Sem elevações consideráveis, é possível ver a cidade de Beja a 45 quilómetros de distância. Pelo meio, só uma interminável planície dourada. Tirando algumas gralhas que orbitam as poucas construções rurais, há pouco movimento animal. Estamos junto a uma pequena construção misteriosa que, antes da explicação, parece pouco lógica: uma parede em “U”, mas com ângulos retos, que preserva apenas a cor do cimento e que não constitui qualquer edifício. Na parede, uma série de orifícios numerados.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

É uma espécie de condomínio com muitos apartamentos”, descreve a bióloga Rita Alcazar, coordenadora da Liga para a Proteção da Natureza (LPN) em Castro Verde. Os orifícios destinam-se a ser habitados por peneireiros-das-torres, uma espécie de falcão que habita a estepe alentejana e que se encontra atualmente classificada como vulnerável, por ter cada vez menos espaço disponível para lhe servir de habitat. Na altura em que visitamos o condomínio, as aves não estão ali. Migraram para a África subsaariana, onde deverão passar o tempo do inverno, e hão de voltar em janeiro. Primeiro os machos, para lutarem pelo melhor apartamento e ali fixarem o ninho, e depois as fêmeas, para escolherem um macho e um ninho.

Aves como o peneireiro-das-torres, mas também a abetarda, o sisão, o rolieiro e muitas outras espécies dependem da planície alentejana para sobreviver. Umas usam o solo próprio da estepe para fazerem os seus ninhos, outras precisam do alimento que só ali encontram. Contudo, a intensificação da agricultura humana está gradualmente a expulsá-las da região, que já é uma das poucas do mundo onde conseguem habitar. Há menos espaço de planície, há mais vedações onde morrem as crias e há menos alimento disponível.

No final da década de 1980, a LPN, que se dedicava à sensibilização para a ecologia e à criação de zonas protegidas no país havia já quase 30 anos, observou uma ameaça concreta àqueles habitats: muitas das regiões agrícolas de baixa intensidade, vitais para dezenas de espécies, estavam em vias de ser compradas por empresas de celulose para a plantação de eucaliptos. Com apoios da CEE, a organização antecipou-se e comprou centenas de hectares para manter as condições de habitabilidade para as aves. Só no concelho de Castro Verde, a LPN é dona de 1.812 hectares de território, onde as características da agricultura de baixa intensidade são mantidas para que as aves estepárias possam sobreviver.

“Matavam a mãe e roubavam a cria para a educar como urso dançarino”

Georges Mostakis, 45 anos, é eco-guia no centro Arcturos, no norte da Grécia. Durante o verão, recebe os visitantes que ali se dirigem e trata de os conduzir pelos caminhos do santuário que alberga cerca de uma dezena de ursos-pardos em recuperação. Encontramo-lo em Aetos, no sopé da serra de Verno. Cá em baixo ficam as instalações em que os técnicos da organização cuidam dos animais feridos — e é ali o único lugar onde poderemos ver ursos de perto. Quando perguntamos pelo santuário da vida selvagem, Georges aponta para o topo das montanhas e responde-nos que viajámos demasiado cedo. “Nas próximas semanas devem acordar”, explica o guia, sublinhando que o período de hibernação dos animais, durante o inverno, é plenamente respeitado.

Nós fechamos o santuário no inverno, que é quando eles hibernam. E, mesmo durante o verão, não abrimos todos os dias, damos tempo aos ursos para descansarem”, conta Georges. “E dizemos sempre às pessoas que não é garantido que os vejam. Eles podem não aparecer.”

"Alguns ursos estiveram mais de vinte anos em cativeiro e só quando os trouxemos para o santuário é que hibernaram pela primeira vez na vida"
Georges Mostakis, eco-guia no centro Arcturos

Há vários anos que o guia convive com aqueles animais. O amor que lhes tem fica particularmente visível na expressão consternada com que lembra os ursos dançarinos que salvou — e quando lamenta que a prática ainda seja encontrada, ilegalmente, em países como a Albânia ou a Bulgária. “Os caçadores matavam a mãe e roubavam a cria para a educar como urso dançarino”, lembra Georges. “Perdíamos, pelo menos, dois indivíduos”, conta o guia, apontando para a fotografia de um urso que adorna uma das salas da sede da instituição, na vila de Aetos. É Andreas, o primeiro urso que chegou a Arcturos. Foi dançarino durante vários anos, foi resgatado pela associação e viveu livremente o resto da vida, ainda que nunca tenha ultrapassado os traumas que ainda o faziam dançar. Morreu em 2014 aos cinquenta anos, uma idade excecionalmente rara. “Fez duas vidas.”

[Nesta reportagem da BBC transmitida em 2018 é possível ver imagens dos ursos dançarinos na Bulgária]

O santuário foi um dos primeiros investimentos da organização. Construído com fundos europeus do programa LIFE, o território tem as condições para que os ursos possam voltar à vida selvagem de modo gradual e controlado pelos técnicos. A organização estabeleceu protocolos com as autoridades para que os animais confiscados pela polícia fossem levados para ali. “Uma vez um urso foi recolhido pela polícia e chegou a passar uns dias numa cela para humanos antes de ser trazido para cá”, conta o guia.

Depois de resgatarem tantos ursos dançarinos quantos conseguiram, os responsáveis do centro Arcturos voltaram-se para outro problema: os ursos em cativeiro em jardins zoológicos ilegais. “Alguns ursos estiveram mais de vinte anos em cativeiro e só quando os trouxemos para o santuário é que hibernaram pela primeira vez na vida”, conta Georges, sublinhando a gravidade da situação: “Pela primeira vez!” Ainda na década de 90, durante a guerra civil que levaria à dissolução da Jugoslávia, o centro organizou uma operação de extração dos ursos que tinham ficado no jardim zoológico de Belgrado.

O urso-pardo, que na Grécia chegou a estar em risco de desaparecer por completo por causa dos ursos dançarinos, voltou a ter populações significativas no país nos últimos vinte anos. Atualmente, estão identificados cerca de 500 animais na região norte da Grécia, detalha o coordenador científico do centro ambiental, Alexandros Karamanlides, investigador na Universidade de Tessalónica. A necessidade de voltar a perceber o padrão comportamental dos ursos levou a organização a criar métodos inovadores para monitorizar os animais.

No início do ano só foi possível visitar as instalações onde são cuidados os ursos doentes. No santuário, os ursos estavam em hibernação

JOÃO FRANCISCO GOMES/OBSERVADOR

“Eles usam um sistema de comunicação pelos cheiros. Esfregam-se em postes e nas árvores. Nós começámos a identificar estes sítios e a recolher material genético para os estudar. O nosso estudo mais recente passa por usar o material genético para perceber a dispersão territorial. Cada urso tem o seu material genético, o seu bilhete de identidade. Se eu encontrar este bilhete de identidade aqui em Aetos e o mesmo 100 quilómetros para oeste, então sei que este urso viajou para a fronteira com a Albânia”, exemplifica Karamanlides.

O regresso das populações de ursos-pardos à natureza enfrentou ainda um outro desafio: o das infraestruturas humanas. “Os ursos podem ser um problema para os humanos, mas o contrário também é verdade”, diz o coordenador científico da organização. O porta-voz Panos Stefanou explica melhor: “Um dos primeiros problemas com que tivemos de lidar foi a construção de uma autoestrada que ia cortar o território povoado pelos ursos ao meio. Recorremos para os tribunais e conseguimos alterar a rota e criar passagens subterrâneas. No início, houve alguns acidentes. Chegou a haver seis a dez acidentes por ano. Agora há um a quatro por ano”.

“No início foi difícil convencer os políticos a mudar uma obra tão espetacular. Só foi possível quando se começou a perceber que também era um perigo para as pessoas colidir com um animal de 200 quilos”, aponta Stefanou.

“Inimigos? Não! Vivemos no mesmo mundo”

O trabalho de conservação dos ursos e dos lobos no centro ambiental Arcturos já valeu a um dos guias da organização, Vassilis Fourkiotis, o título de “ordinary hero” — uma designação atribuída pela Comissão Europeia a cidadãos de todo o continente que se empenham na proteção da saúde, da segurança, do ambiente e da sociedade na UE. É ele quem nos fala de outro grande problema a afetar o ecossistema das montanhas do norte da Grécia: os caçadores de troféus que caçam ursos e lobos. Para Fourkiotis, é fundamental promover a plena integração entre Homem e animais na região — e isso passa, garante, pelo restabelecimento da agricultura tradicional.

É por isso que o guia que já foi distinguido pela União Europeia como um dos “heróis do quotidiano” que protegem o ambiente se empenha particularmente num outro projeto do centro Arcturos: a reintrodução do cão pastor-grego nas comunidades de agricultores da região.

Segundo nos explicam os responsáveis pelo centro ambiental, o pastor-grego é uma das raças mais leais e, por isso, ideais para ajudar os pastores a controlar os rebanhos. Porém, ao longo das últimas décadas, a raça — que é uma minoria só encontrada no sul dos Balcãs — começou a desaparecer. “Tornou-se uma moda tê-los em apartamentos”, lamenta o guia Georges Mostakis. “A raça estava a desaparecer por causa das misturas. Começaram a ser arraçados com os pastores-sérvios e os búlgaros.

"Não têm de ter medo. Não somos nós que estamos a libertar ursos na Natureza. Eles existem na Natureza."
Alexandros Karamanlides, coordenador científico do centro Arcturos

Os cruzamentos de espécies levaram a que, nas últimas décadas, o pastor-grego se tornasse mais pequeno e mais dócil — perfeito para animal de companhia, péssimo para a função que a espécie se habituou a cumprir ao longo da história. Ao mesmo tempo, a expansão do território dos lobos selvagens além das montanhas começou a tornar-se uma ameaça à agricultura e à pecuária, que são uma das principais atividades económicas da região, mas também aos próprios lobos, que começaram a morrer atropelados ou presos em vedações nas aldeias enquanto buscavam comida.

Para reconstruir, na medida do possível, o ecossistema das montanhas do Norte da Grécia, além do santuário para ursos e das instalações para recuperação dos lobos, o centro Arcturos montou também um certo de criação de pastores-gregos. Os três projetos foram concebidos com recurso a financiamento europeu através do programa LIFE. Os cães são oferecidos gratuitamente aos agricultores e pastores da região que precisem de ajuda com os rebanhos. “Já distribuímos mais de mil cães”, diz Mostakis. “O único custo para os pastores é a vacina e o chip.”

Contudo, há uma condição. Todos os pastores que recebem um cão do centro Arcturos têm de assinar um contrato que os obriga, além de a terem de prestar os cuidados necessários ao animal, a cruzá-lo apenas com outro animal da mesma espécie. Alguns pastores recebem um macho, outros recebem uma fêmea, e devem realizar os cruzamentos entre si, para garantir a continuidade da espécie.

É o caso de Styliadis Evangelos, um agricultor que já recebeu um pastor-grego do centro Arcturos e que, entretanto, já tem dez cães. “Quando só tinha dois cães, via os lobos ali ao canto, à espreita”, conta-nos Evangelos, junto a um grande armazém, isolado no meio da planície ao sopé das montanhas, onde guarda o leite que extrai das cerca de uma centena de vacas-leiteiras que tem.

O agricultor produz leite no norte da Grécia e depende dos cães para proteger as vacas

JOÃO FRANCISCO GOMES/OBSERVADOR

“Os cães estão sempre com as vacas. Se uma vaca sai sozinha, vai um cão com ela. Andam sempre por perto”, garante. Por isso, nunca perdeu uma vaca para os predadores da região — mas já perdeu um cão. No inverno, saiu sozinho e foi atacado por um urso.  “Inimigos? Não! Vivemos no mesmo mundo”, diz sobre os lobos e sobre os ursos.

Uns quilómetros ao lado da quinta de Styaliadis Evangelos encontramos os terrenos de Timotheos Ioannidis, outro agricultor que já beneficiou do programa implementado pelo centro Arcturos. Recebeu dois cães — um macho e uma fêmea —, o que já lhe permitiu criar uma nova geração de pastores-gregos. Antes da chegada dos cães, perdia 10 ovelhas por ano à conta dos ataques dos lobos, sobretudo quando levava as ovelhas e as cabras (tem mais de mil) a pastar nas montanhas em torno da quinta.

A recuperação de espécies ameaçadas no norte da Grécia, com vista à reconstrução do ecossistema das montanhas, tem sido uma forma de redenção para muitos dos que se preocupam com a possibilidade de o ser humano estar a conduzir ao desaparecimento de espécies inteiras. Segundo Elena Pontiki, coordenadora do programa de voluntariado gerido pelo centro Arcturos, já passaram por Arcturos cerca de seis mil voluntários — 250 por ano — para ajudar no centro de criação dos pastores-gregos ou para participar em ações de formação nas escolas de toda a região.

Styliadis Evangelos com um dos seus pastores-gregos

JOÃO FRANCISCO GOMES/OBSERVADOR

“A recuperação de espécies é algo natural”, afirma o coordenador científico Alexandros Karamanlides, falando sobre os medos de algumas populações face aos esforços de proteção de ursos e lobos, que são predadores. “Não têm de ter medo. Não somos nós que estamos a libertar ursos na Natureza. Eles existem na Natureza.

Combater ameaças à biodiversidade implica “trabalhar à escala, com a comunidade”

Regressamos à planície alentejana. Rita Alcazar, 46 anos, mudou-se de Lisboa para Castro Verde em 2002, depois de outras passagens temporárias pelo Alentejo. “Foi uma mudança radical”, admite. Mas a mudança necessária para quem quer dedicar à vida à preservação da vida animal. Trocou as avenidas da cidade pelos caminhos sinuosos por entre a vegetação rasteira e as pedras. Leva-nos numa carrinha pickup até ao tal condomínio para falcões. Nos terrenos da organização, no Baixo Alentejo, há mais quatro daquelas estruturas e três torres para as mesmas aves. Está tudo pensado ao pormenor: a distância entre cada abertura deve garantir que as aves mantêm a sua territorialidade; a abertura não deve ser muito grande, para que só entrem as aves certas; e no interior deve haver espaço suficiente para que um casal de peneireiros-das-torres albergue até cinco crias.

Antes de viajarmos pela planície para ver, no local, como funcionam as estruturas para albergar e proteger os falcões, encontramos a bióloga no Centro de Educação Ambiental de Vale Gonçalinho — um antigo monte alentejano recuperado (e energeticamente autossustentável há vinte anos) que agora serve de laboratório e de centro de acolhimento aos visitantes que querem conhecer os esforços desenvolvidos na região para salvar as aves da estepe, mas também a águia-imperial-ibérica (só há 17 casais identificados em Portugal), o saramugo (uma espécie de peixe classificada como “criticamente em perigo” e que só existe em pequenas regiões dos rios Guadiana e Guadalquivir) e os ecossistemas dos charcos temporários mediterrânicos.

Rita Alcazar, 46 anos, mudou-se de Lisboa para Castro Verde em 2002

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

É lá que Rita Alcazar nos explica o que é feito ali. A planície alentejana é, durante o verão, o lar de mais de uma dezena de aves estepárias (como a abetarda, o rolieiro, o peneireiro-das-torres, o sisão e muitas outras) que existem em cada vez menos lugares do mundo. “O sisão já só existe na Península Ibérica e no sul de França”, exemplifica a bióloga que coordena o programa em Castro Verde. Estas espécies desenvolveram-se em lugares onde a paisagem foi, historicamente, dominada pela agricultura tradicional: com espaço e exploração pouco intensiva dos solos.

A intensificação da agricultura na Europa foi reduzindo gradualmente o espaço disponível para estas aves. Algumas delas, como a abetarda e o sisão, precisam do solo agrícola para os ninhos — porque, ao contrário do que sucede com muitas aves, estas não fazem os seus ninhos no topo de árvores. Pelo contrário, escavam pequenas covas no solo onde colocam os ovos. É também nos ecossistemas próprios dos solos agrícolas que estas aves encontram o seu alimento.

Tudo está em risco de desaparecer nas regiões de agricultura intensiva — e a esta ameaça junta-se a das infraestruturas humanas. “A construção da barragem do Alqueva levou a uma mudança drástica da paisagem alentejana. O que antes eram searas agora são olivais intensivos e com isso houve uma grande perda de habitat”, explica Rita Alcazar. As mudanças na fauna foram evidentes, mas também as novas técnicas agrícolas vieram pôr em causa a sobrevivências das espécies: as máquinas utilizadas para cortar as forragens e produzir feno são uma das principais ameaças às aves que instalam os ninhos nos solos, já que, quando se usam estas alfaias agrícolas de grande dimensão, é praticamente impossível detetar a presença do ninho antes de ele ter sido destruído.

Nas primeiras semanas depois do nascimento, as crias de várias aves da estepe alentejana, como a abetarda, não voam — seguem a mãe para todo o lado a caminhar. Nesses casos, as vedações usadas para delimitar os campos podem representar a derradeira separação entre as aves e o alimento e condenar muitas crias à morte.

"A zona da LPN é uma reserva, não chega. É preciso trabalhar à escala, com a comunidade, com a criação de zonas de zonas protegidas"
Rita Alcazar, Centro de Educação Ambiental do Vale Gonçalinho

Com estas espécies habituadas àquele habitat, a Liga para a Proteção da Natureza fez uma coisa simples nos terrenos que comprou na zona de Castro Verde: construiu uma reserva em que são mantidos os hábitos da agricultura tradicional. “Não se fazem fenos, fazemos as colheitas do cereal mais tarde, deixamos locais para as aves nidificarem, temos as vedações sinalizadas e instalámos pontos de água”, explica Rita Alcazar. “Mas a zona da LPN é uma reserva, não chega. É preciso trabalhar à escala, com a comunidade, com a criação de zonas de zonas protegidas.”

Este trabalho com a comunidade tem-se traduzido numa série de projetos de melhoria das infraestruturas da região, assinala a bióloga. O centro tem, por exemplo, um protocolo com a EDP para identificar as zonas mais mortíferas das linhas elétricas, de forma a serem sinalizadas para que as aves as evitem. Outro projeto passa pelo trabalho com os agricultores locais no sentido de tornarem as vedações amigas das aves, através da criação de pequenas passagens na parte inferior das redes.

Ao mesmo tempo, o centro ambiental desenvolve projetos com as escolas locais e já ganhou a confiança das comunidades. “As pessoas conhecem-nos há muito tempo, vamos às escolas, muitos de nós vivem aqui em Castro Verde. Mostramos às pessoas a biodiversidade que existe aqui e que no resto do país não encontram”, conta Rita Alcazar, sustentando que grande parte do trabalho do centro também passa pela sensibilização. Devido à pandemia da Covid-19, o centro ambiental esteve fechado nos últimos meses, sem possibilidade de receber visitantes e turistas que se dedicam à observação de aves. Está a reabrir agora, gradualmente, mas a um ritmo menor (só de manhã) e a recuperar o tempo perdido na construção de novas estruturas de apoio às aves, para que estejam prontas quando começarem a regressar, em janeiro do próximo ano.

Nota: O Observador viajou até à Grécia, para visitar o centro Arcturos, integrado numa delegação composta por vários meios de comunicação social europeus, a convite e a expensas da Comissão Europeia. A União Europeia financia, através do programa LIFE, vários projetos de conservação do centro Arcturos.

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