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Liverpool v Sevilla - UEFA Europa League Final
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▲O extremo conquistou três edições consecutivas da Liga Europa pelo Sevilha, entre 2014 e 2016

Getty Images

▲O extremo conquistou três edições consecutivas da Liga Europa pelo Sevilha, entre 2014 e 2016

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Utrera, a cidade que não esquece nem quer esquecer José Antonio Reyes, o seu filho mais querido

A 35 quilómetros de Sevilha, a cidade de Utrera não esquece José Antonio Reyes, a "pessoa mais conhecida" da terra que partiu cedo demais. Reportagem no local onde nasceu o antigo jogador do Benfica.

Enviada especial do Observador em Sevilha, Espanha

Em Utrera, a cerca de 35 quilómetros do centro de Sevilha, o dia 5 de janeiro é importante. A 5 de janeiro, na véspera do Dia dos Reis, Utrera assiste com atenção à Procesión de los Reyes Magos, a Procissão dos Reis Magos. Nesse dia, a população da cidade recorda os três reis que, orientados pela Estrela de Belém e segundo a Bíblia, visitaram Jesus Cristo pouco depois de este nascer e ofereceram ouro, incenso e mirra. Os Reyes, em Utrera, têm direito a um dos dias mais celebrados do ano. O que não deixa de indicar que o destino sempre quis que o filho mais querido de Utrera levasse os próprios Reyes no apelido.

José Antonio Reyes nasceu em setembro de 1983 na cidade com cerca de 50 mil habitantes que fica na província de Sevilha. Criado numa família de etnia cigana, começou a jogar nas camadas jovens do Sevilha com 10 anos e representou o clube ao longo de todos os escalões de formação. Assinou o primeiro contrato profissional em 1999 e estreou-se desde logo pela equipa profissional, contra o Real Zaragoza, com apenas 16 anos e tornando-se assim o mais novo de sempre a jogar pelo Sevilha no campeonato espanhol. Nessa temporada, porém, a equipa da Andaluzia desceu ao segundo escalão: no ano seguinte, depois de ganharem a Segunda Liga, os sevilhanos voltaram a ser promovidos e Reyes iniciou um percurso de afirmação no ataque que lhe trouxe 21 golos ao longo de quatro épocas.

Seville v Tenerife X

▲ Em 2001, ainda no início da carreira, ao serviço do Sevilha. Reyes estreou-se com apenas 16 anos, o mais novo de sempre a jogar pelo clube

Getty Images

O bom rendimento levou-o para o Arsenal, por quem assinou em 2003 a troco de cerca de 12 milhões de euros. Em Londres, fez parte da equipa dos Invencíveis que conquistou a Premier League em 2003/04 sem sofrer qualquer derrota, um feito que continua a ser único no futebol inglês. Ganhou uma Taça de Inglaterra, uma Community Shield e chegou à final da Liga dos Campeões de 2006, que perdeu para o Barcelona, e era uma opção regular de Arsène Wenger dentro de um conjunto que tinha Thierry Henry, Dennis Bergkamp, Robert Pirès e Freddie Ljungberg, entre muitos outros. Mas Reyes não estava totalmente feliz. Levou os pais, Mari e Francisco, para Inglaterra, assim como o irmão Jesús, mas continuava com saudades de casa.

Em fevereiro de 2005, a Cadena COPE fez uma espécie de partida telefónica ao jogador, onde um intermediário se fez passar por Emilio Butragueño, o então diretor desportivo do Real Madrid, para garantir a Reyes que os merengues estavam interessados na sua contratação. O espanhol, sem saber que estava a ser gravado e que não estava a falar com Butragueño, acabou por desabafar que a vida em Londres não era como tinha imaginado e que estava totalmente recetivo à ideia de regressar ao seu país.

Ainda assim, em julho desse ano, Reyes assinou um novo contrato com o Arsenal. Mas o capítulo em Inglaterra só duraria mais um pouco: em agosto de 2006, o espanhol expressou vontade de não disputar um jogo de qualificação para a Liga dos Campeões, contra o Dínamo Zagreb, de forma a não representar o clube na competição e ainda poder transferir-se para o Real Madrid até ao fecho da janela de mercado e jogar pelos merengues na liga milionária. Wenger deixou-o mesmo de fora da equipa e, nas semanas seguintes, Reyes acabou por seguir mesmo para Madrid a título de empréstimo e por troca com Júlio Baptista. No Santiago Bernabéu, fez sete golos em 37 jogos e motivou rumores de que iria assinar de forma definitiva pelo Real Madrid. O destino seguinte, porém, foi o outro grande clube da capital espanhola.

Em fevereiro de 2005, a Cadena COPE fez uma espécie de partida telefónica ao jogador, onde um intermediário se fez passar por Emilio Butragueño, o então diretor desportivo do Real Madrid, para garantir a Reyes que os merengues estavam interessados na sua contratação. O espanhol, sem saber que estava a ser gravado e que não estava a falar com Butragueño, acabou por desabafar que a vida em Londres não era como tinha imaginado e que estava totalmente recetivo à ideia de regressar ao seu país.

José Antonio Reyes assinou pelo Atl. Madrid em junho de 2007, novamente por cerca de 12 milhões de euros, mas teve dificuldades para se afirmar no primeiro ano, principalmente porque competia diretamente com Simão Sabrosa e Maxi Rodríguez. Nesse seguimento, foi emprestado ao Benfica na época seguinte — com os encarnados a adquirirem também 25% dos direitos do jogador, por cerca de dois milhões e meio, e a ficarem com opção de compra. O primeiro golo de Reyes pelo Benfica foi num dérbi contra o Sporting, na Luz e no arranque do Campeonato, numa vitória por 2-0 em que Sidnei também marcou. Em conjunto com Pablo Aimar, Di María, Nuno Gomes e Cardozo (e também Rúben Amorim, treinador do Sporting), Reyes fez parte de uma equipa encarnada que tinha um enorme talento mas só conseguiu conquistar a Taça da Liga, ficando em terceiro na Primeira Liga e caindo na quinta eliminatória da Taça de Portugal. No ano seguinte, já sem Reyes mas com Saviola, o Benfica acabaria por ser campeão nacional.

“A tua alegria era contagiante”, “sorriso infinito” e “grande coração”. As reações à morte de Reyes

As exibições do jogador espanhol em Portugal — marcou seis golos em 35 jogos — valeram-lhe um regresso ao Atl. Madrid. Nos colchoneros, reencontrou-se com Quique Flores, precisamente o treinador que tinha orientado o Benfica na época anterior, e tornou-se um dos elementos mais importantes da equipa nos três anos seguintes. Ganhou duas Ligas Europa e uma Supertaça Europeia e fez um total de 14 golos em 154 partidas, decidindo regressar ao Sevilha em 2012. De volta ao clube de infância, conquistou a Liga Europa em três ocasiões consecutivas, durante a era de Unai Emery, e voltou a sair ao fim de cinco temporadas e já com 32 anos. Representou ainda o Espanyol, o Córdoba e os chineses do Xinjiang Tianshan Leopard antes de assinar pelo Extremadura, o último clube de uma carreira que ficou por acabar, onde reencontrou Diego Capel, que tinha sido seu colega no Sevilha e que passou pelo Sporting. Antes de poder pendurar as botas, porém, a vida pregou uma partida final ao destino de José Antonio Reyes.

SL Benfica's spanish Jose Reyes (C) head

▲ José Antonio Reyes esteve no Benfica apenas durante uma temporada, por empréstimo do Atl. Madrid, e conquistou uma Taça da Liga

AFP via Getty Images

O jogador espanhol morreu a 1 de junho de 2019, há pouco mais de dois anos e com apenas 35 cumpridos, na sequência de um aparatoso acidente de carro na autoestrada entre Utrera e Sevilha que também vitimou um dos seus primos e deixou outro gravemente ferido. Embora as notícias iniciais dessem conta de que Reyes seguia a 220 km/h, o relatório policial acabou por indicar que o atleta ia a cerca de 130 km/h e que terá sido um pneu rebentado a origem do despiste fatal. Nesse dia, a final da Liga dos Campeões entre o Liverpool e o Tottenham aconteceu curiosamente em Madrid, no Wanda Metropolitano, onde foi respeitado um minuto de silêncio em memória de Reyes. Em Utrera, a cidade que não esquece o filho mais querido, o funeral aconteceu dois dias depois.

Morreu o antigo jogador do Benfica José Antonio Reyes. Tinha 35 anos

Passear por Utrera é passear por um sítio que está vivo. Durante a manhã de um sábado, nenhuma das dezenas de esplanadas está vazia. Aliás, a larga maioria das dezenas de esplanadas está totalmente lotada. Com uma população tendencialmente envelhecida, a cidade organiza-se entre os pequenos almoços que antecipam as idas às compras nos supermercados locais — e aqui, os carrinhos para transportar as compras, de padrões distintos e coloridos, que cada um leva tornam-se uma característica interessante — e a azáfama dos carros que cruzam as principais avenidas. Nos becos de Utrera, onde os prédios não têm mais de dois andares e é possível andar no meio da estrada porque quase não há trânsito, sentimos que estamos num local tipicamente espanhol mas onde rapidamente poderíamos ser protagonistas de um romance de Gabriel García Marquéz: os pátios privados e adornados com azulejos coloridos, onde estão sempre muitas flores e motas estacionadas, dão um toque especial às ruas de paredes amarelas, laranjas e brancas.

Embora as notícias iniciais dessem conta de que Reyes seguia a 220 km/h, o relatório policial acabou por indicar que o atleta ia a cerca de 130 km/h e que terá sido um pneu rebentado a origem do despiste fatal. Nesse dia, a final da Liga dos Campeões entre o Liverpool e o Tottenham aconteceu curiosamente em Madrid, no Wanda Metropolitano, onde foi respeitado um minuto de silêncio em memória de Reyes.

Encontramos Francisco, que se assume como sevillista fuerte, perto da Igreja de Santa Maria de Mesa, onde há pouco mais de dois anos acorreram milhares de pessoas para assistir às cerimónias fúnebres de Jose Antonio Reyes. Jovem, de brinco na orelha e barba bem cuidada mas escondida pela máscara, recorda o jogador como “a pessoa mais conhecida” da terra. “Quando morreu, foi um choque. Toda a gente o conhecia, mesmo quem não percebe muito de futebol. Toda a gente sabia que o Reyes era de Utrera e toda a gente de Utrera sabia que o Reyes era daqui. Ainda por cima ele já tinha voltado ao Sevilha, as pessoas já tinham feito as pazes com ele”, conta-nos, levando-nos a perguntar que pazes é que tinham ficado por fazer depois da primeira saída do jogador. Explica-nos que nem todos os adeptos gostaram da forma como Reyes saiu para o Arsenal, em 2003, mas que tudo ficou sanado quando regressou ao clube em 2011 e se tornou capitão.

“Se tivesse sido por drogas ou essas coisas… É certo que ia em excesso de velocidade, segundo dizem, mas foi um azar. E isso só torna tudo pior”, diz-nos Francisco, que apesar de tudo não esquece que nem sempre teve a melhor impressão de Reyes. “Via-o muitas vezes aqui nas discotecas. Era sempre quem bebia mais. E eu estranhava sempre, porque era jogador e tinha de se cuidar. É certo que era um homem como eu, fazia o que queria, mas estranhava sempre… No final, se calhar até devia aproveitado mais”, acrescenta. José Antonio Reyes esteve em câmara ardente no Ramón Sánchez Pizjuán, o estádio do Sevilha, por onde passaram cerca de 11 mil adeptos. Em seguida, o velório decorreu no edifício da Câmara Municipal de Utrera, com o funeral a ocorrer já então na Igreja de Santa Maria de Mesa e uma bandeira do Sevilha e outra de Espanha a serem colocadas em cima do caixão que transportou o jogador.

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▲ O funeral do jogador espanhol levou milhares de pessoas à Igreja de Santa Maria de Mesa, em Utrera

AFP via Getty Images

Em novembro do ano passado, a autarquia de Utrera confirmou que vai construir uma estátua de homenagem a Reyes no Paseo de Consolación, uma via pedonal que fica junto a um parque e é paralela à movimentada Avenida de Portugal. “Foi o atleta mais laureado da nossa história e aquele que levou mais longe o nome da nossa cidade”, explicou Daniel Liria, vereador para a área do Desporto, que revelou ainda que esteve em cima da mesa a possibilidade de dar o nome de Reyes ao estádio municipal, o San Juan Bosco. Logo depois da morte do jogador, uma petição para que o estádio passasse a ter o nome de Reyes recolheu mais de duas centenas de assinaturas — mas a autarquia da cidade decidiu que esse não era o caminho, ressalvando que uma das instalações desportivas de Utrera será renomeada em homenagem ao antigo extremo do Sevilha, do Arsenal, do Real Madrid, do Atl. Madrid, do Benfica, do Espanyol, do Córdoba, do Xinjiang Tianshan Leopard e do Extremadura.

Francisco, embora esteja de acordo com a estátua, relembra-nos que todos os querem deixar uma flor ou algo mais em homenagem a José Antonio Reyes já o fazem, no local em que o jogador acabou por morrer. À saída de Utrera e no regresso a Sevilha, é impossível não procurar o memorial. E lá está ele, na berma direita da estrada, com vários ramos de flores e a certeza de que esta cidade, por mais que anos que passem, não vai esquecer o rapaz que levava os Reyes no apelido.

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